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XLII Belzebu na América

GURDJIEFFBTG-XLII (B918-B1054)

Resumo da tradução inglesa de 1950

LIVRO III: RBN III-41RBN III-43

  • Beelzebub narra ao neto Hassein sua visita à América do Norte pouco antes de sua partida definitiva do sistema solar, partindo de Paris de navio como um “detentor de dólares” e chegando a Nova York, a chamada “cidade do cadinho das raças da Terra”.
    • A viagem é feita por navio, conforme o costume dos contemporâneos detentores de dólares.
    • Beelzebub se instala no hotel Majestic, chamado extraoficialmente de “judeu”, e busca um Mister indicado por um conhecido parisiense.
    • A narrativa se dá no navio Karnak, com Hassein relembrando a promessa do avô de contar sobre os americanos, grandes devotos do fox trot.
  • A existência dos seres tricerebais norte-americanos gira quase que exclusivamente em torno dos chamados “negócios de dólares”, ao ponto de paralisarem toda atividade própria nos dias úteis e só agirem livremente aos domingos.
    • Os ofícios e profissões indispensáveis à existência coletiva são exercidos quase exclusivamente por imigrantes de outros continentes que vêm “ganhar dinheiro”.
    • A lei sobre os direitos dos pais sobre os filhos e a instituição de “bancos de poupança em dólares” nas escolas fixaram o amor ao dólar como impulso dominante nos habitantes do continente.
    • Sem esses imigrantes especializados, a ordem da existência ordinária colapsaria em cerca de um mês, pois ninguém entre os nativos saberia sequer fazer pão.
  • A proibição legal do álcool nos Estados Unidos produziu efeito contrário ao pretendido, generalizando o consumo entre todos, inclusive aqueles que jamais teriam bebido em outras circunstâncias.
    • Bebidas como Arrack, Scotch whisky, Benedictine, Vodka e Grand Marnier são servidas em restaurantes nova-iorquinos em garrafas disfarçadas de limonada ou água Vichy.
    • Licores são fabricados em barcaças ancoradas ao largo da costa, com receitas que incluem ácidos sulfúrico, nítrico e muriático, além da famosa “encantação do Professor Kishmenhof”.
    • O Professor Kishmenhof é apresentado como inventor de conjurações para transformar mil garrafas de líquido comum no licor genuíneo de uma única garrafa, bastando recitar certas palavras enquanto se coça a orelha direita com a mão esquerda.
    • Jovens carregam cigarreiras e guarda-chuvas adaptados com mecanismos ocultos para servir bebida alcoólica disfarçadamente em restaurantes e salões de dança.
    • O mesmo fenômeno é comparado ao da Rússia, onde a proibição da vodca levou ao consumo em massa da perigosa “Hanja”, que ainda mata milhares diariamente.
  • Os restaurantes de Nova York, cujos proprietários são em sua maioria armênios, gregos e judeus russos, apresentam cardápios de até setenta e oito pratos preparados num minúsculo fogão a gás por um cozinheiro gordo de origem escocesa que lê o jornal The Times.
    • A preparação consiste em abrir latas de conserva e misturar seus conteúdos numa frigideira, sendo o resultado servido com imponente prataria de cobre.
    • A proliferação de restaurantes em Nova York supera a de qualquer outra cidade do planeta.
  • A língua inglesa falada nos Estados Unidos é tão peculiar que Beelzebub, já sabendo inglês da Europa, sentiu grande inconveniência na comunicação desde o primeiro dia.
    • O Mister Chatterlitz, proprietário de uma escola de línguas na rua North 293rd Street, oferece três formas do inglês americano: para quem precisa ganhar dólares, para quem quer parecer um gentleman de educação inglesa, e para quem deseja obter Scotch whisky em qualquer lugar e hora.
    • A segunda forma, escolhida por Beelzebub, resume-se a cinco palavras: Maybe, Perhaps, Tomorrow, Oh I see e All right, suficientes para convencer qualquer interlocutor de que o falante domina o inglês e é experiente em negócios.
