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Harnelmiatznel

John G. Bennett's Talks on Beelzebub's Tales. 1977

  • Uma das formulações de Gurdjieff da lei do três é: o superior se funde com o inferior para atualizar o médio, que se torna superior para o inferior precedente e inferior para o superior subsequente, princípio conhecido como harnelmiatznel.
    • Quando essa fórmula é interpretada para o conjunto da existência, superior designa o que está além do conhecimento, o mundo inacessível aos sentidos, e inferior designa o oposto, o mundo alcançável inteiramente pelos sentidos
    • Por conveniência podem-se chamar esses mundos de espiritual e material, mas por mais longe que se vá nunca se poderá apreender o mundo espiritual e submetê-lo ao olhar; é sempre além para nós, embora se possa ser tocado por ele, sentir sua ação e vislumbrá-lo
    • O hiato entre os dois mundos é preenchido por sua fusão: a vida
  • A vida é totalmente diferente do mundo material e totalmente diferente do mundo espiritual, sendo ambas essas ideias difíceis de aceitar.
    • Sabe-se que todos os corpos vivos dependem das energias materiais para seu funcionamento, e hoje em dia diz-se que a vida é simplesmente uma forma especial de organização material, o que é totalmente errado
    • Toda coisa viva tem algo que os corpos materiais não têm: toda forma de vida, por mais simples que seja, é sensível
    • Por causa dessa sensibilidade, possui um poder de seleção que lhe permite aceitar o que a nutrirá e rejeitar o que é prejudicial
    • Deve-se reconhecer que a vida é uma criação distinta
    • Gurdjieff no capítulo Purgatório afirma que a Nossa Infinitude prestou especial atenção ao surgimento de agregados de microcosmos, os tetartocosmos, capazes de movimento independente na superfície dos planetas
  • A vida também é totalmente diferente do mundo espiritual porque está sujeita às limitações do espaço e do tempo, sendo que toda vida individualizada nasce e morre, e nascimento e morte são propriedades da vida.
    • É às vezes dito que a forma mais primitiva de vida, as algas azul-verdes ou lodo primordial que existe inalterada há dois mil milhões de anos, é imortal porque nunca nasceu e nunca morre
    • Isso é correto, mas é porque as algas azul-verdes não são individualizadas de modo algum, nem mesmo na forma de células
    • As coisas materiais não passam por um ciclo de nascimento e morte, e o mesmo ocorre com o mundo espiritual
  • A ação criativa pertence ao mundo espiritual, sendo exterior ao tempo e ao lugar, pois caso contrário seria apenas uma questão de combinações, e na ação criativa há uma ação atemporal.
    • Tal ação pode penetrar nos seres humanos, mas não pode ser dita individualizada do modo como se pensa a vida como individualizada
    • Se não houvesse essa ação criativa, o mundo seria inteiramente governado por causa e efeito, portanto essencialmente cognoscível e previsível, o que na prática significaria que haveria apenas o mundo material
    • Há criatividade, mas ela não é a vida nem é um atributo da vida; a vida não se criou a si mesma e nenhuma parte da vida se cria a si mesma
  • A lei do harnelmiatznel pode ser compreendida tomando-se uma ação simples da vida cotidiana: o mundo material é passivo em comparação com os seres humanos, que podem agir sobre ele, sendo nesse sentido superiores e o mundo material inferior.
    • Tomando como ilustração o mundo material como uma faca e a própria pessoa ou sua atividade como a mão, nem a faca sozinha nem a mão sozinha podem cortar
    • Há um pão para ser cortado, e ele só pode ser cortado se a mão e a faca se unirem, ou seja, se o superior se fundir com o inferior
    • Então algo novo entra em existência, que não é a mão nem o pão nem apenas os dois juntos: a ação de cortar, que é o médio, superior ao pão e inferior à intenção
    • Antes de se unirem não havia corte: a faca era um pedaço de metal e madeira e se comportava como qualquer outro pedaço de madeira e metal; a mão tinha todo o potencial do que uma mão humana pode fazer, mas ainda assim não havia corte
    • O corte só veio quando a mão e a faca se fundiram, e o que surge por meio da fusão é uma propriedade genuinamente nova
  • Quando Gurdjieff diz que a lei do três é uma lei cósmica primordial, quer dizer que ela não emerge do modo como o mundo funciona, mas que é uma lei que permite ao mundo ser o que é.
    • Ver que o ato de cortar é algo genuinamente novo é tão difícil quanto compreender o que se quer dizer com o Espírito Santo no Credo cristão
    • Gurdjieff afirmou categoricamente que o ser humano é cego à terceira força, ou seja, é incapaz sem desenvolver novas percepções de ver a independência da terceira força, mesmo que ela entre em tudo que se faz e se vê
    • Tende-se a explicá-la dizendo que ser ativo significa fazer coisas, sem ver que é a terceira força que possibilita que as coisas sejam feitas; não é nem a força ativa nem a força negante que faz qualquer coisa
  • Para descrever as diferenças de superior e inferior, Gurdjieff frequentemente usa o termo grau de vivificância, que significa capacidade de dar vida, sendo fácil ver que a vida é ativa para o mundo material e não deveria haver dificuldade em ver que a vida é uma ação, como a ação de cortar, procedendo de alguma vontade ou fonte além da própria vida.
    • Outra forma de ver isso é pensar em termos de diferentes meios: vive-se num meio de vida e num meio de materialidade, mas também num meio de algo que está além da vida
    • Há algo mais profundo do que o conhecimento dentro de nós que nos diz que há algo mais do que a existência da qual estamos conscientes, e esse algo responde à pergunta: para que estamos vivos?
    • Pode-se imaginar a si mesmo entrando no corte e fazendo uma pergunta similar; ao começar a ver o pão e o que está sendo feito, começa-se a compreender a resposta
  • A vida não pode se explicar a si mesma, pois depende da morte e da destruição e é autodestrutiva, e quanto mais consciente se torna da vida mais se percebe como sofrimento e frustração nela penetram, sendo necessário chegar ao ponto em que há um trabalho em nós não apenas da vida pelo bem de viver, mas da vida pelo que a vida serve.
    • Quanto mais se olha para a vida, menos se consegue ver por que deveria haver vida
    • É necessário chegar ao ponto em que há um funcionamento em nós não apenas de vida pelo bem do viver, mas de vida pelo propósito da vida
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