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III A causa do atraso na queda da nave Karnak
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O capitão entrou e, após realizar todas as cerimônias apropriadas ao posto de Beelzebub, pediu sua opinião autorizada sobre uma inevitabilidade que se encontrava na rota do navio e que impediria a queda suave pelo caminho mais curto.
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O problema era que, seguindo o curso pretendido, o navio Karnak passaria pelo sistema solar Vuanik após dois Kilprenos, sendo que um Kilpreno equivale aproximadamente ao que se chama de “hora”.
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Pelo mesmo trecho deveria passar, cerca de um Kilpreno antes, o grande cometa pertencente àquele sistema solar, chamado Sakoor ou, por vezes, o Maluco.
Seguindo o curso proposto, o navio inevitavelmente cruzaria o espaço pelo qual o cometa deveria ter passado, deixando em sua esteira grande quantidade de Zilnotrago, substância semelhante ao ácido cianídrico que, ao penetrar no corpo planetário de um ser, desorganiza a maioria de suas funções até que se volatilize completamente.-
O capitão considerou desviar o navio ao redor dessas esferas para evitar o Zilnotrago, mas isso exigiria um longo desvio que prolongaria muito o tempo de viagem.
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Aguardar a dispersão do Zilnotrago levaria ainda mais tempo.
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Diante dessa alternativa tão difícil, o capitão não se sentiu capaz de decidir sozinho e veio buscar o conselho competente de Beelzebub.
Beelzebub, após breve reflexão, recorreu a um provérbio do sábio terrestre Mullah Nassr Eddin, ser tricerebral muito sábio que surgiu e existiu entre os seres do continente chamado Ásia, no planeta Terra, e que para toda situação peculiar da existência dos seres dali, grande ou pequena, tinha um dito certeiro e preciso.-
O dito aplicado ao caso foi: “Não se pode pular acima dos próprios joelhos e é absurdo tentar beijar o próprio cotovelo”.
Beelzebub concluiu que, diante de um evento que emana de forças imensamente superiores às próprias, nada resta senão se submeter, e a única questão era escolher entre as duas alternativas: fazer o desvio ou esperar.-
Se o desvio implicasse o menor dano à maquinaria do navio, a segunda opção, parar e aguardar a dispersão do Zilnotrago, seria preferível para poupar o navio de danos desnecessários.
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O período de espera imprevisto poderia ser preenchido com conversas úteis para todos.
Beelzebub expressou ao capitão o desejo de conversar com ele sobre os navios contemporâneos em geral e sobre o Karnak em particular, observando que durante sua ausência muitas novidades haviam surgido nesse campo e que os grandes navios transespaço da época anterior eram tão complicados e volumosos que consumiam quase metade de sua potência apenas para transportar os materiais necessários à sua locomoção.-
Os navios contemporâneos, em sua simplicidade e liberdade, eram considerados por Beelzebub verdadeiras encarnações da Bem-aventurança-stokirno.
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Havia tal simplicidade e liberdade para os seres a bordo que por vezes se esquecia de estar fora de um planeta.
Ouvindo o que Ahoon disse, Hassein parou diante dele e, olhando-o maliciosamente, explicou que sua alegria não era egoísmo, mas apenas uma coincidência que se revelava feliz para ele, pois o avô havia prometido ao capitão uma conversa, e as conversas do avô sempre davam origem a relatos dos lugares por onde havia passado.-
Hassein argumentou que o avô havia decidido fazer a parada por livre vontade, após ponderar com sua sábia razão todas as circunstâncias do evento imprevisto.
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O menino lembrou que o próprio Beelzebub havia dito recentemente que não se deve resistir a forças superiores, mas sim se submeter e receber todos os seus resultados com reverência, louvando e glorificando as obras maravilhosas e providenciais do Senhor Criador.
Beelzebub, que havia ouvido atentamente e com um sorriso a tagarelice de seu favorito, disse-lhe que, por estar certo, lhe contaria o que quisesse ainda antes da chegada do capitão.-
Hassein foi sentar-se aos pés de Beelzebub e, após breve reflexão, disse que, embora já soubesse tanto sobre o sistema solar onde o avô havia passado tantos anos que poderia descrever detalhes de sua natureza pela lógica, queria saber se seres tricerebrais habitavam os planetas daquele sistema e se corpos-esserais superiores se revestiam neles.
Beelzebub confirmou que em quase todos os planetas daquele sistema solar habitam seres tricerebrais e que em quase todos eles corpos-esserais superiores podem se revestir, chamados em alguns planetas de almas, com exceção dos planetas cujas emanações do Mais Santo Sol Absoluto perdem gradualmente, por deflexões repetidas, toda a sua força vivificante necessária ao revestimento de corpos-esserais superiores.-
Em cada planeta separado daquele sistema solar, os corpos planetários dos seres tricerebrais se revestem e tomam forma exterior conforme a natureza do planeta em questão, adaptados em seus detalhes à natureza circundante.
