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Eterno e Sempre Novo Desafio (2)

Extrato da palestra de Michel de Salzmann, publicada por Jacob Needleman, no livro “No Caminho do Autoconhecimento”, editado pela Novos Umbrais, em 1982. Tradução de Adelaide Petters Lessa

  • Toda a problemática humana deriva de uma alienação fundamental que surge com a consciência egoica, carregando cada ser com a responsabilidade de questionar e encontrar sua identidade, seu sentido real, sua liberdade.
    • A evidência sintomática do problema, por trás de sua expressão polimorfa, é o sofrimento humano e, consequentemente, a necessidade de ajuda, de resposta.
    • Tanto a psicoterapia quanto os ensinamentos espirituais tradicionais originaram-se da necessidade de resolver essa alienação e responder à questão existencial central “Quem sou eu?”
    • Considerá-los contra o pano de fundo dessa questão referida ao ser não é mera tautologia: oferece uma perspectiva relativista que os contém a ambos e inclui a todos.
  • O tema presente deixa de lado a maior parte do campo psiquiátrico: a alteração da consciência egoica abortada, retardada, deteriorada ou regredida não é aqui considerada.
    • O tema se refere a um ego relativamente sadio, capaz de ver e reconhecer como seus os próprios problemas, contradições, conflitos ou limitações.
    • Esse ego, cujo sofrimento gera um desejo consciente de esclarecer e lidar com sua situação, busca ativamente ajuda na psicoterapia ou na orientação espiritual.
  • Tanto a psicoterapia quanto os ensinamentos espirituais podem ser chamados de escolas de autoconhecimento, com implicações práticas incomuns: o conhecimento precisa ser encarnado.
    • Sua dupla exigência é ser para saber o que se é, e saber para ser o que se conhece.
    • Por ambas as escolas, diz-se que o ser vive na ignorância de si mesmo, separado de si, e precisa descobrir-se e reunificar-se para ser ou tornar-se o que realmente é.
    • Para ambas, o caminho é a consciência; em suas formas mais autênticas, apoiam o difícil caminho até a atenção pura, onde a dualidade existencial pode ser experimentada e talvez resolvida.
  • Quando essas escolas degeneram, o esforço básico e prático pela consciência desaparece, cedendo lugar a forças liberadas sem controle, pensamento mágico ou voluntarista, sugestão, autossegurança, imitação e repetição cega.
    • Em vez de transmitir uma influência de despertar, seu conhecimento torna-se morto ou perigoso, fomentando padrões convencionais, normativos e institucionalizadores, ou mesmo “viagens” delirantes ou histeria.
  • Os ensinamentos tornam-se o que os seres humanos fazem deles; são o que são os seres que os transmitem.
    • O que importa é a transmissão séria do conhecimento e da experiência guiada, em que os guias saibam honestamente o que fazem, conheçam seus limites, o que trabalham, os meios e condições necessários, os resultados objetivos, e sejam capazes de ajustar princípios gerais a situações individuais.
  • O engajamento sério tanto na psicoterapia quanto nas vias espirituais pode igualmente trazer ao menos um gosto de abertura, de autoconsciência, de autotranscendência e de harmonia interior.
    • Ainda assim, por mais difícil que seja traçá-la, uma linha — ou melhor, uma fronteira de transição — existe e deve existir, separando o processo terapêutico do trabalho ou da transformação espiritual autêntica.
    • Essa fronteira separa a condição patológica dos níveis mais elevados da existência humana.
    • Ela só pode ser compreendida em sua similaridade subjacente e em sua diferença marcante se for vista como separando diferentes níveis do ser, e não apenas diferentes campos de operação.
  • Isso exige considerar o ser numa perspectiva genética ou evolutiva, em que o problema central da liberdade — e, correlatamente, da alienação — se repete em cada nível.
    • O ego na consciência egoica, através das fases desenvolvimentais que constituem a integração progressiva do seu mundo-objeto, organiza-se num sujeito capaz de relacionar-se livremente com seu mundo interior e exterior.
    • A maturidade na existência humana não é mero ajustamento social, mas a conquista do livre-arbítrio e da autonomia.
  • A perda ou não conquista da “livre responsabilidade” — regressão ou fixação a organizações inferiores do ser, em que o ego está mais ou menos inteiramente vinculado a seus fantasmas — é psicopatologia.
    • A “patologia da liberdade” do ego como sujeito, como pessoa, é o campo legítimo e tradicional da psiquiatria e, por extensão, da psicoterapia.
    • Ela delimita a alienação de alguns seres humanos, separados dos demais pela doença mental.
