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Boehme, mestre ternário

BOURGEAULT, Cynthia. The Holy Trinity and the law of three: discovering the radical truth at the heart of Christianity. First Edition ed. Boston: Shambhala, 2013.

  • A figura de Jacob Boehme é introduzida como uma espécie de terceira força de reconciliação entre a afirmação da relevância da Lei do Três para a Santíssima Trindade e as possíveis objeções a essa tese.
    • Boehme ocupa posição reconhecida na linhagem mística cristã, sendo fonte para muitos dos maiores místicos cristãos ao longo de quatro séculos.
    • Sua cosmologia, embora cristocêntrica, não segue as regras da teologia cristã clássica e parece percorrer trajetória própria e singular.
    • A tese defendida é a de que essa trajetória é implicitamente a Lei do Três.
  • Boehme não desenvolveu suas ideias a partir das categorias do neoplatonismo monástico nem da escolástica, pois era luterano alemão e sapateiro de formação prática, não acadêmica.
    • Viveu a maior parte de sua breve vida na pequena aldeia de Görlitz, no sudeste da Alemanha.
    • Em 1600, aos vinte e quatro anos, uma visão unitiva o galvanizou enquanto contemplava um prato de estanho reluzindo ao sol.
    • Boehme descreveu a experiência afirmando que “em um quarto de hora vi e soube mais do que se tivesse passado muitos anos numa universidade”.
  • Doze anos se passaram até que Boehme transformou sua iluminação instantânea em palavras, concluindo em 1612 seu primeiro tratado, a Aurora, que caiu nas mãos do pastor-chefe Gregorius Richter, que o acusou de heresia e o proibiu de escrever.
    • Sua obra continuou a circular entre a intelectualidade de Görlitz e conquistou admiradores, sobretudo entre estudiosos da filosofia hermética, que o forneceram materiais da tradição alquímica.
    • Esse acréscimo alquímico foi uma bênção ambígua, pois obscureceu a simplicidade original da visão de Boehme e introduziu contradições em seu pensamento.
    • Em 1619 Boehme retomou a escrita e, nos cinco anos antes de sua morte em 1624, completou todas as suas obras maiores.
  • O contato pessoal com Boehme começou quando um professor eremita no Mosteiro de São Bento, no Colorado, deixou O Caminho para Cristo como leitura da Semana Santa, despertando a sensação de que Boehme estava por perto.
    • Ao longo dos anos seguintes foram percorridas as obras mais substanciais do cânone, incluindo A Vida Tríplice do Homem, As Quarenta Perguntas da Alma e Os Três Princípios da Essência Divina.
    • A única tradução inglesa disponível é ainda a versão seiscentista de John Sparrow, primeiro devoto inglês de Boehme, com suas formas verbais arcaicas.
  • Boehme é notoriamente difícil quando abordado pelo intelecto racional, mas a via contemplativa abre caminho com muito mais facilidade, pois corresponde ao estado em que ele próprio recebeu sua iluminação.
    • O princípio hermenêutico fundamental para todos os místicos visionários está condensado no versículo do Salmo 42:7: “Um abismo chama outro abismo.”
    • Na profundeza contemplativa, a realidade imaginal é acessível a todo coração sintonizado.
  • O que torna a obra de Boehme navegável é a congruência estrita entre microcosmo e macrocosmo, entre a vida espiritual interior e a cosmogênese em escala vastíssima.
    • O elo que os conecta é a qualidade chamada por Boehme de Gelassenheit, ou “equanimidade”, que significa literalmente “o ser-em-deixar-ser” e se refere ao abandono consciente da vontade pessoal autônoma.
    • Boehme expressou esse princípio dizendo: “Quando permaneces em silêncio do pensar e do querer do eu, o ouvir, o ver e o falar eternos se revelarão em ti… Teu próprio ouvir, querer e ver te impedem de ver e ouvir Deus.”
    • Em terminologia espiritual moderna, essa qualidade é reconhecível como rendição, terreno familiar a praticantes da Oração de Centramento ou da testemunha interior.
  • A visão cosmológica de Boehme é simplesmente esse mesmo processo de rendição escrito em escala cósmica, pois para ele o abandono da vontade pessoal ardente não é apenas caminho de santidade pessoal, mas princípio catalítico que faz surgir mundos inteiramente novos.
    • A correspondência estrita entre os planos interior e exterior é não apenas ponto de acesso experiencial a Boehme, mas confirmação adicional de que a Lei do Três permanece consistente em toda arena de aplicação.
    • A convicção central é a de que a revelação cosmogenética de Boehme é intuitivamente ternária e pode ser colocada em pleno alinhamento com a Lei do Três.
    • Caso isso se demonstre verdadeiro, Boehme não é apenas um dos maiores gênios místicos do cristianismo, mas também seu primeiro teólogo ternário.
  • Boehme parte de uma pergunta que poucos chegaram a conceber: como se passa de Deus em repouso, da “Unidade eterna, imensa e incompreensível”, a Deus como autor da multiplicidade e diversidade do universo criado.
