Desde 1956, escritores como Manuel Rainoird reconheceram a maestria literária de
Gurdjieff, declarando que os gêneros aos quais recorre deixam muito para trás as elegantes tentativas contemporâneas.
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Rainoird descreveu a leitura dos
Relatos de Belzebu como uma provação infinitamente exaustiva, feita de matéria assimilável e não assimilável por qualquer organismo.
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Para Rainoird, nenhum livro filosófico, científico, legendário ou histórico pode ser aproximado dos Relatos quanto ao “grande” e ao “novo”, ainda que se trate da história universal e ao mesmo tempo íntima de cada um.
A grandeza do projeto e a total novidade do tom distinguem os Relatos como obra maior, num registro que os “escritores ordinários patenteados”, na expressão de
Gurdjieff, jamais souberam produzir nem reconhecer.
Os Relatos afirmam desde o início a recusa da “língua literária de bom tom”, numa profissão de fé repetida para que o leitor a guarde não como memória habitual, mas como lembrança duradoura.
O “bom tom” é o alvo predileto da ironia de
Gurdjieff, que via na educação tal como praticada a coisa mais prejudicial do mundo e na literatura reduzida ao que chamava de “propagação da palavra prostituída” uma degradação das mais altas disciplinas humanas.
O jornalismo, cujos malefícios Balzac já havia denunciado genialmente em Ilusões Perdidas, apodrece a língua e o pensamento, corrompendo a alma de modo irremediável.
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Gurdjieff afirma que os que buscam se desenvolver pelos meios oferecidos pela civilização contemporânea adquirem no máximo uma faculdade de pensar equivalente à primeira invenção de Edison.
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Na expressão de Mullah Nassr Eddin citada por
Gurdjieff, o que tais pessoas desenvolvem em termos de sensibilidade é “a sutileza de sentimento de uma vaca”.
Diante da degradação da linguagem,
Gurdjieff recorre a procedimentos antigos para agir não apenas sobre a inteligência, mas sobre o ser inteiro do leitor, conforme Charles Duits havia identificado em alguns desses recursos.
O problema central do escritor comprometido com a verdade, o de como pronunciar as palavras sublimes sem ser mal compreendido, é resolvido por
Gurdjieff de maneira exemplar.
O uso sistemático das aspas nos Relatos é uma chave de leitura essencial: elas ora denunciam noções corrompidas como “moral religiosa”, “tesouros”, “linguagem literária de bom tom”, ora exaltam expressões justas como “pensar
esseral ativo” ou “
corpos estreitais superiores”.
Os Relatos constituem um livro iniciático de múltiplas facetas, e Manuel Rainoird, em artigo citado ao longo deste capítulo, soube descrever com rara justeza o efeito dessa obra sobre o leitor.
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O livro não pode ser lido como os demais: atrai e repele num mesmo impulso, num sopro que passa manifestamente acima das cabeças dos leitores, convidando-os a querer o que se quer sem eles.
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Belzebu narra de uma altura muito grande, como habitante de mundos análogos e distantes, e esse recuo, longe de apagar os detalhes, revela os mecanismos ocultos da criatura feita à imagem de
Deus.
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Belzebu, privado de seus chifres, não esteve isento do processo de expiação: seu exílio no sistema Ors, ao qual pertence a Terra, foi consequência de faltas cometidas na juventude, semelhantes aos pecados do conhecimento humano.
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A questão central, “quem somos nós, para onde vamos”, é tratada com acompanhamento de címbalos, instrumentos percutentes, gelo glacial e pó de mico, numa receita desconhecida.
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O romance não é rio por acaso: a longo prazo, arrasta o leitor; o trabalho de demolição das ideias recebidas não visa impor um saber externo, mas despertar correspondências entre as obscuridades do livro e zonas ignoradas do próprio leitor, como faz o Cântico dos Cânticos ou o Evangelho segundo São João.
A escrita só tem sentido quando descreve uma experiência autêntica ou transmite um Ensinamento digno desse nome, e o excesso verbal, conforme Borges havia assinalado, é sinal de pobreza tanto quanto o silêncio.
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Borges identificou como erro preferido da literatura contemporânea a ênfase: palavras como “único, jamais, sempre, tudo, perfeição, acabado” são moeda corrente entre escritores que não percebem que dizer demais é tão falho quanto não dizer nada.
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Para Borges, as generalizações e intensificações decorrentes da negligência são sinais de pobreza sentidos pelo leitor, e suas imprudências causam uma depreciação da língua.
Contra essa depreciação,
Gurdjieff se armou com procedimentos surpreendentes mas singularmente eficazes, e é nessa realização que se mede seu gênio, cuja palavra tem o poder de romper os muros espessos da inconsciência e da indiferença num tempo em que os dias são, em sua essência, dias de mentira e de erro.