    • Um editor europeu revela a Beelzebub um segredo ainda mais eficaz: pronunciar qualquer palavra europeia imaginando uma batata quente na boca produz uma palavra inglesa; acrescentar pimenta vermelha moída à batata imaginária resulta na pronúncia americana perfeita.
  • Em Chicago, o Mister Bellybutton, apresentado como amiável e prestativo, leva Beelzebub a dois tipos de festas sociais americanas: uma “story party”, onde jovens contam histórias ambíguas e obscenas ao nível do escritor Boccaccio, autor do Decamerão, e uma “petting party”, onde os convidados se acariciam mutuamente.
    • Beelzebub, confuso com as carícias na primeira petting party, supõe inicialmente que a jovem americana que lhe acaricia o pescoço estaria removendo uma pulga.
    • Bellybutton menciona ainda a existência de “swimming parties” e de festas privadas com diversões “mais substanciais”.
  • A invenção da publicidade pelos americanos é apontada como um dos maiores malefícios difundidos pelo planeta, destruindo nos seres tricerebais de todos os continentes a função esseral chamada “instinto são de acreditar na realidade” e substituindo-a por uma dúvida contínua sobre tudo.
    • O matadouro de Chicago, descrito por um famoso escritor e por uma revista russa como uma maravilha de higiene, maquinário perfeito e humanidade, revelou-se a Beelzebub sujo, sem máquinas sofisticadas e inferior ao matadouro de Tiflis, onde não havia uma gota de sangue no chão.
    • A companhia de empresários que explorava o matadouro gastou muitos dólares em publicidade, contando com a ausência total de consciência dos jornalistas e repórteres, cujos órgãos da função-esseral chamada consciência estão completamente atrofiados.
    • Mullah Nassr Eddin é citado: o homem que se aperfeiçoa a ponto de fazer um elefante de uma mosca torna-se amigo do de casco fendido; os americanos tornaram-se tão hábeis nisso que, ao ver um elefante americano genuíno, é preciso “lembrar-se de si mesmo com todo o ser” para não achar que é uma mosca.
  • As pesquisas esserailes de Beelzebub entre os seres tricerebais norte-americanos revelam que quase metade sofre de desarmonia digestiva e quase um quarto tem ou caminha para a doença chamada impotência, ameaçando a continuidade da espécie.
    • O processo de destruição dessa comunidade, ainda jovem como “bebê todo cor-de-rosa”, será orgânico, ao contrário da Rússia monárquica, cuja destruição veio da mente dos detentores do poder.
    • A morte da América virá do estômago e dos órgãos sexuais de seus seres, enquanto a morte da Rússia veio da mente.
    • A duração da existência dos seres tricerebais do planeta depende atualmente, de modo exclusivo, do funcionamento normal da digestão e dos órgãos sexuais.
  • O consumo quase exclusivo de produtos decompostos, conservados, congelados ou “essensificados” é a causa principal da desarmonia digestiva dos americanos, pois os elementos ativos colocados pela Grande Natureza nos alimentos para sustentar a existência normal já se volatilizaram.
    • Quando a ligação de qualquer produto com a Natureza comum é cortada, mesmo em latas hermeticamente fechadas, os elementos ativos se separam em forma de gotas ou bolhas que se dissolvem ao abrir a lata e se dispersam no espaço.
    • As frutas americanas, submetidas a enxertos e manipulações por cientistas de “novo formato”, tornaram-se uma “festa para os olhos” mas não uma forma de nutrição esseral, pois absorvem apenas substâncias cósmicas para revestir sua presença subjetiva auto-reprodutora.
    • As conservas americanas de frutas possuem aparência externa deslumbrante, com cores e formas que superam qualquer vitrine europeia, mas seu consumo provoca caretas e mudanças de cor no rosto dos consumidores.
    • O trigo americano, abundante no continente, é raspado, penteado e polido por máquinas até destruir completamente os elementos ativos concentrados sob a casca do grão; o melhor do grão vai para os porcos ou é queimado, enquanto os seres consomem o resto.
