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Compulsão
Parabola V12N2. Addiction. Entrevista dada a editora Lorraine Kisly.
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A adição não se limita às formas óbvias de compulsão física ou química, mas abrange toda fixação repetitiva em padrões que impedem o movimento natural da vida, incluindo as adições intelectuais, emocionais e até virtuosas.
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A vida está sempre em movimento, mas a tendência humana fatal é apegar-se ao que foi, repetir o que já foi feito e resistir à mudança.
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O elemento de compulsão aparece mesmo em relação ao bem, e frequentemente as motivações que atuam num dado momento não vêm conscientemente da psique.
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Dentro do ser humano atuam diferentes centros de funcionamento, e quando um deles toma o lugar dos demais, instala-se a adição.
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O frenesi que invade uma ação inicialmente boa ilustra como uma parte da pessoa pode assumir o controle das demais sem que ela perceba, gerando um estado de tensão que persiste e contamina todas as atividades subsequentes.
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Uma mulher que decide varrer a casa com total dedicação pode ser tomada por uma agitação que a leva sem que ela saiba, de modo que mesmo ao fazer compras mais tarde o mesmo frenesi continua e é sentido por todos que ela encontra.
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O momentum harmonioso, como o passo relaxado que naturalmente leva ao passo seguinte, pode ser observado em certos nômades do deserto que caminham sessenta milhas sem parar.
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O momentum se torna tenso quando algo emocional se investe na ação física e a domina, tornando o que seria fluido em rígido e compulsivo.
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A harmonia do ser humano exige que corpo, sentimento e mente funcionem juntos, e a ausência dessa harmonia é a condição de base de toda adição.
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O estado do corpo não é o único fator desencadeante da divisão interna; a raiva, a ansiedade ou a pressa introduzem uma tensão inútil que divide a pessoa e cria a impressão de não estar realmente vivendo.
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A sensação de bem-estar e o suporte do corpo como algo em que se sente bem são necessários para que a atenção não seja parcialmente capturada pelo mal-estar.
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O animal não é adicto à caça mesmo que ela ocupe parte central de sua vida, porque age como um todo harmonioso; no ser humano, a falta de harmonia é perceptível a si mesmo e aos outros.
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O fanatismo é uma forma de adição à virtude: a devoção genuína a uma ideia ou causa, quando não equilibrada, transforma-se em ódio ao seu oposto e limita a sensibilidade e a amplitude da mente.
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É muito difícil ser devotado sem ser cego, pois o frenesi do corpo e o ódio podem invadir o que inicialmente era uma dedicação legítima.
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A questão diante de uma criança prestes a cometer um erro ilustra a dificuldade de manter mente, corpo e sentimento juntos: o que importa mais, impedir o erro ou permitir que algo nascido da própria vontade da criança apareça e comece a guiá-la?
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Alguém pode ser muito inteligente e ao mesmo tempo preguiçoso, explicando do conforto de sua poltrona o que todos deveriam fazer sem se levantar para ajudar: há muitas formas de ser adicto.
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A mente possui uma virtude raramente cultivada que é a capacidade de permanecer aberta à questão, sem se fixar em conclusões, e a compulsão de ter certeza é uma das formas mais sutis de adição.
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A abertura da mente é a capacidade de estar em contato com todos os tipos de impressões do real, reconhecendo que há muitos aspectos em tudo e que o bem nem sempre é imediatamente óbvio.
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As ideias funcionam como postes indicadores sem os quais não se poderia tomar a ação mais simples, mas uma sensibilidade interior poderia impedir de crer demais no valor absoluto dessas ideias.
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Uma pressão interna age sempre em nós, projetando-nos para um ou outro aspecto de nós mesmos; somente a abertura a uma questão muito mais central e essencial permite tomar consciência disso e resistir a essa pressão.
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Simone Weil disse que todas as paixões produzem prodígios e que um jogador é capaz de vigiar e jejuar por dias, e que não se deve amar a Deus como um jogador ama seu jogo.
