====== Orage 29-03-1926 ====== === **Da Natureza e Graus da Razão** === - A primeira modalidade da razão se fundamenta integralmente em exemplos extraídos da experiência individual, decorrendo de uma aquisição acidental de similaridade de conceitos. - A segunda modalidade da razão pressupõe a capacidade de discernir uma ideia ou forma desvinculada de seus conteúdos intrínsecos. - A terceira modalidade, denominada razão objetiva, é acessível unicamente ao "Eu" e está intrinsecamente relacionada à natureza essencial das coisas. === O Enneagrama e as Leis Cósmicas === - O enneagrama constitui o epítome da razão objetiva, sendo o triângulo o símbolo do "Eu" e o círculo envolvente o símbolo do "isto" (o organismo). - O "Eu" está submetido à lei de três, enquanto o organismo opera sob a lei de sete. - A compreensão do organismo inteiro sob a lei de sete torna-se viável somente quando o "Eu" começa a desenvolver essa capacidade. - Na lei de sete, existem três pontos críticos de intervenção: o início em dó, o intervalo entre mi e fá, e o intervalo de si a dó. - O triângulo deve ser concebido como a mola mestra de todo o processo, sendo que a ausência de sua atividade impede qualquer desenvolvimento. - Há três atividades operativas no enneagrama, análogas a três "ponteiros": um que completou seu ciclo até onde é possível (atingindo si); outro que percorreu dó, ré, mi; e um terceiro que apenas iniciou em dó. - A intervenção consciente torna-se possível se houver alerta e atenção na nota mi. === Arte, Esforço e Consciência === - A criação e a observação da arte não devem ser realizadas sob a influência do sentimento. - O relato das abelhas que, por agirem de modo meramente mecânico, fracassaram na obtenção da consciência cósmica, resultando em sua redução de tamanho e posterior existência em felicidade. - A aprendizagem do conhecimento exigirá um tempo consideravelmente maior do que a aprendizagem do ser, e este, por sua vez, um tempo muito maior do que a aprendizagem do fazer, em uma perspectiva objetiva. - Orage reconheceu que não se atrevia mais a escrever objetivamente, mas vislumbrava o que a escrita objetiva implicaria. - No campo da escrita, é factível estruturar "matrizes" ou sentenças mágicas que, ao serem lidas, produzirão um efeito definido e previsível, independentemente do estado do leitor. - O efeito dessas sentenças se manifesta por meio do ritmo quando lidas com o ouvido, pela disposição das letras quando lidas com o olho, e pelo significado quando lidas com o entendimento. === Dever, Nascimento do "Eu" e o Choque nos Intervalos === - Existe um trabalho específico esperado de cada indivíduo, que ainda não é compreendido e, consequentemente, não pode ser realizado no estágio atual. - Todo "Eu" que possui potencial para a autorrealização tem o dever de conduzir os reinos orgânicos além da nota si (o intervalo entre si e dó), auxiliando 2 bilhões de organismos que aguardam, através de inúmeras recorrências, um choque que os impulsione para além dos meio-tons faltantes. - Um tipo distinto de instrução se tornará acessível após o estabelecimento da separabilidade do "Eu", permitindo a não identificação voluntária. - Quando o "Eu" nasce, haverá um agente para cuidar dele, assim como ocorre com qualquer nova forma. - Não é aconselhável facilitar ou suavizar excessivamente o caminho do desenvolvimento pré-natal, para evitar o nascimento de um "Eu" enfraquecido. - O desespero é um fogo divino que purifica e consome as impurezas. - Ninguém que realize o nascimento do "Eu" será abandonado. === Perspectivas sobre a Conduta e a Ilusão do Ser === - O indivíduo deve agir "como se" fosse uma pessoa razoável delegada a comportar-se conforme a conduta de uma pessoa razoável. - Em situações inescapáveis, a atitude a ser adotada é de investigar o que uma pessoa razoável faria se fosse colocada naquela circunstância. - É necessário agir "como se" fosse incumbido de prescrever a melhor ação a cada momento de mudança. - Nesse estado, a percepção da própria condição é autêntica, visto que, essencialmente, somos apenas fantasmas. - As ilusões são geradas por imaginações sensoriais. - É mister analisar a constituição do organismo, desde a concepção até o presente, e, subsequentemente, visualizar a totalidade da própria vida. - A imaginação fundamentada em impressões