  • Parece impossível negar a realidade da loucura, da alienação patológica — e ninguém o faz convincentemente.
    • Ainda assim, é para isso que pode levar uma adesão exclusiva às concepções sociopsicogenéticas da doença mental.
    • Estender o campo da psicopatologia a todo o sistema de relações dentro da família e da sociedade, embora em muitos aspectos justificado, conduz, quando radical demais, a posições doutrinárias absurdas.
    • Em seu extremismo, a antipsiquiatria nega o psiquiatra e a doença mental juntos, considerando ambos expressões artificiais de uma sociedade doente.
  • Se os loucos não diferem de todas as pessoas, segue-se que todas as pessoas são loucas — o que equivale a dizer que ninguém é louco.
    • Queimar o psiquiatra na esperança ilusória de fazer um guru de suas cinzas é confundir o fenômeno da loucura com o da alienação geral, comum a todos os seres humanos.
    • É confundir os diferentes níveis de organização do ser e reduzir o ser humano à sua dimensão cultural apenas.
    • Leibniz dizia que o drama inevitável de qualquer ideologia é que “ela é verdadeira no que afirma e falsa no que nega”.
  • A psicopatologia e, portanto, a psicoterapia perdem sua especificidade quando confundem alienação patológica com alienação geral.
    • Essa confusão resulta de concepções vagas de doença mental, nas quais falta a dimensão biológica necessária, em que a psiquiatria é separada da medicina e o ser de sua realidade infraestrutural e de sua unidade estrutural.
  • Apenas teorias holistas — como a concepção “organodinâmica” de Henri Ey, na linha do neo-jacksonismo, considerada excepcionalmente ampla e coerente — podem ajudar a elucidar o mistério da lacuna estrutural entre transtornos mentais e sintomatologia clínica.
    • Segundo essa concepção, a doença mental é uma desorganização do ser psíquico com aspecto negativo e positivo.
    • Negativamente, é dissolução, desestruturação ou regressão a um nível inferior de organização do ser ou da consciência — aspecto que só uma abordagem biológica pode explicar.
    • Positivamente, é a expressão liberada desse nível mais primitivo, em que a pessoa organiza sua intencionalidade — aspecto que só as ciências psicológicas podem compreender.
  • Negligenciar o aspecto negativo da doença mental e enfatizar apenas o positivo leva ao erro de identificar-se completamente com a tragédia da loucura — até o ponto de exaltar essa experiência patológica.
    • Essa experiência pode gerar insights excepcionais, mas jamais conduz a uma realização efetiva do crescimento interior.
    • A consequência absurda dessa empatia natural é equiparar sabedoria e esquizofrenia, o suprarracional e o infracional.
    • Isso revela uma completa má interpretação da experiência espiritual autêntica, que exige, para o despertar das potencialidades não atualizadas, o mais alto nível de integração do corpo na consciência.
  • A delimitação de seu próprio objeto — a doença mental — é condição necessária para individualizar a psiquiatria entre as outras ciências antropológicas e impedir a extensão abusiva de seu campo, a “psiquiatrização” da sociedade.
    • As fronteiras da psicoterapia só podem ser legitimamente estendidas se ela for redefinida como empresa educacional — uma forma moderna de apoio à aspiração e à iniciação ao crescimento interior.
  • A liberdade do ego é altamente relativa e condicionada; um ser humano sensível e responsável se confronta com uma alienação compartilhada que só pode encontrar resolução numa consciência mais elevada do seu ser.
    • Além disso, esse ser ainda não é um indivíduo no sentido pleno: permanece dividido na estrutura dualista do ego, sempre voltando a ser um sujeito separado de seu objeto insondável.
  • A psicoterapia é de valor inestimável se pode fomentar no ser humano o questionamento ou uma reflexão ativa sobre si mesmo, ajudando-o, por meio de experiências conscientes variadas, a explorar mais profundamente seu mundo funcional inteiro.
    • Atingirá seus mais altos padrões se desenvolver um senso de solidariedade em relação à humanidade e à sua alienação comum.
    • Se a primeira tarefa da psicologia é ajudar uma pessoa a tornar-se um “egoísta livre e consciente”, sua segunda tarefa — mais educacional — seria estimulá-la a tornar-se membro pleno da comunidade, como promotor ativo do seu devir.
  • Sentir-se uno com a sociedade e dentro da existência significa entrar no campo da religião.
    • A religião não é algo pessoal: é uma questão pública, o que vincula o ser humano ao seu mundo inteiro, o que todos têm em comum — etimologicamente, o que relaciona.