    • Para a maioria, a resposta é simples: Deus “falou” e o mundo passou a existir.
    • Para Boehme não é assim tão simples: o que teve de acontecer internamente, nas profundezas da Divindade, antes que aquele primeiro Fiat pudesse ser pronunciado?
    • Em suas próprias palavras, Boehme pergunta como “a Unidade Infinita se traz a si mesma para a condição de alguma coisa”.
  • A primeira propriedade do Primeiro Princípio é um estado de desejo, semelhante ao magnetismo, em que a vontade divina se comprime ao criar uma “pressão desigual” no equilíbrio da vontade por meio da concentração do desejo.
    • Boehme descreveu essa propriedade dizendo: “A primeira propriedade é um estado de desejo, como o ímã, isto é, a compressão da vontade; a vontade deseja ser algo, e no entanto não tem nada do qual possa fazer algo para si; e por isso se traz a uma receptividade de si mesma, e se comprime em algo; e esse algo não é senão uma fome magnética, uma aspereza.”
    • Boehme chama essa primeira propriedade de “dureza”, “aspereza”, “agudeza”, “azedume”, tendo como componente central o anseio, a “fome magnética”.
  • A segunda propriedade é o “movimento” ou “agitação” que surge onde há pressão desigual, de modo análogo ao que se observa na sifonia da água ou nos sistemas de vento e clima.
    • Essa segunda propriedade não é, em sentido estrito, um movimento contrário como num cabo de guerra, mas se assemelha mais a uma inflamação, uma agitação criada por e através da própria insaciabilidade do desejo.
    • Diferentemente de leituras que equiparam as duas primeiras propriedades ao dualismo espiritual clássico de afirmação e negação, a segunda propriedade em Boehme não se opõe à primeira, mas se precipita em direção a ela, como um redemoinho sugado por um ralo.
  • A terceira propriedade é chamada por Boehme de “angústia”, nascida diretamente do movimento na agudeza, e ela é simultaneamente a causa da sensibilidade e da dor.
    • Boehme explicou: “Pois quando há um movimento na agudeza, então a propriedade é a dor (ou angústia), e esta é também a causa da sensibilidade e da dor, pois se não houvesse agudeza e movimento, não haveria sensibilidade.”
    • O que nasce da luta entre o desejo e sua insaciabilidade é a angústia, mas essa angústia é simultaneamente a sensibilidade, a capacidade de consciência autorreflexiva.
    • Boehme expressou a percepção fundamental: “Nenhuma coisa pode se revelar a si mesma sem contrariedade. Se não tem nada que lhe resiste, sempre sai de si mesma e não retorna a si. Se não retorna a si, como àquilo de que originalmente proveio, não conhece nada de sua causa.”
    • Nessa terceira propriedade a natureza divina se torna perceptível a si mesma, indo “àquilo de que originalmente proveio” e conhecendo-se por dentro.
  • O Primeiro Princípio, composto pelas três primeiras propriedades prestes a explodir na quarta, o fogo, é chamado por Boehme de princípio “ígneo” ou “iracundo” e pertence à natureza eterna de Deus.
    • Essa afirmação causou perplexidade e angústia a muitos, que veem Boehme derivando para um dualismo ontológico em que bem e mal se contrapõem eternamente na própria medula do ser divino.
    • O pensamento de Boehme é mais sutil: o Primeiro e o Segundo Princípios não são opostos simetricamente equilibrados, mas estágios sucessivos num processo cujo objetivo final é “a impressão do nada em algo”.
    • Boehme lembrou que “Deus resistiu à sua própria ira, e com o centro de seu Coração, que preenche toda a eternidade… quebrou o ferrão da violenta ira”.
    • Da perspectiva da Lei do Três, o mais importante a notar é que Boehme está pensando em processo, não em ontologia.
  • O Segundo Princípio é chamado por Boehme de “princípio da luz” e representa a ira transfigurada pelo amor, passando da angústia diretamente para a quarta propriedade, o fogo.
    • Boehme escreveu que “assim o deleite eterno se torna perceptível, e esse perceber da Unidade é chamado amor”, frase que converte o clichê teológico “Deus é amor” no fruto de um processo transformador dramático e mesmo audacioso.
    • O amor de Boehme não é um atributo divino preexistente, mas um novo composto alquímico que surge da interação das quatro primeiras propriedades e não pode se manifestar de nenhuma outra forma.
    • Esse amor emergente é a imagem ou espelho perfeito da Unidade original, mas agora na dimensão da perceptividade e do “movimento”, com capacidade recém-adquirida de se manifestar nas formas diversas da criaturidade individual “de modo que haja eterno jogo na unidade infinita”.
  • A quinta propriedade dá origem à sexta, o “som” (o Verbo ou Logos divino gerador, com o qual começa a narrativa bíblica familiar), e à sétima, a “substância” ou “natureza”, bloco primordial a partir do qual o universo criado é formado.
