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Lugar Humano

Entrevista concedida à D.M. Dooling, em A Busca do Ser — revista Parabola X.4, Sete Pecados Capitais

A primeira oportunidade que a Parabola teve de conversar com Pauline de Dampierre sobre os ensinamentos de Gurdjieff girou em torno do tema da totalidade, e ficamos particularmente impressionados com uma ideia. Perguntamos a ela sobre as palavras de Gurdjieff: “Pode-se chamar de homem notável aquele que… sabe como se conter nas manifestações que procedem de sua natureza, ao mesmo tempo em que se comporta com justiça e tolerância em relação às fraquezas dos outros. “

Seus comentários sobre essa descrição nos intrigaram e nos levaram a explorar a questão mais a fundo em relação ao nosso tema atual, “Os Sete Pecados Capitais”. Consideramos suas reflexões sobre essa questão notáveis por si só — originais, sutis e claras.

Parabola: Da última vez que conversamos, falamos sobre o homem integral. Como você acha que o homem integral se relaciona com a ideia de pecado?

Resumo das respostas

  • O que interessa não é o pecado como manifestação ou ação, mas o que está em sua fonte: uma corrente subterrânea de tendências que sempre atua nos seres humanos e da qual os impulsos emergem como excrescências.
    • Essa corrente subterrânea tem uma influência sobre o comportamento muito maior do que se imagina; ela está na raiz do automatismo humano.
    • Se uma pessoa parasse todos os seus movimentos exteriores e interiores para ver o que age nela, quase sempre sentiria uma tendência com algo de estreito, pesado e negativo, que tende a se opor e a ser egoísta.
    • Ao mesmo tempo, quem tenta despertar para o que se passa em si mesmo descobre, além dessa vida “grosseira”, outra vida de qualidade diferente, muito mais sutil, mais elevada e mais leve, que também é parte de si.
  • Quando essas tendências são chamadas de pecados capitais, isso significa que, se deixadas governar, a cada momento privam o ser humano da possibilidade de se voltar para a vida real; deixar-se continuamente conduzir por elas é ser passivo, e na passividade o automático toma a iniciativa e dirige o homem.
    • Não é certo que o homem em estado de ilusão sobre si mesmo seja absolutamente irresponsável: toda vez que se abandona fortemente a uma dessas tendências, ele a reforça, e depois de algum tempo torna-se muito difícil libertar-se dela.
    • O dano causado aos outros por meio dessas tendências é uma questão muito séria, que não pode ser descartada pela simples alegação de inconsciência.
  • Cada uma dessas tendências existe para sustentar a vida num certo nível e é necessária e sadia em si mesma; a raiva, por exemplo, contém um impulso instintivo que rejeita o que nos faz sofrer, sem o qual seríamos inertes; a inveja obedece a uma lei pela qual uma massa menor, próxima de uma maior, sofre uma tensão que a leva a imitar e a crescer; o orgulho sustenta o autorrespeito e o respeito dos outros.
    • Viver apenas por meio dessas tendências é ser um animal; o ser humano deve permanecer entre elas e não se deixar tomar por elas, não deixá-las suscitar oposição e justificação, não se identificar com elas nem deixar que o façam esquecer a única coisa que importa.
    • Nas portas de certas catedrais há esculturas representando os vícios e, acima deles, as virtudes; entre os dois, porém, permanece escondido o elemento intermediário: a vontade do homem de ser sincero e de tentar compreender o sentido de sua vida.
  • As virtudes não julgam, não rejeitam, não têm violência; elas emanam, elas irradiam, e aparecem por si mesmas quando a corrente subjacente é percebida e respeitada, sem que seja necessário buscá-las diretamente; o restante do tempo é o ego que fala.
    • Certos seres humanos excepcionais provam que isso é assim, e mesmo em alguém muito distante dessa possibilidade, a existência dela pode se fazer sentir.
    • No quadro de uma busca interior, os vícios tornam-se mais simples: não são tanto pensados como maus, mas sentidos dolorosamente como nocivos ao que se busca; eles estão ali e não se permite que ocupem demasiado espaço, sem rejeitá-los, mas também sem se deixar engolfar por eles.