    • Ela começa de verdade quando o egocentrismo começa a ceder lugar a um nível mais elevado de ser, induzindo uma nova percepção da existência.
    • A psicoterapia poderia, em muitos casos, servir como valiosa preparação antes de entrar num trabalho espiritual autêntico.
  • Há uma diferença fundamental entre psicoterapia e religião: vai-se à psicoterapia por si mesmo, para resolver problemas pessoais, para ser ajudado — ela está à disposição e é usada em benefício próprio.
    • A religião chama o ser a dar-se a ela; não está ali para o ser, até que ele compreenda que pertence a ela.
    • Ela exige maturidade prévia, um nível em que a realidade é mais atraente do que o “ego-negócio”.
    • O Zen budismo se tornou popular nos Estados Unidos, e a história Zen de Shen-kuang é bem conhecida: querendo encontrar Bodhidharma, que aparentemente não deseja recebê-lo, Shen-kuang fica a noite toda no portão sob uma terrível nevasca; ao amanhecer, Bodhidharma o encontra com neve até os joelhos e, ao saber de seu desejo de seguir o caminho, responde que o caminho está além das forças humanas e exige determinação excepcional; Shen-kuang então imediatamente pega sua espada e corta o próprio braço esquerdo, oferecendo-o a Bodhidharma.
  • Nas vias espirituais, o problema é o ego estar determinado o suficiente em sua escolha radical para aceitar ser sacrificado por algo maior.
    • O ego na consciência egoica precisa ser conduzido à sua própria morte, tornando possível o renascimento de um “indivíduo” real na nova condição da autoconsciência.
    • Esse novo self é descrito como não sendo outro, ou coincidente com, ou reflexo do self universal.
  • Outro aspecto que diferencia a pesquisa espiritual da pesquisa baseada em atitude científica expressa-se na distinção entre explicar e compreender.
    • A ciência baseia-se no conhecimento objetivo e sobre objetos, isolando-os e explicando suas relações causais múltiplas — ignora o sujeito, talvez porque provenha dele e com ele se identifica totalmente.
    • Ela projeta o pesquisador em direção ao mundo-objeto, dispersando-o pelo acúmulo sem fim de dados.
    • Integra-se todo esse conhecimento em sistemas, mas não se consegue integrá-lo em si mesmo.
    • A compreensão, por outro lado, não apenas considera a existência humana em sua intencionalidade ou causalidade, mas envolve referir a experiência a si mesmo, integrá-la ao ser.
    • A ciência pode explicar o funcionamento, mas não pode explicar a sabedoria ou o amor — estes só podem ser compreendidos sendo sábio ou amoroso.
  • Há um equívoco total na atitude corrente em relação à racionalidade: ela é frequentemente alvo de um espiritualismo confuso, e inversamente a experiência interior ou a religião é frequentemente considerada irracional.
    • O real poder da mente é a atenção; a racionalidade é o modo como o pensamento ou a reflexão procedem.
    • A lógica comum, seguindo o antigo princípio da não contradição, foi superada pela lógica implicada no pensamento dialético desenvolvido desde Hegel, transcendida pela relatividade de Einstein e completamente abalada pelas concepções dos físicos e pesquisadores atuais.
    • A racionalidade é um instrumento fundamental, mas não é o ser inteiro — o importante não é a racionalidade em si, mas o fato de que na maioria das vezes o centro de gravidade está na mente, e não no ser inteiro.
  • A psicoterapia como ciência, apesar de sua espetacular transformação, permanece enraizada nos preconceitos inconscientes do século XIX.
    • O culto ao cientismo, com seu Deus (o progresso científico), seu santo (a mente) e seu credo (“o que a ciência não explica hoje, explicará amanhã ou depois”), deixou traços profundos, mantendo o pesquisador como outsider — embora a idolatria da mente e de sua suposta objetividade tenha sido progressivamente e muito desmistificada.
  • Duas das contribuições mais ricas e revolucionárias da psicanálise foram questionar a credibilidade da “mente consciente” e incluir o próprio pesquisador, como um todo, no campo de seu estudo.
    • A pesquisa pode agora abrir-se para o caminho da exploração interior, vivida de modo tão amplo e profundo quanto possível.
  • Apesar da experiência que incluía o emocional e o sensorial, apesar do pathos e da autenticidade do que era efetivamente vivido, o inconsciente e sua dialética foram recapturados pela mente ao nível da fala.
    • A consciência freudiana parecia limitar-se à dimensão das palavras; e as próprias palavras, em sua significação e interpretação, não escapavam à jurisdição do ego condicionado.
    • As palavras inevitavelmente remetem ao conhecido em vez de possibilitar a emergência numa experiência radical do desconhecido.
