Relatos de Belzebu (Waldberg)
*(MWG)*
Um dos obstáculos que se encontra ao estudar os ensinamentos de Gurdjieff é o próprio estilo em que sua obra foi escrita, tanto os Relatos de Belzebu ao Seu Neto (RBN) quanto Encontros com homens notáveis (EHM).
Essas obras, no entanto, não se assemelham. Uma é extraordinariamente complexa e de difícil acesso; a outra é escrita de forma mais simples, em um estilo quase estritamente narrativo. Mas ambas têm em comum o fato de Gurdjieff introduzir elementos fantásticos: ali, mitos e ficções extraterrestres; aqui, eventos maravilhosos e improváveis, como a travessia do deserto de Gobi sobre pernas de pau.
As duas obras foram escritas em russo. Mas o menos notável não é que as traduções feitas para inglês e francês tenham uma qualidade tão elevada que se tornam criações literárias exemplares em ambos os idiomas. (Existem também traduções para o alemão, cujas qualidades um germanista poderia destacar, algo que eu não seria capaz de fazer.) Como é que, em nenhum momento, esses textos “cheiram” a tradução? Porque foram realizados pelos próprios discípulos de Gurdjieff, sob sua orientação, por um grupo que não estava pressionado pelo tempo e cuja única preocupação era transmitir ao leitor o sabor peculiar de um estilo que, até onde sei, não tem equivalente neste século.
Muito se disse que o estilo dos Relatos de Belzebu é repelente. É porque não estamos acostumados a ele, porque vai contra todas as modas e tendências que nos impõem como únicas possibilidades para um escritor.
O ensaísta Jorge Luis Borges, em um texto de 1930 intitulado Da Ética Supersticiosa do Leitor (incluído no volume Discussão, Paris, Gallimard, 1966), destacou o que chamou de “a condição indigente de nossas letras, sua incapacidade de atrair”, que estaria na origem de uma “superstição do estilo”.
*“Os afetados por essa superstição entendem por estilo não a eficácia ou ineficácia de uma página, mas os aparentes sucessos do escritor: suas comparações, sua harmonia, seus maneirismos de pontuação e sintaxe. São indiferentes à convicção pessoal ou à emoção; buscam 'tecnicismos' (a palavra é de Unamuno) que lhes digam se o escrito tem ou não o direito de agradá-los.”*
Aqui tocamos no problema mais importante da literatura atual. A forma não serve mais às ideias (não se deve tomar isso como uma profissão de fé clássica: em Lautréamont, por exemplo, o extremo “barroquismo” da forma não é gratuito). Pelo contrário, a forma existe por e para si mesma. E acaba-se por propor nada menos que a desintegração da linguagem, pois não há mais nada a transmitir além do próprio desespero — ou, pior, a afirmação orgulhosa de uma capacidade maléfica de, como se diz, sempre “inovar”. O que Mallarmé viveu como um martírio — a impotência de escrever, que em sua obra desemboca na dupla armadilha da ininteligibilidade e do preciosismo afetado —, os escritores de hoje, em sua maioria, experimentam por conformismo, porque se tornou “bonito” divagar interminavelmente sobre a famosa “incomunicabilidade” de todas as coisas. Daí essa “superstição do estilo” que Borges denuncia vigorosamente:
*“Ouviram dizer”, escreve ele sobre os escritores, “que a repetição próxima de certas sílabas é cacofônica, e fingem se incomodar com isso na prosa, mesmo que na poesia isso lhes dê um prazer peculiar — a meu ver, igualmente fingido. Em outras palavras, não olham para a eficácia do mecanismo, mas para a disposição de suas peças. Subordinam a emoção à ética, ou melhor, à etiqueta.”*
Os escritores estão quase sempre em busca da “página perfeita”. Mas, como ressalta Borges: “A página perfeita, aquela em que nenhuma palavra pode ser alterada sem prejuízo, é a mais precária de todas. […] Inversamente, a página que tem vocação para a imortalidade pode atravessar o *feu des errata*, das versões aproximadas, das leituras distraídas e dos mal-entendidos sem perder sua alma nessa provação.”
