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Estudos sobre o Eneagrama

  • A citação de Gurdjieff sobre conhecer tudo a partir de muito pouco resume a natureza do eneagrama: uma experiência desse pouco que exige muita vivência para ser compreendida e que se torna fonte inesgotável de entendimento e inspiração.
    • O eneagrama permite que os processos de pensamento se moldem tanto à forma do mundo quanto à do próprio esseral de quem o usa.
    • É um instrumento que permite ver quando e como os eventos se conformam às leis cósmicas, reconhecendo o que é possível e o que é impossível nos empreendimentos humanos.
  • O eneagrama é um instrumento para alcançar percepção e mentação triádicas, pois enquanto os processos mentais ordinários são lineares e sequenciais, o mundo em que se vive é tríplice.
    • Segundo Gurdjieff, a tridimensionalidade é uma das “Leis Cósmicas Sagradas Fundamentais”.
    • Qualquer pessoa que deseje compreender a si mesma e ao mundo em que vive deve estudar essa lei.
  • O pensamento linear impede que se veja o conjunto do que está acontecendo ao redor, porque pensar em linha única ou por associação faz perder episódios significativos e impede a compreensão de como os processos se desenrolam.
    • O pensamento linear não é um obstáculo grave para processos que são eles mesmos lineares, como a maioria dos do mundo material.
    • Ele falha quando se tenta pensar sobre o homem e sua vida, pois estes não são lineares.
    • O homem é muito complexo e sua vida é sempre composta de diferentes processos que não podem ser separados sem falsificação.
    • O mundo espiritual é totalmente não linear, razão pela qual normalmente não se consegue pensar sobre ele.
    • Para mudar o modo de pensar, é preciso reconhecer que não se trata apenas de olhar ao longo de várias linhas ao mesmo tempo, mas de reconhecer que há estrutura no que se observa.
  • O exemplo da preparação de uma refeição na cozinha de Sherborne ilustra a natureza tríplice dos processos: há o que acontece com o alimento, o que acontece na própria cozinha e o que acontece com as pessoas envolvidas.
    • O óbvio é ver o processo de preparar uma refeição como transformação do alimento, mas isso não é a história toda.
    • A cozinha precisa estar em certo estado de preparação, e esse estado precisa ser mantido.
    • Não basta ter cozinheiros: alguns precisam cumprir o papel de ajudantes de cozinha e faxineiros, cuja tarefa é manter as condições que permitem que a refeição seja preparada.
    • O pensamento linear assume que apenas o processo de cozinhar é importante e ignora a necessidade de manter a ordem na cozinha, a limpeza dos utensílios e o fornecimento do necessário.
  • O processo completo de cozinhar uma refeição não se limita às séries de eventos na cozinha e com o alimento, sendo necessário considerar também o que acontece com as pessoas envolvidas.
    • Quando uma refeição é preparada em escala relativamente grande, muitas pessoas precisam ser levadas em conta: os cozinheiros, os ajudantes, os que preparam a mesa e toda a comunidade que vai comer.
    • Essas pessoas precisam comunicar-se, entender as necessidades umas das outras e, se necessário, trocar de papéis.
    • Os que cozinham tornar-se-ão os que comem.
    • Quando algo dá errado, frequentemente se trata de uma “má relação” entre cozinheiros e ajudantes, ou de falta de informação sobre quem estará presente e o que pode comer, resultando em excesso ou escassez.
  • Os três processos da cozinha, do alimento e das pessoas são distintos em natureza e interdependentes, e sua interação está sujeita à lei cósmica que se exemplifica em todas as escalas.
    • Cada um dos três processos pode ser pensado linearmente, mas cada um é qualitativamente distinto dos outros e nenhum substitui o outro.
    • Sem cozinha, utensílios, fogo, alimento e pessoas para quem cozinhar, não há evento de cozinhar uma refeição.
    • É principalmente pela experiência que se aprende pouco a pouco o que é necessário para que os três processos funcionem juntos.
  • Os três processos exibem ritmos distintos: a cozinha passa por um ciclo que se completa e retorna ao estado inicial; o alimento passa por transformações irreversíveis; as pessoas não seguem nem o ciclo nem a mudança irreversível.
    • Quando tudo está organizado, a cozinha começa limpa, com os utensílios em seus lugares, e ao final da refeição retorna à condição inicial, completando um ciclo.
    • O alimento muda de natureza, passando de cru a cozido, sem retornar ao estado primitivo.
    • As pessoas, se desempenham seus papéis sem se perder no processo, permanecem livres e independentes, sendo elas que tornam o processo possível.
    • Se as pessoas se identificam emocionalmente com o que deu errado, ou saem exaustas, de mau humor ou excitadas, energia foi perdida e elas foram, por assim dizer, cozidas junto com o alimento.
  • Os diferentes tipos de processos e a estrutura em que trabalham juntos são raros de se encontrar em sua completude, pois a maioria das pessoas vive num nexo complicado de processos parcialmente completos.
    • Onde um processo precisa ser completado, essa estrutura tríplice se destaca claramente.
    • Isso não é acidental: é a operação de leis cósmicas que se exemplificam em toda escala, grande ou pequena.
  • O homem possui três naturezas para ser completo: a natureza corporal, a natureza volitiva ou espiritual e a natureza esseral ou da alma, que se correspondem respectivamente à cozinha, à refeição e às pessoas que cozinham.
    • O corpo passa por um ciclo do nascimento à morte.
