A última conversa com Abdil é a que se recorda e se repete, pois serviu de ponto de partida a todos os fatos posteriores que, embora tenham posto um doloroso fim à existência
planetária desse amigo terrestre, puseram ao alcance dele a possibilidade de prosseguir sua tarefa de auto-aperfeiçoamento.
-
A última conversa produziu em Abdil uma impressão tão forte que nos dias seguintes ele não pôde deixar de pensar no que havia sido dito.
-
Vários dias depois da conversa, celebrou-se uma das duas grandes festividades religiosas de todo o país de Tikliamish, chamada Zadik, e no templo em que Abdil oficiava como sacerdote principal ele falou inesperadamente sobre os sacrifícios em vez de proferir o sermão habitual.
-
O interlocutor estava presente por casualidade naquele grande templo e pôde escutar as palavras dirigidas aos fiéis.
-
O tema era insólito para a ocasião e o lugar, mas não surpreendeu a ninguém, tamanha foi a veemência e a beleza sem precedente de suas palavras.
-
Abdil falou tão bem e tão sinceramente, com tantos exemplos ilustrativos e convincentes, que grande parte da concorrência não tardou a começar a chorar amargamente.
-
A impressão foi tão forte que a alocução se prolongou até o dia seguinte, em lugar da meia hora habitual.
-
Ao terminar, todos permaneceram longo tempo como fascinados, recusando-se a se retirar.
-
A partir desse momento, fragmentos do que havia sido pregado começaram a se divulgar entre os que não haviam assistido pessoalmente.
-
Era costume que os sacerdotes vivessem das oferendas concedidas por seus fiéis, e Abdil recebia entre elas cadáveres assados e cozidos de entes das mais diversas formas exteriores, como frangos, cordeiros e gansos.
-
Depois da famosa alocução, ninguém mais lhe levou nenhum desses presentes, mas somente frutas, flores e trabalhos manuais.
-
No dia seguinte ao discurso, Abdil converteu-se imediatamente para todos os cidadãos de Koorkalai num sacerdote da moda, e o templo em que realizava seus ofícios ficava atestado de gente.
-
Logo foi pedido que falasse em outros templos.
-
Falou em grande quantidade de oportunidades sobre os sacrifícios realizados em honra dos deuses, e o número de seus admiradores cresceu consideravelmente.
-
Tornou-se popular não só entre os entes da cidade de Koorkalai, mas em todo o território de Tikliamish.
-
Todo o clero, isto é, todos os demais homens pertencentes à mesma profissão que Abdil, alarmou-se com sua popularidade e levantou uma encarniçada resistência ao que ele pregava.
-
O que os colegas temiam era que, se desaparecesse o costume de oferecer sacrifícios aos deuses, desapareceriam também seus excelentes ingressos, e com isso sua autoridade se reduziria consideravelmente até desvanecer por completo.
-
Dia a dia aumentou o número de inimigos do sacerdote Abdil, difundindo-se por toda parte vis calúnias tendentes a destruir sua popularidade e seu enraizamento entre a população.
-
Os demais sacerdotes começaram por dirigir sermões aos fiéis procurando demonstrar exatamente o contrário do que Abdil pregava.
-
O clero chegou a subornar entes dotados de propriedades de Hasnamuss para que planejassem e cometessem toda sorte de atentados contra Abdil, havendo diversas ocasiões em que essas nulidades terrestres trataram de destruir sua existência envenenando as oferendas comestíveis que seus fiéis lhe traziam.
-
Apesar de tudo isso, o número de admiradores sinceros do valeroso sacerdote aumentava diariamente.
-
Por fim, a corporação inteira de sacerdotes não pôde suportá-lo mais, e num triste dia para Abdil realizou-se um juízo geral ecumênico que durou quatro dias.
-
Tudo isso foi tendo pouco a pouco forte efeito sobre a mentalidade dos entes ordinários, de modo que mesmo os mais próximos a Abdil, que antes o haviam estimado, começaram a evitá-lo gradualmente, repetindo toda sorte de calúnias acerca de sua pessoa.
-
Mesmo os que um dia antes lhe mandavam flores e outros presentes, reverenciando-o quase como a um ente divino, tornaram-se acérrimos inimigos, como se ele os houvesse injuriado pessoalmente ou matado seus entes mais queridos.
-
Assim é a psique dos entes que habitam aquele peculiar
planeta.
-
Em suma, por sua sincera boa vontade para com os que o rodeavam, Abdil sofreu um verdadeiro martírio, e a culminação da inconsciência por parte do clero os levou a determinar sua morte.
-
Abdil não tinha nenhum familiar na cidade de Koorkalai, pois havia nascido num povoado muito distante.
-
Os centenas de servidores e outras nulidades terrestres que o haviam rodeado durante sua anterior prosperidade foram-no abandonando paulatinamente.
-
Ao fim, só permaneceu a seu lado um velho amigo que havia vivido toda a vida com ele, e que ficou apenas por não ter outro lugar para ir.
-
Numa funesta manhã, ao entrar no quarto do sacerdote, o ancião descobriu que lhe haviam dado morte, achando-se o
corpo planetário em pedaços.
-
A notícia da morte de Abdil, por quem havia sido concebido um profundo carinho como se fosse familiar próximo, provocou no receptor algo que os próprios terráqueos chamariam de Skinikoonartzino, isto é, uma espécie de quase deslocação total da conexão entre os centros eserais separados.
-
Temendo que durante o dia os entes inconscientes cometessem novos ultrajes sobre o
corpo planetário de Abdil, decidiu-se impedir pelo menos a possível atualização daquele crime.
-
Vários entes adequados foram contratados por elevada soma de dinheiro para retirar o
corpo planetário de Abdil e depositá-lo temporalmente no Selchan, isto é, na balsa ancorada a curta distância do rio Oksoseria, que ainda não havia sido utilizada.
-
O triste fim da existência de Abdil não impediu que suas pregações acerca da cessação dos sacrifícios aos deuses tivessem profundo efeito sobre amplo setor da população.
-
O número de vítimas oferecidas em sacrifício começou a diminuir apreciavelmente.
-
Ficou claro que, ainda que o costume talvez não fosse abolido totalmente naquele tempo, pelo menos haveria de se mitigar consideravelmente.