  • A tendência ao pecado está presente a cada segundo; mesmo um santo, segundo o que Pauline de Dampierre ouviu em sua formação católica, pecava sete vezes por dia; essa tendência é a condição humana, não uma falta pessoal.
    • O poder de agir está no corpo; o desejo de ser esseral evoluído vem de outra fonte; as duas partes devem se encontrar, e esse encontro raramente ocorre por acidente, só acontece quando algo é reconhecido e mantido em respeito.
    • O sentido de presença só será real se esses impulsos forem levados em conta; abrir-se apenas ao superior pode ser possível numa postura de meditação, mas no momento em que se começa a agir, os impulsos estão necessariamente presentes e devem ser considerados.
  • O que é necessário diante da força enorme desses impulsos não é uma força igual, mas uma força de outro tipo, mais sutil e mais ativa; assim como em química uma substância muito ativa pode dissolver uma pedra, o desejo de ser pode ser muito ativo.
    • Não é possível experimentar uma abertura para maior liberdade sem obediência a algo superior; o ser humano ou se submete voluntariamente a esse superior, ou é escravo; ao se submeter voluntariamente, pode receber algo de qualidade tão elevada que já não é atraído pelo que o escravizava.
    • Há uma relação muito forte entre a ação dessas tendências e um certo automatismo do corpo: a própria textura corporal favorece esses impulsos e é reforçada por eles num círculo vicioso; quando há uma abertura ao superior, o corpo se aquieta e começa a ser impregnado por algo mais sutil.
  • As emoções são muito egoístas e não contêm amor real; elas sempre voltam o homem para algo diferente do que está presente; a emoção não é o sentimento real, e quem se observa nesse momento reconhece que não tem liberdade, que está absolutamente engolfado.
    • Existe, porém, um poder misterioso no ser humano: o de se voltar para algo em si mesmo que pode ser muito fraco, quase inaudível, mas de outra qualidade que ele respeita mais.
    • O sentimento real aparece nos raros momentos em que o que se passa no indivíduo é de tal qualidade que seu único desejo é permanecer ali e servi-lo da melhor forma possível; só então ele tem uma sensação positiva do momento, sem desejo de estar em outro lugar.
  • Em nosso estado habitual, não temos nada real em que nos apoiar, e por isso criamos projeções, ideias e desejos de todo tipo; toda busca real visa encontrar em si mesmo um lugar que se possa servir, onde o ser esseral possa crescer e exercer seu papel, o que dá sentido à vida.
    • Quando esse contato aparece, mesmo que brevemente, uma relação verdadeira começa entre as partes do indivíduo: ele enxerga melhor, é mais claro, não tem mais medo de viver, e mesmo exteriormente algo é mais equilibrado.
    • Sem esse contato, nunca há um objetivo que ponha o homem em contato com o sentido de seu destino; com ele, sabe-se em que depositar confiança.
  • Um dos aspectos mais notáveis do pensamento de Gurdjieff é que ele permite partir do que se é, dos pecados capitais ou simplesmente dos defeitos predominantes, lançando sobre as múltiplas fraquezas humanas uma luz de verdade vigorosa e surpreendente, e mostrando como escutar uma outra voz e entrar em contato com outra realidade.
    • O contato com alguém que começou a desenvolver isso em si mesmo pode tocar profundamente; ou eventos especiais podem ocorrer, uma grande alegria, uma grande dor, uma impressão da natureza ou da arte sagrada do passado, dando um sentimento extraordinário de vida muito mais ampla e mais fina, como se o horizonte se abrisse.
    • Esse gosto de que a vida deveria ser sempre assim não acontece com frequência e vem por eventos exteriores, mas o anseio por ele está sempre presente, pois trata-se de uma necessidade humana, a necessidade que nos faz vivos; uma busca real é uma preparação para uma abertura a esse gosto de vida, e é uma grande aventura.
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