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Questões do Rei Milinda (2)
Parabola V4N4. Narrado por Paul Jordan-Smith
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As Questões do Rei Milinda é adaptado de um antigo texto-fonte em páli de mesmo nome, registro fiel dos diálogos entre o monge budista Nagasena e o rei grego da Báctria, Menandro; a PARABOLA publicou outros diálogos em edições anteriores, sendo este o último da série; narrado por Paul Jordan-Smith.
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Entre os dilemas propostos pelo rei Milinda a Nagasena estava o da dádiva do rei Sivi, que teria dado os próprios olhos a um mendigo cego e recebido novos olhos do céu — o que contradizia o Sutra que afirma ser impossível o surgimento do olho divino quando o suporte físico foi removido.
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Milinda disse: “Este dilema é de ponta dupla, mais intrincado que um nó, mais penetrante que uma flecha, mais confuso que uma selva. Refuta-o, se puder!”
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Nagasena respondeu: “Não tenha dúvidas, ó rei: o rei Sivi de fato deu seus olhos ao mendigo que os pediu, e quando ficou cego olhos divinos lhe foram dados em troca.”
Milinda pressionou: se o Sutra não é falso, em que base foram dados olhos divinos ao rei Sivi? — e Nagasena respondeu com uma pergunta: como Sua Majestade descreveria uma ação realizada em completa sinceridade, um verdadeiro Ato de Verdade?-
Milinda respondeu: “Tais coisas não são dadas a homens comuns, Nagasena, pois por Atos de Verdade os homens santos fazem cair a chuva, afastam certos perigos e apagam fogos sem água.”
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Nagasena explicou: se tal pessoa, num dia sem nuvens, pronunciasse em completa sinceridade um encanto adequado pedindo que uma chuva forte caísse, e a chuva caísse sem razão aparente, o próprio encanto seria a causa; da mesma forma se alguém confrontasse um incêndio furioso e em sinceridade completa pronunciasse um encanto ordenando que o fogo recuasse, e o fogo de fato recuasse naquele momento, o encanto seria novamente a causa.
Nagasena citou o exemplo de um rei na China que por um Ato de Verdade encantava o grande oceano de modo que, quando seu carro real se aproximava do mar, as grandes ondas recuavam, e quando voltava, as ondas fluíam novamente sobre o lugar por onde o carro havia passado; nenhum poder comum poderia fazer as ondas do mar recuar, e por isso se deveria conhecer a força da Verdade, que não há lugar onde ela não alcance.-
Milinda concordou: “Não há força ordinária que pudesse realizar isso, Venerável.”
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Nagasena concluiu: “Por isso, então, você deveria conhecer a força da Verdade. Não há lugar a que ela não chegue.”
Nagasena narrou então como Asoka, o soberano justo, ao ver o poderoso Ganges transbordante em Pátaliputra, perguntou a seus oficiais se havia alguém capaz de fazer o grande rio fluir ao contrário — e entre a multidão junto ao rio havia uma cortesã chamada Bindumati que ouviu a pergunta do rei Asoka e disse a si mesma que mostraria ao rei o poder de um Ato de Verdade realizado por alguém como ela.-
Bindumati disse a si mesma: “Aqui estou eu, uma meretriz da cidade de Pátaliputra; pela venda de meu corpo ganho meu sustento, e sigo a mais baixa das vocações. Que o Rei contemple o poder de um Ato de Verdade realizado até por alguém como eu.”
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Bindumati evocou os atributos do Buda e de todos os Bodhisats, trouxe-se a um estado de contemplação completa, dirigiu toda a sua atenção aos ensinamentos e em utter sinceridade fez uma solene declaração de fé nesses ensinamentos, realizando um Ato de Verdade — e naquele momento o poderoso Ganges, rugindo e encapelado, refluiu e começou a fluir rio acima à vista de Asoka e de todo o povo.
Tomado de assombro ao ver as ondas e redemoinhos do rio a fluir ao contrário, Asoka encontrou a mulher e lhe perguntou se era verdade que por seu Ato de Verdade o Ganges havia sido feito fluir rio acima; ao saber que sim, perguntou por que poder divino uma tal pessoa podia fazer o rio fluir ao contrário.-
Bindumati respondeu: “Pelo poder da Verdade, Vossa Majestade.”
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Asoka perguntou: “Como pode esse poder estar em você, uma mulher desprovida de virtude, perversa e pecadora, que ultrapassou todos os limites e vive da pilhagem dos tolos?”
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Bindumati respondeu: “É verdade, ó Rei, que sou exatamente como o senhor diz: é justamente o tipo de criatura que sou. Mas mesmo em alguém como eu o poder de um Ato de Verdade é tão grande que poderia virar de cabeça para baixo o mundo inteiro dos deuses e dos homens. Pois, Vossa Majestade, quem quer que me dê ouro — seja nobre ou servo, brâmane ou comerciante — eu o trato da mesma forma que todos os outros. Não faço distinção a favor do nobre, nem desprezo o escravo. Livre de adulação e antipatia, sirvo aquele que me comprou. Esta, Vossa Majestade, é a base do Ato de Verdade pela força do qual o poderoso Ganges foi feito fluir rio acima.”
Nagasena concluiu: nada há que os firmes e sinceros não possam desfrutar; quando o rei Siva deu os olhos ao mendigo cego que os pediu, deu-os livremente e sem consideração por si mesmo, estando em presença da Verdade, e essa visão interior que surge da contemplação foi a base sobre a qual lhe foram dados olhos divinos do céu.-
Nagasena disse: “Assim, ó rei, não há nada que aqueles que são firmes e sinceros não possam desfrutar. Quando o rei Siva deu seus olhos ao mendigo cego que os pediu, ele os deu livremente e sem consideração por si mesmo, estando em presença da Verdade. E essa visão interior que surge da contemplação foi a base sobre a qual lhe foram dados olhos divinos do céu.”
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