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INTRODUÇÃO (RESUMO)

O Hiato de Repouso e a Questão Filosófica do Álcool

Transcorrido exatamente um mês desde a conclusão da primeira série de escritos, período este destinado exclusivamente ao repouso das partes da presença comum subordinadas à razão pura e ao consumo lento e prazeroso das garrafas de velho calvados e armagnac doada por aqueles que compreendiam o verdadeiro sentido da vida, decide-se retomar a atividade literária com o auxílio das forças correspondentes e dos votos de boa vontade dos leitores, visando dar forma inteligível à segunda série de ideias destinadas a construir uma nova realidade na consciência das criaturas semelhantes.

A aparente contradição entre a recuperação da saúde após um acidente quase fatal, que exigia esforço incessante para a transmissão exata dos pensamentos, e o consumo imoderado de álcool durante o período de descanso, suscita o que Mullah Nassr Eddin chamaria de uma questão sutilmente filosófica, cuja resolução exige um veredito sobre a culpa pessoal em não limitar o consumo apenas às garrafas restantes de calvados, mas em combiná-las com duzentas garrafas de armagnac, substâncias cósmicas suficientes para o autor e seus assistentes inevitáveis.

A mudança instintiva do costume de beber em cálices de licor para copos grandes durante este período justifica-se pela necessidade de que a justiça triunfasse no processo de assimilação destas substâncias, permitindo que o ritmo de pensamento se restabelecesse para o início da nova fase de exposição.

A Primeira Sentença Antiga e o Enigma das Partes Constituintes

A introdução da segunda série fundamenta-se na elucidação de sete sentenças antigas preservadas em monumentos, iniciando-se por aquela que afirma que somente merecerá o nome de homem e poderá contar com o que está preparado do Alto aquele que adquiriu dados para preservar intactos tanto o lobo quanto a ovelha confiados ao seu cuidado.

A análise psicoassociativa filológica demonstra que o lobo simboliza o funcionamento fundamental e reflexo do organismo, a ovelha representa o funcionamento do sentimento, e o homem corresponde ao próprio funcionamento do pensamento, o qual, através de trabalhos conscientes e sofrimentos voluntários, deve criar condições para a coexistência dessas vidas heterogêneas e mutuamente alheias.

A compreensão deste preceito é reforçada pela analogia com o enigma popular asiático sobre o transporte de um lobo, uma cabra e uma couve através de um rio, cuja solução correta evidencia que o homem não deve ser preguiçoso nem poupar forças, mas sim realizar travessias adicionais e criar compromissos constantes para conciliar as essências opostas confiadas à razão.

A Revisão do Manuscrito e a Decisão pela Digressão

A tentativa de utilizar um manuscrito elaborado nos primeiros anos de atividade literária como introdução revelou-se inadequada face às alterações realizadas na edição final da primeira série, provocando um estado de profunda reflexão sob as árvores históricas, comparável à sensação de estar mergulhado em galochas até as sobrancelhas descrita por Mullah Nassr Eddin, o que levou à decisão de inserir fragmentos polidos deste material antigo como uma digressão instrutiva sobre a civilização contemporânea.

Reconhece-se que a forma de exposição original, destinada a trinta e seis livros e baseada na quantidade, precisou ser abandonada em favor do princípio da qualidade e da astúcia em ocultar pensamentos sérios sob uma forma exterior atraente, mas os pensamentos contidos na crítica de um inteligente persa idoso sobre a literatura moderna foram considerados valiosos demais para serem descartados.

A Crítica do Persa Inteligente à Literatura Contemporânea

A civilização europeia é caracterizada pelo persa como um intervalo vazio e abortivo no processo de aperfeiçoamento da humanidade, incapaz de transmitir valores à descendência devido à degeneração da literatura em prostituição da palavra, onde a atenção se concentra exclusivamente no polimento exterior e na beleza do estilo em detrimento da qualidade do pensamento.

A literatura atual classifica-se em três categorias vazias: a científica, que apenas recombina velhas hipóteses; a narrativa, que descreve detalhadamente a satisfação do amor degenerado em vício; e a descritiva, produzida por fantasistas que jamais cruzaram a soleira de suas próprias portas, resultando em uma amálgama de versos sem sentido em busca de consonância.

A Degeneração Gramatical e a Perda do Sentido

As gramáticas das línguas da civilização contemporânea são denunciadas como construções artificiais elaboradas por pessoas iletradas em relação à vida real, diferindo das gramáticas antigas formadas gradualmente pelas condições de existência, o que resulta na distorção do sentido e na impossibilidade de transmitir pensamentos exatos.

A incongruência é ilustrada pela ausência, no russo moderno, de uma distinção verbal presente no persa entre os atos de dizer (*diaram*) e falar (*soil-yaram*), obrigando o uso de termos que não correspondem à ação experimentada e levando à compreensão equivocada das sentenças; nota-se que o termo russo arcaico correspondente (*skazivaiou*) foi preservado apenas por populações rurais isoladas da cultura.