    • A refeição que se cozinha na vida é a alma, cuja matéria-prima é toda a experiência vivida.
    • O espírito ou vontade busca fornecer a si mesmo o instrumento da alma do mundo.
    • Nessa escala maior, o planeta é como a cozinha, a vida sobre a Terra é o alimento em processo de transformação, e há uma Vontade ocupada em produzir desta Terra um todo vivo para servir a um grande propósito ou banquete cósmico.
  • O primeiro passo para compreender o eneagrama é apreender a similitude universal dos eventos, pois onde a natureza tríplice dos eventos não está presente falta uma dimensão e algo é irreal.
    • Olhar para a situação atual da humanidade sem o eneagrama em mente leva à suposição de que a refeição se cozinha sozinha, como num vácuo.
    • Com o eneagrama, percebe-se que isso não pode ocorrer no vácuo e que os seres humanos, no que diz respeito ao processo mundial, são apenas alimento meio cozido.
  • No próprio corpo humano encontra-se o exemplo dos três tipos de alimento: a comida grosseira, o ar e as impressões, que se correspondem respectivamente à cozinha, ao alimento e às pessoas.
    • A comida grosseira diz respeito ao estado do organismo corporal, não ao alimento da alma.
    • A frase de Jesus a Satã, “O homem não viverá só de pão, mas de toda palavra que procede da boca de Deus”, fornece a pista: não é o pão, mas a respiração que alimenta a alma.
    • Gurdjieff chama o ar de “nosso segundo alimento-esseral”.
    • O alimento espiritual é destilado da experiência de vida.
    • A transformação humana depende da maneira como se assimilam as energias derivadas desses três alimentos.
  • A transformação do ar como alimento da alma foi perdida do entendimento e do conhecimento humano há muito tempo, restando apenas vestígios de um conhecimento antigo preservados nas línguas.
    • Em latim, anima significa tanto respiração quanto alma.
    • Em árabe e hebraico, ruh e ruach também significam respiração e alma.
    • Em sânscrito, a raiz “tma”, que se refere à respiração, dá origem a atman, o si mesmo ou alma.
    • Nas línguas turanenses, a raiz “tang” aparece em palavras para ar, céu e nuvens e também no nome do Grande Espírito, Tangri.
    • Os nômades da Ásia Central adoravam Ar e Respiração como o Poder do Espírito, fonte de toda vida e sabedoria.
    • Quanto mais se recua no tempo, mais forte é a evidência de uma crença universal na correlação entre respiração, o princípio vital, e a alma do homem.
  • O terceiro tipo de ação diz respeito à experiência, e o que importa nela é onde está a Vontade no modo de perceber, isto é, em que medida a pessoa está desapegada e livre em toda essa experiência.
    • Não basta tratar ar, alimento e impressões como matérias-primas que passam por transformações da mesma maneira.
    • Três processos totalmente distintos são indispensáveis para o homem e para suas relações com os outros.
    • Eles só podem ser compreendidos se a maneira como trabalham juntos for apreendida.
    • Gurdjieff afirmou, e isso se encontra em muitas tradições, como no Rig Veda, que é pela respiração que a alma do homem nasce.
    • Ao olhar para a própria transformação, a pessoa não consegue ter o desapego necessário para ocupar a posição que o cozinheiro ocupa na cozinha.
  • O eneagrama não começa a ter qualquer significado antes que se apreenda a distinção e a interdependência dos três processos, pois a natureza da criação da qual fazemos parte é uma combinação do que está acontecendo, a quem está acontecendo e como está acontecendo.
    • Esses três componentes, chamados de função, ser e vontade, entram em tudo.
    • Não são redutíveis uns aos outros.
    • Obedecem a leis semelhantes, mas as leis funcionam de modo diferente para cada um deles.
  • O aspecto funcional de todo evento completado é rítmico e cíclico, pois todo funcionamento do organismo se dá em ciclos: respiração, batimento cardíaco, atividade e repouso, nascimento e morte.
    • Onde a função não parece ser cíclica, ou é um processo interrompido ou se está observando uma pequena parte de um ciclo maior.
  • O ser não retorna a si mesmo nem passa por progressão cíclica de transformação, estando sempre em processo de integração ou desintegração, evolução ou involução, movendo-se em direção à unidade ou à multiplicidade.
  • A vontade apresenta uma dificuldade fundamental que torna inadequadas até as perguntas mais simples sobre sua existência, mudança ou unidade, pois as distinções habituais não se aplicam a ela.
    • Perguntar se a vontade existe ou não, se muda ou permanece a mesma, se é una ou múltipla, resulta em questões sem sentido.
    • A água na terra é uma e a mesma em todo lugar, tomando muitas formas conforme as condições, mas sua ação básica é sempre a mesma: é um fluido neutro que torna possível uma variedade infinita de transformações sem ser ela mesma transformada.
    • De modo semelhante, pode-se dizer que há uma vontade que se fragmenta em muitas e muitas vontades que se integram em direção a uma única, mas isso descreve apenas como a vontade se manifesta através do ser.
  • Os três processos, função, ser e vontade, aparecem em diferentes formas: no homem fala-se de corpo, alma e espírito; na cozinha há a própria cozinha, o alimento e as pessoas que vão comer.
    • Em geral há algo que se pode chamar de circunstâncias, condições ou lugar.
    • Há algo que passa por transformação.
    • Há algo que provoca essa transformação ou que usa o que é transformado.
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