O mesmo ocorre com as traduções da obra de Gurdjieff, com a ressalva de que o “feu des errata” não as afetou. Gurdjieff buscou, justamente, a eficácia. Por isso, criou uma linguagem inteiramente pessoal, capaz de transmitir tanto a “convicção pessoal” quanto a “emoção”.
Pouco — ou mal — se falou até agora sobre a linguagem dos Relatos de Belzebu ao Seu Neto. O estudo ainda inédito de Charles Duits, não exaustivo, mas antes reflexões que se confiam a um diário ou a um amigo sem preocupações literárias, merece ser citado integralmente:
*“As grandes qualidades da introdução aos Relatos não precisam ser destacadas. Essa introdução é, indiscutivelmente, uma das obras mais impressionantes da época — tanto que André Breton pensou em publicar trechos dela em sua Antologia do Humor Negro.*
*”O corpo do livro, porém, não é de fácil acesso, para dizer o mínimo. Como o 'pratico' há anos, achei que a melhor maneira de honrar a memória de Gurdjieff seria, dentro do possível, facilitar ao leitor a aproximação desse texto aparentemente intimidante.*
*“Na verdade, ele pertence, como indica o título, a um dos gêneros literários mais conhecidos, ao qual pertencem as Cartas Persas ou O Ingênuo. Belzebu, um ancião bondoso, dedicou grande parte de sua existência aos habitantes da Terra, tentando curá-los de um mal terrível causado pela 'imprevidência de certos Indivíduos Muito Elevados e Muito Santos'. E já se vê a ironia: esse ser, cuja ação foi no mínimo 'angélica', é considerado pelos humanos como o próprio diabo. Assim, desde o início, temos uma chave: os homens veem o mundo invertido — tomam anjos por demônios e vice-versa.*
*”Como se vê, se o gênero dos Relatos é 'clássico', a doutrina exposta é também tradicional. Sob uma narrativa cheia de humor, encontramos a doutrina da ilusão, de Maya, do famoso 'sono' do qual falam todos os mestres — sono do qual é preciso 'despertar'.*
*“Gurdjieff não busca o 'novo' — e nisso se distingue da maioria dos escritores profissionais. O que é novo (e prodigiosamente) é a forma; mas o conteúdo, como os indícios mostram, é antigo, clássico, tradicional.*
*”Essa forma, por mais estranha, barroca ou absurda que pareça, também pertence a uma tradição muito antiga: a das Mil e Uma Noites. É importante destacar isso, pois só pode apreciar uma obra assim quem ainda é capaz de sentir um prazer infantil ao ouvir contos. Os problemas mais graves são discutidos, mas Belzebu fala com uma criança, seu neto Hassin, e narra a aventura cósmica no estilo oriental — um ritmo que se tornou estranho à mentalidade ocidental moderna. Os ouvintes de Homero apreciavam as mesmas epítetos repetidas; o sultão que ouvia Sherazade também, assim como os ouvintes dos trovadores quando ouviam pela milésima vez que Carlos Magno tinha uma 'barba florida'.*
*“Talvez aqui esteja o principal obstáculo para o leitor moderno. O que, para um espírito 'infantil', é o charme e a virtude dos Relatos (como na Ilíada, na Canção de Rolando ou nas Mil e Uma Noites) — a repetição de imagens e fórmulas, esse movimento de maré — é justamente o que um leitor 'intelectualizado' menos consegue suportar.*
*”É preciso aceitar: trata-se de um 'procedimento' muito diferente dos atuais. Um procedimento que, como todos, tem vantagens e desvantagens. Escrever no século XX com uma 'técnica primitiva' é, obviamente, um desafio. Muitos serão repelidos, mas alguns redescobrirão algo dos contos de fadas e também, por que não dizer, um 'sopro' que, com o tempo, superadas as resistências iniciais, acaba por cativar.*
*“Quem tiver paciência para ler uma obra como os Relatos perceberá que esse procedimento tem uma virtude singular. Sim, na entrada do livro há um dragão formidável: o tédio. Mas quem atravessa esse limiar descobre que as repetições, longe de cansar, criam uma atmosfera, prendem a atenção — e, como Hassin, queremos mais.*
