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Convidando Céu e Terra

Parabola V24N2. Prayer and Meditation. Diálogo entre Marvin Barrett e William Segal.

  • A oração é expressão de uma necessidade humana e abrange um espectro de níveis que vai da súplica material à comunhão com o ser supremo.
    • Nos níveis mais elementares a oração se dirige às necessidades do corpo e da mente; nos mais elevados, deixa de pedir qualquer coisa tangível.
    • A mais alta oração de todas as tradições converge para um estado de silêncio e imobilidade interior, para além de qualquer objeto ou petição.
    • O Hannya Shingyo, o Sutra do Coração budista, é citado por Segal como formulação desse ponto de chegada: “Nenhuma oração, nenhum você, nenhum eu, nenhum isto, nenhum aquilo, nenhuma coisa. Nada.”
  • Meditação perfeita e oração perfeita são, para Segal, o mesmo estado: mente e corpo aquietados, abertos a uma força que pode ser chamada de Deus.
    • Esse estado pode ser descrito como equilíbrio absoluto de todas as partes de si mesmo, sem discriminação nem julgamento de favor ou contra.
    • Segal resume o conhecimento que emerge desse estado equilibrado na fórmula “Você sou eu e eu sou Você”, aceitação da “quididade” das coisas sem deixar de perceber as diferenças entre os seres.
    • Na tradição cristã esse estado seria chamado de caridade ou amor; para Segal, amar é estar em relação com a consciência, e é preciso amar o próprio esseral antes de poder amar um gato ou Deus.
  • As condições ótimas para a oração envolvem postura relaxada e ereta, respiração consciente, mente livre de associações e sentimentos quietos.
    • A regularidade é essencial: um conto islâmico citado por Segal narra que Moisés negociou com Deus até reduzir de cem para cinco as orações diárias dos muçulmanos.
    • O ideal seria um estado de oração ininterrupto, sem distinção entre noite e dia, vigília e sono.
    • Quem atinge um estado mais elevado não pensa em praticar coisa alguma: pela sua simples presença exerce efeito benéfico no mundo, sem sequer pensar em ser útil, embora ninguém seja de mais serventia à humanidade.
  • O sono profundo, sem sonhos nem desejos, é equiparado por Segal à oração, com apoio no ensinamento de Bhagavan Maharishi.
    • Maharishi cita uma criança que, perguntada se havia rezado, respondeu que não precisava rezar porque ia dormir, e que o sono era a sua oração; o Maharishi concordou com ela.
    • No sono sem sonhos a mente está tranquila e sem associações, próxima do estado prayerful; ao acordar, o pensamento e o desejo irrompem imediatamente.
    • Os últimos momentos antes de dormir devem conduzir ao esvaziamento de pensamentos e sentimentos; os primeiros ao despertar devem ser de imobilidade e consciência do próprio estado.
  • Rituais, regras morais, artes, ofícios e movimentos corporais são auxiliares válidos da oração porque ajudam a concentrar as energias dispersas do organismo.
    • Os preceitos de todas as tradições visam impedir que manifestações de ganância, luxúria e crueldade separem o ser humano da sua realidade mais profunda.
    • Gurdjieff é citado por Segal: entrar numa igreja abrindo-se e estando consciente permite receber uma energia depositada ali por gerações de orantes; o ambiente de qualquer lugar de culto sério carrega as vibrações geradas por quem orou antes.
    • O voto do Bodhisattva de Shantideva é evocado por Segal como exemplo de como a compaixão pelos outros amplia o estado de oração: “Que eu seja o médico e o remédio, e que eu seja o enfermeiro de todos os seres enfermos do mundo até que todos estejam curados.”
    • Qualquer atividade realizada com atenção e presença totais, incluindo as artes e os ofícios, torna-se forma de oração capaz de elevar quem a pratica.
  • O conhecimento mais alto não vem do mestre mas de dentro do próprio praticante, embora o mestre seja indispensável como exemplo e transmissor de princípios de atenção e presença.
    • O objetivo verdadeiro da oração é que as pessoas conheçam sua natureza real e, estabelecendo-se nela, alcancem a liberação.
    • O guru ou professor pode ensinar postura correta, atenção, mindfulness e atitude, mas o mais alto conhecimento vem de si mesmo e está em si mesmo.
    • O professor é transitório: sua função é apontar para um estado de atenção e vigilância que o praticante deve eventualmente sustentar por conta própria.
  • A oração mais elevada dispensa qualquer objeto, inclusive a luz, e coincide com um estado de puro esseral sem pensamento nem relação com coisa alguma.
    • A oração tibetana no momento da morte recomenda seguir a luz com atenção plena; Segal reconhece que isso é muito próximo da oração última, mas ressalva que nomear a luz já é objetificar.
    • William James é citado por Barrett: “Sem oração não há religião”; Segal responde que oração e religião mais elevada são a mesma coisa, um encontro do humano com o divino, e que o resto é apenas nome de pertencimento confessional.
    • A afirmação de Juliana de Norwich, “tudo está bem”, é mencionada por Segal como expressão do esseral de bem-estar que a oração pode trazer.
    • O Roshi zen citado por Segal afirma: “Dormindo ao lado da cascata, parei a guerra”; o sono como oração, sem fazer nem desejar nada, diminui o mal no mundo.
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