    • A mente estava assim condenada a permanecer a pedra de toque da experiência.
  • A necessidade de ir além da mente condicionada deu origem às abordagens existenciais e fenomenológicas e à ideia principal da “compreensão” (Verstehen).
    • Não se tratava mais de explicar, mas de estar aberto à existência, ao ser, buscando participar sem cair na armadilha e nos preconceitos da mente.
    • Esse passo resolutamente “ingênuo” — ingênuo no melhor sentido, o de nascer com a experiência — levou o pesquisador ocidental a resgatar e dar novo sentido a um conceito há muito guardado numa gaveta: o de consciência.
  • Nos últimos dez anos, uma tendência — tão dinâmica quanto anárquica — tomou forma, buscando uma exploração e expansão cada vez maiores dessa famosa “consciência”.
    • Concedendo também um lugar privilegiado à noção de ser, essa tendência descobriu com interesse a existência do caminho espiritual tradicional, cuja base e preocupação podem ser definidas como a realização ou ciência do ser.
    • Sem dúvida, esse interesse decorre do reconhecimento de que a religião autêntica é uma experiência existencial em níveis mais elevados do ser, e não uma regressão para algum tipo de autossegurança “pseudo-nirvânica”.
  • O resultado de traduzir para termos psicológicos comuns algumas concepções e técnicas relacionadas do Oriente pode ser simplesmente um completo equívoco.
    • Não apenas distorções, mas perigos reais podem resultar de não abordá-las com as chaves apropriadas e de usá-las indevidamente.
    • Os exercícios religiosos não se destinam a beneficiar o ego, mas, ao contrário, a servir à libertação do ego, de um sujeito centrado na mente.
  • A religião é uma “universidade” muito elevada: seu conhecimento abraça tudo e inclui, em diferentes níveis, um ensinamento metafísico, cosmológico e psicológico.
    • Uma abordagem apropriada à linguagem do sagrado incluiria o estudo de muitas “ciências” relacionadas, da numerologia à ciência da respiração.
    • A religião é uma união, um “yoga” que se dá entre dois níveis refletidos na gnose e na práxis.
    • A atração atual pelas vias orientais deve-se principalmente ao fato de que a práxis — o engajamento total do corpo — preenche uma lacuna fortemente sentida no modo de existência ocidental.
  • Tal religião não é uma mera jornada sentimental: lida com energia, é uma ciência de processos de energia interior, e por isso o trabalho espiritual exige orientação especial e competente.
    • Em relação ao conhecimento prático sobre energia interior, a abordagem ocidental do relaxamento ou da sexualidade, por exemplo, é extremamente infantil comparada ao que é conhecido nos ensinamentos tradicionais.
  • A psicoterapia, em suas novas tendências, embarcou num desafio muito difícil: reconciliar dois aspectos do progresso humano que à primeira vista parecem irreconciliáveis — a evolução do conhecimento e a evolução do ser.
    • Eles permanecerão irreconciliáveis enquanto o primeiro dominar o segundo.
  • O conhecimento em psicoterapia evolui, está em progresso: um psicanalista pode pensar que deve muito a Freud, mas assume que muitas descobertas novas foram feitas desde então.
    • O conhecimento tradicional parece inteiramente o contrário: é eterno, não muda; evoca uma realidade que não muda, mas que precisa ser reconhecida por meio de uma mudança no ser.
    • Essa mudança se dá graças à ajuda de uma influência que chega por meio de uma ligação espiritual, proveniente de um nível mais elevado do ser, e deve ser transmitida por seres evoluídos para que permaneça viva e relevante.
    • Na perspectiva tradicional, o passado é de grande importância: é exemplar.
    • Os gregos têm a palavra “prosten”, que significa “antes, à frente”, mas designa o passado; e “episten”, que significa “atrás”, designa o futuro.
    • Os ancestrais são os “ante-cessores” — aqueles que estiveram à frente no caminho, que já passaram pela “puerta del sol”; viveram o que ainda não foi vivido e servem de exemplo e guia.
  • Só a dimensão do ser confere ao conhecimento seus diferentes níveis possíveis, que a mente sozinha não pode apreender.
  • A passagem de um questionamento centrado no ego — ou na mente — para um questionamento centrado no self — equilibrado ou total — pode ser considerada praticamente como uma mudança do centro de gravidade da atenção da mente para um centro particular dentro do corpo.
    • Só quando a mente para de falar alguma experiência de si mesmo começa a ser possível, porque o centro de gravidade da atenção cessa de estar emaranhado inconsciente e passivamente no fluxo de energia centrífugo que investe o objeto.
