O guia propõe fazer a peregrinação não com os
corpos físicos, mas numa visão proveniente de meditação profunda, indo com os peregrinos como peregrinos, vivendo a vida deles, indo com eles rumo ao oceano onde o Ganges perderá a si mesmo, com a mesma fome que eles têm, com a mesma esperança de alcançar o que está além do conhecido.
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O guia diz: “Não há um traço de emoção no movimento da vida em direção à morte, apenas a postura daquele momento de encontro quando a morte faz a vida transbordar em nós”; com o mergulho nas águas onde o Ganges entra no oceano, o ego se dissolve; é um puro ato de renúncia que liberta as energias e dá a visão de um horizonte que se alarga; o Oceano do Vazio limpa o passado, enquanto outro Oceano se revela que não pode ser expresso em palavras; ele dança, desaparece, retorna, flui na calma profunda do Absoluto.
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O coro de peregrinos invoca o sábio Kapila, que nas trevas do passado antigo trouxe a sabedoria à terra, pois o Ganges foi chamado do céu para a margem do oceano para dissolver o passado; Kapila é o homem santo que escreveu as escrituras sagradas.
No Norte, em Assam, uma Mãe Divina amplamente respeitada e venerada vive num templo dobrado sobre si mesmo; a fachada estreita é emoldurada por duas torres baixas; dentro da porta, uma escadaria circular desce como um poço enorme e profundo; o altar está abaixo do nível do solo; a Mãe Divina está relacionada com a terra, com o que há de mais primitivo no ser humano.
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O Templo de Kamakhya fica no topo do Morro Nilachal na margem norte do Brahmaputra, tão largo quanto um lago; é o local de encontro de todos os peregrinos tântricos de todas as partes da Índia, vestidos de vermelho escuro carregando guirlandas de hibisco vermelho; é uma orgia de vermelho em todos os matizes possíveis.
O grupo da narradora, com rostos ocultos por coroas de flores, insere-se no meio da multidão de peregrinos para entrar no templo, onde são dadas velas acesas para descer as escadas; o interior do templo é negro; sente-se o empurrão da multidão e a força de sua emoção ao entrar nas entranhas da terra, no fundo mais profundo do poço, onde o altar se ergue.
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As coroas de flores são atiradas para baixo e outras recebidas; há abluções, gestos instintivos de adoração e súplica simultâneas; um momento que é quase angústia, pânico; uma violência de anseio que arranca gritos dos peregrinos; a Mãe Divina recebe o que aguarda; recebem-se as bênçãos de que se necessita; os sacerdotes dão as bênçãos com as mãos abertas; seguram de volta as pessoas que descem as escadas, e depois que passaram pelo altar as empurram em direção à escada que sobe.
Voltando ao sopé do morro, é difícil compreender o que aconteceu; a pressão da multidão de peregrinos é tão primitiva e, ao mesmo tempo, tão plena de humildade; só se pode levar o que foi partilhado em ritos milenários, expresso na entrega efetiva de si mesmo, flores vermelhas e a ablução simbólica de sangue.