    • O pão branco americano, admirado por europeus como “esplendor das esplendores da civilização contemporânea”, não contém nada útil ao organismo e produz apenas gases nocivos e vermes.
  • A invenção americana dos vasos sanitários com assentos confortáveis é identificada como outro fator importante na desarmonia da função digestiva, pois impede o corpo de adotar instintivamente a postura requerida pela Grande Natureza para essa função inevitável.
    • Certos americanos ricos instalam em seus banheiros pequenas mesas, telefones e aparelhos de rádio para continuar correspondências, negócios de dólar e audição de composições musicais de Hasnamusses enquanto sentados.
    • Os músculos que atuam nessa função inevitável atrofiam-se gradualmente, gerando obstruções e doenças especificamente novas que existem exclusivamente nos seres tricerebais do planeta.
    • Numa civilização anterior, a de Tikliamish, quando esse país era o centro cultural do planeta, foi inventada uma “cama-divã confortável” com alavanca lateral que permitia realizar a mesma função deitado; esse invento se difundiu e foi associado pelo movimento “revolucionário” às doenças epidêmicas da época, levando sua destruição violenta e ao esquecimento de sua existência.
    • As frequentes viagens transatlânticas dos americanos à Europa, de doze dias a um mês de ida e volta, alteram diariamente o horário estabelecido para essa função, causando obstrução mecânica no órgão chamado pela medicina contemporânea de apêndice, cuja função é acumular gases para auxiliar mecanicamente a eliminação dos resíduos.
  • A negligência na higiene dos órgãos sexuais, herdada dos costumes europeus pelos imigrantes que formaram o povo americano, é identificada como causa fundamental da desarmonia da função sexual nos seres tricerebais norte-americanos e europeus.
    • As doenças venéreas são quase epidêmicas nos continentes europeu e americano, enquanto no continente asiático são raras ou inexistentes nas regiões centrais, aumentando apenas nas fronteiras de contato com europeus.
    • Na Pérsia central, oriental, sul e oeste, essas doenças não existem; no norte, na região chamada Azerbaijão, fronteiriça com a Rússia semieuroasiática, o percentual aumenta proporcionalmente à proximidade com os russos.
    • Na Índia e em parte da China, a doença se difundiu nos pontos de contato com os ingleses da comunidade chamada Inglaterra.
    • Os principais disseminadores dessas doenças na Ásia são, pelo noroeste, os russos, e pelo leste, os ingleses.
  • O costume persa chamado abdest, ou ablução dos órgãos sexuais após cada ida ao banheiro, é apresentado pelo jovem persa como a razão pela qual ele nunca contraiu doenças venéreas apesar de sua vida desregrada em Paris.
    • O jovem persa, guia de Beelzebub em Paris no Grand Café, explica como chegou ao alcoolismo e à perseguição de saias ao viver na Europa, onde a distinção instintiva entre mulher-mãe e mulher-fêmea, existente nos persas, foi sendo corroída pelo ambiente europeu e pelo álcool.
    • O abdest é praticado obrigatoriamente por todos os seguidores da seita xiita do islã, que compõe quase toda a Pérsia; cada família possui um recipiente especial chamado Ibrkh para esse fim.
    • O jovem persa mora em Paris num hotel antigo e desconfortável, longe do centro, apenas porque esse hotel ainda possui banheiros do sistema antigo, adequado ao abdest, ao contrário dos modernos assentos americanos.
    • Após consultar os maiores especialistas médicos europeus, reunidos a grande custo, o jovem persa descobre que não tem nenhuma doença venérea, e conclui que a proteção vem exclusivamente do hábito do abdest praticado desde a infância.
  • O costume da circuncisão, chamado sooniat na Pérsia, foi instituído pelo Grande Moisés para erradicar entre as crianças judias a doença chamada Moordoorten, que os contemporâneos chamam de onanismo.
    • No antigo manuscrito chamado Tookha Tes Nalool Pan, Moisés descreve a substância chamada Kulnabo, secretada pelo organismo para neutralizar substâncias ligadas ao funcionamento dos órgãos sexuais desde a infância, cuja acumulação sob o prepúcio nos meninos e entre os lábios nas meninas causa coceira, levando ao ato do onanismo.