    • O centro de gravidade se reincorpora então em seu único terreno significativo, onde a autoconsciência tem suas raízes naturais: o campo da corporalidade é reativado ou re-membrado.
    • Deixando de ser “sem sentido”, pode-se perceber que o habitar-em-si-mesmo é ainda muito ameaçado, muito frágil; não há equilíbrio ainda, enquanto a energia interior estiver fortemente polarizada em direção à mente.
  • Uma mudança radical ocorre quando a mente cede, sacrifica seu poder usurpado e entrega sua atenção protetora ao despertar ou à consciência aumentada do corpo.
    • Um novo equilíbrio aparece em si mesmo em torno da sutil sensação de uma presença interior — chamada de “atenção do corpo”.
    • O ser se torna então consciente de si como um campo dinâmico de forças.
  • Sem experiência correspondente, é quase impossível falar do passo seguinte: o despertar ou atenção do sentimento, que, por um sacrifício similar, traz uma terceira dimensão à consciência — consciência do ser redescoberto.
    • Tal sentimento tem a propriedade de trazer uma nova qualidade de energia que unifica o “self ainda dividido”.
    • Cada um desses aparatos funcionais — pensamento, sensação e sentimento — carrega uma energia específica e uma atenção ou sensibilidade específica.
    • Quando mobilizados juntos pela virtude do questionamento, eles se potencializam mutuamente e contribuem para a rara experiência de estar realmente presente, consciente de si mesmo.
  • Quando mais consciente de si mesmo, o ser é capaz de conter sua energia e ao mesmo tempo permanecer aberto, permeável, vendo sem interferir no que quer que aconteça internamente.
    • A consciência total significa estar presente a tudo dentro de si ao mesmo tempo.
    • Conter tudo igualmente e ao mesmo tempo seria idealisticamente possível dentro de uma esfera ou círculo — mas, para fazer um círculo, é necessário um centro.
    • A real dificuldade de encontrar um centro em si mesmo deve-se ao movimento, porque tudo se move: de cima para baixo — é a vida; resistir à vida é não ajustamento.
  • Há uma maneira de aceitar o movimento da vida e ainda assim não ser deslocado: quando se experimenta ao mesmo tempo que “não sou apenas isso”.
    • Isso ocorre quando o ser se torna consciente de dois movimentos simultâneos de energia dentro de si: um movimento para fora, em direção ao mundo fenomênico exterior ou interior; e um movimento para dentro, em direção à presença interior que não muda ao longo dos anos.
    • O primeiro movimento pertence ao processo criativo ininterrupto; o segundo é o movimento de retorno à sua fonte, à aparente indiferenciação — que pode também ser chamado de morte.
    • O segundo desses movimentos geralmente não é levado em conta na ideia moderna de consciência; o impulso de “expansão da consciência” parece frequentemente ser um novo desejo velado do ego de expandir-se.
  • O segundo movimento — o da morte — não deve ser entendido no sentido de entropia ou de impulso para um estado estático de ausência de tensão, mas como o dinamismo inverso da vida: o movimento ascendente da evolução, necessariamente contido no processo todo expresso no conceito de revolução ou ciclo.
  • Qualquer fenômeno dado pode ser considerado como a transformação de energia dentro de um ciclo específico que, por participação, pertence a um ciclo de maior escala — e esse, por sua vez, a um ciclo ainda maior, e assim por diante, como as bonecas russas.
    • O tempo não é apenas linear, mas também expressão do processo cíclico da existência, relativo à escala de cada ciclo particular.
    • Como o movimento universal nunca para, o tempo se exprime, em cada nível cíclico, pelo ritmo — expresso diretamente, por exemplo, no bater das têmporas, dos vasos temporais.
    • A vida de um organismo tomado como um todo representa igualmente a revolução de um ciclo harmoniosamente polirítmico.
    • Seja qual for a duração — um microssegundo, uma hora, um dia, um mês, um ano, cem anos ou mil milênios — o processo permanece fundamentalmente idêntico ao “todo”, que está além da temporalidade.
    • A tradição hindu fala da respiração de Brahma como sendo a respiração de todo o universo, contendo esses dois movimentos de involução e evolução que ocorrem simultaneamente e permeiam toda a Criação.
  • A unidade nesse movimento dual é e permanece o desafio supremo da vida ao questionamento do ser humano.
    • Tanto a ciência quanto a religião se sacrificam ao mistério da unidade na multiplicidade.
    • Ser holista ou monista pelo pensamento é mais fácil do que ser uno em si mesmo e em seu Self.
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