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Lei de Três, em ação

BOURGEAULT, Cynthia. The Holy Trinity and the law of three: discovering the radical truth at the heart of Christianity. First Edition ed. Boston: Shambhala, 2013.

  • O capítulo anterior explorou a Lei do Três de forma teórica, acumulando tríades clássicas como semente/terra/sol = broto, farinha/água/fogo = pão, autor/réu/juiz = resolução e velas/quilha/timoneiro = curso cumprido, mas é preciso ir além dos exemplos de manual e aprender a reconhecer e trabalhar com a lei na vida real.
    • O capítulo consiste quase inteiramente em histórias da Lei do Três contribuídas pelos próprios estudantes, com breve comentário estruturado em torno dos cinco ou seis aprendizados práticos mais importantes emergidos do trabalho coletivo de campo.
    • Independentemente de se prosseguir até o desdobramento ternário final da Trindade, a Lei do Três é uma ferramenta valiosa por si mesma.
  • O insight mais libertador oriundo do trabalho coletivo com a Lei do Três foi a percepção de que o que parece ser a força resistente ou opositora nunca é de fato o problema a ser superado, pois a segunda força, ou santo negante, é um componente legítimo e essencial em todo novo surgimento.
    • Segundo a Lei do Três, um impasse constelado nunca pode ser resolvido retrocedendo, mas apenas avançando para aquele novo surgimento que honra todos os participantes e os coloca em nova relação.
    • Uma mulher do grupo conseguiu reverter um confronto difícil com um bispo ultraconservador ao perceber que a resistência dele não era o problema a resolver, mas um dado com que trabalhar, e ao relaxar sua sensação de polarização ficou surpresa ao saber no dia seguinte que ele havia suavizado milagrosamente sua postura.
    • Poderia se imaginar o quanto as guerras culturais e religiosas da época seriam amenizadas por duas premissas simples: o inimigo nunca é o problema, mas a oportunidade; e o problema nunca se resolve pela eliminação ou silenciamento da oposição, mas pela criação de um novo campo de possibilidade amplo o suficiente para conter a tensão dos opostos.
  • A aprendizagem de que as três forças são funções e não identidades exige superar o condicionamento cultural de equacionar ativo/passivo com masculino/feminino e afirmante/negante com bom/mau.
    • Uma estudante do grupo inicialmente configurou sua luta com a dieta colocando o desejo por alimentação sensata como primeira força afirmante e o alimento gorduroso como segunda força negante, com a força de vontade como terceira força, mas percebeu que a força de vontade era apenas serva do desejo por melhor imagem corporal e que os desejos conflitantes eram simplesmente autoanulatórios.
    • Ao inverter primeira e segunda forças — vendo como afirmante o autêntico desejo do corpo por um petisco saboroso e como negante a preocupação da personalidade com a autoimagem — ela identificou a verdadeira terceira força: entrar numa relação consciente com aquele alimento, honrar o desejo do corpo por ele e satisfazê-lo, mas conscientemente.
    • Essa mudança de perspectiva iniciou uma cadeia de transformações em sua relação não apenas com aquele alimento específico, mas com toda a alimentação e com a própria encarnação.
  • A presença da terceira força pode reverter os papéis de primeira e segunda forças, como expresso no ditame frequentemente citado de Nicoll: “Quando a vida é Força Neutralizante, a personalidade é ativa no ser humano e a essência é passiva; quando o Trabalho é Força Neutralizante, a posição se inverte — a essência, ou parte real, torna-se ativa, e a personalidade, ou parte adquirida, passiva.”
    • Esse mesmo padrão está brilhantemente ilustrado no conto “Boa Gente do Interior”, de Flannery O'Connor, no qual a protagonista Joy, que adota o nome de “Hulga” e cultiva a vitimização, tem sua prótese roubada por um vendedor de Bíblias canalha que, ao roubar o emblema de sua vitimização, acaba revertendo as polaridades de primeira e segunda força em sua vida.
    • À maneira típica de Flannery O'Connor, o vendedor de Bíblias revela-se, no final, um muito bom vendedor de Bíblias, anunciando a boa nova da cura e da libertação.
  • Uma diferença fundamental a ser aprendida na Lei do Três é a distinção entre um compromisso negociado tradicional e um autêntico novo surgimento, cujo elemento quase invariável é a surpresa: uma pessoa que entra de fora, uma sincronicidade repentina ou uma complicação inesperada que lança toda a situação num novo campo.