    • O rito Sikt ner chore, para meninos, e o Tzel putz kann, para meninas, foram criados por Moisés e introduzidos na religião judaica; o primeiro sobreviveu até hoje, o segundo desapareceu após a morte do rei Salomão.
    • A circuncisão passou para a religião cristã primitiva, onde era praticada obrigatoriamente, mas desapareceu rapidamente da prática cristã.
    • Segundo Beelzebub, o onanismo quase não existe entre as crianças cujos pais observam a circuncisão, enquanto é praticamente universal entre as que não a praticam.
    • A sensação de clímax do processo chamado Ooamonvanosinian, se ocorrer no sistema nervoso de uma criança antes da maioridade, impede para sempre a plena possibilidade de mentação normal na vida adulta.
  • O custom do jejum cristão, estabelecido no ano duzentos e quatorze após o nascimento de Jesus Cristo pelo Conselho secreto de Kelnuanian, realizado às margens do Mar Morto, baseou-se nas pesquisas do grande Hertoonano sobre a substância chamada Eknokh, presente em toda carne animal, ovos, leite, caviar e similares, cuja ação é especialmente nociva ao psiquismo humano em certas épocas do ano.
    • O grande Hertoonano, a quem o rico pastor Alla Ek Linakh financiou anos de experimentos, e o sábio El Koona Nassa, cujo aparelho chamado Arostodesokh permitia registrar diariamente o estado geral do organismo de milhares de pessoas, demonstraram que a abstinência de carne só beneficia quem vive em isolamento total; entre comedores de carne, os abstêmios têm o psiquismo deteriorado.
    • O filósofo grego Veggendiadi havia proposto ao Conselho a proibição total do consumo de carne; Hertoonano concordou moralmente, mas demonstrou que sem universalidade da abstinência o resultado seria pior para os abstêmios.
    • Os cristãos ortodoxos russos, herdeiros da tradição dos ortodoxos gregos, jejuam rigorosamente nos dias fixados, mas comem peixe durante a Quaresma, ignorando que o peixe contém exatamente a substância Eknokh que o jejum visava eliminar; os gregos, de quem receberam a tradição, comem peixe na Quaresma apenas em um único dia comemorativo.
    • Um Old Believer russo conhecido de Beelzebub celebra o jejum da Quaresma como ocasião de variedade e fartura gastronômica à base de esturjão, salmão, truta, carpa e outros peixes, recitando uma espécie de oração em louvor aos peixes.
  • O costume de “autofumigação” praticado pela tribo dos Kolenian Loors ou ciganos kolenians, que vivem entre a Pérsia e o Afeganistão, serve para destruir insetos e proteger contra doenças venéreas, apesar de sua aparência absurda e bárbara.
    • Cada família possui um banco sagrado de quatro pernas de ferro chamado Ateshkaini e uma fornalha de terra chamada Tandoor, onde queimam Keeziak, combustível de esterco animal.
    • Ao entrar em casa à noite, cada membro da família sacode as roupas infestadas de piolhos no Tandoor, onde os insetos explodem ao cair no fogo, produzindo uma “sinfonia musical” que lembra rajadas de metralhadoras.
    • Em seguida, cada membro da família sobe no banco sagrado dentro do Tandoor e, ao canto dos demais, aquece os órgãos sexuais no calor das brasas enquanto reza.
    • Uma variante semelhante existe entre os Toosooly Kurds da Transcaucásia, perto do monte Ararat, que fumigam os órgãos sexuais com a fumaça de raízes específicas queimadas num fogão sagrado chamado Mungull, coberto pelos melhores tecidos kurdos chamados DjedJims, antes de entrar na sala principal da casa.
  • A educação das crianças nas civilizações contemporâneas, baseada na noção de que falar sobre a questão sexual às crianças é “absolutamente indecente”, é identificada como causa principal da disseminação do onanismo infantil e da “mecanicidade psíquica” dos adultos.
