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Por que quero me tornar um idiota?
Bruno Martin. The Realized Idiot. The Artful Psychology of G. I. Gurdjieff and the “Science of Idiotism”
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O Quarto Caminho de Gurdjieff, registrada por Pjotr D. Ouspensky em In Search of the Miraculous, distingue-se dos três caminhos tradicionais — do faquir (corpo), do monge (sentimento) e do iogue (intelecto) — por ser o “caminho do homem astuto”, uma abordagem superior, abrangente e mais inteligente de desenvolvimento interior.
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O simbolismo numérico empregado por Gurdjieff não é ornamental, mas carregado de conteúdo psicológico e espiritual, operando desde a nomenclatura do Quarta Caminho até o uso de “idiotas geométricos” na Tipologia dos Idiotas, com figuras como díade, tríade e tétrade funcionando como metáforas da evolução humana, do homem mecânico ao homem harmonioso, e a pirâmide representando o acesso a uma nova dimensão, a “quintessência” do ser.
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O Quarto Caminho volta-se para a descoberta da Individualidade interna.
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A “Ciência do Idiotismo” foi desenvolvida como ferramenta para a auto-observação objetiva necessária a essa descoberta.
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Ouspensky registrou que a transmissão do significado dos símbolos é impossível a quem ainda não os compreendeu em si mesmo.
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Gurdjieff emergiu da tradição dos mestres orientais, especialmente dos “Mestres do Momento” de Turkistão, após longas jornadas pela Europa Oriental, Ásia Central e Norte da África, acumulando vastos conhecimentos de ensinamentos esotéricos e científicos de seu tempo.
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A Escola do Momento, aprendida com os Mestres da Sabedoria de Turkistão, foi uma das influências decisivas.
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Gurdjieff converteu esse ensinamento em um modo prático de vida para o mundo moderno, dirigido tanto a indivíduos quanto à humanidade.
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À semelhança dos monges Zen que rompiam com ensinamentos formalizados pelo “Caminho das Nuvens Loucas”, Gurdjieff não se fixou em nenhuma escola específica, atribuindo o núcleo de seu ensinamento à “Irmandade Sarmoun” — cujo nome significa “abelhas”, as que recolhem mel de muitas flores — e forjando a partir do Sufismo, do Budismo Tibetano, do Cristianismo Esotérico e da psicologia ocidental uma forma única que ressoa com a busca mais profunda pela Realidade.
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Na Escola do Momento, a ênfase recai sobre a realização da totalidade do próprio potencial em cada instante, com base na ideia de que a realidade não é estática e as possibilidades são infinitas, corroborada pela física quântica com seus “campos de ondas vibrantes”, o que leva a privilegiar ensinamentos espontâneos em detrimento de formas e dogmas preestabelecidos.
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Um renomado Sufi, questionado por tolerar perguntas impulsivas, respondeu com uma risada que isso permitia a todos tomarem conhecimento de tais perguntas.
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A tarefa que Gurdjieff se impôs foi transmitir um modo moderno e prático de penetrar o próprio ser real e sintonizar-se com a força espiritual subjacente ao Universo — a baraka, ou bênção, como a denominam os sufis — por meio da atenção direta e da transformação de si mesmo, reconhecendo que o conhecimento das Leis do Universo não pertence a nenhuma tradição espiritual particular.
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Um ensinamento verdadeiro deve conter paradoxos, abarcando ao mesmo tempo princípios atemporais e a exatidão do momento presente, tal como o Kendo, arte japonesa da esgrima, ensina a estar supremamente atento a todas as possibilidades sem se apegar a nenhuma, fundindo ataque e defesa num único movimento.
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A fábula da centopeia ilustra o paradoxo: ao ser perguntado como coordena todos os pés, ele pensa a respeito e fica imóvel.
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O corpo e as emoções captam impressões do momento com muito mais rapidez do que o intelecto.
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Como verdadeiro Mestre do Momento, Gurdjieff desenvolveu continuamente exercícios, técnicas de respiração e trabalhos práticos para aprimorar a auto-observação e transformar energias internas, partindo da constatação de que os seres humanos são compostos de funções ou centros — motor, emocional e intelectual, com subdivisões possíveis até sete — que em seu estado atual de desenvolvimento estão dessincronizados, gerando desequilíbrio e caos.
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Apenas pelo desenvolvimento harmonioso do ser humano o “Eu Real” pode emergir.
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Ouspensky descreveu o objetivo como o desenvolvimento da “máquina humana” e o enriquecimento do ser com um funcionamento novo e incomum.
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Os centros podem ser comparados aos chakras; o trabalho visa qualidades internas espirituais, não o aprimoramento das funções cerebrais comuns.
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O processo funcional envolve a transformação de energias inferiores em superiores.
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Os “Movimentos” — série de danças e exercícios corporais conhecidos como as “ginásticas sagradas” de Gurdjieff — integravam partes do corpo, grupos de pessoas, emoções específicas, sequências de palavras ou números e ritmos musicais, cuja complexidade produzia ou desespero profundo ou uma espécie de “Zen da Iluminação Súbita”, em que a ação flui espontaneamente pelo praticante.
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Gurdjieff exerceu efeito profundo sobre os que o cercavam, sendo ao mesmo tempo elogiado e criticado, e seu Instituto para o Desenvolvimento Harmonioso do Homem, aberto em Fontainebleau na década de 1920, transformou profundamente as vidas de seus alunos, cujas redes de ensinamento chegam até hoje, visíveis por exemplo na difusão do Eneagrama que ele introduziu em 1915.
