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Attar, Conferência dos Pássaros
“A Busca”, Jean Sulzberger (org.), trad. Octavio Mendes Cajado. Pensamento, 1989.
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Desde os tempos bíblicos o símbolo do pássaro em pleno voo, liberando-se em outra dimensão, tem sido central na literatura poética e mística do Oriente Próximo, e o episódio da Arca de Noé estabelece já a tensão entre o corvo que voa de um lado para outro sem encontrar pouso e a pomba que retorna com a folha de oliveira.
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Sem o símbolo escuro anterior do corvo, a missão da pomba teria sido menos significativa, pois a folha de oliveira oferecida em seu bico silencioso denota sobrevivência mais do que busca.
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A busca prosseguiu quando se restabeleceu um modo de vida entre os vales, os desertos e as cadeias de montanhas, reaparecendo o corvo para sustentar Elias no vale do Jordão, e a pomba sendo vista novamente, silenciosa mas acompanhada de palavras simbólicas.
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A voz essênia, “a voz de alguém que grita no deserto”, ecoou do Jordão ao Nilo, dos desertos do Egito aos da Arábia, do Hejaz ao vale do Eufrates, num retorno à sua fonte antediluviana.
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Em Bagdá, três séculos antes, Attar al-Hallaj cantara em êxtase a unidade mística do amante e do amado: “Eu sou Aquele que eu amo, e Aquele que eu amo sou eu; / Somos dois espíritos que moram num corpo só. / Se me vires, estarás a vê-lo, / E se O vires, a ambos nos verás.”
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Por essas palavras al-Hallaj foi julgado, torturado e crucificado.
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O espírito ardente de al-Hallaj inspirara Attar, e pouco antes de seu tempo Sanai escrevera um qasida intitulado “A Litania dos Pássaros”, em que cada pássaro louva a Deus à sua maneira.
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A pobreza dos conhecimentos acerca de muitos grandes poetas e místicos persas os envolve como a remendada e puída khirka dos sufis envolve o seu dono, pois esses homens que levavam existência de piedade e ascetismo, jejum e oração buscavam o anonimato.
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Sabe-se de Attar que era farmacêutico de ofício, que viveu no Khorasan na última parte do século XII e em boa parte do século XIII, e que escreveu muito.
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A Conferência dos Pássaros é sua obra mais famosa.
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A própria falta de datas revela a visão que deu origem a esse tipo de literatura, em que o mundo visível é apenas a sombra de sua causa divina, como o próprio Attar expressou: “Se o Simurgh não tivesse desejado manifestar-se, não teria projetado a sua sombra; se tivesse desejado permanecer escondido, sua sombra não teria aparecido no mundo.”
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A Conferência dos Pássaros é a história da busca do Simurgh, o Rei dos pássaros, sob a liderança da Poupa, que havia sido confidente de Salomão e recebera dele sua coroa, fazendo com que todos os pássaros do mundo se reunissem para ouvi-la.
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A Poupa advertiu: “Não imagineis que o percurso seja curto; e cumpre ter um coração de leão para percorrer essa estrada insólita, pois é muito longa e o mar é fundo… O homem não precisa proteger sua alma do amado, mas precisa estar preparado para levá-la à corte do rei.”
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Muitos pássaros presentes principiaram a escusar-se; finalmente, os resolutos encetaram juntos a jornada.
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O caminho dos pássaros passava por sete vales — o da Busca, o do Amor, o da Compreensão, o do Alheamento, o da Unidade, o da Perplexidade e, finalmente, o da Morte — e o contraste entre a luz do sol e a sombra da realidade é completo na descrição do primeiro vale: “Quando entrares no primeiro, o Vale da Busca, cem dificuldades te assaltarão, serás submetido a uma centena de provas… Ali terás de passar vários anos, terás de fazer grandes esforços e modificar o teu estado.”
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Attar atenua essa intensidade para o leitor com inúmeras alegorias, digressões, narrativas e parábolas poéticas que transmitem um sentido de vida sem fim dentro do trivial e acentuam uma dimensão do espírito dentro do voo da alma em busca da verdade.
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Por fim, somente um pequeno número de toda a grande companhia chegou ao lugar sublime a que a Poupa os conduzira, pois dos milhares que haviam iniciado a viagem quase todos tinham desaparecido, e muitos que se aventuraram por curiosidade ou desfastio morreram sem ter tido ideia sequer do que se mostravam decididos a encontrar.
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Tendo deixado para trás o Vale da Morte, os trinta pássaros que ainda estão juntos chegam ao termo da jornada.
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No palácio do Simurgh são recebidos por um nobre camarista que, tendo-os primeiro posto à prova, abre a porta, e então “quando ele abriu uma centena de cortinas, uma atrás da outra, revelou-se-lhes um novo mundo além do véu”.
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