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I O Despertar do Pensar
Resumo feito a partir da versão em inglês de 1950
LIVRO I: ⇒ RBN I-2
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Entre as convicções formadas na presença comum do autor durante sua vida responsável e peculiarmente composta, há uma indubitável: a de que sempre e em toda parte, entre pessoas de todo grau de desenvolvimento e de toda forma de manifestação dos fatores que engendram ideais em sua individualidade, existe a tendência, ao iniciar qualquer coisa nova, de pronunciar em voz alta ou pelo menos mentalmente aquela expressão conhecida por todo iletrado, que em diferentes épocas foi formulada de modos distintos e em nosso tempo se formula com as palavras “Em nome do Pai e do Filho e em nome do Espírito Santo, Amém”.
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Por essa razão, o autor inicia sua nova empreitada, a autoria, pronunciando essa expressão, não apenas em voz alta, mas de modo muito distinto e com plena entonação inteiramente manifestada, conforme a definiam os antigos Toulusenses.
Tendo assim começado, o autor pode estar tranquilo e, segundo as noções de moralidade religiosa dos contemporâneos, deveria ter a certeza de que tudo mais prosseguirá como se diz “como uma pianola”.-
O que virá a seguir só pode ser expresso com as palavras do cego: “veremos”.
O autor confessa francamente que não tem o menor desejo pessoal de escrever, mas que circunstâncias alheias à sua vontade, independentes dele, o obrigam a fazê-lo, e que não sabe ainda se essas circunstâncias surgiram acidentalmente ou foram criadas intencionalmente por forças externas.-
O que sabe é que essas circunstâncias o impelem a escrever não qualquer coisa superficial, mas tomos pesados e volumosos.
Ao iniciar de fato a escrita, o autor se vê novamente diante da mesma sensação extremamente desagradável que havia experimentado cerca de três semanas antes, ao compor mentalmente o plano e a sequência das ideias destinadas à publicação sem saber por onde começar, sensação que poderia formular como “o medo de afogar-se no transbordamento dos próprios pensamentos”.-
Na ocasião anterior, poderia ter recorrido à propriedade maleficente de adiar tudo para amanhã, presente nele como em todo homem contemporâneo, mas agora isso não é mais possível.
Quase todos os livros que o autor leu em sua vida começaram com um prefácio, e por isso ele também deve começar com algo semelhante, embora empregue em vez disso uma Advertência, pois em todo o processo de sua vida sempre fez tudo de modo diferente de outros, e não começar como qualquer outro escritor é não apenas conveniente mas talvez até uma obrigação de princípio.-
Começar com uma Advertência é judicioso por não contradizer nenhum de seus princípios, orgânicos, psíquicos ou volitivos, e por ser honesto no sentido objetivo.
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É honesto porque ele e todos os que o conhecem bem esperam com certeza indubitável que seus escritos farão desaparecer na maioria dos leitores, de imediato e não gradualmente, toda a “riqueza” que possuem, herdada ou adquirida por trabalho próprio, na forma de noções tranquilizadoras que evocam apenas sonhos ingênuos e representações belas de suas vidas presentes e de suas perspectivas futuras.
Os escritores profissionais costumam iniciar suas introduções com um endereço ao leitor repleto de frases pomposas, melosas e infladas, e o autor seguirá esse exemplo, mas procurando não torná-lo tão açucarado quanto eles o fazem, sobretudo por conta de seus sutis jogos intelectuais que lisonjeiam as sensibilidades do leitor mais ou menos normal.O autor informa ao leitor que, embora esteja prestes a tornar-se escritor profissional, durante toda a sua vida nunca escreveu sequer uma carta em que fosse necessário observar o que se chama de “gramaticalidade”, e que portanto, sem nenhuma prática nas regras e procedimentos profissionais estabelecidos nem na chamada “linguagem literária de bom-tom”, é obrigado a escrever de maneira completamente diferente da dos escritores habituais, cujos escritos o leitor provavelmente se acostumou como ao próprio odor.-
O problema do leitor nesse caso reside, em sua opinião, principalmente no fato de que, ainda na infância, foi implantado nele e harmonizado com sua psique geral um automatismo excelentemente funcionante para a percepção de todo tipo de novas impressões, graças ao qual não precisa mais fazer nenhum esforço individual durante a vida responsável.