    • Diferentemente de um compromisso que com frequência deixa ambas as partes insatisfeitas e ainda polarizadas, há uma qualidade de “aha” numa solução da Lei do Três que permite que as primeira e segunda forças relaxem e se retirem de seus respectivos postos.
    • Um exemplo histórico ilustra essa mistura característica: numa pequena faculdade de artes liberais progressista da Nova Inglaterra, após uma presidente eleita sob pressão feminista fracassar num ambiente gravemente polarizado, um banqueiro aposentado assumiu interinamente a reitoria e permaneceu por dez anos, durante os quais batalhas se suavizaram, o contentamento retornou e a instituição voltou a crescer numa década lembrada com carinho como de prosperidade e boa vontade sem precedentes.
  • Um novo surgimento nem sempre é o mesmo que uma solução física para o problema em questão: por vezes é simplesmente a infusão de uma qualidade mais sutil de vivacidade, uma resolução no nível imaginal, em cuja luz o significado real da situação é transfigurado.
    • O conto “O Presente dos Reis Magos”, de O. Henry, ilustra essa nuance: o casal de recém-casados que, sem saber, vende o único bem precioso que possui para presentear o outro — ele empenha o relógio de bolso para comprar pentes para o cabelo dela; ela vende o cabelo para comprar uma corrente para o relógio dele — configura uma tríade clássica da Lei do Três.
    • Primeira força é o amor do casal um pelo outro; segunda força é a pobreza; terceira força é a disposição de sacrificar os bens mais preciosos por amor — qualidade identificável como kenosis, o esvaziamento de si mesmo.
    • O novo surgimento é “o presente dos reis magos”: a realidade do amor mútuo transformada em puro ágape e manifestada de maneira inteiramente nova.
  • Os professores do Trabalho são unânimes em avaliar que os seres humanos tendem a ser cegos à terceira força, e Needleman a formulou diretamente: “A terceira força é invisível para os seres humanos no estado ordinário de consciência em que vivem”, especificamente porque a consciência ordinária está condicionada à percepção por diferenciação — ao pensamento de ou/ou — enquanto a detecção da terceira força requer um sentido finamente desenvolvido de ambos/e.
    • A discussão em grupo não chegou a um consenso sobre se a terceira força é descoberta numa situação, criada ou invocada, mas a conclusão emergente foi a de que ela é parteada, e a parteira é a atenção consciente.
    • Uma diretora de agência de serviços governamentais transformou uma sessão anual de defesa orçamentária diante de adjudicadores ao substituir o discurso preparado por agradecimento sincero pelos recursos do ano anterior e detalhamento do bom trabalho realizado, introduzindo assim a gratidão como terceira força faltante e deslocando o campo energético da escassez para a abundância — recebendo ao final o valor integral solicitado.
  • Às vezes a infusão de terceira força chega de forma ainda mais direta, como no caso de um estudante que, numa reunião de negócios que espiralava para fora de controle, abriu-se a uma Sabedoria que pareceu vir de além de si e falar através de si.
    • Ele descreveu a experiência como “pisar no ar e ser sustentado”, com as palavras surgindo sem terem sido cognitivamente preparadas, sem combatividade nem necessidade de vencer argumento, e sem negar nem emendar o que fora dito antes, introduzindo algo novo e restaurando o relacionamento com o cliente.
    • Sua reflexão posterior sugeriu que a “objetividade” é um marcador de campo útil para identificar a terceira força: “A terceira força contém poder transformador porque não toma partido. Não tem um cão na briga. Poderia se dizer que é compassivamente indiferente?”
  • A Lei do Três é aplicável a uma gama tão ampla de disciplinas simplesmente porque é de fato uma lei cósmica — um princípio organizador que “permite ao mundo ser o que é”, nas palavras do Dr. Jyri Paloheimo — e o fato de ser igualmente hábil nos domínios da psique e da matéria pode conter uma pista importante para a cura da cisão entre ciência e religião que atormentou a mente ocidental por mais de quinhentos anos.
    • Uma vez dominada, a Lei do Três tem alavancagem notável em qualquer situação onde processo e mudança estão envolvidos, sendo especialmente brilhante em situações aparentemente em impasse.
    • Aprender a manejá-la é em si mesmo um caminho de transformação consciente, e a energia consciente que ela parece infundir em toda situação que toca é em si mesma um precioso impulso energético para um mundo que se despedaça contra as rochas do ou/ou.
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