sensoriais gera emoções negativas. - Nesse estado, o agir razoável é inviável, mas a percepção real habilita o pensar e o agir de maneira razoável. - O sofrimento de uma mãe por um criminoso (repugnante, em perspectiva externa) constitui uma escravidão a uma atualização anterior, enquanto o indivíduo comum está escravizado pela atualização presente. - Um primeiro passo é cessar o ódio por quem provoca emoções negativas, e o subsequente seria aprender a amar tal pessoa. - Qualquer estado negativo pode, em geral, ser utilizado para a auto-observação, seguida de participação e, finalmente, experimento, constituindo exercícios para o "Eu". - Cessar o ódio implica em interromper o desperdício de energia. - Aprender a amar é desenvolver emoções positivas, o que exige uma razão positiva para tal, funcionando como uma força neutralizadora. - Ao se afirmar "Eu tenho um corpo" com plena realização, alcança-se o objetivo da autoconsciência e autorrealização com não identificação pelo método direto. - É imprescindível descobrir, de maneira definitiva e permanente, a distinção entre "Eu" e "isto". - O alcance dessa distinção corresponde à nota dó no centro intelectual. - A manutenção de relações muito amistosas com Orage implicava a identificação do "Eu" com o "isto". - O caso do russo, onde o precipício, o rochedo e a corda equivalem a dó, representa a autorrealização pelo "caminho fácil". - O medo da morte é completamente superado; o medo é meramente uma forma elementar e grosseira de clarividência. - A essência se mantém invariavelmente calma, mesmo na manifestação de desespero (o "Eu sou um homem desesperado" proferido com um certo tom de voz que expressa o sentido). - A possibilidade de ser ou fazer razoavelmente reside apenas na ação. - O diálogo sobre a moralidade objetiva (manutenção e aprimoramento) e a indiferença aos resultados no contexto do experimento deve ser praticado. - O senso comum é soberano. === Centros e Comportamento === - A racionalização ocorre quando o intelectual é função do emocional. - A razão se manifesta quando o emocional é função do intelectual. - O trabalho exige o sacrifício do menor pelo melhor. - As emoções de dó, ré, mi representam a equanimidade, mas a ausência de lá, sol, si indica a falta de atividade. - Ao adormecer praticando a auto-observação com não identificação, a atividade é retomada ao despertar, com a percepção de "Olá, está a despertar!". - Todos os centros estão em estado de sonho contínuo. O sonho é um processo absolutamente ininterrupto. - O devaneio é atribuído ao centro emocional. - No Roget's Thesaurus, é possível classificar os estados intermediários entre pensar e sentir de acordo com os centros. === Recorrência e o Desenvolvimento do "Eu" === - É provável que jamais tenha ocorrido a auto-observação anterior, o que sugere que não haverá retorno a esta idêntica recorrência. - O indivíduo deixará uma casca que poderá ser "promovida" a alguém de uma nota inferior na escala. - A descoberta do padrão representa a descoberta de uma "nova linha", facilitando a saída da linha atual em uma recorrência subsequente. - O poder de sair da linha atual é proporcional ao poder de observar com não identificação. - Os três graus de desenvolvimento do "Eu" são: 1. Individualidade; 2. Consciência; 3. Vontade. - O som Ahoum, o mais amplo possível com os lábios fechados, não é consoante e deve ser pensado, representando o positivo absoluto e o negativo absoluto (A até M). - As consoantes são pontos no círculo. - O "Eu" é, ou pode ser, eterno. - O centro emocional do "Eu" está numa determinada parte do coração. === O Método e a Atitude Profissional === - O início real do método provavelmente acarretará uma alteração nas correntes magnéticas. É imperativo suportar o desconforto, que não é grave. - Se a vontade de continuar a observar os sintomas for mantida, nenhum outro sentimento importa. - O mito da Medusa, onde o herói só podia olhá-la num espelho, simboliza a possibilidade de observar as emoções apenas nos sintomas físicos. - O método exige a observação e a compreensão contínua e simultânea do mecanismo dos comportamentos. - Absolutamente nada mais importa senão o método em si. - Um conhecimento e aceitação integral da teoria seriam desprovidos de valor. Apenas a prova prática conta, provando fatos sobre um estado de ser. - O