No planeta Marte, onde os exilados foram ordenados a existir, os seres tricerebrais se revestem de corpos planetários com forma semelhante a uma karoona: tronco longo e largo, fartamente provido de gordura, cabeça com olhos enormes e salientes, dois grandes asas nas costas e dois pés relativamente pequenos com garras muito fortes na parte inferior.-
Como resultado, esses seres podem ver livremente em qualquer condição de Kal-da-zakh-tee e podem se mover não apenas sobre o planeta, mas também em sua atmosfera, chegando alguns deles a viajar além dos limites atmosféricos.
Em outro planeta um pouco abaixo de Marte, devido ao intenso frio, os seres tricêntricos são cobertos de lã espessa e macia e têm forma exterior semelhante a um Toosook, ou seja, uma espécie de esfera dupla.-
À esfera inferior estão ligados dois pés muito fortes e musculosos, cada um com uma protuberância que cumpre a função dos dedos.
Naquele sistema solar há ainda outro planeta, bastante pequeno, chamado Lua, que durante seu movimento frequentemente se aproximava muito do planeta Marte, e Beelzebub tomava grande prazer em observar pelo Teskooano, em seu observatório, o processo de existência dos seres tricerebrais que nele habitavam.-
Em forma exterior se assemelham a grandes formigas e estão sempre atarefados, trabalhando tanto sobre quanto dentro de seu planeta.
Durante dois anos do tempo de Beelzebub, os seres da Lua escavaram todo o interior de seu planeta, obrigados a tanto pelas condições climáticas locais anormais, decorrentes do fato de que o planeta surgiu inesperadamente e a regulação de sua harmonia climática não foi prearrajada pelas Potências Superiores.-
Há apenas dois curtos períodos agradáveis: antes e depois de sua revolução completa em torno do planeta vizinho, quando o tempo é tão esplêndido que por várias rotações o planeta floresce e produz alimentos em abundância muito superior às necessidades gerais dos seres em seu reino intraplanetário, onde se protegem das variações do clima enlouquecido.
O planeta mais próximo dessa pequena Lua é outro, maior, que também se aproximava do planeta Marte, chamado Terra, do qual a referida Lua é um fragmento e pelo qual deve ser constantemente sustentada.-
No planeta Terra também se formam seres tricerebrais contendo todos os dados para o revestimento de corpos-esserais superiores em si mesmos, mas em força de espírito não se comparam de modo algum aos seres que se reproduzem na pequena Lua.
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Os revestimentos externos dos seres tricerebrais do planeta Terra se assemelham muito aos de Beelzebub e seus companheiros, com a diferença de que a pele é um pouco mais viscosa, não possuem cauda nem chifres na cabeça e tampouco cascos nos pés, tendo inventado em seu lugar o que chamam de botas, invenção que de pouco os serve.
Além da imperfeição de sua forma exterior, a Razão dos seres do planeta Terra é também muito estranha e singularmente peculiar, tendo degenerado gradualmente por muitas causas que Beelzebub poderia relatar em outra ocasião.O capitão, ao ser convidado a falar, relatou que foi destinado por seu pai, assim que atingiu a idade de ser responsável, à carreira de serviço nos navios transespaço, começando pelas posições mais baixas e chegando eventualmente ao posto de capitão, que exercia há oito anos nos navios de longa distância.-
O posto de capitão do navio Karnak foi assumido em sucessão ao próprio pai, que após longos anos de serviço irrepreensível a SUA INFINITUDE tornou-se digno de ser promovido ao posto de Regente do sistema solar Kalman.
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O capitão havia começado seu serviço justamente quando Beelzebub partia para o lugar de seu exílio, ainda como varredor nos navios de longa distância daquele período.
O capitão confirmou que os navios anteriores eram de fato muito complicados e volumosos, sendo que na juventude tanto os navios intersistêmicos quanto os interplanetários funcionavam com a substância cósmica Elekilpomagtistzen, uma totalidade composta de duas partes separadas do onipresente Okidanokh, e era para obter essa totalidade que os inúmeros materiais deveriam ser carregados.-
Esses navios foram logo substituídos, pouco depois de Beelzebub partir daquelas regiões, pelos navios do sistema de São Venoma.
Orage
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O Capitão interrompe a conversa com uma discussão sobre naves, ou seja, religiões, que está acima da compreensão de Hassein, mas lhe transmite uma nova ideia, como uma criança que desperta e ouve os pais conversando sobre assuntos do mundo adulto. (RBN I-3)
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A criança, se tiver uma centelha de algo, terá muito em que pensar antes de voltar a dormir
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Ela foi por um momento admitida no mundo adulto sem ser ainda adulta
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