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Estilo e Terminologia de Gurdjieff
Gurdjieff. Fazendo um Novo Mundo
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Aqueles que encontram Gurdjieff pela primeira vez em Relatos de Belzebu ficam desconcertados com o estilo e os neologismos, mas há razões precisas para essa escolha literária deliberada, pois a clareza e a consistência no discurso quase sempre sacrificam a flexibilidade da expressão e a profundidade do significado.
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Gurdjieff ignorava as regras da gramática, da lógica e da consistência ao falar, e misturava francês e inglês indiscriminadamente.
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Como oriental, e especialmente como armênio, tinha interesse intenso pelo uso das palavras e se deleitava em discussões filológicas.
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Como suas ideias derivam sua significância muito mais da amplitude e profundidade do que da consistência lógica ou precisão factual, ele foi quase compelido a se expressar em termos novos e surpreendentes.
O estilo de Gurdjieff não resultava de incapacidade de escrever bem, como demonstrado em Encontros com Homens Notáveis, mas cada obra pertence a uma categoria diferente, e Relatos de Belzebu constituem um experimento em nova forma literária que combina o caráter alusivo das fábulas orientais com o sabor pungente da sátira ocidental.-
Encontros com Homens Notáveis é escrito em estilo narrativo direto, mas cada capítulo contém mensagens ocultas que poucos leitores conseguiram discernir.
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A Terceira Série vai de relatos pessoais claros a passagens profundamente obscuras transcritas de manuscritos antigos.
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Relatos de Belzebu incluem um elemento encontrado apenas na literatura sagrada, como o Evangelho de Mateus, o Tao Te King ou o Bhagavad Gita: a apresentação de um ensinamento claro o suficiente para permitir ao leitor entrever significados mais profundos que desafiam a lógica.
A profundidade de Relatos de Belzebu é tal que o próprio autor, tendo lido a obra quarenta ou cinquenta vezes, sempre descobriu novos níveis de significado, o que torna difícil ajudar quem não estudou seriamente as ideias, e ninguém sem auxílio conseguiu penetrar profundamente nas passagens cruciais.-
Após a morte de Gurdjieff, o autor foi solicitado por antigos alunos a escrever um comentário sobre Relatos de Belzebu, mas quase todos concordaram que seria um erro publicá-lo.
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Se Gurdjieff tivesse pretendido que seu significado fosse facilmente acessível, teria escrito o livro de forma diferente.
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Quando passagens-chave eram assimiladas com demasiada facilidade, Gurdjieff as reescrevia para enterrar o cão mais fundo; ao ser corrigido por quem dizia que ele deveria dizer enterrar o osso, ele respondia que não é o osso, mas o cão que se deve encontrar, sendo o cão Sirius, a estrela-cão que na tradição zoroastriana representa o espírito da sabedoria.
Os segredos de Relatos de Belzebu precisam ser desenterrados pela própria compreensão do leitor, pois os pontos mais sutis não sobrevivem à tradução para linguagem simples e devem ser apreendidos diretamente pela combinação de experiência passada e consciência imediata, o que Gurdjieff chama de contemplação.-
A contemplação é o único meio de atingir a razão da compreensão.
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Tornar as coisas mais fáceis prejudicaria, em vez de ajudar, o processo de conduzir o estudante à contemplação.
Muitas histórias em Relatos de Belzebu que na superfície parecem sátiras datadas da cultura do início do século XX contêm, numa leitura mais intuitiva, insights significativos sobre o processo pelo qual o homem pode encontrar seu caminho para fora da confusão da vida moderna.-
Alguns dos ataques mais violentos e aparentemente irrelevantes à estupidez humana devem ser lidos como direções para a auto-observação e a autodisciplina.
O dispositivo de introduzir a condição humana pelos olhos de Belzebu, um ser tricerebral mortal vindo do centro distante do universo e exilado no sistema solar por razões alheias aos assuntos humanos, coloca o leitor constantemente na perspectiva incomum de um observador extraterrestre.-
Anjos e arcanjos têm natureza não dividida e por isso têm dificuldade de compreender os sentimentos dos mortais ordinários, cometendo erros por não fazerem concessões.
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Há também homens encarnados de Cima, Indivíduos Cósmicos históricos como Jesus, Maomé, Buda e Moisés, e também míticos como o Santíssimo Ashiata Shiemash.
