====== Fonte da Atenção ====== //Christopher Fremantle. Attention.// * A fonte da atenção, meio de contato e comunicação através dos sentidos, está estreitamente ligada ao mistério da vida, atuando como um ímã que atrai impressões externas e internas, conectando e ao mesmo tempo protegendo o ser humano do mundo que o rodeia. * Todo ser vivente responde automaticamente aos estímulos externos, assim como uma célula responde ao seu meio ambiente, uma planta busca a luz ou um animal se alerta ante o perigo. * Surge a questão de se pode ser traçada uma linha entre as reações químicas de uma célula e as ações conscientes do ser humano, e se em algum ponto o reino da química cede ao reino da consciência. * A atenção do ser humano parece diferenciar-se da das formas inferiores de vida por poder ser automática ou consciente, o que coloca a pergunta de se é essa capacidade de atenção consciente o que distingue o ser humano do reino animal. * A qualidade da atenção reflete-se na qualidade do conhecimento: quando a atenção é automática, as impressões recebidas são fragmentárias e vagas; quando é consciente, são nítidas e vívidas. * Se uma pessoa sai de casa de manhã pensando no que acontecerá no dia, dificilmente perceberá as casas e as árvores familiares ao redor; mas se há muito sol e sua atenção é fortemente chamada ao momento presente, pode ser invadida por um súbito sentimento de admiração, com toda a cena aparecendo nitidamente delineada e gravando-se profundamente na memória. * Embora desejasse deter-se nesse estado de vívida atenção, as pressões da vida a invadem, parecendo que seu destino é ser apartada disso e passar o dia sem desfrutar novamente desse estado de presença consciente. * O exemplo de despertar num quarto desconhecido ilustra como as associações tomam progressivamente o lugar da percepção pura: há um momento inicial em que a atenção é capturada pelas percepções sem que as associações tenham começado a operar, um mundo estranho; ao momento seguinte as associações da memória começam a trabalhar, reconhecendo o quarto e relembrando os eventos anteriores; depois o alarme do relógio impõe um novo choque e inicia um novo trem de associações; ao vestir-se quase automaticamente, a atenção se dispersa cada vez mais até que o telefone traz de volta o entorno; e assim, antes mesmo de começar o dia, o momento presente desaparece repetidamente da vista, carregado pelo fluxo de associações. * A atenção, essa poderosa ferramenta de comunicação, permanece quase totalmente à disposição das necessidades imperativas da vida ou de qualquer coisa que imponha uma impressão nos sentidos e na mente, e não obedece ao ser consciente, mas é constantemente escravizada pelo mundo exterior. * Essa paradoxo levanta a questão de se a atenção poderia ser o meio para viver em comunicação consciente consigo mesmo e com o mundo que muda de instante em instante, ou se o ser humano está condenado a viver como prisioneiro de seu condicionamento e de suas associações automáticas. * A observação de pássaros e outros animais em lugares inabitados revela que eles também possuem atenção, um estado de alerta ante possíveis perigos, com ouvido, olhos e sentidos constantemente em guarda, congelando ante um movimento ou som e reagindo instantaneamente se é algo perigoso ou retomando o que faziam se é algo familiar. * Isso levanta a questão de se esse mecanismo de segurança e as associações a ele conectadas estão na raiz da entrega excessiva do ser humano ao mundo exterior, e se o processo de evolução está conectado ao fato de libertar a atenção abandonando a busca de segurança que caracteriza os animais. * Quando a atenção é controlada mediante um desejo ativo, ela permite utilizar de forma contínua as faculdades da psique: pensar melhor, ter maior sensibilidade emocional e perceber mais claramente. * A questão que se impõe é se está em ação uma síntese vital em que aparece uma nova força pela interação da atenção e da consciência, permitindo ligar-se a um mundo intemporal, e por que nesses momentos há uma sensação de reconhecimento e mistério ao mesmo tempo. * Esses momentos isolados entre longos períodos de tempo, em que tudo parece lúcido, cheio de implicações e emoções, colocam a questão de se representam o vislumbre de um novo mundo de pensamentos e emoções correspondentes a uma humanidade evoluída.