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Parabola V8N1
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A culpa ao longo da história está enraizada primariamente na transgressão factual da lei, e compreender isso é ponto de partida indispensável para qualquer abordagem séria do tema.
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Na mentalidade dita primitiva, a comunidade indivisível funciona como mediadora entre o sagrado e o indivíduo, e qualquer falta é vista como sintoma celular de uma doença social que exige reajuste do grupo.
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O indivíduo nessas sociedades está sustentado e integrado numa rede abrangente de significações, o que torna a culpa muito mais objetiva do que a experiência moderna.
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A cisão entre espiritual e temporal no mundo moderno gerou atitudes dualistas e materialistas, mergulhando o indivíduo num mundo fragmentado onde se sente só e sobrecarregado pela responsabilidade de reunir os pedaços.
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A culpa moderna deslocou-se progressivamente de uma abordagem factual para um problema subjetivo relativo à economia interior do indivíduo, tornando-se mais ligada ao que se pensa ser repreensível do que ao que de fato o é.
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O existencialismo é um eco dilacerante dessa situação e centra o problema humano em torno de liberdade, escolha, responsabilidade, consciência e angústia.
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O caso Watergate, para além do cenário político, lembra que a função é, de certa forma, anterior ao indivíduo e o constitui realmente.
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O cozinheiro Vatel, que se matou por um molho fracassado na época de Luís XIV, e o samurai que recorria ao harakiri diante de uma falha grave, ilustram uma concepção mais antiga em que não perder a face significava preservar a função pela qual o indivíduo encontrava seu significado e sua relação com o mundo.
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O sentimento de culpa não deve ser desprezado como sinal de alarme, pois recorda que existe algo maior do que o mundo centrado no ego.
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A psicanálise revelou a extensão em que os sentimentos de culpa podem ser destrutivos, identificando no superego a instância psíquica responsável por um julgamento interno devastador.
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A autoacusação pode gerar uma tal depreciação de si mesmo que o indivíduo se sente aniquilado, esvaziado e inibido até nas funções mais elementares, sem apetite nem desejo, como se tivesse perdido o direito à existência.
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Na culpa, revive-se a situação infantil em que a criança se sente impotente diante de uma instância interna dominante e punitiva.
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Freud denominava superego a instância formada pela interiorização das exigências e proibições parentais, reforçadas pelas influências sociais e culturais, cujo papel é o de juiz ou censor em relação ao ego.
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O ego, que se apresenta como mediador dos interesses de toda a pessoa, possui autonomia muito limitada, pois depende das exigências do id, dos imperativos do superego e das exigências da realidade exterior.
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A culpa resulta da tensão, às vezes muito aguda, entre superego e ego, sob a pressão da agressividade e dos desejos sexuais infantis.
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Freud demonstrou através do conceito de repressão que a culpa pode preceder e motivar o crime, e que comportamentos neuróticos de autopunição constituem um sistema inconsciente de motivação.
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Em delinquentes, observa-se frequentemente que o sentimento de culpa não segue o delito, mas o precede, como se o jovem encontrasse alívio ao encontrar uma justificativa real para seus sentimentos de culpa.
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O comportamento de fracasso é uma ilustração da compulsão ao autopunição presente na culpa neurótica.
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A angústia está principalmente relacionada às ameaças de castração, incluindo todos os seus equivalentes simbólicos, que motivaram desde o início a repressão.
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Jung ampliou a perspectiva freudiana ao conceber o inconsciente não como resíduo da consciência, mas como matriz da consciência, e a culpa como sintoma da traição do ego aos valores do self.
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Para Jung, há uma consciência coletiva além da memória individual, representando um imenso potencial do qual se pode extrair força e significado.
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O self é o centro da psique total, incluindo inconsciente e consciência, e a partir dele emerge o ego, que se torna o centro de uma consciência em desenvolvimento.
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Quando o ego está devidamente sintonizado com os valores e mensagens enviados pelo inconsciente, especialmente pelos sonhos, pode realizar uma criatividade poderosa e significativa.
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A culpa reconhecida como sintoma da traição do ego aos valores do self pode promover o processo de individuação, junto com a meditação e a prática espiritual diária.
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O sistema de Jung, contudo, não parece abrir-se à transcendência nem estabelecer uma diferença de níveis em relação às concepções tradicionais de transformação da energia, como o Tantrismo.
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O fator patogênico real nos conflitos psíquicos é a repressão, e o único caminho de superação é a consciência, que conduz à reparação, reconhecida universalmente como o remédio específico para os sentimentos de culpa.