    • Num instituto de educação de São Petersburgo, Beelzebub descobre que as alunas estão divididas em dois clubes secretos, o “clube dos homens” e o “clube das mulheres”, identificados pelo modo de amarrar as fitas das tranças, praticando os ensinamentos da poetisa grega Safo, habitante da ilha de Lesbos, que descobriu o caminho para a “verdadeira felicidade” de muitas mulheres.
    • Em outro instituto de São Petersburgo, uma aluna chamada Elizabeth é expulsa e perde o direito de frequentar qualquer instituto do Império Russo por ter chamado um touro pelo seu nome durante um passeio escolar; a diretora sugeria que deveria ter dito “bife” ou “algo muito bom de comer quando estamos com fome”.
    • Elizabeth, criada numa grande propriedade rural longe da cidade, explode em insultos à diretora e às professoras e desmaia; sua amiga Mary, deixando bilhete dizendo não querer viver mais com tais nulidades, enforca-se junto com Elizabeth no depósito de lenha do instituto.
    • A noção de “indecência” de falar sobre sexo às crianças foi introduzida pelos candidatos a Hasnamusses da Idade Média, que também destruíram o verdadeiro significado do ensinamento do Divino Mestre Jesus Cristo e inventaram o “bon ton”, transmitido hereditariamente até tornar-se fixação psíquica irreversível nos contemporâneos.
  • O polígamo jovem persa, após anos de observação e leitura extensiva sobre doenças venéreas em francês e alemão, conclui que a limpeza é a única proteção eficaz, e que o abdest é sua proteção específica, abençoando a memória dos que criaram esse costume benéfico.
    • O persa atribui seu alcoolismo à necessidade de suportar sem constrangimento a imoralidade europeia e de não ser chamado pelos colegas de negócios de “mulherzinha”, “medroso” ou “bonequinho”.
    • A distinção persa instintiva entre mulher-mãe e mulher-fêmea, formada há dois séculos e meio pela chegada de prostitutas estrangeiras durante as guerras, é transmitida hereditariamente e funciona de modo completamente independente da consciência.
    • O persa compara o casamento europeu de um homem com uma só mulher legal, dentro do qual as traições mútuas são universais e dissimuladas, com o casamento persa de até sete esposas legais, no qual os deveres mútuos são cumpridos com honestidade e absorção recíproca.
    • Na Europa, a linha divisória entre mulher-mãe e mulher-prostituta deixou há muito de existir; no Grand Café em Paris, praticamente nenhum dos casais que conversam alegremente são marido e mulher legítimos.
  • A crença universal entre os seres tricerebais contemporâneos de que sua civilização é o resultado direto e ininterrupto do desenvolvimento da Razão desde os primórdios, sem precedentes em épocas anteriores, é apontada como a causa principal do fenômeno de imitação acrítica de tudo que os americanos inventam.
    • Esse falso convencimento, formado durante a idade preparatória pela “educação” vigente, faz com que quando seres de qualquer agrupamento se tornam possuidores de algo desejável e apresentam como nova alguma ideia já existida inúmeras vezes no passado, todos os demais acreditem que é absolutamente inédita e passem a imitar tudo, bom e mau, apenas para possuir o que é considerado desejável no momento.
    • Beelzebub lembra que refletiu sobre essa característica estranha do psiquismo dos seres tricerebais já na época de sua quinta visita pessoal à superfície do planeta, quando Babilônia era o centro cultural, e que as mesmas conclusões se aplicavam então.
    • Os americanos, cujo conteúdo interior e cujas manifestações externas consistem apenas do que há de pior nos outros agrupamentos contemporâneos, tornaram-se modelos de imitação universal pelo simples acaso de terem adquirido aquilo que, objetivamente, é o mais desprezível, mas que as condições anormais da existência ordinária tornaram desejável.
    • A prática de viver em arranha-céus é apontada como uma das invenções mais prejudiciais dos americanos, pois as substâncias transformadas pelo próprio planeta que compõem o segundo alimento esseral, o ar, não podem, pela lei cósmica de segunda ordem chamada Tenikdoa ou lei da gravidade, penetrar além de certa altura da atmosfera, alterando a composição do ar respirado nas alturas.
