User Tools

Site Tools


autores-obras:lipsey:pauwels

Louis Pauwels

LIPSEY, Roger. Gurdjieff Reconsidered: The Life, the Teachings, the Legacy. Berkeley: Shambhala, 2019.

  • Louis Pauwels foi o adversário mais interessante e eficaz de Gurdjieff, tendo percorrido o mundo literário e jornalístico francês do pós-guerra como romancista, ensaísta, inovador cultural e longevo diretor do Le Figaro Magazine, chegando a ser eleito membro da Académie des beaux-arts em 1985.
    • Na meia-idade, como coautor em 1960 do best-seller Le Matin des magiciens e como diretor fundador da revista bimensal Planète na mesma década, Pauwels funcionou como flautista de Hamelin que conduzia os jovens não às drogas psicodélicas, mas à expansão e ao enriquecimento de sua visão do possível.
    • Le Matin des magiciens oscilava entre ciência e ficção científica, história e fantasia, psicologia e devaneio, com ideias cuidadosamente apresentadas ao lado de outras extravagantes, e sobre Gurdjieff o livro estava horrivelmente errado, chegando a sugerir falsamente que ele havia influenciado intelectuais nazistas.
    • Em anos posteriores Pauwels tornou-se sincero convertido ao catolicismo e editorialista politicamente conservador de ampla leitura, permanecendo, como na juventude, um buscador espiritual.
  • Pauwels foi introduzido no círculo de Gurdjieff em 1948 pelo compositor pioneiro da música concreta Pierre Schaeffer e participou por dezoito meses de um grupo liderado por Jeanne de Salzmann, vendo pouco de Gurdjieff e apenas na Salle Pleyel durante as aulas de Movimentos.
    • Sua experiência como participante foi mista e por fim desastrosa: ao cabo desse período ele foi internado às pressas, emagrecido, com pensamentos suicidas e um vaso sanguíneo rompido num olho, males que atribuiu tanto ao ensinamento de Gurdjieff quanto à sua própria abordagem falha.
    • O próprio Pauwels escreveu: “Os discípulos verdadeiramente angustiados se aproximavam do ensinamento por meio de sua angústia, e… os problemas e perturbações sofridos por alguns — entre os quais eu me incluía — foram causados principalmente por sua maneira angustiada de abordar tudo.”
    • O relato de Pauwels sobre uma aula de Movimentos descrevia movimentos contraditórios com todos os membros, cálculos mentais complicados com regras que ultrapassam as da aritmética ordinária e concentração emocional simultânea num tema dado: “Saíamos dessas sessões destroçados e curiosamente esvaziados de nossos 'eus' ordinários, extremamente receptivos a 'algo mais' e como que investidos de uma liberdade divina. Estávamos, de fato, desumanizados.”
    • J. G. Bennett recordou que Jeanne de Salzmann advertiu sobre forçar o organismo demasiado depressa, mencionando que uma ou duas pessoas no grupo francês não haviam escutado Gurdjieff e tiveram maus resultados, e que o próprio Gurdjieff sempre se relaxava de tempos em tempos com viagens e outras coisas apenas para descansar e se divertir.
    • Grunwald observara por conta própria que toda descoberta permitia um passo adiante apenas quando tinha caráter espontâneo, e que qualquer coisa forçada tornava-se artificial e enganosa: “Toda tensão, toda expectativa impaciente levava infalivelmente a um impasse.”
  • Em 1954 Pauwels publicou o livro Monsieur Gurdjieff, com o subtítulo Documentos, Testemunhos, Textos e Comentários sobre uma Sociedade Iniciática Contemporânea, declarando na introdução ser urgente reunir documentos e testemunhos claros sobre a pessoa, a doutrina e a influência de Gurdjieff, bem como sobre as atividades dos grupos por ele fundados, a fim de levar ao grande público tanto seus perigos quanto sua importância incomum.
    • Michel Random, biógrafo de Luc Dietrich, escreveu que Pauwels foi “o primeiro na França a levantar le problème Gurdjieff e a atrair o interesse público por esse controverso mestre espiritual”, mas o autor do texto considerado aqui entende que Pauwels criou le problème Gurdjieff — mais seu problema do que de qualquer outra pessoa.
    • O livro surgiu nos anos da Grande Prece entre os discípulos mais próximos de Gurdjieff, quando eles reavaliavam o que havia sido e o que estava por vir, e a última coisa de que precisavam era de um escrutínio público perturbador — exatamente o que Pauwels entregou.
    • Publicado em tradução inglesa em 1972 com a adição de ilustrações surrealistas eróticas do artista francês Félix Labisse, o livro teve pouco impacto no mundo anglófono, mas na França, onde a vida literária e cultural concentra-se em Paris e algumas outras cidades, um grito da Margem Esquerda é ouvido em todo lugar.
  • O livro é uma maravilha de ambivalência inclinada para a rejeição e o alarme: Gurdjieff era um professor de importância única — e prejudicial; o ensinamento começou a mostrar ao Ocidente como assimilar verdades esotéricas e orientais — mas levou alguns discípulos a ser “acometidos por doenças estranhas, em alguns casos fatais.”
