autores-obras:nott:ny-fontainebleau-1923-1925-1
New York e Fontainebleau 1923-5 (1)
C. S. Nott. Teachings of Gurdjieff. A Pupil’s Journal. An Account of Some Years With G. I. Gurdjieff and A. R. Orage in New York and at Fontainebleau-Avon. London: Routledge & Kegan Paul, 1961
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Em dezembro de 1923, em Nova York, Orage solicitou permissão para proferir uma palestra sobre as ideias de G. I. Gurdjieff e seu Instituto, fazendo-se acompanhar pelo doutor Stjoernval, um médico que colaborara com o instrutor na Rússia.
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Orage atuara em Londres como proprietário e editor da revista New Age.
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Stjoernval e sua esposa acompanharam Gurdjieff desde a Rússia até a França.
O estabelecimento comercial onde a reunião ocorreu encontrava-se repleto de um público intelectualizado para ouvir a exposição de Orage, cujos fundamentos estabeleceram a base doutrinária para os registros subsequentes.-
O auditório era composto por homens e mulheres de aparência distinta e culta.
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A substância da fala foi considerada clara e concisa pela relatora.
O Instituto para o Desenvolvimento Harmonioso do Homem, sediado em Fontainebleau, constitui uma continuação da sociedade Buscadores da Verdade, fundada em 1895 por um grupo multidisciplinar que realizou expedições por diversos países da Ásia para investigar fenômenos sobrenaturais e registros antigos.-
O grupo original era composto por médicos, arqueólogos, cientistas, sacerdotes e pintores.
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As expedições abrangeram Pérsia, Afeganistão, Turquestão, Tibete e Índia.
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Gurdjieff chegou à Rússia em 1913, passando por Tasquente e Moscou, onde atraiu o interesse de diversos profissionais.
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A Primeira Guerra Mundial e a Revolução de 1917 interromperam as atividades preparatórias do Instituto na Rússia.
Após uma travessia perigosa pelas montanhas até Tiflis e passagens por Constantinopla e Alemanha, Gurdjieff estabeleceu definitivamente o Instituto no Château du Prieuré, em Fontainebleau-Avon, no ano de 1922.-
O Instituto foi formalmente organizado em Tiflis antes da partida para Constantinopla.
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Uma demonstração de danças sagradas em Paris precedeu a aquisição da sede permanente.
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O interesse inicial do público francês foi considerado reduzido apesar da afluência.
A divisão dos alunos no Instituto estabelece uma distinção entre aqueles dedicados exclusivamente à teoria do sistema e os que buscam o treinamento prático no método.-
A categoria teórica foca na compreensão intelectual dos princípios.
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A categoria prática exige o engajamento no trabalho e no treinamento metodológico.
O sistema de treinamento baseia-se na constatação de que a civilização moderna desviou o homem de seu tipo original e essencial, desenvolvendo certas faculdades em detrimento de outras e produzindo um ser desajustado tanto ao seu meio natural quanto à sua vida interior.-
O tipo original deveria depender do ambiente, país de nascimento e cultura de criação.
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A civilização atual substituiu as qualidades essenciais por influências externas ilimitadas.
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O resultado é um ser incapaz de viver uma vida plena, tornando-se um estranho para si mesmo.
A psicologia de Gurdjieff fundamenta-se na prova experimental de que a percepção de mundo do homem contemporâneo não é uma expressão consciente da totalidade, mas sim a manifestação inconsciente de apenas uma de suas três partes constituintes.-
A percepção e o modo de vida são considerados manifestações mecânicas.
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O homem não opera como um todo completo em suas interações com o real.
A vida psíquica humana não se configura como um repositório unificado, mas divide-se em três entidades distintas que divergem em substância e função.-
As entidades operam de forma separada no cotidiano.
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Não existe um centro único de ação e recepção de impressões.
As três fontes distintas da vida humana, que englobam as funções intelectuais, emocionais e instintivo-motoras, são denominadas pelo sistema como centro pensante, centro instintivo-motor e centro emocional.-
Cada centro possui um conjunto próprio de funções específicas.
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A distinção entre eles é nítida dentro da estrutura psíquica.
A percepção e a expressão verdadeiramente conscientes exigem o funcionamento coordenado e simultâneo dos três centros, condição raramente atingida pelo homem moderno, cujas funções operam de forma desconexa e em caminhos divergentes.-
Cada centro deve fornecer sua quota de associações para uma apercepção completa.
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Influências variadas perturbam a conexão necessária entre as partes.
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Momentos de real consciência são escassos devido a essa fragmentação.