O autor declara que o verdadeiro centro de sua confissão não está na ignorância das regras e procedimentos dos escritores, que o perturba pouco, mas na não-posse da “linguagem literária de bom-tom”, indispensável na vida contemporânea.-
Não está muito perturbado com a ignorância das regras porque tal ignorância tornou-se uma bênção generalizada, surgida graças a uma nova e extraordinária doença que nos últimos vinte a trinta anos afeta sobretudo as pessoas que dormem de olhos entreabertos e cujos rostos são solo fértil para todo tipo de espinha, e que se manifesta no fato de que, se o doente é um pouco letrado e tem o aluguel pago por três meses, inevitavelmente começa a escrever algum “artigo instrutivo” ou um livro inteiro.
Quanto à ignorância da linguagem literária, o autor confessa com humildade e rubor que, embora tenha sido ensinado essa linguagem na infância e seus mais velhos o obrigassem a decorar forçadamente inúmeras nuances que compõem esse “deleite” contemporâneo, nada disso ficou gravado, e isso ocorreu não por culpa sua nem de seus professores, mas em razão de um evento excepcional no momento de seu nascimento.-
Um ocultista bem conhecido na Europa, após minuciosa investigação psico-físico-astrológica, explicou que naquele momento, pelo buraco feito por uma cabra louca no vidro da janela, entraram as vibrações sonoras provindas de um fonógrafo Edison na casa do vizinho, e a parteira tinha na boca uma pastilha de cocaína de fabricação alemã, não ersatz, e a chupava ao som dessa música sem o prazer adequado.
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Além desse evento, o autor confessa que durante sua vida preparatória e adulta sempre evitou instintiva, automática e às vezes conscientemente o emprego dessa linguagem no intercâmbio com os outros, o que resultou em três dados formados em sua totalidade durante a idade preparatória, sobre os quais promete informar o leitor mais adiante.
O fato real é que, embora o autor tenha sido considerado por muitas pessoas um bom professor de danças de templo, tornou-se hoje um escritor profissional que escreverá muito, porém, sem possuir a prática automática necessária para isso, será obrigado a escrever tudo o que pensou em linguagem cotidiana comum e simples, estabelecida pela vida, sem manipulações literárias e sem sutilezas gramaticais.A questão ainda mais importante, porém, é em qual idioma escrever, pois, embora o autor tenha começado em russo, nessa língua, como diria o mais sábio dos sábios Mullah Nassr Eddin, não se pode ir muito longe.-
Mullah Nassr Eddin é pouco conhecido na Europa e na América, mas muito conhecido em todos os países do continente asiático; essa personagem lendária corresponde ao Tio Sam americano ou ao Till Eulenspiegel alemão, e numerosos contos populares do Oriente, afeitos a ditos sábios, foram e ainda são atribuídos a ele.
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O russo é uma boa língua, apreciada pelo autor, mas apenas para trocar anedotas ou referir-se à ancestralidade de alguém; o inglês também é muito bom, mas apenas para discussões em “salas de fumantes” sobre carne congelada australiana ou a questão indiana; ambas as línguas são como o prato moscovita chamado Solianka, que contém tudo exceto o interlocutor.
O autor aprendeu a falar, ler e escrever um grande número de línguas com tal fluência que poderia escrever em qualquer uma delas, mas se utilizasse o automatismo adquirido pela prática longa, teria de escrever em russo ou em armênio, já que as circunstâncias das últimas duas ou três décadas o levaram a usar principalmente essas duas línguas para o intercâmbio com os outros.O armênio era a língua favorita do autor em sua juventude por ser original e não ter nada em comum com os idiomas vizinhos ou afins, correspondendo perfeitamente à psique do povo que compõe essa nação, mas a transformação que testemunhou nesse idioma nos últimos trinta ou quarenta anos foi tal que, em vez de uma língua original e independente vinda do passado remoto, existe agora algo que representa uma espécie de potpourri burlesco de línguas cujos consonantes, ao ouvido de um ouvinte consciente, soam como turco, persa, francês, curdo, russo e outros ruídos indigeríveis.-
O mesmo poderia ser dito de sua língua natal, o grego, que ele falou na infância e cujo sabor do poder associativo automático ainda retém, mas que não pode usar para escrever pela simples e cômica razão de que ninguém poderia transcrever e traduzir seus escritos nessa língua, pois o grego que assimilou na infância e o que os gregos contemporâneos falam são tão semelhantes quanto, segundo a expressão de Mullah Nassr Eddin, “um prego é semelhante a um réquiem”.
