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Guerra

MOORE, James. Gurdjieff: a biography. Rev. ed ed. Shaftesbury, Dorset: Element, 1999.

  • Ao final da Segunda Guerra Mundial, a supremacia no cenário do Trabalho passou para o grupo francês de Gurdjieff, que emergiu como uma coletividade grande, poderosa e coesa, tendo recebido o manto de sua obra durante um período áureo de ensino, um desfecho tão justo quanto peculiar dado o histórico de frieza da França para com o Trabalho.
    • A ascensão dos franceses sobre seus predecessores ingleses e americanos não foi marcada por triunfalismo, mas por uma modéstia estudada, embora a vitória fosse inegável.
    • O grupo francês, que entrara na guerra como um pequeno pelotão de recrutas, saiu dela como uma força grande e coesa, herdeira legítima do trabalho de Gurdjieff devido ao acesso único que tiveram durante uma fase áurea de ensino.
    • A receptividade francesa ao Trabalho foi tardia e ocorreu num contexto de redescoberta do irracional durante a guerra, quando as pessoas recorriam a profecias em desespero.
  • Nos primeiros dias da guerra, enquanto a população civil lidava com máscaras de gás inadequadas, a preocupação de Gurdjieff voltava-se para seus pupilos enfermos, como Sophie Ouspensky, René Daumal e, principalmente, Georgette Leblanc, que se desesperava por sentir que sua conexão com ele e os 'milagres' haviam se rompido após uma cirurgia de câncer.
    • O período da 'guerra de mentira' foi marcado por ansiedades e burlesco, com a população lidando com máscaras de gás de tamanho único.
    • Gurdjieff enviou presentes a Sophie Ouspensky e acompanhava a luta de René Daumal contra a doença.
    • Georgette Leblanc, após cirurgia para câncer no braço, entrou em profundo desespero espiritual por acreditar que seu tempo com Gurdjieff havia se esgotado e os milagres haviam acabado.
    • Georgette Leblanc deixou Paris em busca de refúgio rural e nunca mais viu Gurdjieff.
  • Enquanto a guerra se arrastava, Gurdjieff esperava ativamente, estocando sua despensa com uma variedade de mantimentos e iguarias, num acúmulo que desafiava a lógica do racionamento e do comércio da época.
    • As prateleiras da despensa de Gurdjieff ficaram abarrotadas de açúcar, farinha, frutas secas, legumes, especiarias, presuntos, bacon e queijos de cabra.
    • Através de Hédiard, ele adquiria iguarias como caviar, halva, figos secos, geleia, doces cristalizados e licores.
    • O teto da despensa era forrado com cebolas, pimentões, enguias secas, esturjão defumado e salsichas de carne de camelo.
  • A imposição do 'black-out' por causa da guerra coincidiu com a idiossincrasia de Gurdjieff, que fechou definitivamente as persianas de seu apartamento, passando a viver numa atmosfera de especiarias orientais sob a luz nua de lâmpadas elétricas, abolindo a distinção entre dia e noite.
    • Gurdjieff manteve as venezianas de seu apartamento fechadas permanentemente, não apenas durante a guerra, mas pelo resto de sua vida.
    • A partir de então, ele habitou um ambiente de especiarias sob a luz discrepante de lâmpadas elétricas, onde dia e noite não mais significavam.
  • O núcleo francês do Trabalho, sob a liderança de Jeanne de Salzmann, reunia-se na casa de Philippe Lavastine, contando com figuras proeminentes, e René Daumal recebeu acesso privilegiado de Gurdjieff para que pudesse escrever “Monte Analogue”, um testamento à literatura francesa sobre o ensinamento.
    • Figuras como Henri e Henriette Tracol, Marthe de Gaigneron, Pauline de Dampier e Bernard Lemaître compunham o grupo que se encontrava com Mme de Salzmann.
    • Gurdjieff deu acesso privilegiado a Daumal devido à sua necessidade desesperada diante do prognóstico médico.
    • Daumal iniciou a escrita de “Monte Analogue”, o primeiro testamento francês ao ensino de Gurdjieff, uma tarefa que perseguiu até o fim da vida.
  • Com a invasão alemã e o êxodo em massa de Paris, Gurdjieff, após ser pressionado a partir, retornou contra a maré de refugiados e reentrou em seu apartamento no momento em que a suástica era hasteada no Arco do Triunfo, demonstrando sua determinação em enfrentar o futuro.
    • A ofensiva alemã em maio de 1940 desencadeou um êxodo em massa de Paris, com milhões de pessoas fugindo para o oeste e sul.
