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Silêncio

Christopher Fremantle. Attention.

  • Experimentos da NASA comprovaram que uma pessoa privada quase por completo de impressões exteriores encontra sua situação intolerável após poucas horas e parece estar em perigo de perder a razão, o que confirma que as impressões constituem o alimento necessário para a manutenção da vida de instante em instante.
    • As impressões recebidas do mundo exterior chegam aos sentidos e, ao entrar na psique, encontram os mecanismos de pensamento e sentimento, onde criam uma resposta imediata.
    • Essa resposta constitui o mecanismo de segurança comum a todo o reino animal e provavelmente a toda a vida orgânica: o familiar é reconhecido, o desconhecido dá lugar ao temor.
  • O impulso da impressão é absorvido e produz um movimento nos mecanismos do pensamento, dos sentimentos e do instinto: no pensamento esse movimento se converte numa cadeia de associações; nos sentimentos, num “gosto ou não gosto”, em prazer ou temor; no instinto, numa reação correspondente na forma de ação ou postura.
    • Há impressões que produzem ação, outras apenas movimento do pensamento e da emoção, e outras ainda se armazenam no subconsciente sem que nos demos conta delas, produzindo no entanto reações secundárias ou subliminares.
    • Esses movimentos que constituem a resposta automática e condicionada do ser humano à vida que o rodeia podem ser comparados à ação de um computador que está programado mas não possui consciência.
  • A questão que se impõe é se há outro modo de receber as impressões que possa alimentar a psique em lugar de apenas produzir um movimento de tipo automático, ou seja, se o ser humano pode abrir-se às impressões de tal forma que seus pensamentos e sentimentos recebam uma renovação constante derivada do mundo em que vive.
    • Para que isso seja possível, deve-se considerar a questão do que pode ser chamado de “silêncio interior”: quando a atenção do ser humano não é tomada por completo pelos movimentos associativos e se deixa que estes se desvaneçam, experimenta-se esse silêncio interior.
  • Esse silêncio pode ser um estado passivo ou um estado acompanhado por uma atenção ativa, como quando há uma pergunta não verbalizada para a qual não há resposta, em que todos os dados recebidos automaticamente através dos sentidos são rejeitados conscientemente e a atenção é ativamente envolvida num estado de pergunta contínuo.
    • O exemplo de um ser humano envolvido no ato de escutar, tentando captar um som quase inaudível com todo o seu corpo, sentimento e intelecto concentrados num esforço por percebê-lo, ilustra esse estado.
    • As impressões recebidas nesse silêncio interior não produzem de imediato uma reação mecânica que as desviaria automaticamente, possuindo uma intensidade e uma riqueza tais que tocam tanto o pensamento quanto a emoção e parecem trazer um contato mais íntimo e frutífero com a realidade externa e interna do ser humano.
  • A própria surpresa e o espanto dessa riqueza inesperada colocarão em marcha as associações no computador e, de novo, o estado mecânico inunda a psique, mas quando há uma atenção suficientemente forte para resistir a esse movimento, as impressões continuam conectando o ser humano, vivificando seu pensamento, suas emoções e sua compreensão.
    • Ao mesmo tempo ele percebe que não são apenas impressões de tipo exterior, mas que também recebe impressões interiores através das quais sente inter-relações imperceptíveis para os sentidos.
    • Já não se sente isolado e separado como antes: já não está só.
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