A falta de coordenação decorre da existência de três indivíduos distintos em um único sujeito — o homem lógico, o emocional e o físico — que interferem uns nos outros e reivindicam para si a autoridade do eu no momento da ação.-
Os três homens internos não possuem compreensão mútua.
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Planos e intenções de um centro são sabotados pelos demais.
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A palavra eu é utilizada por instâncias que não representam a totalidade.
A observação do funcionamento contraditório dos centros revela que o homem não possui senhorio sobre si mesmo, mantendo apenas a ilusão de uma unidade psíquica inexistente.-
O indivíduo é incapaz de prever qual centro assumirá a função seguinte.
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A multiplicidade de eus mascara-se sob uma falsa sensação de integridade.
A manifestação psíquica do homem moderno não provém de iniciativa própria, mas reflete apenas mudanças mecânicas causadas por estímulos externos, evidenciando que o sujeito não pensa ou age por si, mas é pensado e agido.-
O pensamento e a criação ocorrem através do indivíduo, não por ele.
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A ação é uma resposta reativa do mecanismo às causas exteriores.
A compreensão dos processos de percepção revela que os centros funcionam como discos virgens que registram impressões externas e internas, associando-as de forma aleatória e produzindo julgamentos parciais e falsos.-
As impressões são gravadas desde as primeiras horas de vida em ordens muitas vezes absurdas.
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Pensamento, memória e imaginação resultam de combinações casuais de registros ativados por choques.
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Nenhum centro adiciona algo original às combinações formadas nos outros.
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O conhecimento resultante é limitado ao material armazenado em apenas uma fração do ser.
O desenvolvimento equilibrado do homem inicia-se com a introdução do trabalho simultâneo dos três centros nas funções psíquicas, permitindo que as engrenagens da máquina humana operem sem interferências e alcancem níveis superiores de consciência.-
A intensidade igual de funcionamento nos três centros promove a fluidez do mecanismo.
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A funcionalidade correta afasta o caráter fortuito das ações cotidianas.
O ensino e o treinamento devem ser estritamente individuais, pois o grau de desenvolvimento e a natureza das impressões registradas variam significativamente entre os indivíduos.-
A singularidade de cada máquina humana exige uma abordagem personalizada.
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O material registrado nos centros é único para cada sujeito.
A correção das desordens funcionais da máquina humana exige uma luta longa e assistida, uma vez que métodos genéricos ou exercícios de autodesenvolvimento populares podem ser perigosos por não considerarem o equilíbrio mecânico e as peculiaridades pessoais.-
O homem é incapaz de superar seus defeitos de forma isolada.
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Exercícios de respiração, dieta ou meditação sem supervisão técnica podem causar danos imprevistos.
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Qualquer alteração em um ponto da máquina exige previsão das consequências em outras áreas.
O trabalho sobre si mesmo exige a submissão a uma disciplina e a métodos específicos do Instituto para desenvolver novas faculdades que não podem ser adquiridas nas condições da vida cotidiana.-
O objetivo é a regulação de processos antigos através de novas funções.
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A ajuda externa é indispensável para evitar consequências indesejáveis.
A aplicação de métodos individualizados requer um longo período de observação para destruir a máscara externa adquirida pela educação, permitindo o acesso ao tipo real e essencial do indivíduo.-
A máscara externa costuma não ter relação com o tipo verdadeiro.
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O endurecimento da máscara com a idade impede o autoconhecimento.
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Somente a destruição dessa fachada possibilita o estudo do ser real.
O convite para palestras futuras encerrou a exposição teórica, seguida por uma descrição da vida e do trabalho prático no Prieuré.-
O público demonstrou profundo interesse durante a sessão de perguntas.
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O conteúdo inicial pareceu impenetrável e excessivamente novo para a relatora.
O encontro pessoal com Orage despertou na relatora um sentimento de familiaridade ancestral, levando-a a aceitar o convite para assistir às demonstrações de danças e exercícios sagrados que seriam conduzidas por Gurdjieff e seus alunos.-
A percepção de Orage foi a de reencontrar alguém conhecido intimamente há muito tempo.
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O interesse pela dança motivou a aceitação do convite após a incompreensão da palestra.
A primeira demonstração pública, realizada no Leslie Hall para um público de artistas e intelectuais, foi precedida por medidas de vigilância civil para garantir a natureza não erótica das coreografias.-
O auditório continha pessoas dedicadas à escrita, pintura e música.
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Um policial à paisana vigiava os bastidores.