    • Gurdjieff partiu relutantemente sob pressão dos pupilos, mas seu melhor juízo prevaleceu e ele retornou a Paris, reentrando em seu apartamento quando os alemães chegavam.
  • Sob a ocupação alemã, Paris tornou-se um palco com novos atores, e o automóvel de Gurdjieff foi proibido, instaurando-se uma calma estranha na cidade, onde apenas os carros da Gestapo perturbavam uma cena que beirava o lírico.
    • A chegada dos alemães impôs novas regras, incluindo a proibição de carros particulares, suspendendo a carreira de Gurdjieff como motorista.
    • Uma calma estranha e não desagradável se instalou em Paris, com táxis-bicicleta e carruagens puxadas a cavalo, uma cena que evocava a perspectiva dos pardais, já articulada por Gurdjieff.
  • A ocupação foi um período de privação extrema para a maioria dos parisienses, que perdiam peso e recorriam a todo tipo de expediente para sobreviver, enquanto Gurdjieff, com sua engenhosidade e falta de escrúpulos patrióticos, estava em seu elemento para prosperar.
    • O parisiense médio sofria com a desnutrição, perdendo peso e enfrentando um mercado surreal para obter alimentos.
    • A sociedade se polarizou entre os que manipulavam e os que sucumbiam, com práticas que iam da substituição de alimentos à colaboração horizontal e negócios obscuros.
    • A resiliência da agricultura francesa, a esperteza dos camponeses, a corrupção e a engenhosidade dos parisienses criaram um ambiente no qual Gurdjieff nascera para prosperar.
  • Em outubro de 1940, Jeanne de Salzmann apresentou seus protegidos franceses a Gurdjieff, num ambiente de altíssimo risco devido à ocupação, onde qualquer reunião de grupo era perigosa e Gurdjieff, já conhecido das autoridades por suas atividades, passou a ser vigiado de perto.
    • As condições de ensino eram arriscadíssimas, com toque de recolher brutalmente imposto, e reunir-se era flertar com o perigo, dada a presença da Gestapo francesa e as delações anônimas.
    • Gurdjieff, com seu comportamento neutro, negócios obscuros e correspondência estrangeira, era um candidato natural à vigilância, e dossiês sobre ele foram abertos na Sûreté Publique e na Préfecture de Paris.
  • No rigoroso inverno de 1940-41, enquanto os mais fracos morriam, Gurdjieff sobreviveu e ajudou sua 'família' de pessoas vulneráveis, fazendo acordos com alemães, policiais e idealistas do mercado negro para garantir sua existência e a de seus pupilos.
    • Thomas e Olga de Hartmann estavam entre os milhares que tremiam de frio em edifícios abandonados.
    • Gurdjieff sobreviveu e ajudou sua 'família', composta por idosos e pessoas sem recursos, fazendo acordos com diversos tipos, incluindo alemães, para obter comida, tabaco e licor.
  • Gurdjieff dedicava atenção especial às crianças privadas e também a adultos necessitados, como artistas famintos cujas obras de arte, as piores de Paris, ele comprava com generosidade, numa forma de caridade marcada por delicadeza de sentimento.
    • Gurdjieff distribuía doces diariamente para crianças, por quem sentia um amor especial.
    • Ele comprava pinturas de artistas famintos, discutindo cada quadro apreciativamente, e exibia essas obras, que considerava as piores de Paris, em sua galeria peculiar.
  • Gurdjieff recusou-se terminantemente a abandonar seus novos seguidores franceses e Jeanne de Salzmann, rejeitando as pressões e as vias de fuga para a América, numa posição de resistência que contrastava com a de Ouspensky, que deixou seus pupilos ingleses.
    • Olgivanna e os grupos de Orage em Nova York instavam Gurdjieff a se retirar, e havia vias de saída disponíveis, mas ele recusou.
    • A postura de Gurdjieff assemelhava-se à de Jane Heap, que permaneceu em Londres sitiada, lendo as religiões divinas, das quais a de Gurdjieff era uma.
    • Piotr Ouspensky, ao contrário, abandonou seus pupilos em Lyne Place e partiu para Nova York.
  • Gurdjieff via a guerra como uma oportunidade para quebrar a crosta da conformidade e atrair alunos sinceros, uma perspectiva que ele já havia experimentado em Moscou e Petrogrado, e que se confirmou com a invasão alemã da Rússia em junho de 1941.
