O escritor inglês D.H. Lawrence, que também conheceu
Gurdjieff, observou que, como as coisas estão, há dois modos principais de lidar consigo mesmo: as “coisas que se diz a si mesmo” — que, mesmo quando formuladas como críticas, são calculadas para agradar — e as “coisas que se descobre sobre si mesmo” — que são desagradáveis e às vezes devastadoras.
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Lord
Pentland estava bem ciente da outra “traição do ego” — de como o ego se esconde atrás do “desenvolvimento espiritual”: o quanto se enorgulhe da própria humildade ou de “ver através do ego”.
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O falso self não pode ser exposto por introspecção, disciplinas espirituais ou análise psicológica: não se chega a se conhecer por esses meios.
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Nada pode substituir o “ver direto” — é preciso pegar-se a si mesmo com as defesas baixas, o que nunca ocorre com esses métodos preparados.
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O ver direto vai além de qualquer número de “interpretações” que distorcem a verdade sutil e secretamente.
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Para Lord
Pentland, como para a maioria das tradições religiosas em seus núcleos espirituais, um self que não é capaz de sofrer transformação radical a partir de velhas identificações e apegos não é capaz de desenvolvimento pleno.
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Quanto mais contente se está consigo mesmo e com os mundos herdados, mais profundamente se dorme.
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Só quando se começa a perceber que há algo seriamente errado com a maior parte da vida humana — incluindo, em primeiro lugar, a si mesmo — é que se está pronto para encontrar um mestre ou guia.
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Um desejo sincero de despertar levará ao início de uma separação interior entre o self sonhador-egoico e o self vidente-da-realidade — e a boa notícia é que o primeiro pode fundir-se no segundo.
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Como diz o antigo dito gnóstico: para tornar-se inteiramente uno, é preciso primeiro tornar-se dois.
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Lord
Pentland assinala, com aquela maravilhosa praticidade que caracteriza os melhores diretores espirituais, que o melhor momento do dia para praticar essa separação é a manhã cedo, ao despertar e antes que as “identificações” do dia se apoderem do ser.
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O ensinamento de que o ego é nada encontra-se tanto no sufismo, no hinduísmo, no budismo e no taoísmo quanto no cristianismo, tanto nas escrituras mundiais quanto nos tomos dos teólogos.
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O ensinamento de Cristo sobre a necessidade de nascer de novo exige a morte do ego e o nascimento de um novo self de Espírito Universal; São João da Cruz e Santa Teresa de Ávila delinearam com quase precisão científica um “método” de tal mudança, assim como Jacó Böhme e Henry Suso em seu enquadramento protestante.
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No século atual, o “aniquilamento do ego” é a ideia central de Simone Weil e Thomas Merton.
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“O sabor do auto-rememhoramento é libertador porque é o sentimento da realidade” — nesse ponto se rompe enfim as teias de ilusão e autoengano que a psicologia frequentemente fornece.
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O mesmo tipo de sublime senso comum que se encontra nos Evangelhos, em Laozi, nos koans Zen, em Rumi e nos sufis está também em
Gurdjieff — mas codificado de forma diferente em cada um, e nenhum dos dois pode ser lido da mesma maneira.
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A certeza que surge de todos esses escritos simples mas inesgotavelmente misteriosos vai muito mais fundo do que a certeza obtida do conhecimento científico isolado — porque falam para os sentimentos tanto quanto para as mentes, para a vasta gama das relações humanas e para as lições da vida cotidiana.
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Há uma crença generalizada de que a ciência lida com o mais concreto — mas na realidade o mais concreto é o menos apreensível e o mais misterioso.
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O que está mais próximo e é mais óbvio é o que menos se consegue ver: as escamas não caem dos olhos porque se olha no lugar errado e do modo errado.
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Há uma beleza inquietante nas grandes religiões, frequentemente encarnada nas figuras supremas da cultura: São Francisco, Dogen, Milarepa, William
Blake, Ramakrishna, Gandhi.