    • Pauwels foi imparcial o suficiente para incluir “testemunhos e comentários” eloquentemente positivos, mas eles são muito superados pelos negativos, e no que concerne a Katherine Mansfield — teste sensato da perspectiva de Pauwels — ele foi implacável e inverídico, sobrepondo sua própria experiência angustiada à experiência bem diferente de Mansfield.
    • Pauwels transmitiu e ampliou algo terrível que lera em algum lugar sem questioná-lo, atribuindo a Gurdjieff a frase “Eu não conhecer” quando perguntado sobre Mansfield, como se para ele ela não houvesse alcançado existência real — afirmação que, segundo o texto aqui considerado, nada tem a ver com Mansfield ou Gurdjieff e tudo a ver com a angústia de Pauwels.
    • René Zuber recordou o jovem Pauwels projetando sobre a silhueta de Gurdjieff vista à distância nos corredores da Salle Pleyel “seu medo ancestral do bicho-papão” e anotou em seu diário: “A ideia do mago negro ainda existe no inconsciente coletivo ocidental judaico-cristão. G. preencheu essa caixa vazia.”
    • Grunwald tomou Pauwels como modelo do que não fazer ao escrever seu próprio livro, afirmando que “os escritores profissionais viram em Gurdjieff apenas sua própria imagem no espelho” e que “o livro de L. Pauwels sobre Gurdjieff o mágico fornece a melhor prova possível: as grosseiras inverdades que contém descrevem apenas seu autor.”
  • O livro abalou Madame de Salzmann e o círculo em torno dela, e em abril de 1954 ela escreveu ao arquiteto inglês George Adie que pessoas como Pauwels, incapazes de extrair qualquer proveito das ideias, sentiam-se ameaçadas por elas e desejavam destruir sua força, acrescentando que “a melhor resposta será a publicação dos livros — espero publicar muito em breve os Homens Notáveis.”
    • O livro de Pauwels teve dois impactos duradouros: quando o grupo francês adquiriu uma sede para o ensinamento em Paris em 1963, o nome de Gurdjieff não figurou nem no nome legal nem no nome corrente da instituição — o ensinamento de Gurdjieff em Paris foi assim empurrado para a clandestinidade por Pauwels, situação corrigida anos depois com a criação do Institut G. I. Gurdjieff.
    • O segundo impacto foi que o livro, com sua mistura de documentos históricos válidos e interpretações frequentemente derisórias ou infundadas, tornou-se fonte para críticos subsequentes como Whitall Perry e contribui ainda hoje, em segunda ou terceira mão, para o desdém casual de alguns formadores de opinião.
    • Em 1979, Madame de Salzmann e seus colegas na França colaboraram com o jornalista de televisão Henri de Turenne para criar um programa sobre Gurdjieff com base em entrevistas filmadas com Tracol, Zuber, Michel de Salzmann e outros — resposta a Pauwels mais de vinte anos depois.
    • Zuber anotou em seu diário as razões da demora: “Assim que falamos de G., entramos no território mais íntimo.”
    • Entre as crueldades e estupideces do livro estava um obituário inverídico: Pauwels escreveu que Gurdjieff morreu “tendo perdido a vontade de viver” e que “nos últimos tempos de sua vida Gurdjieff parecia ter abandonado o ensinamento, seja por fadiga, seja por desgosto das outras pessoas.”
  • Havia algo atuando em Pauwels, reconhecido por ele apenas de tempos em tempos mas claro como o dia para leitores dispostos a acompanhá-lo de 1954 em diante, como revelam episódios e escritos posteriores.
    • Sua filha Marie Claire recordou que, nos primeiros tempos como diretor do Le Figaro Magazine, Pauwels explicou a ela que “o esforço não conta, apenas o super-esforço conta” — expressão puro Gurdjieff, originária da exposição russa e do Prieuré, jamais esquecida.
    • Em 1978, num livro intitulado O Aprendizado da Serenidade, Pauwels republicou como frontispício um retrato seu em meditação, feito na juventude, com a legenda: “Du temps que j'étais à l'école de Gurdjieff” — “da época em que eu estava na escola de Gurdjieff” — e grande parte do livro se vale de Gurdjieff sem mencioná-lo.
    • Pauwels escreveu em 1978: “Gurdjieff era um Sócrates bárbaro, mas foi naquele caminho que aprendi mais”, e ao publicar em 1974 um credo em extensão de livro (Ce que je crois), o que ele acreditava era em grande parte o que aprendera no círculo de Gurdjieff.
    • No credo de 1974 Pauwels escreveu: “Distingo afinal apenas dois tipos de homens. Aqueles (os mais numerosos) para os quais a realidade é dual: sua pessoa e o mundo. E aqueles (sou um deles) para os quais a realidade é tripla: sua pessoa; o mundo; e uma presença a si mesmos e ao mundo que é mais do que sua pessoa e mais do que o mundo.” E ainda: “Acredito no invisível. Mas para mim o invisível é apenas o visível aguardando atenção. A atenção é a faculdade-chave.”
    • No novo prefácio de 1996 ao seu livro, Pauwels escreveu: “Gurdjieff era um verdadeiro mestre? Sem dúvida. E um bom mestre? Certas pessoas dizem ter sido destruídas por ele. E eu? Eu também fui um pouco destruído. Mas também um pouco feito.”
    • Henri Tracol, numa conversa de 1962, disse sobre Pauwels e outros que haviam deixado o círculo batendo a porta, zombando ou cuspindo: “Como quer que seja, todos permanecem objetivamente ligados a nós, e nós a eles. Fazem parte da mesma aventura.”
autores-obras/lipsey/pauwels.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki