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Morte e O Autor
MOORE, James. Gurdjieff: a biography. Rev. ed ed. Shaftesbury, Dorset: Element, 1999.
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O acidente de carro de Gurdjieff em 8 de julho de 1924, no qual ele colidiu violentamente com uma árvore, foi um evento que pareceu pôr um ponto final em sua vida, causando danos colaterais a inúmeras outras existências e forçando-o a remodelar dolorosamente sua estratégia de evangelismo.
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O acidente foi grave: o carro ficou destruído e Gurdjieff, único ocupante, foi jogado para fora, inconsciente e gravemente ferido.
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A data do acidente, após uma série de precauções incomuns por parte de Gurdjieff, levanta questões sobre um possível encontro proposital ou forças retaliatórias.
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Gurdjieff via eventos estranhos como guias de sua vida, mudando radicalmente sua direção e criando novas épocas.
Após ser levado às pressas para o hospital e depois para o Prieuré, Gurdjieff pairou entre a vida e a morte por cinco dias, recusando morfina e sendo alvo de uma petição silenciosa e desesperada por sua vida por parte de todos no Instituto.-
Gurdjieff foi libertado do hospital e levado para casa, onde sua esposa e irmã o enfermaram.
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Apesar do prognóstico sombrio, ele não sucumbiu, mas permaneceu inconsciente.
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O Prieuré caiu em silêncio, com a força que movia suas vidas desaparecida.
No sexto dia, Gurdjieff recuperou a consciência, mas estava amnésico, quase cego e com dor aguda, embora sua consciência tenha retornado com toda a força.-
Ao abrir os olhos, Gurdjieff perguntou onde estava.
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Sua consciência retornou com todas as suas características anteriores.
Com a inatividade forçada de Gurdjieff, a situação financeira do Instituto tornou-se desesperadora, e seu pequeno núcleo de seguidores, incluindo Salzmann e de Hartmann, sacrificou tudo, inclusive o orgulho, aceitando trabalhos humildes.-
Ouspensky, confortavelmente estabelecido em Londres, manteve-se distante.
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Salzmann pintou murais em cafés, de Hartmann compôs trilhas sonoras sob pseudônimo e Olga Lazovitch tornou-se atendente de banheiros públicos.
Em agosto, Gurdjieff já conseguia andar mancando pelo jardim, amparado e usando óculos escuros, e desenvolveu um apetite inexplicável por fogueiras, nas quais passava horas absorto, enquanto sua visão, força e memória gradualmente retornavam.-
Gurdjieff dava longas caminhadas pelo jardim, amparado e usando óculos escuros.
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Ele pedia cigarros incessantemente e mandou fazer grandes fogueiras com árvores derrubadas.
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Gurdjieff contemplava o fogo por horas, observando a transição dos estados de energia.
Em 26 de agosto, Gurdjieff anunciou chocantemente que o Instituto estava fechado, que ele havia morrido interiormente e que seu novo princípio era “tudo para mim mesmo”, mergulhando o Prieuré numa profunda e indescritível melancolia.-
Gurdjieff declarou que liquidaria a casa e que o Instituto não seria nada.
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A possibilidade de os pupilos mais antigos serem expulsos e os novos recém-chegados dispensados pairou sobre todos.
A constatação de que ninguém conseguia reproduzir “A Iniciação da Sacerdotisa”, pois Gurdjieff carregava tudo na cabeça, levantou o terrível espectro de que todo o seu ensino pudesse evaporar ou ser corrompido após sua morte.-
Os movimentos e passos não haviam sido anotados e não podiam ser reproduzidos.
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Gurdjieff, aos cinquenta e oito anos, viu-se confrontado pela mortalidade de sua mãe, de sua esposa e pela sua própria.
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Ele decidiu que, se não conseguira introduzir suas verdades na prática, deveria, a qualquer custo, fazê-lo na teoria antes de morrer.
Apesar do anúncio de fechamento, a maioria dos pupilos do núcleo duro de Gurdjieff logo retornou, com exceção de Olgivanna, que foi para Chicago, e Sophie Ouspensky, que se estabeleceu em Asnières.-
Gurdjieff insistiu em dirigir novamente, apesar dos argumentos contrários, dando início às suas excursões singulares.
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Viajar com Gurdjieff não era uma experiência comum.
Orage retornou à França em outubro e recebeu de Gurdjieff um mandato para supervisionar o Trabalho em toda a América, uma escolha baseada talvez em sua presença em Nova York e sua aparência inteligente, num contexto mais amplo de delegação por parte de Gurdjieff.-
O pré-acidente Gurdjieff planejava voltar a Nova York, o que o pós-acidente impedia.
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As forças de Orage estavam mais próximas da face pública do Trabalho do que de seu coração.
Gurdjieff, decidindo tornar-se um “escritor profissional”, iniciou em dezembro de 1924 a composição de “Beelzebub's Tales to His Grandson”, uma obra de arte objetiva que transmitiria informações iniciáticas a gerações futuras.-
Gurdjieff começou a ditar para Olga de Hartmann.
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Gurdjieff escrevia em cafés e à beira de estradas, alimentado por café, bastourma e Armagnac.
Apesar de ser uma obra-prima, “Beelzebub” era de uma obscuridade e estranheza sintática ímpares na literatura moderna, sinalizando uma ruptura completa com todos os cânones literários anteriores e tornando a primeira parte enviada a Orage completamente ininteligível para ele.-
Gurdjieff escrevia em armênio, sua língua materna.
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A obra era um “legonomismo” que transmitiria informações de ordem iniciática.
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O formato de odisseia espacial servia para dramatizar a analogia entre o espaço exterior e o espaço interior da psique.
Enquanto escrevia, Gurdjieff sofria com a doença e a morte de sua mãe, que faleceu no final de junho de 1925, e com o agravamento dos sintomas de câncer em sua esposa Julia Ostrowska.-
A mãe de Gurdjieff faleceu no Prieuré, após uma longa vida de privações materiais.
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Gurdjieff realizou uma cerimônia espetacular para ela no Study House.
No verão de 1925, Gurdjieff entrou num período intensivo de composição musical com Thomas de Hartmann, enquanto a responsabilidade financeira do Instituto recaía sobre Orage e os nova-iorquinos, cuja generosidade era constantemente solicitada.-
A presença de Jessie Dwight na vida de Orage criou uma sombra sobre sua lealdade.
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Gurdjieff desaprovava o relacionamento, considerando Jessie uma “idiota contorcida”.
No início de 1926, Gurdjieff recebeu uma oferta tentadora de Mabel Dodge Luhan para estabelecer um ramo de seu Instituto em Taos, Novo México, com Jean Toomer como principal, mas recusou, preferindo concentrar-se na doença de sua esposa Julia.-
Mabel Luhan ofereceu 15.000 dólares e sua fazenda.
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Toomer advertiu sobre a possível inconstância de Mabel.
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Gurdjieff recusou a oferta, considerando a opção Taos discordante e frívola.
A doença de Julia Ostrowska, agravada pelos cuidados com Gurdjieff durante seu acidente, tornou-se a preocupação central e apaixonada de Gurdjieff, que lutou para mantê-la viva com sua própria força, acreditando que isso era crucial para sua ascensão a outro mundo.-
Julia, que antes dançava a Alta Sacerdotisa, agora mal podia andar.
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Gurdjieff sentia-se culpado por não ter energias para curá-la após seu acidente.
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Ele acreditava que mantê-la viva por mais alguns meses a libertaria de ter que reviver esta vida novamente.
Enquanto Julia definhava, o Prieuré vivia cenas bizarras com a aquisição de bicicletas para todos os pupilos e o trabalho de uma datilógrafa alemã em “Beelzebub”, num contraste gritante com a gravidade do quarto de enferma.-
O terreno do Prieuré ecoava com o som de campainhas, batidas e risadas.
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A datilógrafa socava o teclado, produzindo “Beelzebub”.
Julia Ostrowska, a esposa de Gurdjieff, faleceu nas primeiras horas da manhã de 26 de junho de 1926, após uma longa agonia durante a qual Gurdjieff a assistiu e alimentou pessoalmente.-
Gurdjieff supervisionava pessoalmente as refeições de Julia e usava a água e o sangue para aliviar seu sofrimento.
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Thomas de Hartmann tocava piano para ela.
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Ela pediu um padre polonês e morreu logo depois, aos trinta e sete anos.
Após a morte de Julia, Gurdjieff isolou-se, recusando-se a falar ou comer, mas seu luto foi seguido por eventos de um surrealismo característico, incluindo uma discussão com o Arcebispo sobre vestimentas no banho turco e um banquete festivo.-
Gurdjieff informou Fritz Peters da morte de Julia e depois se recolheu.
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Houve um impasse no banho turco entre Gurdjieff e o Arcebispo sobre o uso de tangas de musselina.
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Mais tarde, um banquete incongruente foi realizado no salão.
No funeral, Gurdjieff caminhou solenemente de cabeça descoberta, parecendo abstraído e como se apenas seu corpo estivesse presente entre os enlutados, tendo perdido duas pessoas singularmente próximas em rápida sucessão.-
Gurdjieff caminhava como se exigisse grande esforço para se mover.
Após a morte de Julia, Mme Stjoernval, que nutria ressentimentos de longa data, recusou-se a falar com Gurdjieff, mas ele a reconciliou ao devolver-lhe seus brincos perdidos, que ele localizara e resgatara após cinco anos de buscas.-
Mme Stjoernval acusava Gurdjieff de ter exacerbado a revolução russa, roubado seu marido e prolongado o sofrimento de sua esposa.
