Vivemos em um mundo de corpos e energias. Os corpos celestes, como planetas, estrelas e nebulosas, são enormes em comparação com nossos próprios corpos, mas são, ainda assim, corpos. Os átomos são minúsculos, mas também são corpos que possuem tamanho, forma, duração no tempo e localização no espaço. Todos esses corpos estão constantemente trocando e transformando energias, mas fazem isso de maneiras muito diferentes.
Uma distinção óbvia que pode ser feita é entre corpos não vivos e vivos. As coisas não vivas encontram-se em um estado de decadência e dissolução contínua. Os seres vivos encontram-se em um estado de auto-renovação ou equilíbrio de transfluxo. As coisas não vivas podem perdurar por muito tempo, mas seu destino está selado no momento em que passam a existir: mais cedo ou mais tarde, elas deixarão de existir. Os seres vivos não duram para sempre e suas vidas podem até ser muito curtas e precárias, mas enquanto estiverem vivos, eles têm o poder de se manter em um nível de energia mais elevado do que o de seu ambiente.
Nós, seres humanos, pertencemos ao mundo da vida, mas não estamos satisfeitos com essa existência curta e precária. Queremos perdurar. Alguns desejam a imortalidade ou uma vida sem fim além da morte. Outros querem perpetuar-se por meio de seus filhos e descendentes. Muitos desejam viver para a posteridade na memória ou nas obras que criaram. Alguns simplesmente querem adiar o momento da morte.
Parece que os homens sempre estiveram em busca do segredo da auto-renovação perpétua. Encontramo-lo em uma das lendas mais antigas preservadas pelo homem: a história de Gilgamesh, o herói sumério, e sua peregrinação em busca do segredo da imortalidade. Por volta da época em que o épico de Gilgamesh foi compilado a partir de canções anteriores, há cerca de 4.600 anos, surgiu na Mesopotâmia uma irmandade de sábios que descobriu o segredo cósmico da auto-renovação perpétua e o transmitiu de geração em geração. Por muito tempo, ela foi preservada na Babilônia: há 2.600 anos, foi revelada a Zoroastro, Pitágoras e outros grandes sábios que se reuniram na Babilônia na época de Cambises (o rei persa que conquistou o Egito em 524 a.C.). Em seguida, os guardiões da tradição migraram para o norte e, há cerca de mil anos, chegaram a Bokhara, do outro lado do rio Oxus.
No século X, matemáticos formados em suas escolas descobriram o significado do número zero e criaram o sistema numérico decimal que todo o mundo usa atualmente. Observou-se na época que um novo tipo de número surgia quando um era dividido por três ou sete. Isso chamamos hoje de decimal recorrente.
Quando um é dividido por três, obtém-se uma sucessão infinita de três, assim:
1/3 = 0,33333… escrito 0,3
A adição de outra terceira parte a isso produz seis infinitos, assim:
1/3 + 1/3 = 2/3 = 0,66666… ou 0,6
Quando a terceira parte final também é adicionada, resultam nove infinitos, assim:
1/3+ 1/3 + 1/3 = 3/3 = 0,99999… ou 0,9
Assim, obtemos um simbolismo para o um como uma recorrência infinita do número nove.
Quando um é dividido por sete, no entanto, surge outro padrão numérico mais complexo, que não contém três, seis ou nove, assim:
1/7 = 0,142857142857… ou 0,142857
E adições sucessivas de sétimas partes reproduzem esse padrão a partir de dígitos diferentes, assim:
2/7 = 0,285714
3/7 = 0,428571
4/7 = 0,571428
5/7 = 0,714285
6/7 = 0,857142
Quando a sétima parte final é adicionada, essa sequência desaparece e é substituída pelos noves recorrentes mais uma vez, assim:
7/7 = 0,9
Essas propriedades foram combinadas em um símbolo que provou ter um significado surpreendente. Ele poderia ser usado para representar todos os processos que se mantêm por meio da auto-renovação, incluindo, é claro, a própria vida. O símbolo consiste em nove linhas e, portanto, é chamado de eneagrama.