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A desintegração das crenças coletivas nas sociedades modernas, análoga ao que ocorre com tribos isoladas ao contato com a cultura moderna, exige algo mais sutil do que o fanatismo: uma abertura a uma qualidade mais elevada de vida.
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Quando crenças são erodidas, aumentam a violência, o alcoolismo e a desintegração das estruturas sociais.
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A necessidade de crer é uma limitação, mas se houver também abertura à necessidade de outra qualidade e de mais unidade, a crença se torna apenas uma parte calma e auxiliar do ser.
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Cristo, Buda e os fundadores de cada tradição apontaram para essa abertura, mas assim que partiram seus seguidores começaram a se agarrar a formas fixas.
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Muitas tradições e textos falam dessa abertura como o maior tesouro do mundo, muito difícil de encontrar e muito difícil de conservar, e que foi em sua maior parte esquecido.
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A adição é inseparável da identificação e da passividade, e experiências de estados não passivos, como o esforço intenso na escalada de montanhas, revelam a possibilidade de uma harmonia vivida raramente na vida cotidiana.
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Após um choque, um grande esforço ou uma impressão profunda da natureza, chega-se a um ponto em que tudo está em acordo, o corpo se sente livre e leve e se alcança uma vivacidade que raramente se experimenta.
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A questão verdadeiramente importante não é conseguir esse estado na montanha, mas ter essa liberdade na vida ordinária, no meio das responsabilidades cotidianas.
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Na adição há sempre um elemento de evitação: vai-se com força para algo a fim de evitar outra coisa, e a parcialidade se intensifica porque a ideia é reforçada por algo emocional.
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Quando a mente não está aberta ao pensamento real, é conduzida pelas emoções; e se uma ideia está conectada a uma emoção, torna-se muito difícil aceitar que poderia haver outra ideia.
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A sensibilidade a um estado mais grosseiro em si mesmo é uma forma de consciência não desenvolvida pela civilização moderna, e é ela que gera o desejo de abertura a algo mais fino.
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Simone Weil, em outro lugar, falou de gravidade e graça, e essa grosseira está relacionada a um certo estado do corpo, a uma certa agitação do sentimento e a uma tensão da mente.
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Essa consciência é muito importante na vida porque não se pode estar em estado meditativo aberto o dia inteiro; a vida exige atividade, mas é possível permanecer aberto à percepção de que há algo grosseiro em si mesmo.
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As duas estátuas na catedral representando virtude e vício e a necessidade de permanecer entre as duas sintetizam esse ensinamento: é preciso ficar no meio.
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A repetição consciente, como na recitação de uma litania, pode abrir uma brecha para que algo novo apareça, diferentemente da repetição mecânica que apenas intensifica a adição.
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Gurdjieff ensinava a repetir, repetir, repetir, e tanto a repetição mecânica quanto a consciente criam intensidade.
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Se por um segundo se reconhece que toda a atividade ordinária do funcionamento é absolutamente incapaz de realizar qualquer coisa, o lugar em si mesmo está pronto para receber.
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Ao final, deve haver adição à não-adição: aceitar a inevitabilidade de ser adicto e ao mesmo tempo a realidade de que é possível não ser.
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Reconhecer as próprias tensões, emoções e ideias fixas como formas de adição já é um exercício prático de retorno a si mesmo, e nesse reconhecimento a energia inútil começa naturalmente a se dissipar.
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Há no ser humano uma tendência natural ao equilíbrio quando a necessidade é sentida, assim como o corpo que está caindo tem a tendência natural de se endireitar.
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Ensinamentos provenientes de tradições antigas explicam a condição humana por meio de ideias como a Queda e a ilusão, afirmando que os seres humanos nasceram para estar relacionados a energias espirituais superiores e às da sua própria natureza terrena.
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Quando as pessoas começam a abrir-se para essa necessidade, mesmo o contato mais simples com algo mais fino em si mesmas as leva naturalmente a sentir um senso de dever em relação a isso, sem que ninguém precise dizer: é algo muito íntimo.
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A questão não é mais por quê mas como, e essa necessidade está presente mesmo que não desenvolvida pela civilização moderna, porque não poderia ter desaparecido.
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