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Gurdjieff enviou a ela um pedaço de chocolate com os brincos escondidos no papel alumínio.
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Ela irrompeu em lágrimas, reconhecendo sua maravilha e o cumprimento de sua promessa.
Uma nota discordante no Prieuré foi a breve e indesejada visita de Aleister Crowley, que, apesar de sua tentativa de ser afável, foi expulso por Gurdjieff, que o considerou sujo por dentro.-
Crowley apareceu no Prieuré e foi servido de chá no salão.
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Gurdjieff interveio quando Crowley fez um comentário impróprio a um dos meninos.
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Gurdjieff o expulsou, dizendo-lhe para nunca mais pôr os pés em sua casa.
No outono e inverno de 1926, o destino de “Beelzebub” permaneceu incerto, com Gurdjieff alternando entre a certeza de que estava quase pronto e a sensação de que mal começara, enquanto as despesas do Instituto eram custeadas pelos nova-iorquinos.-
Gurdjieff pensava em viajar para Dijon para acertar o formato com uma gráfica.
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Orage trabalhava incansavelmente para angariar fundos.
No verão de 1927, o Prieuré foi invadido por uma multidão de discípulos e turistas espirituais americanos, e Gurdjieff, com suas atuações, parecia empenhado em alienar todos os que considerava supérfluos para seu plano.-
Figuras como Jean Toomer, Gorham Munson e um quarteto lésbico visitaram o Prieuré.
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Gurdjieff declarou que todos os americanos eram “sujos” porque tomavam muitos banhos.
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Solita Solano, cuja expectativa era de um semideus, deparou-se com um homem estranho de quem passou a desgostar.
No outono de 1927, Gurdjieff, exausto e doente, com a sensação de que lhe restavam poucos anos de vida, percebeu que toda a sua primeira versão de “Beelzebub” precisava ser reescrita, pois não havia acertado o tom de voz adequado para “escrever para burros”.-
O objetivo era um livro ao mesmo tempo de revelação e mistério, simples e profundo.
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A constatação da necessidade de reescrever tudo trouxe à tona a questão de sua saúde.
Em 6 de novembro de 1927, sentindo-se preso e exausto de seus pensamentos negros, Gurdjieff considerou brevemente o suicídio, mas uma voz interior afirmou seu desejo de ser e sua necessidade para o bem comum da humanidade.-
Gurdjieff cogitou destruir todos os seus escritos e a si mesmo até a meia-noite do Ano Novo.
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Uma voz contrária afirmou seu desejo e necessidade de ser.
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Na mesma noite, ele escreveu generosamente a Orage, aconselhando-o sobre sua angina.
No final de dezembro, Gurdjieff vislumbrou uma ligação entre sua produção literária e seu sofrimento consciente, e na véspera de Ano Novo, a ideia de suicídio já estava superada, transformando-se num desafio a ser resolvido com a geração de novos sofrimentos.-
Gurdjieff percebeu que escrevera melhor enquanto sofria com as dores de sua mãe e esposa.
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Ele decidiu resolver os problemas de como revisar e como gerar sofrimento.
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Ele escolheu o dia de São Jorge, o Vitorioso, para suas resoluções.
Em janeiro de 1928, a visita de Orage e sua nova esposa Jessie Dwight ao Prieuré foi breve e tensa, com Jessie demonstrando possessividade e contrariedade, e na partida, Gurdjieff a fixou com um olhar de Basilisco, advertindo-a de que queimaria em óleo fervente se impedisse seu “super-idiota” de voltar.-
A estada do casal foi breve e ocasionalmente esplenética.
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Gurdjieff dirigiu-se a Jessie com um olhar paralisante e uma advertência.
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Alfred Richard Orage nunca mais retornou ao Prieuré.
Na véspera do dia de São Jorge, Gurdjieff, inspirado pelo conselho de um velho amigo, havia clareado suas ideias sobre a revisão de “Beelzebub”, e a solicitude de Olga de Hartmann em providenciar kippers ingleses para seu jantar, um ato de bondade típico, revelou-lhe a chave que faltava para gerar o sofrimento necessário.-
Uma carta misteriosa com sábios conselhos ajudou Gurdjieff a definir o idioma e as correções necessárias.
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Gurdjieff expressou a Olga seu desejo de comer kippers ingleses.
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Olga, num gesto típico, encomendou uma caixa dos melhores kippers e os fez entregar no Prieuré.
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A bondade de Olga revelou a Gurdjieff a necessidade de fazer um voto solene de afastar de sua vista todos os que tornavam sua vida muito confortável.
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