    • Para Boehme, essa “substância” não é simplesmente um material, mas um modelo ativo capaz de se reproduzir, recapitulando em si todas as demais propriedades.
    • Em terminologia moderna, poderia ser caracterizado como algo semelhante a um “DNA cosmogenético”, sendo ao mesmo tempo holograma da emergência sétupla original e princípio criativo em si mesmo.
  • O Terceiro Princípio é o universo exterior e visível, que Boehme vê como interação constante entre o Primeiro e o Segundo Princípios, lembrando que “o trabalho eterno interior está oculto no mundo visível” e opera sempre através dele.
    • Superficialmente isso pode parecer uma tríade da Lei do Três, mas o mundo exterior não é em si mesmo a terceira força reconciliadora.
    • Para Boehme, esse papel catalítico é desempenhado pela propriedade espiritual da Gelassenheit, ou “equanimidade”, isto é, a vontade rendida.
    • A alma humana não transformada tem suas origens no princípio ígneo e, ao trazer seus começos ígneos (primeira força) para interação com a luz transformada (segunda força) por meio da vontade rendida (terceira força), emerge ela própria como esse “quarto numa nova dimensão”: uma criação inteiramente nova.
  • A grandeza da obra de Boehme reside na fusão perfeita de macrocosmo e microcosmo, do processo cósmico e do caminho espiritual pessoal, ambos passando pelo mesmo ponto estreito: a transformação da angústia.
    • A humanidade profunda de Boehme, assim como seu gênio espiritual, reside em sua compreensão implicitamente ternária de que vontade, desejo e dor não são obstáculos à perfeição espiritual, mas matéria-prima a partir da qual algo ainda mais maravilhoso será formado.
    • O ensinamento espiritual prático de Boehme se configura como alma (o princípio ígneo; primeira força) e espírito (o princípio da luz; segunda força), mediados pela rendição consciente (terceira força), convocando ao ser o Si mesmo, “a sarça que arde mas não se consome”.
    • O Terceiro Princípio, o universo visível, deve ser visto não como artefato, mas como dinamismo contínuo que se manifesta apenas enquanto permanece ativamente conectado a seus dois princípios geradores.
  • A teologia trinitária de Boehme propriamente dita é, paradoxalmente, insuficiente para um pensador ostensivamente ternário, suspeita de não fazer parte de sua revelação original de 1600, pertencendo a camadas posteriores em que ele tenta conectar sua visão a pontos de referência teológicos conhecidos.
    • Ocasionalmente, porém, algo de outra ordem emerge quando ele retorna ao seu terreno visionário próprio.
    • Em As Quarenta Perguntas da Alma, Boehme afirma abruptamente: “Como há uma fonte tríplice em tudo, e cada uma é sempre o espelho, o gerador e a causa da outra, sem exceção, todas as coisas são segundo a essência do Ternário.”
    • O próprio Gurdjieff não poderia ter formulado isso com mais precisão.
  • Por baixo da compreensão flutuante de Boehme sobre como as três pessoas da Trindade se correlacionam com o “trabalho tríplice” de Deus, ele nunca perde de vista a percepção básica de que a Trindade é o princípio manifestador que permite à “Unidade Eterna” projetar-se externamente.
    • Boehme o expressou de forma sucinta ao final da Clavis: “Deus é a Unidade eterna, imensa, incompreensível, que se manifesta em si mesma da eternidade à eternidade pela Trindade.”
    • Nos “três princípios, sete propriedades” de Boehme, e não em sua teologia trinitária propriamente dita, ele mais claramente se revela em curso de convergência com a Lei do Três.
  • Os “três princípios, sete propriedades” de Boehme delineiam três estágios de “protocriação” antes que o mundo visível venha a existir: no primeiro, as propriedades um, dois e três interagem para produzir a quarta, o fogo; no segundo, o fogo se transforma em luz/amor, a quinta propriedade; no terceiro, som e substância são gerados, esta última contendo o modelo para recapitular toda a sequência.
    • Somente após esse conjunto completo de propriedades ter percorrido seu caminho pode o Terceiro Princípio, o mundo visível, efetivamente vir à existência.
    • O que a Bíblia chama de “no princípio” é, na visão de Boehme, na verdade o quarto estágio de um processo cósmico já em andamento.
  • A questão que se impõe é se as sete propriedades de Boehme não são simplesmente uma sequência numérica a priori, mas surgem umas das outras segundo o princípio familiar de que o entrelaçamento de três produz um quarto numa nova dimensão.
    • A hipótese é a de que as quatro primeiras propriedades assumem os papéis de afirmação, negação e reconciliação entre si para dar origem à quinta propriedade, e que esta se torna a nova terceira força reconciliadora para a sexta, e a sexta para a sétima.
    • Boehme não parece notar isso, pois não estava em seu horizonte.
    • Caso se demonstre, sem violentar seu pensamento, que o processo que ele descreve por meio de seu brilho visionário intuitivo está de fato subsumido na Lei do Três, então por trás desse grande metafísico ternário cristão se vislumbraria uma mão ainda maior movendo a pena.
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