    • A guerra, embora uma abominação, quebrava a carapaça da conformidade, provocando questões urgentes e libertando energias vitais.
    • A situação de Gurdjieff em Paris era um ensaio do que ele vivera na Rússia durante a Primeira Guerra Mundial.
  • Em outubro de 1941, Georgette Leblanc faleceu de câncer, em seus últimos dias alimentada pela leitura de “Beelzebub” e pela esperança da vinda de Gurdjieff, que a chamou de 'amiga' num cartão postal, proporcionando-lhe uma última e transfigurada constatação.
    • Georgette Leblanc passou seus últimos dias numa casa de campo perto de Cannes, sem morfina, mas lendo “Beelzebub” e rezando.
    • Em seu delírio, ela acreditava que Gurdjieff estava vindo e compartilhando seu sofrimento, mas ele estava em Paris, sem meios de viajar.
    • Um cartão postal de Gurdjieff, chamando-a de 'amiga', transfigurou seu rosto, e ela morreu dois dias depois.
  • Do seu apartamento, Gurdjieff observava a guerra com distanciamento, enfrentando o frio intenso, a escassez de carvão e as rações alimentares reduzidas, mas conseguiu crédito em lojas como a Hédiard ao inventar a história de um poço de petróleo doado por um rico pupilo americano.
    • Gurdjieff manteve-se distante das hesitações morais e das disputas intelectuais da época, concentrando-se nas realidades imediatas.
    • O inverno era rigoroso, a eletricidade falhava e o carvão era escasso, com os pupilos trazendo pedaços de coque e briquetes.
    • Com as rações oficiais reduzidas à metade do necessário para viver, Gurdjieff forjou uma história sobre um poço de petróleo para obter crédito na Hédiard e em lojas locais.
  • Na primavera de 1942, Gurdjieff agiu rapidamente para proteger os judeus de seu círculo, aconselhando-os a fugir ou se esconder, numa medida que se provou trágica e acertada diante da escalada da perseguição nazista e da implementação da 'Solução Final'.
    • Com a imposição da estrela amarela aos judeus, Gurdjieff instou os mais próximos a escapar para a Zona Livre ou 'ir para a clandestinidade'.
    • Os judeus escondidos trabalhavam fazendo pequenos artefatos que seus protetores vendiam para comprar comida no mercado negro.
    • A virulência do antissemitismo na imprensa e a conferência de Wannsee, que planejou a 'Solução Final', confirmaram a gravidade da situação.
  • René e Vera Daumal, devido à ascendência judaica da família, ficaram isolados de Gurdjieff na Zona Livre, onde passaram fome e René lutava para escrever “Monte Analogue”, mantendo um contato tênue com escritores da órbita de Mme de Salzmann.
    • Os Daumal vagavam pela Zona Livre, reduzidos a beber água quente para enganar a fome.
    • Daumal escrevia sobre a lembrança do homem que o despertara, reconhecendo que não sabia como lembrar.
  • Em meados de 1943, mais pupilos franceses encontravam seu lugar no mosaico do ensino de Gurdjieff, com as classes de Movimentos na Salle Pleyel ganhando vitalidade e as reuniões em seu apartamento tornando-se cada vez mais concorridas, num contraste gritante com a pobreza do mundo exterior.
    • Gurdjieff ministrava aulas de Movimentos na Salle Pleyel baseadas no eneagrama para uma nova geração de alunas.
    • As leituras de “Beelzebub” e os jantares no apartamento reuniam dezenas de pessoas, que se acomodavam em bancos pequenos e improvisavam lugares para comer.
    • A refeição cerimonial de Gurdjieff contrastava fortemente com o mundo de racionamento lá fora, onde o arroz era um item farmacêutico.
  • Os jantares de Gurdjieff em Paris, com sua complexa coreografia de papéis como Diretor, Verseur, Egout e Poubelle, e os 'Brindes aos Idiotas', criavam uma qualidade incalculável de experiência, onde o sentido comum era suspenso e os atos cotidianos tornavam-se momentosos.
    • Gurdjieff cozinhava e servia pratos georgianos e curdos que deviam ser comidos com os dedos.
    • O papel do Diretor era complexo e exigia controle total e memória apurada sob o olhar de Gurdjieff.
    • A disposição dos lugares à mesa, com funções como 'Esgoto' e 'Lata de Lixo', e a presença de 'Esgoto para Doce' adicionavam ao surrealismo.
    • A reunião à mesa provocava uma reação em cadeia que abolia o sentido comum, tornando a comida e a fala atos momentosos.