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A Tipologia dos Idiotas permanece pouco ensinada e desconhecida pelo grande público, por razões que incluem uma espécie de culto a Gurdjieff e o problema inerente a qualquer Escola do Momento: o método de transmissão torna-se obsoleto tão logo o momento passa, problema para o qual Gurdjieff criou como contramensura a “linguagem cifrada” de seus livros.
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Os livros de Gurdjieff são escritos de modo deliberadamente difícil, com terminologia nova e desconhecida, exigindo do leitor mergulho total.
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Gurdjieff declarou que a aquisição ou transmissão de conhecimento verdadeiro exige grande trabalho e esforço tanto de quem recebe quanto de quem transmite.
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À maneira do Zen-Budismo, Gurdjieff era um Samurai e Mestre Zen que apresentava suas ideias de forma espontânea, não linear e sempre incompleta, deixando intencionalmente alguns conceitos em aberto para que os alunos os completassem por conta própria, nunca dando nada em forma acabada.
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O modelo de “reunião de última hora” reflete o significado da Escola do Momento: agir conforme o ambiente e as circunstâncias das pessoas.
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Para os grandes Mestres, as experiências da vida cotidiana são o campo de treinamento por excelência, e as ações aparentemente paradoxais do professor — como as investidas amorosas de Gurdjieff com jovens mulheres que ele despachava com um punhado de doces — têm a intenção deliberada de criar situações das quais aprender.
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A Escola do Momento, sem método formal nem doutrinas fixas, responde às necessidades do momento e valoriza as frustrações e contrariedades da vida como matéria-prima para a transformação psicológica, treinando nos alunos a dupla qualidade de vigilância e flexibilidade interior por meio de desafios inesperados.
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Gurdjieff costumava partir antes do horário combinado nos deslocamentos de carro, de modo que quem chegasse pontualmente encontrava o grupo já partido.
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O episódio do aluno insuportável no Prieuré de Fontainebleau ilustra o conceito de “fricção” no sistema de Gurdjieff: o indivíduo irritante era mantido no grupo deliberadamente e até remunerado, pois servia de fermento para o aprendizado da raiva, da irascibilidade, da paciência e da misericórdia, cabendo aos demais pagar por sua permanência.
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A anedota do monge Zen que trouxe uma cesta de bambu para cobrir os tatames molhados exemplifica o ideal da Escola do Momento: agir espontaneamente, sem discriminação entre certo e errado, expressando o “espírito Zen” que valoriza a ação imediata em detrimento da ponderação.
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A arte Zen não admite hesitação, rasura ou redesenho: as linhas são definitivas, a inspiração é espontânea e absoluta.
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A atenção e a ação são propriedades da vontade do “Eu Real”, e a auto-observação é a ferramenta que permite ao praticante ver pelo que é distraído e com o que se identifica, sendo a Tipologia dos 21 Idiotas de Gurdjieff um instrumento específico para essa auto-observação, que propõe perguntas como “Que tipo de Idiota sou eu?” sem oferecer a nenhum praticante a saída de uma idiotia mais agradável.
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A fricção gerada pelas situações de ensino acumula energia necessária para a transmutação interior.
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A facilidade de perder a objetividade e se identificar com autoimagens prefabricadas é um risco central no uso da Tipologia.
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Rina Hands testemunhou Gurdjieff interromper um brinde aos Idiotas Sem Esperança para exigir que o oficiante compreendesse o horror real das palavras que pronunciava.
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Os diferentes exercícios, técnicas e rituais aprendidos em qualquer escola espiritual são apenas pontos de partida e não fins em si mesmos, pois todo método é um cofre vazio sem energia, espontaneidade e trabalho vivo, conforme ilustra a máxima do Mestre Zen chinês sobre as galinhas que não se iluminam de tanto ficar sentadas.
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Basho, fundador da poesia Haiku no século XVII, sintetizou: não buscar a sabedoria dos antigos, mas aquilo que eles próprios buscaram.
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O objetivo é ser um receptáculo humano para a manifestação da consciência, ato criativo e evolutivo que conecta à “Inteligência Criativa” da vida.
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O livro baseia-se nas ideias de Gurdjieff, interpretadas a partir de décadas de trabalho prático com grupos, especialmente na “Academia Internacional para o Aprendizado Contínuo” de John G. Bennett em Sherborne, Inglaterra, fundada em 1971, onde Bennett encorajava o estudo individual e a responsabilidade pessoal pela própria evolução espiritual.
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Perto do fim da vida, Bennett declarou que o método de transmissão pessoal de mestre para discípulo não é mais suficiente diante das imensas necessidades espirituais do mundo, embora continue existindo ao lado da baraka universal e da baraka de tradições específicas.
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O caminho do desenvolvimento autodeterminado é comparável às viagens perigosas de Indiana Jones sobre pontes frágeis, e embora o trabalho em grupo seja fundamental, nenhuma dependência, culto ou relação sectária deve substituir a liberdade individual, que não pode ser dada por ninguém — nem mesmo por Deus — mas apenas conquistada pelo próprio praticante.
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Gurdjieff destinou seu ensinamento às gerações futuras de pessoas comprometidas e em busca, chamando sua obra magna de “Relatos de Belzebu a seu Neto”, e após quarenta anos de trabalho prático conclui-se que o Quarto Caminho, quando aprisionado em dogmas ou formas institucionais, não atende plenamente às necessidades do tempo presente, sendo um círculo inacabado que pede a mão do leitor para se completar.
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