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Ciência do Idiotismo

Bruno Martin. The Realized Idiot. The Artful Psychology of G. I. Gurdjieff and the “Science of Idiotism”

  • A Tipologia dos Idiotas de Gurdjieff caracteriza o desenvolvimento interior do ser até o núcleo da essência, sendo que enquanto a personalidade permanece ativa em seus papéis mecânicos — fixações como orgulho, ciúme e cobiça — o ascenso pela “escada da razão” permanece bloqueado, e a origem da “Ciência dos Idiotas” esteve provavelmente ligada ao desejo de ilustrar a conexão individual das pessoas com o Trabalho espiritual.
    • René Zuber descreveu a hierarquia dos Idiotas como um jogo de reflexos em que os outros ajudam a ver a própria imagem.
    • Os tipos delineados podem ser encontrados em alguma versão em toda parte.
  • Dado que o autoconhecimento raramente é suficiente para compreender a real condição de cada um, Gurdjieff esperava que seus alunos escolhessem intuitivamente o Idiota mais próximo de si mesmos e a ele permanecessem fiéis, considerando desonesta a indecisão de quem muda de escolha a cada momento — conforme o episódio relatado por Elizabeth Bennett em que Gurdjieff repreendeu uma aluna por não ter escolhido seu Idiota após seis dias.
    • Gurdjieff falava frequentemente da necessidade de “representar” um papel sem se identificar com ele.
    • Em cada nível de desenvolvimento ocorre uma morte e uma ressurreição — fana e baqa no Sufismo — antes de se alcançar um novo grau de razão.
    • Bennett observou que cada vez que nos lembramos de nós mesmos há evidência de que subir é possível.
  • Cada Idiota é uma cor do arco-íris da identidade humana, e todos possuem as qualidades essenciais de cada tipo — complacência, compaixão, desespero, agitação, entre outras — cabendo ao praticante observar essas qualidades com o mesmo espírito com que Gurdjieff estudava os seres humanos como “máquinas” de três cérebros.
    • O conhecimento atual sobre psicologia e fisiologia cerebral, percepção e atenção acrescenta novas dimensões a esse estudo.
    • Gurdjieff declarou que ninguém pode fazer de alguém um Idiota: cada pessoa deve escolher por si mesma.
  • A “Ciência dos Idiotas” fornece pistas sobre as estruturas comportamentais essenciais que as pessoas desenvolvem ao trabalhar em si mesmas, com descrições articuladas para as refeições rituais e para as condições especiais de trabalho na presença de Gurdjieff, tendo o álcool e o humor contribuído como tempero adicional para a compreensão das formulações crípticas — obras de arte com caráter arquetípico.
  • Na observação cotidiana das pessoas reconhecem-se reações típicas e mecânicas criadas pela cultura e pela imitação, e a Tipologia dos Idiotas exemplifica esses padrões: o “Idiota Compassivo” defenderá causas de direitos humanos ou animais mesmo com risco pessoal, mas se agir por ambição ou glória sua ação objetiva fica contaminada pela personalidade e apenas o ego é alimentado.
    • A meta é encarnar a ação típica do Idiota sem identificação, a partir de exploração e jogo.
    • O “Idiota Sem Esperança” se enreda em desvios de seus objetivos; se o desvio vem da ganância, o nó não se desfaz; se vem da inocência, há esperança.
    • O “Idiota Contorcido” pede conselho aos amigos mas o ignora sistematicamente; se o ignora por vaidade, não pode ser ajudado.
  • Os padrões de reação aos outros e ao ambiente revelam muito sobre as pessoas, e os Idiotas apontam reações típicas a desafios essenciais, cujos ciclos se repetem de modo quase previsível — como o amigo que liga de manhã cedo com o mesmo problema da semana anterior e ignora novamente o conselho recebido.
  • A pesquisa cerebral confirma que mais de 95% da percepção é construída internamente, de modo que nunca se vê o quadro completo, e a “Ciência dos Idiotas” mostra diferentes aspectos dos padrões comportamentais essenciais como reflexos prismáticos — não fixos, mas cores de um espectro inteiro que se modificam ao longo da vida conforme o trabalho sobre si mesmo.
    • As descrições dos Idiotas apresentam aspectos “positivo” e “negativo”, aludindo às expressões do “eu dividido” em suas partes externa e interna.
  • Durante as refeições rituais, apenas os doze primeiros Idiotas eram brindados, não somente por cansaço, mas porque representam os comportamentos mais comuns da vida cotidiana e dos relacionamentos, sendo que os nove primeiros expressam padrões da “essência material” — como o “Super Idiota” que fantaseia ser especial por ter iniciado um caminho espiritual, obscurecendo assim a singularidade real de sua essência.
    • Com maior autoconhecimento, enfraquece-se um padrão e emerge outro, e assim se sobe a “escada da razão”.
  • A Tipologia dos Idiotas difere das classificações astrológicas e planetárias porque estas descrevem traços fixos da essência que não mudam ao longo de uma vida, enquanto os Idiotas ilustram padrões comportamentais e de reação que podem ser navegados — e superado um padrão compulsivo, a pessoa passa a manifestar o ato correspondente por escolha e não por compulsão.
    • Superar o Idiota Compassivo não elimina a compaixão, mas a transforma de compulsão em escolha consciente.
    • Os Idiotas funcionam como campo de treinamento onde comportamentos arquetípicos podem ser forças ou fraquezas dependendo de quem está no comando.
  • Ver os padrões automáticos constitui uma forma de iluminação profunda que afeta o ser inteiro, e somente por meio dessa visão é possível superá-los, gerando um efeito em ondas que libera progressivamente outros padrões inconscientes — como o “Idiota Sem Esperança” que, ao desenvolver vontade real de trabalhar em si mesmo em vez de apenas ler sobre isso, torna-se livre para agir de forma diferente e “saltar sobre a própria sombra”.
  • Gurdjieff praticou a refeição ritual diariamente por muitos anos, e embora o processo com suas comidas, brindes e descrições permanecesse essencialmente o mesmo, o objetivo era aprender fazendo — trabalhar com outros no estudo objetivo do arco-íris das próprias reações em direção ao aumento da consciência.
  • Os Movimentos trabalham o aparato motor e ajudam a superar padrões físicos, emocionais e intelectuais fixos, integrando todos os centros, mas não afetam profundamente os padrões psicológicos e as qualidades essenciais mais profundas, razão pela qual Gurdjieff insistia na Festa dos Idiotas como método específico para desenvolver a capacidade de ver a idiotia em si mesmo e nos outros.
    • A atmosfera de boa comida e vodca favorece o relaxamento e a abertura, em contraste com a experiência frequentemente tensa da psicoterapia.
  • Um ser que alcançou a Idiotia é por definição alguém que está em processo de tornar-se e mudar, o que exclui os chamados “seres estacionários” como os Anjos, e a escala de 21 graus de razão vai do homem ordinário até a proximidade de Deus — sendo o décimo oitavo grau o objetivo de todo ser que aspira à perfeição, pois apenas os filhos de Deus como Jesus Cristo podem alcançar o décimo nono e o vigésimo.
  • A “Escada da Razão” compõe-se de vinte e um tipos em sequência ascendente, dos quais os dez primeiros formam uma progressão do Ordinário ao Iluminado, os sete seguintes movem-se numa direção de maior impotência e dependência de influências externas, e a dinâmica essencial envolve dois sentidos de movimento — para cima em direção ao número vinte e um e para baixo em direção ao Idiota Ordinário — com o risco de que encargos acumulados tornem-se obstáculos intransponíveis em certo ponto da escalada.
    • Gurdjieff advertia que às vezes é útil retornar ao Idiota Ordinário para cortar a identificação com a peculiaridade específica de um Idiota mais avançado.

