====== Ideia de Evolução ====== //[[.:start|CONGE, Michel.]] Inner Octaves. Toronto: Dolmen Meadow, 2007.// * A convicção exposta é a de que num dado momento torna-se impossível para qualquer ser humano ultrapassar certos limiares no esforço interior sem permitir que um conhecimento particular, tanto psicológico quanto cósmico, penetre em seu ser, conhecimento esse que não foi transmitido como um todo organizado mas de forma fragmentária, sendo uma das grandes tarefas que podem nos caber a de reconstituir o corpo de ideias no qual esse ensinamento se baseia. * Duas afirmações de Gurdjieff são destacadas: "Para a compreensão exata é necessária uma linguagem exata" e "A propriedade fundamental da nova linguagem é que todas as ideias nela estão concentradas em torno de uma ideia, ou seja, são tomadas em sua relação mútua do ponto de vista de uma ideia. Essa ideia é a ideia de evolução." * A evolução do ser humano é a evolução de sua consciência, de sua vontade e de seu poder de fazer. * A ideia de evolução não deve ser limitada à noção excessivamente estreita da evolução do ser humano, pois a evolução do ser humano é apenas um aspecto da questão, e sem essa qualidade universal a questão pessoal perde todo significado e a esperança seria impossível. * Só existe um Ser, o Inimaginável e o Incognoscível, e é dele que se deve partir e a ele que se deve retornar, pois quando ele é esquecido toda ideia e toda tentativa murcha e degenera; há apenas um Ser, mas três mundos, como se encontra em muitas tradições: Deus, o Mundo, o Ser Humano. * Dos sete cosmos da escala, três se destacam: o Protocosmos, o primeiro cosmo, é o Absoluto; o Deuterocosmos, apesar de ocupar a quarta posição, é o Sol; e o Tritocosmos, apesar de ocupar a sexta posição, é o Ser Humano, ou Adão, a alma única, de quem se diz no Velho Testamento "E Deus criou o ser humano à sua imagem." * Sem o reconhecimento dessa hierarquia cósmica a ideia de evolução não teria o poder de despertar as partes mais íntimas do ser, e o esforço de visualizar esses mundos em sua relação elusiva de Três em Um permite ao menos vislumbrar o Ser e a Criação nesse "movimento imóvel", essa vibração eterna que nosso olhar não pode suportar e à qual só podemos nos aproximar por meio de um movimento contínuo e duplo de nascimento e renascimento. * Somos por ora capazes de abordar a verdade apenas por meio de momentos de consciência parcial que, sendo parciais, nos fornecem uma noção de realidade que gera ilusão, e algo em nós recusa-se a separar involução e evolução, pois não há nem pode haver dois movimentos opostos que devam ser artificialmente reconciliados: esses movimentos sempre estiveram reconciliados, mas a mente divide esse processo único e nos mergulha em contradições intermináveis. * A ideia de involução obriga a considerar um aspecto notável da Lei do Sete, a ideia de intervalos: sem intervalos, a manifestação divina inicial seria seguida de um retorno imediato de suas energias e não haveria Criação, nem esforço voluntário, nem evolução, pois esse retorno mecânico de energias nunca seria consciente e volitivo, nunca teria a natureza de um dom que, como se verá, é um elemento básico da evolução tal como se deve compreendê-la. * Para se opor ao inexorável aumento da entropia, a evolução é necessariamente querida de Cima, e as características específicas da Lei do Sete são um meio eficaz de impedir uma deterioração progressiva e total da energia, sendo a evolução uma necessidade e um dever do Ser, cujo eco podemos perceber em nós mesmos. * Um dos pontos críticos da pulsação querida pelo Protocosmos encontra-se entre os Planetas e a Terra, onde a corrente de influências é interrompida, como se nesse vasto organismo universal dotado de Consciência e Vontade, animado por uma Mente e irrigado por um Coração, a circulação estivesse bloqueada num ponto preciso resultando numa isquemia, ameaçando de gangrena os órgãos do sistema Terra-Lua a menos que uma via colateral seja aberta. * O Sol, agindo como representante do Absoluto, assume a responsabilidade de dar nascimento a um fenômeno capaz de preencher o intervalo que impede a Terra e a Lua de crescerem, e esse ponto deve ser mantido em mente porque ajuda a compreender, por analogia, o chamado que ressoa dentro de nós e que, ao nos convidar por nossa vez a um ato consciente, nos oferece um