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A Bela e a Fera
Parabola V3N4. Narrado por Dooling
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Era uma vez um rico mercador que vivia com três filhas, sendo a mais jovem tão bela que todos a chamavam de Bela; ela amava o pai com tal ternura que não desejava casar-se, mas ficar em casa com ele para sempre.
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O mercador perdeu vários navios numa tempestade e foi obrigado a mudar a família para uma casa de campo; as duas filhas mais velhas, vaidosas e preguiçosas, lamentavam o exílio, enquanto Bela procurava ser alegre e conforto para o pai, até que a notícia da chegada de um navio sobrevivente o levou a partir para resgatar a carga — as irmãs pediram vestidos e joias, e Bela pediu apenas uma rosa.
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O negócio do mercador não foi tão bem quanto esperava; no caminho de volta, à noite, sem ter encontrado nenhuma flor para Bela, ele deparou com um grande portão que dava para um jardim em plena floração, colheu uma rosa perfeita e nesse instante ouviu um rugido aterrador e viu uma criatura horrível avançar sobre ele.
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“Ladrão! Você pagará pela minha rosa com sua vida.”
O mercador implorou misericórdia, explicando o amor pela filha, e a Fera propôs poupar-lhe a vida se ele trouxesse Bela em três meses; o mercador concordou pensando ganhar tempo para rever as filhas antes de morrer, e a Fera o hospedou por uma noite e no dia seguinte o mandou embora com alforjes cheios de moedas de ouro.-
“Você diz que ela é bela e boa. Se assim é, traga-a aqui em três meses no seu lugar, e pouparei sua vida.”
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“Sou conhecido como a Fera. Entre em minha casa e encontrará comida e hospedagem para a noite. De manhã poderá ir. Mas se não voltar, eu o encontrarei e o matarei.”
O mercador entregou os presentes às três filhas dizendo a Bela que o dela foi o mais custoso, pois por ele havia dado a vida, e contou tudo; as duas mais velhas choraram e protestaram, mas Bela, embora com muito medo, não tinha intenção de sacrificar o pai a um destino tão terrível e não pôde ser dissuadida de acompanhá-lo quando os três meses se completaram.-
“O seu foi o mais custoso, minha filha; por ele dei minha vida.”
A casa estava preparada com grande riqueza e jantar posto para dois, sem sinal de servo ou dono, e quando a Fera apareceu assustou Bela com sua feiura, mas a cumprimentou polidamente e perguntou se viera por livre vontade; ela mal conseguiu dizer que sim, e a Fera disse ao pai que devia partir de manhã, deixando-os enfrentar a separação com o quanto de coragem pudessem encontrar.Na manhã seguinte à partida do pai, Bela explorou com bravura e alguma curiosidade a mansão e os jardins, tudo extraordinariamente belo e parecendo arranjado especialmente para agradá-la; a Fera só aparecia na hora do jantar, grave e cortês apesar da feiura, e Bela, para sua própria surpresa, sentiu-se bem menos com medo e até satisfeita em ter alguém com quem conversar.Com o tempo o medo de Bela pela Fera transformou-se em afeição: ela passou a aguardar as conversas noturnas, surpreendida a princípio com a sabedoria e bondade das respostas, depois contando com elas; a Fera parecia tomar prazer em sua companhia, mas seus olhos, grandes e escuros como os de um cão, estavam sempre tristes, e numa noite em que ele parecia mais melancólico do que o costume, a Fera respondeu à pergunta de Bela com outra pergunta.-
“Bela, você quer se casar comigo?”
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“Oh, não! Não podia — por favor não me peça!”
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A Fera levantou-se imediatamente e disse com tristeza: “Não tenha medo. Boa noite, Bela.” — e daí em diante perguntava a intervalos “Bela, vai se casar comigo?”, e a resposta era sempre não.
A saudade de casa e o anseio por ver o pai cresceram tanto que Bela ficou pálida e magra, e a Fera, amando-a demais para retê-la contra sua vontade, deu-lhe um anel mágico e a advertiu de que se não voltasse em três meses não a encontraria mais.-
“Bela, eu a amo demais para mantê-la aqui contra sua vontade. Você pode ir para casa se quiser. Mas saiba que se não voltar eu morrerei. Vista este anel, e quando estiver pronta para voltar, gire-o três vezes ao redor do dedo dizendo: 'Quero voltar para minha casa e ver a Fera novamente.' Mas se demorar mais de três meses, não me encontrará. Boa noite, Bela.”
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“Boa noite, querida Fera! Voltarei, sim, voltarei com certeza,” exclamou Bela alegremente.
De volta à casa do pai, Bela encontrou baús cheios de joias e roupas belas e presentes para o pai e as irmãs; o pai ficou radiante, as irmãs simularam alegria enquanto tinham inveja das riquezas, mas quando exprimiram pena de Bela por estar sob o poder de um monstro horrível, ela reagiu com surpresa e indignação, pois era exatamente assim que ela própria muitas vezes se compadeceraera de si mesma, mas ouvir das irmãs a fez furiosa.-
“Mas ele não é um monstro! É uma criatura muito bondosa e inteligente, e não é tão feio assim. Tem olhos bonitos.”
As irmãs, não querendo irritá-la, pararam de falar da Fera, e Bela, estranhamente, achou mais fácil deixar de pensar nele do que suportar a pontada que sentia ao lembrá-lo — uma pontada estranhamente desconfortável que a fazia sentir que algo estava faltando ou que havia algo por fazer que ela ainda não fizera e temia fazer, gerando um sentimento de culpa que ela evitara a vida toda; assim se entreteve com a família e o tempo passou.Num sonho, ao adormecer pensando com certa ternura num jovem que a pretendia, Bela se viu de volta no jardim da Fera e o viu estendido na grama, morrendo ou já morto; acordou sobressaltada com o coração disparado e a pontada tão aguda que não havia como afastá-la, e girando o anel três vezes ao redor do dedo perdeu a consciência e acordou no quarto da casa da Fera, com o sol da manhã entrando pela janela.-
“Quero estar em casa e ver minha querida Fera novamente.”
Bela correu pela casa chamando pela Fera sem obter resposta, esperou o dia todo junto à refeição intocada, e ao cair da noite a pontada no coração, que estivera lá o dia inteiro, tornou-se insuportável; ela correu para o jardim e na luz do luar encontrou-o de fato estendido na grama, atirou-se sobre ele soluçando e em pânico, e ao tocá-lo com ternura ele abriu os olhos — e no luar Bela viu seu próprio reflexo neles: o rosto inchado de lágrimas e contraído numa angústia de ódio de si mesma, e ela se viu feia e envergonhada.-
“Oh! Querida, boa e bela Fera! Como pude alguma vez ter pensado que você era feia, ou que eu era bela?”
A Fera voltou à vida, eles se abraçaram, e a feia Bela e a bela Fera se casaram e viveram felizes para sempre.autores-obras/dooling/a-bela-e-a-fera.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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