A Escada da Razão
1. Idiota comum
2. Superidiota
3. Arqui-idiota
4. Idiota sem esperança
5. Idiota compassivo
6. Idiota contorcido
7. Idiota quadrado
8. Idiota redondo
9. Idiota em ziguezague
10. Idiota iluminado
11. Idiota cético
12. Idiota Arrogante
13. Idiota Autêntico (também chamado de “Idiota de Nascimento”)
14. Idiota Patenteado
15. Idiota Genial
16. Idiota Poliedral
17. Mestre Idiota
18. Idiota Perfeito
19. Idiota Sagrado
20. Idiota Cósmico
21. Idiota Único

  • Micheline Stuart, integrante dos grupos de Maurice Nicoll — discípulo de Gurdjieff e Ouspensky — afirmou em seu livro The Tarot-Way to Self Development que o Tarot contém uma teoria oculta da evolução do homem, e é possível traçar um paralelo entre a Tipologia dos Idiotas e os Arcanos Maiores do Tarot, invertendo a sequência habitual das cartas para que o percurso vá do “Louco” até o “Mago”.
    • A inversão da sequência revela correspondências claras com os Idiotas.
    • A hipótese admite que o conhecimento dos Idiotas tenha sido incorporado ao Tarot renascentista sofrendo, com o tempo, mudanças de símbolos e significados.
  • O Arcano Maior do Tarot possui 22 cartas enquanto a Tipologia de Gurdjieff tem apenas 21, e a carta “O Mundo” — normalmente a número 22 — parece ser de uma ordem diferente e deve ser estudada separadamente, sendo que Gurdjieff utilizou essa imagem como ilustração-título do prospecto de seu “Instituto para o Desenvolvimento Harmonioso do Homem”.
    • A carta mostra um ser humano circundado pelos símbolos dos quatro evangelistas, cada um representando um centro do homem: centro motor, emocional, intelectual, com o anjo simbolizando o centro intelectual superior e a mulher ao centro simbolizando o centro emocional superior.
    • No centro do círculo entrelaçado com o anjo aparece o eneagrama como símbolo de transformação.
    • Em Beelzebub's Tales to his Grandson, essa imagem era o logotipo da Sociedade Akhaldan, mas com uma esfinge de cabeça substituída por seios de virgem — mais um enigma deixado por Gurdjieff.
  • A Ciência do Idiotismo de Gurdjieff trata da transformação passo a passo da mesmice mecânica — que é ausência de identidade — para a mesmice que é perfeição de identidade, com o perigo de que o praticante tome por identidade real aquilo que ainda não possui, chegando a um ponto de onde não é mais possível avançar.
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