lugar que não é meramente mecânico e passivo, mas também consciente e volitivo. * A oitava lateral mostra claramente que o lugar do ser humano não está no Raio de Criação e que, embora seus pés estejam firmemente plantados na Terra, as funções superiores do ser pertencem a uma linhagem que não é do eixo Planetas-Terra, revelando que o ser humano apareceu apenas secundariamente no vasto processo da Criação e que o mundo não foi criado para o ser humano, mas o ser humano para o Mundo. * O ser humano corresponde a uma necessidade cósmica e nasceu para servir, e o Talmude diz o mesmo: "A Torah não foi criada para o ser humano, mas o ser humano para a Torah", encontrando-se eco disso também na afirmação da Obra que possivelmente nos perturbou: "A Obra não foi feita para nós." * Na direção ascendente dessa oitava, apenas uma parte da vida orgânica pode evoluir: a humanidade; e apenas uma parte da humanidade pode evoluir: certos seres humanos; e essa oitava, Evolução-Ser Humano, é a do ser humano completo, não a da humanidade, cuja função última é completamente diferente. * O ser humano foi "semeado de Cima" para cumprir uma exigência inerente ao Raio de Criação, e o esforço de criação carrega em si a necessidade e a exigência de um retorno; o ser humano tem dois papéis a cumprir, um mecânico e um consciente: transmitir influências mecanicamente como um "elo" nessa passagem de energias, e fazer um esforço consciente para que uma corrente ascendente apareça, pois sem esse esforço voluntário não haveria troca. * Para não ser uma mera sequência caótica de notas, o ser humano, tendo sido criado segundo o princípio da oitava, deve ser "posto em ordem" para que as conexões e relações entre essas notas sejam respeitadas, mas no ser humano habitual as relações entre as notas aparentemente não são respeitadas, e embora todos os níveis permaneçam materializados nele, a ordem no sentido cósmico de uma hierarquia de mundos não está estabelecida. * Apesar dos desvios e da perversidade no sentido etimológico de "movimento em todas as direções", resta uma propriedade invisível que impede a interrupção e permite a passagem de influências descendentes, sem a qual não se poderia sequer cumprir o papel mecânico primário para o qual se foi concebido, e descobrir essa propriedade seria encontrar uma das chaves da vida. * Somos livres na medida que as nossa percepção simultânea das duas correntes permanece equilibrada, e a cada ponto de intersecção há liberdade, não uma libertação definitiva e de uma vez por todas, mas uma escala de libertações sucessivas conduzindo ao Inimaginável onde as leis primordiais se reúnem num Todo incomparável. * Se o ser humano estivesse sujeito apenas à corrente descendente, estaria perdido para sempre; se estivesse sujeito apenas ao impulso ascendente, não haveria esforço consciente e portanto não haveria evolução: somos contradição, mas o que era apenas uma observação depressiva torna-se uma fonte de esperança, pois essas correntes nunca param. * Existe uma comunicação secreta com os seres humanos que evoluíram no centro do próprio ser, e como um comatoso recebendo uma transfusão, recebem-se algumas das qualidades do doador; e à medida que um vislumbre de luz cresce em nós, filtra-se para aquela massa indiferenciada da humanidade de onde os seres humanos surgirão progressivamente para assegurar que os níveis sucessivos de evolução sejam sempre representados e a transmissão das correntes de vida nunca seja interrompida. * Não se pode falar de evolução antes que um primeiro sopro de consciência apareça, seguido de uma sede de compreender e de um esforço de se pôr a caminho em direção a um objetivo que permanece misterioso por muito tempo. * Sem esse esforço não se pode aproximar da ideia de evolução, e contudo o próprio esforço pode impedir de evoluir: é preciso gradualmente livrar-se de todas as formulações e imagens sem perder nada do que começa a aparecer, atingindo uma qualidade de esforço tal que reste apenas a estrutura invisível do que foi revelado. * Somente tornando-se "atenção-consciência-vontade", percebendo a substância de todos os mundos dos quais se é constituído e as leis que lhes dão ordem, e descobrindo o Imóvel no movimento e o Uno no múltiplo, será possível falar de evolução, mas estando ainda muito longe de tudo isso, apenas foi possível preparar o terreno.