Diante dessa situação, o autor resolverá o problema escrevendo parcialmente em russo e parcialmente em armênio, com a esperança de que as pessoas em seu entorno que “cerebram” nessas duas línguas possam transcrever e traduzir seus escritos com razoável habilidade, e reitera que, qualquer que seja a língua usada, sempre evitará a chamada “linguagem literária de bom-tom”.As línguas são compiladas por pessoas, especialmente gramáticos, que a respeito do conhecimento do idioma são exatamente semelhantes aos animais bipedais que Mullah Nassr Eddin caracteriza com as palavras “Tudo que sabem fazer é brigar com porcos sobre a qualidade das laranjas”, e essas pessoas não têm a menor noção do fato gritantemente óbvio de que, durante a idade preparatória, forma-se no funcionamento cerebral de cada criatura e também do homem uma propriedade particular cuja atuação automática os antigos Korkolans chamavam de “lei da associação”, e de que o processo de mentação de toda criatura flui exclusivamente de acordo com essa lei.Aproveitando ter tocado nessa questão, o autor considera possível declarar já no primeiro capítulo algo sobre um axioma que chegou a seu conhecimento: no passado, era costume em cada século que todo homem em quem surgisse a audácia de pretender ser considerado um “pensador consciente” fosse informado, ainda nos primeiros anos de sua existência responsável, de que o homem possui em geral dois tipos de mentação: uma por pensamento, na qual se empregam palavras que sempre possuem um sentido relativo, e outra, própria de todos os animais e também do homem, que se poderia chamar de “mentação por forma”.-
A mentação por forma, pela qual estritamente falando o sentido exato de todo escrito deve ser percebido e, após confrontação consciente com informações já possuídas, assimilado, forma-se nas pessoas em dependência das condições da localidade geográfica, do clima, do tempo e em geral de todo o ambiente em que o dado homem surgiu e em que sua existência fluiu até a maturidade.
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Nos cérebros de pessoas de diferentes raças e condições que habitam diferentes localidades geográficas, formam-se sobre uma mesma coisa ou ideia inúmeras formas completamente independentes que, durante o funcionamento, isto é, a associação, evocam em seu ser alguma sensação que condiciona subjetivamente uma determinada imagem, expressa por esta ou aquela palavra que serve apenas para sua expressão subjetiva exterior.
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É por isso que cada palavra, para a mesma coisa ou ideia, quase sempre adquire para pessoas de diferentes localidades geográficas e raças um “conteúdo interior” muito definido e completamente diferente, o que pode ser claramente verificado ao se assistir a uma troca de opiniões entre pessoas de duas raças diferentes ou que surgiram e se formaram em localidades geográficas distintas.
O autor adverte o leitor de que, antes de se aventurar na leitura de suas futuras exposições, reflita seriamente, pois seus órgãos perceptivos e digestivos podem estar tão automatizados à “linguagem literária da intelligentsia” que a leitura desses escritos lhe poderia soar muito cacofônica, fazendo-o perder o apetite pelo prato favorito e pela especificidade psíquica que lhe agrada ao ver a vizinha morena.O autor esclarece que não é jovem nem está escrevendo para fazer carreira ou firmar-se nessa profissão que, em sua opinião, fornece muitos caminhos para tornar-se candidato direto ao “Inferno”, pois aqueles que nada sabem escrevem toda sorte de disparates, adquirem autoridade automaticamente e tornam-se quase um dos principais fatores que continuam a diminuir a psique das pessoas, já extremamente reduzida.-
Quanto à carreira pessoal, graças a todas as forças altas e baixas, já a realizou há muito e está de “pé firme” com a certeza de que sua força é suficiente por muitos anos, a despeito de todos os inimigos passados, presentes e futuros.
O autor tem a ideia de solicitar ao impressor que o primeiro capítulo de seus escritos seja impresso de tal forma que qualquer pessoa possa lê-lo antes de cortar as páginas do livro, podendo devolvê-lo ao livreiro se perceber que não está escrito no modo habitual.-
Isso porque os livreiros agirão segundo seu princípio básico: “Você seria mais tolo que um pescador se soltasse o peixe que engoliu a isca”, e se recusarão a aceitar de volta um livro cujas páginas já foram cortadas.
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Os dados para a certeza da falta de escrúpulos dos livreiros foram formados no autor quando, como “faquir indiano” profissional, precisou familiarizar-se com o processo associativo da psique automaticamente construída dos livreiros contemporâneos e de seus vendedores ao persuadir compradores.
Para ilustrar o princípio que tornará o “sal” de sua nova forma literária, o autor relata a história de um curdo transcaucasiano que foi à cidade, viu num açougue uma fruta de aparência encantadora, comprou um quilo por dois centavos e a comeu durante o regresso a casa, sentindo tudo queimar por dentro, mas continuando a comer sem parar.-
Um conterrâneo que passava pelo caminho, reputado como muito inteligente e experiente, vendo o rosto do curdo em chamas e os olhos a lacrimejar, exclamou que ele estava comendo pimenta vermelha e que se destruiria, ao que o curdo respondeu que não pararia por nada no mundo, pois havia pago seus últimos dois centavos por ela e, ainda que sua alma partisse do corpo, continuaria a comer.
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O princípio extraído dessa história é o da inherência humana de que, se se paga por algo, é preciso consumi-lo até o fim.
O autor declara que, sabendo bem dessa inherência humana, tomou todas as medidas possíveis para que o leitor já acostumado apenas aos livros escritos na “linguagem da intelligentsia”, ao pagar pelo livro e descobrir só depois que não está escrito na linguagem usual, não seja compelido por essa inherência a lê-lo até o fim como o pobre curdo foi compelido a comer a pimenta, daí a ideia de imprimir o primeiro capítulo de modo acessível antes do corte das páginas.O autor informa que em seus escritos exporá seus pensamentos intencionalmente em tal sequência e com tal “confrontação lógica” que a essência de certas noções reais passará por si mesma automaticamente da “consciência em vigília” — que a maioria das pessoas confunde com a consciência real, mas que ele afirma e prova experimentalmente ser a fictícia — para o que se chama de subconsciente, que deveria ser em sua opinião a verdadeira consciência humana, onde por si mesmas mecanicamente produzirão a transformação que deve se processar na totalidade de um homem.-
Na totalidade de todo homem, independentemente de hereditariedade e educação, formam-se duas consciências independentes que em seu funcionamento e manifestações quase nada têm em comum: uma se forma a partir da percepção de impressões mecânicas acidentais ou intencionalmente produzidas por outros, incluindo as consonâncias de palavras vazias; a outra se forma a partir dos resultados materiais já previamente formados transmitidos por hereditariedade e dos dados oriundos da confrontação associativa intencional desses dados materializados já existentes no homem.
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Essa segunda consciência, o subconsciente, formado pelos resultados materializados da hereditariedade e das confrontações atualizadas pelas próprias intenções, deveria em sua opinião predominar na presença comum de um homem.
O autor afirma ser verdadeiramente único no que se refere a “confundir e desorientar” todas as noções e convicções supostamente solidamente fixadas na totalidade das pessoas com quem entra em contato, e isso graças a três dados peculiares que se cristalizaram em sua totalidade durante vários períodos de sua idade preparatória.-
O primeiro desses dados, desde o início de seu surgimento, tornou-se como que a principal alavanca diretora de toda a sua inteireza, e os outros dois as “fontes vivificantes” para a alimentação e o aperfeiçoamento desse primeiro dado.
O primeiro dado surgiu quando o autor ainda era apenas, como se diz, um “gordinho”. Sua querida avó, já falecida, estava então ainda viva e tinha mais de cem anos. Quando a avó estava morrendo, a mãe levou o menino à cabeceira, e enquanto ele beijava a mão direita da avó, ela colocou a mão esquerda moribunda sobre sua cabeça e sussurrou, mas muito distintamente: “Mais velho dos meus netos! Ouve e lembra sempre minha rigorosa injunção: na vida nunca faças como os outros fazem”.-
Notando a perplexidade do menino e seu obscuro entendimento, a avó acrescentou com alguma raiva e imponência: “Ou não faças nada, vai simplesmente à escola, ou faz algo que ninguém mais faz”.
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Logo depois disso, sem hesitar e com um impulso perceptível de desdém por todos ao redor e com louvável autoconsciência, ela entregou sua alma diretamente às mãos de Sua Veracidade, o Arcanjo Gabriel.
Toda essa cena fez uma impressão tão poderosa no menino que ele se tornou subitamente incapaz de suportar alguém ao redor e, discretamente, sem chamar atenção, escapou para o depósito onde ficavam os farelos e cascas de batata destinados aos porcos e ficou lá, sem comer nem beber, em meio a um turbilhão de pensamentos confusos, até que o choro da mãe ao não encontrá-lo o “inundou”, e ele então saiu imediatamente do depósito e, em pé na beirada e por alguma razão com o braço estendido, correu para ela, agarrou-se às suas saias e involuntariamente começou a imitar o zurro do burro de seu vizinho, um oficial de justiça.-
Por que essa cena produziu uma impressão tão forte e por que ele se manifestou de modo tão estranho é algo que o autor ainda não conseguiu entender, embora nos últimos anos, especialmente nos dias do Carnaval, tenha ponderado muito tentando descobrir a razão, tendo apenas a suposição lógica de que o quarto da sagrada cena estava impregnado do perfume de um incenso especial trazido do monastério de “Antigo Athos”, muito popular entre os seguidores de toda tendência da religião cristã.
O primeiro ato claramente discordante das manifestações dos outros ocorreu exatamente no quadragésimo dia após a morte da avó, quando toda a família e os que a estimavam se reuniram no cemitério para o serviço de réquiem, e o menino, em vez de permanecer imóvel com expressão de luto, como era convencional, de repente começou a dar pulinhos ao redor da sepultura como se dançasse e cantou “Que ela repouse com os santos, agora que esticou as canelas, Oi! oi! oi! …” e assim por diante.-
A partir desse episódio, surgiu em sua totalidade um “algo” que, com relação a qualquer tipo de imitação das manifestações automatizadas dos que o rodeavam, engendrava sempre e em tudo o que ele chamaria agora de um “impulso irresistível” de fazer as coisas de modo diferente dos outros.
Durante a infância e a adolescência, o autor praticava atos como os seguintes: ao aprender a pegar uma bola, enquanto os outros a lançavam para o alto, ele primeiro a arremessava com força no chão e só quando ela ricocheteava, após um salto mortal, a apanhava com o polegar e o dedo médio da mão esquerda; se as crianças desciam o morro de cabeça, ele tentava fazê-lo “de traseiro para baixo”; se lhes davam pastéis e as outras primeiro lambiam para experimentar o gosto, ele os cheirava por todos os lados, às vezes os punha no ouvido e escutava atentamente, murmurava algo para si mesmo e então, sem saboreá-lo, engolia de uma vez, e assim por diante.O primeiro dos dois dados mencionados que se tornaram “fontes vivificantes” para a alimentação e o aperfeiçoamento da injunção da avó ocorreu quando o autor estava na fase que vai do “gordinho” para o “jovem malandro” e começava a ser candidato a “jovem de aparência agradável e conteúdo duvidoso”, e aconteceu nas seguintes circunstâncias talvez especialmente combinadas pelo próprio Destino.-
Enquanto colocava armadilhas para pombos no telhado da casa de um vizinho com outros jovens malandros como ele, um menino observou que o laço de crina deveria ser disposto de modo que o dedão do pombo nunca ficasse preso, pois a força de reserva do pombo se concentra nesse dedo.
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Outro menino, de cuja boca respingava saliva abundante sempre que falava, respondeu com um dilúvio de palavras de que justamente o que precisavam era fazer com que fosse esse dedão a ficar preso no laço, pois assim a força concentrada nele contribuiria para a captura; e ao terminar, lançou tal quantidade de saliva sobre o rosto do autor que foi como se ele fosse exposto a um “atomizador” de tintas de anilina, o que o levou a lançar-se contra o menino de cabeça, deixando-o inconsciente.
Essa habilidade havia sido ensinada ao autor poucos dias antes por um padre grego da Turquia que, perseguido pelos turcos por suas convicções políticas, havia fugido para sua cidade e sido contratado por seus pais como professor de grego moderno, e que em todas suas conversas, mesmo ao explicar diferenças gramaticais, deixava sempre transparecer claramente seu sonho de chegar à ilha de Creta para manifestar-se como verdadeiro patriota.-
Ao ver o efeito de sua habilidade, o autor ficou extremamente assustado, pois, nada sabendo de tal reação a um golpe naquele lugar, pensou ter matado o menino.
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Nesse momento, o primo do menino nocauteado, tomado de sentimento de “consanguinidade”, imediatamente se atirou sobre o autor e com toda a força lhe acertou um soco no rosto.
Do golpe, o autor “viu estrelas” e sua boca ficou cheia de algo que, ao ser retirado com os dedos, revelou-se um dente de grandes dimensões e forma estranha: tinha sete raízes e na ponta de cada uma havia uma gota de sangue em relevo, e através de cada gota brilhava clara e definitivamente um dos sete aspectos da manifestação do raio branco.-
Depois de um silêncio incomum para os “jovens malandros”, todos decidiram ir imediatamente ao barbeiro, especialista em extrações dentárias, para perguntar por que o dente era assim.
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O barbeiro, após um olhar casual, disse que era simplesmente um “dente do siso” e que todos os do sexo masculino têm um igual, desde que antes de exclamar pela primeira vez “papai” e “mamãe” foram alimentados exclusivamente com leite materno e conseguem, ao primeiro olhar, distinguir entre muitos rostos o rosto do próprio pai.
Como consequência de tudo o que ocorreu com o dente, não apenas a consciência do autor passou a absorver constantemente a essência da injunção da avó, mas também, por não ter ido a um dentista qualificado para tratar a cavidade do dente, começou a escorrer cronicamente dessa cavidade um “algo” que, como lhe foi explicado muito mais tarde por um famoso meteorologista com quem se tornou amigo íntimo nos restaurantes noturnos de Montmartre em Paris, tinha a propriedade de despertar o interesse e a tendência de buscar as causas de todo “fato real” suspeito.-
Essa propriedade, não transmitida por hereditariedade, levou-o gradualmente e automaticamente a tornar-se um especialista na investigação de todo fenômeno suspeito que encontrava em seu caminho.
O segundo dos fatores vivificantes mencionados, desta vez para a fusão completa da injunção da querida avó com todos os dados que constituem a individualidade geral do autor, foi o conjunto de impressões recebidas de informações que ele obteve acidentalmente sobre um evento que demonstrava a origem daquele “princípio” que, segundo as elucidações do Sr. Alan Kardec durante uma sessão espírita “absolutamente secreta”, se tornou em toda parte, entre seres semelhantes ao autor surgidos e existentes em todos os outros planetas do grande Universo, um dos principais “princípios de vida”.-
A formulação verbal desse “princípio de vida” universal é: “Se você vai à farra, vá à farra completa, inclusive com a postagem”.
Logo após a definitiva inculcação em sua natureza da nova inherência de esclarecer as razões reais de todo tipo de “fatos reais”, o autor, em sua primeira chegada a Moscou, onde, não encontrando nada mais para satisfazer suas necessidades psíquicas, se ocupava da investigação de lendas e provérbios russos, descobriu que um certo comerciante russo foi de sua cidade provincial a Moscou a negócios e, tendo ficado embriagado com vodca russa genuína junto a um amigo, lembrou-se por associação do pedido do filho de trazer um livro.-
Na livraria, ao ser informado de que o livro custava sessenta copeques embora o preço marcado na capa fosse de quarenta e cinco, e ao ouvir do vendedor que os quinze copeques extras eram para a postagem, o comerciante, após reflexão profunda, disse ao amigo: “Tanto faz, companheiro, vamos levar o livro. Afinal estamos na farra hoje, e 'se você vai à farra, vá à farra completa, inclusive com a postagem'.”
Ao conhecer essa história, algo muito estranho que o autor nunca havia experimentado antes ou depois começou a se processar nele: como que corridas competitivas entre todas as suas associações e experiências de diferentes origens, uma forte coceira ao longo de toda a coluna vertebral e uma cólica no centro do plexo solar; e essas sensações duplas que se estimulavam mutuamente foram logo substituídas por uma paz interior tão profunda quanto a que ele experimentou apenas uma vez mais tarde, quando foi realizado sobre ele o ritual da grande iniciação na Irmandade dos “Originadores de fazer manteiga do ar”.-
Nesse estado, seu “eu” constatou claramente que tudo o que elucidava essa citação tornada “princípio de vida universal” se transformou nele em uma substância cósmica especial que, fundindo-se com os dados já cristalizados muito antes da injunção da avó falecida, transformou esses dados em um “algo” que fluiu por toda a sua totalidade e se instalou para sempre em cada átomo que a compõe; e secundariamente seu “eu” sentiu e tornou-se consciente, com impulso de submissão, do fato de que doravante teria de se manifestar sempre e em tudo, inevitavelmente, de acordo com essa inerência formada nele não por hereditariedade nem por circunstâncias, mas surgida em sua totalidade sob a influência de três causas externas acidentais sem nada em comum: a injunção da avó, um dente arrancado por um garoto por causa da “babosidade” de outro, e a formulação verbal de um comerciante de Moscou em estado de embriaguez.
Se antes desse princípio o autor se manifestava de modo diferente dos outros animais bípedes automaticamente e às vezes semiconscientemente, a partir desse evento passou a fazê-lo conscientemente e com sensação instintiva de dois impulsos fundidos de autossatisfação e autocognição de cumprir corretamente e honradamente seu dever para com a Grande Natureza.-
Antes do evento, suas manifestações dificilmente se impunham à atenção dos concidadãos, mas a partir do momento em que a essência desse princípio de vida foi assimilada por sua natureza, todas as suas manifestações adquiriram vivacidade e começaram a formar “calos” nos órgãos de percepção de toda criatura semelhante a ele que dirigia sua atenção para seus atos, e ele próprio passou a realizá-los seguindo a injunção da avó até os limites mais extremos possíveis.
Esse princípio psico-orgânico o compele agora, no caso presente, a não tomar como tema de seus escritos os eventos supostamente ocorridos ou que ocorrem na Terra, como fazem todos os escritores desde o remoto passado até o presente, mas a tomar como escala de eventos para seus escritos o Universo inteiro.-
Qualquer escritor pode escrever na escala da Terra, mas o autor não é qualquer escritor.
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Prometendo escrever também sobre a Terra, mas com uma atitude tão imparcial que esse planeta e tudo nele correspondam ao lugar que de fato ocupam no grande Universo, o autor também não fará de seus heróis os tipos que os escritores de todas as épocas exaltaram: tipos que surgem por mal-entendido e não adquirem durante sua formação nada do que é próprio de um ser criado à imagem de Deus, desenvolvendo até o último suspiro apenas vícios indignos do homem como luxúria, babosidade, apaixonamento, malícia, covardia, inveja e similares.
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Os heróis de seus escritos serão do tipo que todo leitor deverá inevitavelmente sentir com todo o seu ser como reais, e sobre os quais nele se cristalizarão dados para a noção de que são de fato “alguém” e não meramente “qualquer um”.
Tendo mentalmente esboçado um sumário de seus escritos futuros e pensado na forma e sequência de sua exposição durante as últimas semanas deitado na cama com o corpo doente, o autor decidiu fazer o principal herói da primeira série de seus escritos o próprio Grande Beelzebub, embora essa escolha possa desde o início evocar na mentação da maioria dos leitores associações mentais que engendrarão todo tipo de impulsos contraditórios automáticos, oriundos da totalidade de dados formados na psique das pessoas pelas condições anormais da vida externa e cristalizados pela chamada “moralidade religiosa”, gerando inevitavelmente neles dados para uma hostilidade inexplicável em relação ao autor pessoalmente.-
Embora Beelzebub seja feito de “grão diferente”, como pode pensar e tem, segundo o tratado do famoso monge católico Frei Foolon, uma cauda encaracolada, o autor conclui por sua “lógica sã” que Ele deve possuir uma boa dose de vaidade e achará extremamente inconveniente não ajudar alguém que vai anunciar Seu nome.
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Mullah Nassr Eddin frequentemente diz que “sem untar a palma não apenas é impossível viver em lugar algum toleravelmente, mas até mesmo respirar”; e Till Eulenspiegel, outro sábio terrestre, exprimiu o mesmo dizendo que “se não se lubrificam as rodas, a carroça não anda”.
Ao perceber que se desviou demais e que o capítulo introdutório ficou excessivamente longo, o autor recorda que a extensão atual já o levou a transgredir um dos princípios fundamentais de seu sistema: sempre lembrar e levar em conta o enfraquecimento do funcionamento da mentação do leitor contemporâneo e não o fatigar com a percepção de numerosas ideias em pouco tempo.-
Além disso, ao pedir a uma das pessoas sempre ao seu redor que lesse em voz alta tudo o que havia escrito nesse capítulo introdutório, constatou com certeza que na totalidade de cada leitor sem exceção deve inevitavelmente surgir, graças apenas a esse primeiro capítulo, um “algo” que engendra automaticamente uma hostilidade definida em relação ao autor pessoalmente.
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O que mais o preocupa, porém, não é isso, mas o fato de ter constatado que na totalidade do que foi exposto no capítulo ele se manifestou contrariamente a um dos mandamentos fundamentais do Mullah Nassr Eddin: “Nunca enfie seu pau num ninho de vespas”.
O autor consola-se, porém, lembrando-se de Karapet de Tiflis, personagem muito simpático e precioso, não tão conhecido em toda a Terra mas nunca esquecido por todos que o encontraram uma vez, e resolve contar sobre ele para encerrar o capítulo.-
Vinte ou vinte e cinco anos antes, a estação ferroviária de Tiflis tinha um apito a vapor que era soado todas as manhãs para despertar os trabalhadores ferroviários; como a estação ficava numa colina, o apito era ouvido em quase toda a cidade, acordando não apenas os ferroviários, mas os próprios habitantes de Tiflis, e o governo local chegou a se corresponder com as autoridades ferroviárias sobre a perturbação do sono matinal dos cidadãos pacíficos.
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Soltar o vapor no apito todas as manhãs era a tarefa do próprio Karapet, empregado na estação.
Antes de puxar a corda do apito, Karapet acenava em todas as direções e solenemente, como um mulá muçulmano de um minarete, pronunciava em voz alta todas as maldições que conhecia, em vários tons, e só então puxava a corda.-
Ao ouvir falar dessa prática, o autor foi visitar Karapet numa tarde após o trabalho com um pequeno bourdok de vinho Kakhetiano e, após realizar o solene “ritual de brindes” local e segundo o complexo de “amenidades” estabelecido para o relacionamento mútuo, perguntou-lhe por que ele fazia isso.
Karapet, após esvaziar seu copo de uma vez e cantar a famosa canção georgiana inevitavelmente cantada ao beber, começou a responder de forma pausada, explicando que antigamente trabalhava à noite limpando as caldeiras a vapor, mas que quando o apito a vapor foi instalado o chefe da estação o designou apenas para soltar o vapor no apito, o que exigia que chegasse pontualmente todas as manhãs e tardes.-
Na primeira semana desse novo serviço, notou que após cumprir esse dever sentia-se vagamente mal por uma ou duas horas; como esse estranho sentimento foi aumentando dia a dia e se transformou em uma intranquilidade instintiva definitiva que até lhe tirava o apetite para o Makhokh, passou a pensar intensamente em encontrar a causa, sobretudo enquanto ia e voltava do trabalho, mas por quase dois anos nada conseguiu esclarecer a si mesmo.
Finalmente, quando os calos nas palmas de suas mãos já estavam bem duros pela corda do apito, Karapet compreendeu de repente e acidentalmente por que sentia essa intranquilidade, graças a uma exclamação que ouviu ao acaso em circunstâncias peculiares: uma manhã em que não havia dormido o suficiente, viu um barbeiro-cirurgião amigo que o fez parar no canto da rua.-
O dever desse barbeiro-cirurgião era percorrer a cidade com um assistente e uma carruagem especialmente construída para apreender todos os cães vadios sem a placa metálica distribuída pelas autoridades locais mediante pagamento do imposto, levando-os ao matadouro municipal, onde eram mantidos por duas semanas com os resíduos do matadouro; se ao término desse prazo os donos não os reclamassem e pagassem o imposto estabelecido, os cães eram conduzidos com certa solenidade por uma passagem que dava diretamente a um forno especialmente construído, de onde fluía, com som gorgolejante delicioso, uma quantidade definida de gordura translúcida e idealmente limpa para a fabricação de sabão e talvez de outra coisa, e com som não menos delicioso, uma quantidade também útil de substância para fertilização.
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O barbeiro amigo, ao estar prestes a lançar sua rede sobre o próximo cão vadio que naquele momento estava distraído observando uma cadela, foi surpreendido pelo sino da igreja vizinha chamando para a missa matinal, o que assustou o cão, que fugiu disparado pela rua vazia; então o barbeiro, enfurecido a ponto de os pelos se eriçarem, atirou a rede no calçamento e cuspindo sobre o ombro esquerdo exclamou em voz alta: “Oh, Inferno! Que hora para tocar!”.
Assim que essa exclamação chegou ao aparelho reflexivo de Karapet, diversos pensamentos começaram a fervilhar nele e levaram-no, em sua visão, à compreensão correta de por que procedia nele a referida intranquilidade instintiva: todo aquele que era despertado pelo barulho do apito a vapor, perturbando seus doces sonhos matinais, inevitavelmente o amaldiçoava, e por isso fluíam em direção a sua pessoa vibrações de todo tipo de malícia.-
Nessa manhã significativa, sentado numa taberna vizinha comendo Hachi com alho, Karapet chegou à conclusão de que, se amaldiçoasse previamente todos aqueles a quem seu serviço poderia parecer perturbador, então, segundo as explicações do livro que havia lido na noite anterior, por mais que todos os que ficam entre o sono e a sonolência o amaldiçoassem, isso não teria efeito algum sobre ele.
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E de fato, desde que passou a fazer isso, não sente mais a referida intranquilidade instintiva.
O autor conclui o capítulo advertindo o leitor a não se preocupar com a extensão do texto e assinando com os vários nomes pelos quais foi chamado ao longo da vida: na infância “Tatakh”, na juventude “Moreno”, depois o “Grego Negro”, na meia-idade o “Tigre do Turquestão”, e agora não apenas qualquer um, mas o genuíno “Monsieur” ou “Mister” Gurdjieff, ou sobrinho do “Príncipe Mukransky”, ou simplesmente um “Professor de Dança”.autores-obras/gig/rbn/rbn-i-1/start.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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