*”Citei a Ilíada e as Mil e Uma Noites; em muitos aspectos, os Relatos também lembram Rabelais, que, como Gurdjieff, não tem pressa e apresenta ao leitor moderno uma superfície inicialmente difícil, mas acaba por cativar de maneira duradoura. Voltamos a esses livros incessantemente: lemos uma página, um capítulo, paramos e recomeçamos. Assim, o 'suco quintessencial' penetra sem que percebamos.*
*“Detive-me longamente no procedimento de Gurdjieff porque é essencial preparar o leitor. É inevitável o mal-entendido se tentarmos ler os Relatos como um romance. Aqui há outra maneira de ler — e, portanto, de considerar a literatura (Joyce também tentou recuperá-la em Ulisses e, sobretudo, em Finnegans Wake). Uma obra sem começo nem fim, que fala 'de tudo e de nada', que recusa qualquer pressa e impõe ao leitor seu próprio ritmo.*
*”Dito isso, podemos abordar o aspecto moderno — até ultramoderno — do livro: a grande inovação cômica de Gurdjieff, que o torna um dos escritores mais geniais do século. Toda a obra é escrita em um jargão pseudocientífico cujo efeito cumulativo (todos os efeitos em Gurdjieff são cumulativos) é, a meu ver, irresistível.*
*“Em certo sentido, os Relatos são uma sátira interminável da ciência moderna — ou, mais exatamente, do espírito científico. Gurdjieff viu na vaidade dos cientistas uma das melhores ilustrações da estupidez universal. Essa vaidade, aliada à pedanteria, manifesta-se no uso contínuo de um jargão greco-latino que permite às 'sumidades' disfarçar a banalidade de suas ideias — como os médicos de Molière. Assim, 'saliokouriapis' significa 'água', 'tesskuâno' é 'telescópio', etc.*
*”Esse jargão também tem outro propósito, sério: há em Gurdjieff uma 'cabala verbal' que exigiria um estudo minucioso. Mas o que nos interessa aqui é ver como, com esse recurso simples, ele consegue um efeito de deslocamento absoluto. Belzebu e Hassin vivem em um planeta desconhecido, Karataz, e o diálogo entre eles nos faz ver a Terra de fora — muito mais do que as Cartas Persas ou O Ingênu. Não são apenas nossos costumes que são estranhados, mas toda a nossa linguagem, nossa história, nossa geografia. Ficamos surpresos ao saber que os humanos também realizam o 'Elmouârno' (fazem amor) e, no fim da vida, sofrem o 'Raskouarnô' (morrem).*
*“O livro assume a forma de uma etnologia cômica — que esvazia muitos balões. Assim como o etnólogo salpica seus textos com palavras dos povos que estuda, Gurdjieff nos 'exotiza' completamente, mostrando que a vida poderia ser diferente, que as coisas não são simplesmente 'assim'.*
*”E, claro, outros domínios além da etnologia são atingidos. Com esse procedimento simples e eficaz, Gurdjieff nos leva a questionar não apenas a autoridade da ciência, mas a própria realidade de seus resultados. Tudo é abalado: física, química, biologia. Ele substitui nossas 'leis da Natureza' por um sistema próprio, descrito em uma linguagem pomposa e repelente. Pouco importa, por ora, o valor desse sistema; o importante é o efeito desestabilizador.*
*“Estamos tão desorientados que começamos a duvidar: Einstein está certo? O que há em suas teorias que não esteja também na 'Lei do Triamazikamno' ou do 'Heptaparaparshinokh'? Talvez nossos resultados científicos sejam apenas vislumbres parciais de leis muito mais amplas que ignoramos. Em certo ponto, esquecemos que os Relatos são uma ficção e quase aceitamos que o Sol não aquece nem ilumina, que a Lua é um planeta nascente e não morto, etc. Acreditamos em Gurdjieff sem perceber — até que precisamos fazer um esforço para 'despertar' e entender o jogo do qual fomos vítimas. E então percebemos que talvez sejamos vítimas de um jogo semelhante na vida real.*
*”Devo acrescentar que as 'leis' de Gurdjieff não são tão fantasiosas quanto parecem, e sua cosmologia pode ser menos absurda do que aparenta. Mas o importante, por ora, é ver como ele 'desnuda' o leitor, forçando-o a questionar o inquestionável e a perceber como se dá a mecanização fatal do pensamento — origem de tantos males.“*