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Os pensadores existenciais criticam a psicanálise por negligenciar a ontologia e os problemas da consciência e da autoconsciência.
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A ansiedade não neurótica, quando não implica repressão mas atitudes ativas e consciência, torna-se em sua própria tensão uma fonte de criatividade.
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Freud insistiu, ao final de sua obra, que o trabalho deveria centrar-se não na interpretação, mas primariamente na consciência profunda das resistências e em sua objetivação, para ajudar o ego a libertar-se em sua função essencial de lucidez.
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A psicanálise e as perspectivas espirituais operam em níveis diferentes e não se contradizem, cabendo ao ego assumir seu papel diante dos grandes mistérios que colocam a culpa numa perspectiva de responsabilidade maior e mais elevada.
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A psicanálise representa um acesso à autonomia e à vida adulta, além de um teste autêntico e difícil de verdade, tanto mais justificado porque somente a verdade liberta.
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Existe um nível de funcionamento inferior, inconsciente e mecânico, onde o ser humano é indubitavelmente condicionado por fatores que a psicanálise definiu com clareza.
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A escolha responsável não pode ser reduzida a uma retirada obrigatória e civilizada para a sublimação; ela nasce do escutar em si mesmo o eco de um chamado definido ao ser.
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André Malraux, escritor e Ministro da Cultura no governo de De Gaulle, ousou afirmar que o século vinte e um será religioso ou não será de forma alguma.
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A lucidez como ideal do ego, independente do superego, é o objetivo central de um trabalho progressivo de libertação da atenção de todos os condicionamentos inconscientes.
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A maioria das vezes não há consciência real do que ocorre internamente; toma-se por consciência o que é apenas percepção, em vez do resultado de uma confrontação da situação com tudo o que constitui a própria constituição interior.
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Herdou-se um sistema de valores com o qual se identifica passivamente, quando seria necessário merecê-lo ativamente e torná-lo verdadeiramente próprio.
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Os mecanismos de defesa inconscientes do ego, a força da sugestão, as tendências do caráter, os hábitos e os mecanismos de projeção e identificação são obstáculos que exigem grande tranquilidade interior para serem percebidos e compreendidos.
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O ego é a atenção, e ela precisa ser livre e pura; somente através dos erros, das tentativas e das armadilhas que ameaçam a atenção se descobre o caminho para a interioridade.
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O que no Cristianismo se chama graça oferece luz, orientação e um chamado que exigem grande quietude, esvaziamento e transparência para agir, num estado que é longe de ser passivo, mas uma ação que requer consciência última de todo o ser.
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A culpa consciente, ou remorso consciente, é um auxílio dinâmico que coloca o ser em questão e recorda a necessidade de presença e atenção pura, enquanto a atenção pura em si está além da palavra, da forma, da imagem e do pensamento habitual.
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Quando a atenção pura age, a dualidade se dissolve em unidade e não há mais espaço para a culpa.
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A culpa, tomada como mistério real a ser explorado e não como dado aceito sem questionamento, pode tornar-se catalisador saudável e poderoso na busca da lucidez.
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A evolução espiritual pode envolver a passagem de um ídolo a outro até que se seja capaz de viver o mistério plenamente, partindo necessariamente da dualidade até atingir um ponto em que não há mais observador nem observado.
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A dependência dos ídolos está relacionada à dependência do vasto mundo das associações, que governa toda a vida psíquica, mas do qual é possível tornar-se consciente e, graças a outras leis que operam na vigilância, libertar-se.
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Há mais culpa hoje do que nas gerações anteriores, paradoxalmente, em razão do desmoronamento dos sistemas de valores e da perda de significado que estruturavam a vida cotidiana.
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A vida nas sociedades modernas foi progressivamente desritualizada e dessacralizada, e instituições como casamento, família e Estado perderam sua função estruturante.
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O ser humano não é apenas um animal: sua constituição é tal que o significado tem para ele importância superior à da comida ou do sexo, e totalmente privado de sentido ele cai na culpa e na depressão.
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A necessidade essencial de significado, que o racionalismo não satisfaz adequadamente, reflete-se no florescimento contemporâneo de novas religiões e seitas.
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O egoísmo e a separação são motivos profundos de culpa, pois a falta de verdadeira relação com o que existe ao redor torna o ser humano solitário e centrado em si mesmo.
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Os perigos sociológicos e ecológicos, bem como as ameaças destrutivas da tecnologia, mobilizam a ansiedade e os sentimentos de culpa latentes, tanto mais porque não se vê claramente o que pode ser feito.
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