  • O monge Brother Asiman, membro de uma fraternidade que migrou do Hindustão para os vales do Hindu Kush para trabalhar sobre si mesmo longe dos perturbadores europeus, descobriu após longos experimentos alquímicos um pó nutritivo de um dedal por dia que dispensava qualquer outro alimento além de água.
    • Após cinco meses de uso por todos os irmãos, o pó revelou efeitos nocivos graduais: enfraquecimento dos órgãos perceptivos, piora da voz, da visão e da audição, e mudanças psíquicas graves, transformando anjos da bondade em irritáveis ao extremo e pacíficos em exasperados como um professor alemão quando um francês descobre algo novo na ciência.
    • O documento redigido pelos irmãos no dia em que cessaram o uso do pó incluía a fórmula destruída por Asiman e uma longa descrição das mudanças de caráter, comparadas pelo “sabor” que Beelzebub reteve às expressões do querido Mullah Nassr Eddin.
    • Beelzebub, ao mencionar o “pobre escritor upstart” do livro Uma Crítica Objetivamente Imparcial da Vida do Homem, prevê que esse escritor será odiado tanto pelos “materialistas corpulentos” quanto pelos “deístas de noventa e seis quilates” e pelos otimistas incorrigíveis de estômago cheio.
  • A doença chamada “coceira de escrever”, denominada assim pelo Mister Onanson, é quase epidêmica entre os jovens americanos, especialmente os de rosto cheio de espinhas, e Beelzebub encarrega o neto Hassein de investigar em que forma maléfica seus resultados terão se moldado para os descendentes.
    • Escolas de escrita e manuais sobre sequência de palavras para melhor percepção do leitor são organizados pelos “mais espertos”, cujos dados para o impulso esseral de abster-se de induzir outros ao erro estão mais atrofiados.
    • O hábito de leitura, tornado necessidade orgânica pelos americanos, combinado com a sedução de títulos “ruidosos”, leva à diluição progressiva da mentação já enfraquecida.
  • Beelzebub conclui sua narrativa americana com reflexões sobre o futuro dessa comunidade, expressando agradecimento pelo descanso interior que encontrou entre os americanos e encarregando Hassein de visitar Nova York ou o lugar onde a cidade existiu para pronunciar em voz alta uma frase de homenagem ao avô.
    • O percentual de seres tricerebais nos quais a possibilidade de adquirir o Ser normal não está completamente perdida é maior na América do Norte do que na Europa, porque os imigrantes que a formaram vieram principalmente das camadas “simples”, não dos herdeiros da casta dominante europeia, nos quais séculos de transmissão hereditária de propriedades Hasnamussinas depositaram tamanha “arrogância interior” que os impede de se fundir com a massa geral.
    • Na véspera da partida, no café chamado Childs no Columbus Circle, observando os passantes uniformizados pela “moda”, Beelzebub constata que tudo o que constitui a aparência subjetiva dos americanos é imitação exclusiva daquilo que os seres livres dos outros agrupamentos, já decepcionados com tudo que a existência ordinária pode oferecer, consideram indigno de manifestação.
    • No convés do navio que se afastava em direção ao leste, com as luzes do continente se apagando gradualmente, Beelzebub conclui que a causa original dessa incongruência é a convicção, formada pela “educação” vigente, de que os antepassados nunca atingiram o nível de Razão dos contemporâneos, levando à crença de que qualquer ideia apresentada como nova é realmente inédita.
    • Uma peculiaridade observada entre as mulheres de certo grupo isolado na ilha de Balakhanira, antes do afundamento do continente Atlântida, chamada pelos membros da sociedade Akhaldan de Dezsoopsentoziroso, consistia no estreitamento progressivo da pelve nas mulheres, levando ao uso de operações chamadas Sitrik, hoje chamadas cesarianas, e à extinção da raça dois séculos depois; sinais semelhantes são observados entre as americanas.
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