estado de ser se sustenta em um novo e peculiar fazer, que é o método. - Uma nova faculdade será desenvolvida: a consciência contínua e simultânea de si mesmo. - A inquirição de uma senhora sobre a "teoria matemática de Einstein" ilustra a impossibilidade de explicação a quem carece de conhecimentos elementares. - Deve-se ter uma atitude profissional em relação a este trabalho. - A atitude de Edna Kenton ao perguntar a Orage se ele se referia a "como se" foi recebida com a veemente negação de que se tratava de uma atitude comparável à que se tem para com a própria escrita. === O Enigma da Esfinge e os Medos === - O enigma da Esfinge representa as qualidades essenciais: Leão: Ausência de medo. - Touro: Força. - Mulher: Amor. - Asas: Aspiração. - Gurdjieff afirmou que o ser humano está repleto de medos absurdos e carente de medos das coisas que deveriam ser temidas. - Os três estados fundamentais são: Estado intelectual, Atitude emocional e Comportamento instintivo. - O centro emocional é o motor natural para o controle do comportamento. - A atitude emocional é determinada pelas imagens retidas no centro intelectual. - As emoções residem numa caverna escura, sendo ditadas pelas imagens visíveis e pelas imagens inconscientes que elas percebem (o "Eu não gosto de ti, Doutor Fell, e a razão não sei dizer" ilustra a perceção emocional inconsciente). - As emoções percebem muito mais do que é conscientemente percebido. === Luta, Pecado e Característica Principal === - Orage relatou que no instituto frequentemente pensava: "Meu Deus, eu acordo num manicômio! Eu preciso sair!". - Ao constatar essa ocorrência repetida, escreveu uma declaração: "Fui logicamente convencido de que a auto-observação e a não identificação são os métodos, portanto não perca tempo nessa atitude, mas comece a trabalhar". - O pecado é a identificação pura com o mecanismo, e o remorso é a sua consequência. - O perdão deve ser seguido pela restituição. - A característica principal se manifesta na relação do "Eu" com o corpo e sua descoberta provocará vergonha. - A característica principal não tem relação com as emoções superiores. - O animal de vida mais curta, por exemplo, três segundos, experimenta, em sua própria percepção, um ciclo completo (juventude, adolescência, maturidade, velhice) equivalente a sessenta anos humanos. - A percepção de nunca ter vivido antes, apesar de ter vivido muitas e muitas vezes, se relaciona com a quarta dimensão. - Existem escalas inteiras, psiquicamente, entre cada centro, o que se relaciona com a experiência de deixar o corpo. === Identificação e o Caminho === - A observação que não incorpora a ideia de que todo o comportamento é o comportamento do "isto" (o organismo) resultará em uma ligação ainda mais forte com ele. - É crucial repetir o termo "isto" e afirmar "Eu não sou isto" e "Eu não sou Orage", comprometendo-se a observar o comportamento do "isto" (Orage). - A auto-identificação sem não identificação não é inútil; é um estágio que precede o próximo passo da não identificação. - É possível realizar a distinção intelectual de "Eu não sou isto", mas ainda não abandonar emocionalmente a identificação. - Há uma falta de familiaridade consigo mesmo, ignorando-se as atividades corporais e os movimentos musculares, e é imperativo o desejo de conhecer o organismo e seu comportamento. - As duas correntes do dó, ré, mi (lua) e sol, lá, si (sol) representam o movimento descendente e ascendente, respectivamente. - A ponte entre as correntes é o esforço despendido no método. - Nenhuma atitude emocional mantida em relação ao trabalho é relevante. === A Jornada de Jesus e o Filho Pródigo === - Os Evangelhos não relatam os eventos da vida de Jesus entre os doze e os trinta anos, um período de dezoito anos. - Após esse lapso, ele ressurge como mestre e vive por três anos. - Nesses dezoito anos, ele foi enviado a uma escola, entrando no mundo e se tornando um homem. - A premissa é que ele começou como qualquer outro, superou a barreira interior e recuperou a consciência de sua missão para então cumpri-la. - A história do filho pródigo que viajou para uma terra distante e se viu vivendo de cascas (impressões passivas) e alimentando porcos (luas), para depois retornar ao pai e receber o manto da beleza (o corpo mental). {{indexmenu>.#1|skipns=/^playground|^wiki/ nsonly}}