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Personagens femininas não desempenham papéis significativos em Relatos de Belzebu e muito pouco é dito sobre a vida das pessoas comuns.
Para reforçar a perspectiva extraterrestre, a linguagem é entremeada de palavras artificiais, neologismos, artifícios onomatopeicos e sintaxe incomum, havendo mais de duzentas palavras que não pertencem a nenhum idioma.-
Kesdjan deriva do persa e significa recipiente da alma; triamazikamno vem do grego e significa ponho três juntos.
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Heptaparaparshinok tem derivação mista, com raízes armênias irreconhecíveis para a maioria dos leitores ocidentais.
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Em Vichy em 1949, Gurdjieff apontou para uma placa de loja e disse ser ali que havia retirado o nome Boulmarshano.
Das palavras fabricadas, apenas cerca de vinte possuem significado especial e profundo, sendo o Trogoautoegocrat o mais importante para compreender a cosmologia de Gurdjieff, com derivação simples mas significado sutil a partir do grego moderno: trogo como “eu como”, auto como “eu mesmo”, ego como “eu” e cratizo como “mantenho”.-
Deus tornou-se em grande parte independente da Criação tornando-a relativamente independente dele.
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A esperança que o Pai Criador depositou no homem, como em todas as outras espécies tricerebrais, é a de que sejam auxiliares potenciais na governança do mundo em expansão.
O Trogoautoegocrat é descrito de maneiras diversas como princípio, lei, emanação do Sol Absoluto e como meio de estabilizar a Criação, e esse uso das palavras é desconcertante em inglês e em qualquer língua indo-europeia que distinga as categorias lógicas das partes do discurso.-
Em turco não há tal distinção, e Gurdjieff claramente se sentia à vontade nessa língua, o que leva a suspeitar que seu contato com seus professores sufis se deu em turco.
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Ele não demonstra sinais de ter conhecido o persa.
Gurdjieff usa toda sorte de imagens para transmitir suas intenções, sendo suas personagens imagens que mostram aspectos da natureza humana ou sobre-humana que ele deseja retratar, e não pessoas ou tipos reais.-
Em Encontros com Homens Notáveis, Pogossian representa o homem que trabalha sobre si mesmo pelo corpo, Yelov pela mente e Bogachevsky pelos sentimentos.
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Os incidentes, mesmo quando históricos, não foram inseridos por razões históricas, mas para evocar imagens de situações.
O uso aparentemente desleixado das palavras se estende aos termos gerais, com Gurdjieff reificando abstrações, usando expressões concretas em sentido abstrato e personificando leis e princípios, o que exige do leitor uma mudança considerável em seus modos habituais de leitura.-
Isso é mais difícil para filósofos profissionais e estudiosos da linguagem.
O uso que Gurdjieff faz da palavra lei diverge radicalmente do uso moderno, pois para ele as leis não são abstrações ou generalizações, mas o funcionamento real do mundo, sua realidade essencial, enquanto as coisas e os seres são meras manifestações do funcionamento dessas leis essenciais.-
Ele diz de Heptaparaparshinokh que essa lei é uma força constantemente em evolução e involução.
A crença amplamente difundida de que o mundo e o homem são feitos segundo o mesmo modelo foi tomada por Gurdjieff como axioma evidente, estendendo-a a uma série de sete mundos ou cosmoses construídos segundo as leis da trifoldidade e da sétupla divisão, sendo o eneagrama o símbolo que representa esse modelo cósmico e que se tornou o emblema do Instituto para o Desenvolvimento Harmonioso do Homem.A busca pela compreensão do mundo é necessária porque desenvolve no homem a razão objetiva, parte integrante do objetivo de nossa existência, e essa razão deve ser propriedade inalienável transubstanciada no nosso ser, não adquirida por meio do conhecimento verbal.-
O objetivo de Gurdjieff, e portanto seus métodos, eram inteiramente diferentes dos da educação moderna, que valoriza dispositivos que facilitam a aprendizagem.
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Oferecer ao leitor uma facilidade fictícia de compreensão não lhe prestaria nenhum serviço.
Uma leitura superficial de Relatos de Belzebu sugere uma crítica implacável a todas as tentativas de melhorar a condição humana, mas uma leitura mais cuidadosa revela que Gurdjieff aponta para a absurdidade das atitudes que inspiram a maioria dos modos de vida, sem atacar diretamente qualquer modo de vida em particular.-
No capítulo India, o que parece um ataque à vida monástica é na verdade uma referência ao auto-enclausuramento psicológico.
