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Corpo Humano

Parabola V30N3. Body and Soul.

  • A visão predominante do universo como inorgânico, não-intencional, não-propositivo e mecânico cria um paradoxo insolúvel: como algo qualitativamente diferente da matéria pode surgir da matéria morta.
    • No mundo antigo, a realidade era compreendida como fundamentalmente viva, e a morte era o problema a ser explicado; no mundo moderno, o vivo é que precisa ser explicado.
    • Agitar um balde de tinta branca nunca produzirá vermelho: para que a vida emerja do não-vivo, a vida já deve estar presente de algum modo, o que a visão científica convencional não aceita.
    • O cientismo não é ciência, mas uma extrapolação injustificada do método científico, transformado em visão de mundo e em cânone exclusivista do conhecimento.
    • À visão nivelada e reducionista do universo se opõe uma visão de universo de níveis, propósito, inteligência, mente e significado, que em algumas tradições se denomina Deus, Absoluto, Brahman ou Vazio.
  • A consciência não pode ser definida sem que se a reduza a algo não-consciente, e qualquer definição é apenas a substituição de um desconhecido por outro.
    • Sabe-se o que é consciência quando se a tem: ao despertar do sono, sabe-se que se está acordado, sem que nenhuma definição seja necessária.
    • Os estados alterados e especialmente os estados superiores de consciência tornam ainda menos possível qualquer definição clara.
  • O conceito de Oversoul de Emerson, que refletia uma ideia atemporal do hinduísmo e de outras grandes tradições espirituais, difere fundamentalmente do campo quântico da física contemporânea, e equipará-los representa uma perda de precisão conceitual.
    • A Oversoul é uma inteligência profundamente moral e intencional que penetra todos os interstícios da realidade e entra na vida humana quando um ser humano atualiza a possibilidade de acesso intencional a essa ação em si mesmo.
    • O campo quântico, por sua vez, é geralmente entendido como um campo totalmente não-intencional e não-propositivo de forças, uma região de espaço matemático em que certos eventos acontecem.
    • Dizer que o campo quântico possui amor, intenção e cuidado pelos seres humanos equivale simplesmente a redefinir o campo quântico como a Oversoul.
  • Há um empirismo interior de longa tradição no budismo, no hinduísmo, no sufismo, na contemplação cristã e na Cabala, que demonstra que experiências internas profundas podem ser reproduzidas sob condições interiores precisas, ainda que não em laboratório.
    • David Hume olhou para sua mente e concluiu que não há experiência de um self duradouro, apenas impressões passageiras; mas a questão de como se olha para a mente e se todos o fazem da mesma forma permaneceu sem resposta.
    • Um professor Zen, improvável na Escócia da época de Hume, poderia ter dito que ele havia feito um bom início e mostrado como ir mais longe, com técnicas desenvolvidas ao longo de séculos.
    • O conhecimento verificável cientificamente não pressupõe estados superiores de consciência no investigador; o conhecimento interior profundo exige a disposição de colocar toda a mente e todo o ser em questão.
  • A ideia de estados superiores de consciência é talvez a mais revolucionária do nosso tempo: um estado superior não é apenas uma alternativa ao estado de vigília, mas uma condição de conhecimento qualitativamente distinta.
    • Nosso estado de vigília está para o sono assim como um estado superior está para o estado de vigília: assim como no estado de vigília se conhecem coisas impossíveis no sonho, num estado superior conhecem-se coisas inimagináveis no estado ordinário.
    • Charles Tart denominou esse fenômeno conhecimento específico de estado: quase todo o nosso conhecimento é dependente de estado.
    • Quando se tem acesso sustentado a outro estado de consciência, percebe-se que se dispõe de um instrumento de conhecimento que de outra forma não está disponível.
    • Os dados e descobertas da ciência moderna podem ser organizados de modo diferente e tornar-se evidência de um nível mais elevado de verdade, o que não pode ser comunicado a quem nunca experimentou tal estado e se recusa a acreditar que ele existe.
  • O corpo quer obedecer a algo superior, mas geralmente não há autoridade que ele possa respeitar ou compreender, e o trabalho espiritual começa quando ele começa a reconhecer essa autoridade interior.
    • Na meditação o corpo resiste, inquieta-se, quer se mover; mas se o meditador persiste em mantê-lo quieto, o corpo começa a relaxar e a descobrir algo dentro de si que não conhecia.
    • Quando o corpo reconhece uma autoridade interior, exclama interiormente que por fim encontrou alguém a quem pode obedecer, e começa a ser sufusado pela mente de uma forma que não ocorre normalmente.
    • As imagens e símbolos das tradições de sabedoria mostram o corpo humano irradiado por uma energia mais fina, uma sensação vibrante, um corpo cheio de luz: esse é o verdadeiro corpo humano, e nosso corpo ordinário é antes um lugar onde a evolução precisa prosseguir.
  • A consciência é ao mesmo tempo dada como graça e conquistada pelo trabalho de preparar o ser para receber o que está sempre sendo oferecido.
    • Atribui-se a Santo Agostinho a frase de que Deus fornece o vento, mas o ser humano deve içar as velas.
    • Todos os grandes ensinamentos místicos afirmam que a consciência está presente, esperando, chamando, mais próxima do que a veia jugular, batendo constantemente à porta pedindo para entrar.
    • Içar a vela, abrir a porta, não é pouca coisa: é um trabalho, uma luta, a preparação para receber o dom.
  • A consciência em seu sentido último é uma força moral, não apenas intelectual ou cognitiva, e a realidade está impregnada de uma dimensão de valor que é um fato objetivo.
    • Para Platão, a realidade mais elevada se chama o Bem; grande parte do pensamento ocidental ignorou isso e afirmou que as coisas simplesmente são ou não são, livres de valor.
    • A visão que reduziu as qualidades terciárias, como a beleza, a meras reações subjetivas do observador implica que a Mona Lisa não é intrinsecamente bela, sendo apenas pigmentos numa tela de sessenta quilos: a visão oposta afirma que a beleza é parte de sua realidade objetiva.
    • A afirmação de que tudo é relativo e que Mozart e um jingle de refrigerante são apenas música, cujo valor depende apenas do gosto pessoal, é contestável: ouvir Mozart com orientação adequada produz algo real no ouvinte.
    • O universo é como a Mona Lisa: requer o observador com a possibilidade de atenção e de estados superiores para que se comece a compreender o quanto a verdade é verdadeiramente grande.
  • A liberdade humana reside na atenção, que é talvez o único elemento verdadeiramente livre no ser humano, e através dela se pode tornar instrumento de propósitos superiores.
    • Se Deus precisa do ser humano como ser capaz de permitir intencionalmente que os propósitos do superior se dirijam ao mundo da matéria e da vida, o mesmo ser que pode permitir isso também pode bloqueá-lo.
    • O drama humano da liberdade consiste exatamente nisso: a possibilidade de bloquear é o que torna possível a abertura.
    • A atenção livre pode transmitir uma influência ao corpo e à vida terrena, tornando o ser humano instrumento de Deus e, nesse processo, verdadeiramente humano.
    • Diante de dilemas éticos aparentemente insolúveis em abstrato, a consciência ligada à consciência moral, denominada consciência ética, frequentemente os resolve no concreto, quando se está presente à situação com os olhos, os ouvidos e o coração.
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