O mercador entregou os presentes às três filhas dizendo a Bela que o dela foi o mais custoso, pois por ele havia dado a vida, e contou tudo; as duas mais velhas choraram e protestaram, mas Bela, embora com muito medo, não tinha intenção de sacrificar o pai a um destino tão terrível e não pôde ser dissuadida de acompanhá-lo quando os três meses se completaram.
A casa estava preparada com grande riqueza e jantar posto para dois, sem sinal de servo ou dono, e quando a Fera apareceu assustou Bela com sua feiura, mas a cumprimentou polidamente e perguntou se viera por livre vontade; ela mal conseguiu dizer que sim, e a Fera disse ao pai que devia partir de manhã, deixando-os enfrentar a separação com o quanto de coragem pudessem encontrar.
Na manhã seguinte à partida do pai, Bela explorou com bravura e alguma curiosidade a mansão e os jardins, tudo extraordinariamente belo e parecendo arranjado especialmente para agradá-la; a Fera só aparecia na hora do jantar, grave e cortês apesar da feiura, e Bela, para sua própria surpresa, sentiu-se bem menos com medo e até satisfeita em ter alguém com quem conversar.
Com o tempo o medo de Bela pela Fera transformou-se em afeição: ela passou a aguardar as conversas noturnas, surpreendida a princípio com a sabedoria e bondade das respostas, depois contando com elas; a Fera parecia tomar prazer em sua companhia, mas seus olhos, grandes e escuros como os de um cão, estavam sempre tristes, e numa noite em que ele parecia mais melancólico do que o costume, a Fera respondeu à pergunta de Bela com outra pergunta.
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“Bela, você quer se casar comigo?”
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“Oh, não! Não podia — por favor não me peça!”
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A Fera levantou-se imediatamente e disse com tristeza: “Não tenha medo. Boa noite, Bela.” — e daí em diante perguntava a intervalos “Bela, vai se casar comigo?”, e a resposta era sempre não.
A saudade de casa e o anseio por ver o pai cresceram tanto que Bela ficou pálida e magra, e a Fera, amando-a demais para retê-la contra sua vontade, deu-lhe um anel mágico e a advertiu de que se não voltasse em três meses não a encontraria mais.
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“Bela, eu a amo demais para mantê-la aqui contra sua vontade. Você pode ir para casa se quiser. Mas saiba que se não voltar eu morrerei. Vista este anel, e quando estiver pronta para voltar, gire-o três vezes ao redor do dedo dizendo: 'Quero voltar para minha casa e ver a Fera novamente.' Mas se demorar mais de três meses, não me encontrará. Boa noite, Bela.”
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“Boa noite, querida Fera! Voltarei, sim, voltarei com certeza,” exclamou Bela alegremente.
De volta à casa do pai, Bela encontrou baús cheios de joias e roupas belas e presentes para o pai e as irmãs; o pai ficou radiante, as irmãs simularam alegria enquanto tinham inveja das riquezas, mas quando exprimiram pena de Bela por estar sob o poder de um monstro horrível, ela reagiu com surpresa e indignação, pois era exatamente assim que ela própria muitas vezes se compadeceraera de si mesma, mas ouvir das irmãs a fez furiosa.
As irmãs, não querendo irritá-la, pararam de falar da Fera, e Bela, estranhamente, achou mais fácil deixar de pensar nele do que suportar a pontada que sentia ao lembrá-lo — uma pontada estranhamente desconfortável que a fazia sentir que algo estava faltando ou que havia algo por fazer que ela ainda não fizera e temia fazer, gerando um sentimento de culpa que ela evitara a vida toda; assim se entreteve com a família e o tempo passou.
Num sonho, ao adormecer pensando com certa ternura num jovem que a pretendia, Bela se viu de volta no jardim da Fera e o viu estendido na grama, morrendo ou já morto; acordou sobressaltada com o coração disparado e a pontada tão aguda que não havia como afastá-la, e girando o anel três vezes ao redor do dedo perdeu a consciência e acordou no quarto da casa da Fera, com o sol da manhã entrando pela janela.
Bela correu pela casa chamando pela Fera sem obter resposta, esperou o dia todo junto à refeição intocada, e ao cair da noite a pontada no coração, que estivera lá o dia inteiro, tornou-se insuportável; ela correu para o jardim e na luz do luar encontrou-o de fato estendido na grama, atirou-se sobre ele soluçando e em pânico, e ao tocá-lo com ternura ele abriu os olhos — e no luar Bela viu seu próprio reflexo neles: o rosto inchado de lágrimas e contraído numa angústia de ódio de si mesma, e ela se viu feia e envergonhada.
A Fera voltou à vida, eles se abraçaram, e a feia Bela e a bela Fera se casaram e viveram felizes para sempre.