Seis das três linhas são derivadas de um dividido por sete e as outras de um dividido por três. Os pontos onde essas linhas tocam o círculo são numerados de 1 a 9, como no diagrama (figura abaixo). O círculo em si simboliza o zero.
Todos aqueles que já tiveram contato com as ideias de Gurdjieff já viram uma representação desse símbolo, que foi adotado como emblema de muitas instituições e irmandades, incluindo o nosso próprio Instituto de Estudos Comparativos.
Em certas regiões da Ásia, ele é utilizado como instrumento de adivinhação, ou seja, para interpretar o padrão dos eventos que estão por vir. Gurdjieff disse que, em uma certa Irmandade Mundial, o eneagrama é o repositório de seu conhecimento secreto mais importante e que os membros da irmandade podem não apenas reconhecer uns aos outros pelo eneagrama, mas também determinar, por meio de perguntas e respostas, qual dos dois é mais avançado e, portanto, deve assumir o papel de professor.
O eneagrama também pode ser usado para representar o processo de vida de qualquer espécie de planta ou animal, incluindo o homem. Além disso, ele pode ser aplicado a qualquer organização como um teste de sua capacidade de manter sua própria existência e para a detecção de fraquezas e defeitos. Estamos, neste momento, conduzindo pesquisas sobre as diferentes maneiras pelas quais as pessoas realizam tarefas envolvendo liderança, cooperação, subordinação, previsão e desenvoltura. Essas várias qualidades necessárias para uma ação bem-sucedida podem ser representadas pelas linhas do eneagrama, o que nos permite relacioná-las às necessidades da tarefa como um todo.
Devemos aqui recordar o uso que Gurdjieff fazia da escala musical de sete tons como símbolo do processo de transformação. Partindo da propriedade das vibrações sonoras que consiste em repetir o mesmo tom ou qualidade de som cada vez que a frequência da vibração é reduzida pela metade ou duplicada, temos o diapasão (em grego, “através de todos os degraus”) ou oitava. Há cerca de 2.500 anos, descobriu-se que os sons intermediários obtidos pela adição de um quarto, um terço ou uma metade produzem sons aceitáveis ao ouvido. Dessa forma, Pitágoras e outros estabeleceram o que hoje chamamos de escala de sete tons, cujas notas foram nomeadas por Guido d’Arezzo há quinhentos anos (dó - si - lá - sol - fá - mi - ré). Observou-se, em um estágio muito inicial, que os intervalos entre do e si, e entre fa e mi, diferem dos outros cinco na medida em que alteram a altura do som apenas cerca de metade. Estes foram chamados de semitons. Os gregos não atribuíram nenhuma importância especial a essa propriedade, mas na Ásia Central foi-lhe conferido um significado cósmico. Gurdjieff deparou-se com essa tradição e a desenvolveu como uma característica central de seu sistema. Em RBN, os intervalos dó-ré, ré-mi, fá-sol, sol-lá e lá-si são chamados de harnel-miatznel e dizem-se que se conformam ao princípio: “O superior se funde com o inferior para atualizar o meio e, assim, torna-se ou superior em relação ao inferior precedente, ou inferior em relação ao superior sucessivo.” Os intervalos mi-fa e si-do são chamados de mdnel-in e são os pontos onde o processo deve receber “ajuda do exterior”. Isso é mostrado no eneagrama, onde os pontos 3, 6 e 9 são mdnel-in, para as três oitavas precedentes. O ponto sol, que é o mais distante dos dois do, é chamado de Harnel Aoot. Aqui, diz-se que o processo está “desarmonizado”.
Para uma explicação mais completa da “Lei da Sétupla”, consulte meu livro Gurdjieff — Making a New World. É somente a partir da experiência que podemos nos convencer de que os “intervalos” de Gurdjieff oferecem uma explicação satisfatória sobre como as coisas dão certo ou errado em um processo de autorregulação.