Essa artificialidade gramatical é apontada como uma das causas fundamentais para o desenvolvimento unilateral do homem europeu, que cultiva apenas o pensamento predominante em detrimento do sentimento e do instinto, destruindo assim a alma da literatura e a possibilidade de formação de uma razão sã.

A Parábola dos Pardais e a Percepção Asiática versus Europeia

A diferença entre as civilizações antiga e contemporânea é exemplificada pela anedota dos dois pardais, na qual o mais velho lamenta a mudança dos tempos: antigamente, o ruído e o cheiro na rua indicavam a presença de excremento de cavalo, que fornecia alimento substancial; hoje, os automóveis produzem ruído e cheiro de óleo queimado ainda mais intensos, mas não oferecem nada para a satisfação das necessidades essenciais.

Observa-se que os povos da Ásia, isolados da civilização moderna, mantiveram um nível mais elevado de desenvolvimento do sentimento e do instinto, o que lhes permite captar a essência dos objetos observados, ao passo que o entendimento europeu se baseia exclusivamente em uma informação matemática superficial.

O desinteresse gradual dos asiáticos pela literatura europeia, especialmente pelos romances, deve-se ao reconhecimento instintivo de que os estados psíquicos descritos são indignos e degradantes, e que os autores de obras instrutivas carecem de qualquer conhecimento real sobre os assuntos que tratam.

O Jornalismo como Mal Fundamental e a Atrofia da Individualidade

O jornalismo é identificado como a forma mais perniciosa de literatura e o mal fundamental da vida contemporânea, pois acelera a atrofia da vontade e separa ainda mais a função do pensamento da individualidade, impedindo a participação da consciência e estimulando propriedades indignas como a incredulidade, o medo e a hipocrisia.

A literatura jornalística enfraquece a mente humana, tornando-a vulnerável a todo tipo de engano e ilusão, e priva o homem dos fatores que anteriormente permitiam uma vida tolerável e uma relativa cognição de si mesmo.

Exemplos Concretos da Maleficência Jornalística

Relatam-se eventos trágicos testemunhados pessoalmente que comprovam os danos causados pela imprensa irresponsável.

O caso da família armênia envenenada mortalmente após consumir salsichas rejeitadas para exportação, cuja qualidade havia sido falsamente exaltada em artigos pagos por uma firma inescrupulosa.

O episódio da atriz sem talento em Baku, transformada em celebridade através do suborno de repórteres por seu amante, um refinador de petróleo, demonstrando a fabricação artificial de reputações sem mérito artístico.

A história do pintor medíocre glorificado pela imprensa alemã, contratado para decorar a casa de um sobrinho, cujo trabalho resultou em despesas adicionais para restaurar a decoração original por artesãos persas simples.

O suicídio de um casal honesto provocado pela vingança de um crítico literário rejeitado pela esposa fiel, que utilizou sua influência para desacreditar o livro do marido e levá-los à ruína financeira e ao desespero.

A Vacuidade dos Críticos e a Sociedade de Literatos

Denuncia-se a autoridade falsa dos críticos, exemplificada por um crítico musical que desconhecia a natureza do som, e a influência nefasta que exercem sobre a massa ingênua que aceita o que está escrito nos jornais como verdade absoluta, desconhecendo os bastidores comerciais.

A descrição da sociedade de literatos e jornalistas em Baku revela um grupo de jovens efeminados, alcoólatras e viciados, caracterizados por um *esprit de corps* que sustenta o elogio mútuo e a fabricação de falsas celebridades, enquanto na realidade vivem na miséria e furtam restos de comida.

Contrasta-se a libertinagem da imprensa atual com a seriedade da antiga Babilônia, onde os colaboradores dos papiros diários eram idosos qualificados e juramentados, demonstrando que a ausência de controle governamental sobre esta fonte de desmoralização é uma falha grave das administrações modernas.

A Estrutura da Nova Série e os Homens Notáveis

A conclusão da introdução estabelece que a reescrita do material seguirá o conselho de Mullah Nassr Eddin de buscar o útil para os outros e o agradável para si mesmo; o agradável consiste em tornar a existência suportável, evitando o incômodo de responder repetidamente a perguntas ociosas sobre o além e maravilhas do Oriente.

Decide-se organizar a segunda série na forma de contos independentes sobre Encontros com homens Notáveis , inserindo neles as ideias construtivas e as respostas para as questões frequentes sobre a alma, a vontade, o hipnotismo e a origem do sistema do Instituto, delineando simultaneamente uma autobiografia. Define-se um homem notável não pela relatividade da opinião comum, mas como aquele que se destaca pela desenvoltura da mente, pela contenção nas manifestações de sua natureza e pela conduta justa e tolerante para com as fraquezas alheias, sendo o primeiro exemplo a ser apresentado o próprio pai do autor.

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