  • A refeição de Gurdjieff era seguida por um intercâmbio formal em grupo, no qual sua pergunta 'Tem algo a me oferecer?' lançava os pupilos de volta a si mesmos, numa espécie de confronto com o espaço infinito, onde apenas perguntas reais sobre a própria falha interna mereciam uma resposta paternal.
    • A pergunta de Gurdjieff constrangia os pupilos a se examinarem.
    • Se uma observação tivesse substância, Gurdjieff respondia como um pai; se promissora, ele delegava a resposta a Jeanne de Salzmann; se 'inventada', sua ira caía como um trovão.
  • Entre maio e agosto de 1944, Gurdjieff perdeu René Daumal e Luc Dietrich, dois jovens autores cujo endosso poderia ter lhe garantido reconhecimento na França do pós-libertação, mas ambos sucumbiram a doenças, deixando obras inacabadas.
    • René Daumal morreu aos trinta e seis anos, tendo chegado apenas ao Capítulo 5 de “Monte Analogue”.
    • Luc Dietrich, após uma crise de nervos e um ferimento na Normandia, morreu aos trinta e um anos, com Gurdjieff ao seu lado, assegurando-lhe que toda a sua vida fora uma preparação para aquele momento.
  • Com a libertação de Paris em agosto de 1944, Gurdjieff permaneceu na cidade, protegido de represálias por sua humanidade para com os judeus, mas foi preso por posse de dólares, embora tenha sido liberado após se passar por um velho ingênuo que não entendia de câmbio.
    • Durante a insurreição, Gurdjieff enfrentou dificuldades para ir ao banho turco, mas foi poupado da destruição da cidade.
    • Apesar de seus negócios com alemães, Gurdjieff foi indenizado por sua humanidade e apoio a judeus.
    • A polícia francesa, no entanto, cumpriu um mandado de busca e o prendeu por posse de dólares, mas ele foi solto no dia seguinte após ser apresentado como um pobre velho que mal falava francês.
  • No inverno rigoroso do pós-guerra, o trabalho sério de Gurdjieff continuou com seu núcleo francês, testado tanto pelo professor exigente quanto pela privação implacável, até a chegada da primavera e o fim da guerra na Europa.
    • O inverno de 1944-45 foi rigoroso, com eletricidade irregular, comida escassa e gelo nas ruas.
    • Com a notícia do suicídio de Hitler e o Dia da Vitória na Europa, o 'Professor de Dança' havia sobrevivido.
  • Na estimativa do pós-guerra em Paris, Gurdjieff não contava nada, mas seu apartamento demonstrou seu poder magnético extraordinário com o retorno de Kathryn Hulme e Fritz Peters, cada um recebido de forma única pelo velho homem.
    • A atenção do público estava voltada para o julgamento de Pétain e para Sartre no Café de Flore.
    • Kathryn Hulme retornou de uniforme e foi recebida por Gurdjieff com emoção e o apelido de 'Kroko-deel'.
    • Ao saber do Holocausto, o rosto de Gurdjieff escureceu com uma 'santa ira' pela desumanidade repetitiva do homem para com o homem.
    • Fritz Peters, em colapso nervoso, foi recebido por Gurdjieff com um abraço e um 'My son!'.
  • O encontro com Fritz Peters revelou a capacidade de Gurdjieff de transferir energia, curando o jovem de sua exaustão nervosa às custas de seu próprio esgotamento temporário, um vislumbre do 'Grande Acumulador' em ação.
    • Peters sentiu uma estranha ascensão de energia quando uma luz azul elétrica pareceu emanar de Gurdjieff e entrar nele, curando seu cansaço.
    • No mesmo momento, o corpo de Gurdjieff relaxou e seu rosto ficou cinzento, como se drenado de vida.
    • Após se retirar por quinze minutos, Gurdjieff retornou com aparência jovem, alerta e cheio de bom humor.
  • As visitas de Kathryn e Fritz sinalizaram o fim do confinamento de Gurdjieff e prenunciaram o próximo ato dramático do mito, no qual ele, o bom pastor, deveria reunir seu rebanho disperso num único redil, com tudo em jogo.
    • A guerra havia sido ambivalente para Gurdjieff: ele sobreviveu e seu grupo francês se fortaleceu, mas “Beelzebub” ainda não estava publicado e a integração com os grupos inglês e americano prometia mal-entendidos.
    • A tática de provocar atrito era agora impensável para o octogenário; o bom pastor, a qualquer custo pessoal, devia reunir seu rebanho disperso.
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