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Aqueles que buscam a salvação evitando a tentação e se orgulham de se manter longe do perigo perdem todo o sentido da vida.
Os diferentes projetos de naves espaciais descritos em Relatos de Belzebu (RBN I-4 e RBN I-5) constituem uma apresentação discreta dos métodos de Gurdjieff como mais simples e eficazes do que os do passado.-
As naves aperfeiçoadas de São Venoma funcionavam por atração, descrevendo a doutrina paulina de salvação pela fé e pelo amor ou a doutrina de Mohammad da salvação pela esperança, mas com o defeito de não considerar os riscos do mundo existente.
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O sistema mais recente, inventado pelo arcanjo Hariton, considera as realidades da existência e transforma a própria causa do problema, a irritação causada pelo comportamento alheio, em uma força transformadora.
A história do farmacêutico judeu de Moscou, no capítulo A Última Permanência de Belzebu na Terra, é uma alegoria reconhecível que expressa as visões de Gurdjieff sobre os caminhos verdadeiro e imitativo do desenvolvimento espiritual.-
O ópio representa o baraka ou hanbledzoin, a energia superior que se torna indispensável ao verdadeiro buscador assim como o ópio não pode ser abandonado pelo viciado.
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É possível, de forma imitativa, ter a ilusão de receber tal ajuda, que vem da crença no método combinando experiências amargas e doces, assim como os fictícios Pós de Dover combinam quinino e açúcar queimado.
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Gurdjieff era, acima de tudo, um sufi, e desejava transmitir que não se pode reconhecer o caminho sufi apenas pelas aparências externas.
Para Gurdjieff, os três elementos da comunicação, fala, linguagem e significado, estavam sempre integrados em um todo, pela aplicação do princípio da triplicidade, sendo a intenção o elemento masculino e anódico do qual deriva o significado, a linguagem o elemento passivo e feminino, e a fala o princípio reconciliador ou força neutralizante.-
O poder de fala de Gurdjieff era extraordinário: ele conseguia prender a atenção de seus ouvintes por horas, e era essencialmente seu próprio ser que inspirava seu discurso com o poder de penetrar abaixo da superfície da personalidade.
A ideia central do Trogoautoegocrat é que a Criação ocorreu em estágios, correspondendo ao primeiro estágio a doutrina védica de um estado primordial em que o Criador e sua criação eram indivisos, e ao segundo a emergência das três gunas da interpretação Sankhya, que Gurdjieff expressa em sua Lei Fundamental do Triamazikamno.-
Em uma versão anterior de Relatos de Belzebu lida para grupos americanos em 1929, há uma passagem notável que descreve como a emanação, o Deus-Palavra ou Theomertmalogos, resultou da ação das leis de Triamonia e Eftalogodiksis desde o interior do Sol Absoluto para fora.
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Embora essa passagem lembre o Gnosticismo e o Neoplatonismo, a teoria de uma origem inteiramente gnóstica da cosmologia de Gurdjieff não se sustenta diante das passagens seguintes, que introduzem ideias ausentes nos escritos neoplatônicos ou fragmentos gnósticos.
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A concepção remete inequivocamente ao período babilônico médio do Zoroastrismo, em que o Heropass Implacável, o Zervan babilônico, está além do poder até do próprio Criador, que deve recorrer a um estratagema para assegurar a permanência de Seu Lugar-Esseral, o Sol Absoluto.
A terceira força, chamada fagologiria, designa provavelmente a reversão das forças pelo ato de comer e ser comido, mas foi inteiramente removida na revisão final de Relatos de Belzebu, e tais mudanças ilustram a prática de Gurdjieff de enterrar o cão mais fundo.-
Gurdjieff não desejava que seu relato das Leis de Criação e Manutenção do Mundo fosse analisado e criticado por filósofos e teólogos, por isso escreveu em linguagem que seres eruditos não se dariam ao trabalho de ler, mas não tão obscuramente que um leitor inteligente comum não pudesse captar a intenção.
Considerando a linguagem e a terminologia como um todo, Gurdjieff foi consistente e teve um propósito claro: criou um legominism e o enviou ao mundo em uma forma que garantiria sua preservação, com a intenção de preparar iniciados capazes de interpretá-lo, mas morreu antes de completar essa parte de seu trabalho.autores-obras/bennett/gmnw/estilo-e-terminologia.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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