Orage explicou que as danças e movimentos sagrados, oriundos de escolas esotéricas do Oriente Antigo, funcionam como livros que transmitem conhecimentos científicos e religiosos, visando o desenvolvimento harmonioso e o alcance de um estado esseral superior.-
As investigações dos Buscadores da Verdade provaram a preservação do significado profundo dessas artes no Oriente.
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Os movimentos possuem o duplo objetivo de transmitir saber e harmonizar o estado esseral.
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O esforço nos limites da resistência física gera uma nova qualidade de atenção e percepção.
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Diferente do Ocidente, a dança oriental antiga é um ramo do conhecimento real.
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No cristianismo primitivo, a dança em igrejas constituía parte integrante do ritual.
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As posturas e ginásticas sagradas educam a força moral, a vontade e as capacidades cognitivas dos estudantes.
O programa da noite incluiu danças de grupo que antecedem movimentos individuais mais complexos, além de uma demonstração de fenômenos sobrenaturais estudados na escola de Gurdjieff.-
A plateia foi solicitada a não aplaudir durante a execução.
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As danças coletivas servem de base para o trabalho posterior.
Thomas de Hartmann, pianista e compositor que abandonou a corte russa para seguir Gurdjieff, conduziu a orquestra, demonstrando uma postura de relaxamento e presença absoluta.-
Hartmann fora pajem na corte do Czar e compositor para Nijinsky.
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Madame de Hartmann, cantora de ópera, também renunciou à carreira para integrar o grupo.
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A imobilidade e a atenção de Hartmann ao piano destacaram-se durante a espera.
Os alunos apresentaram-se em túnicas brancas e, posteriormente, em trajes orientais detalhados, desenhados por Gurdjieff com base em modelos tradicionais da Ásia.-
A vestimenta feminina incluía filetes de ouro no cabelo.
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Os figurinos baseavam-se em vestes autênticas do início do século.
Os exercícios envolveram a manutenção de posturas rigorosas e ritmos complexos, incluindo uma representação coreográfica do funcionamento de engrenagens denominada grupo de máquinas.-
O comando ruki storn exigia a extensão lateral dos braços por períodos prolongados.
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O grupo de máquinas traduzia a harmonia de partes distintas operando como um todo.
Foram executados doze exercícios obrigatórios, originários de centros esotéricos como o Templo de Medicina em Sari e a escola Os Videntes no Cafiristão, os quais provocaram um impacto imediato de familiaridade nos sentidos da relatora.-
A execução desses exercícios é pré-requisito para as danças complexas.
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A reação da relatora envolveu um desejo instintivo e emocional de participar da prática.
A Iniciação de uma Sacerdotisa, fragmento do mistério Buscadores da Verdade protagonizado pela esposa de Gurdjieff, alterou a atmosfera do salão, conferindo à demonstração um caráter de cerimônia religiosa.-
O público percebeu uma mudança sensível no ambiente.
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A música e os gestos evocaram uma experiência profunda de participação ritual.
Uma série de danças dervixes executadas pelos alunos homens apresentou ritmos vigorosos e positivos, simbolizando o homem como uma força essencialmente ativa.-
Foram apresentadas danças Ho Yah de Chian e o Passo do Camelo do Afeganistão.
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Incluíram-se rituais das ordens Lakum e Subari, além dos movimentos dos dervixes giratórios.
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A masculinidade foi retratada como uma força positiva e dinâmica.
A demonstração de uma peregrinação caucasiana e turquistanesa, intitulada Medindo o caminho pelo próprio comprimento, ilustrou atos de sofrimento voluntário realizados por devotos em busca de bênçãos.-
Os peregrinos percorrem distâncias imensas deitando-se e levantando-se repetidamente.
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Relatos mencionam a cura inexplicável de ferimentos durante o percurso.
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A santa sufi Rabia teria realizado tal peregrinação até Meca.
A cerimônia da Pítia e as danças das noviças expressaram qualidades passivas e melódicas, contrastando a ternura feminina com o vigor das danças masculinas.-
A Pítia representou o sono magnético de uma sacerdotisa em Chitral.
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Danças como O Ganso Sagrado evocaram graça e charme por meio de melodias apelativas.
O ápice da noite ocorreu com o Grande Grupo dos Sete, uma série de movimentos baseada no Eneagrama e originária de uma seita cristã com influências sufis, que sintetizou experiências estéticas e religiosas universais.-
A construção matemática dos movimentos remete à ordem dos puros essênios.
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A coreografia está ligada a tradições próximas ao Monte Ararat.
A execução do Grande Grupo despertou na relatora uma síntese emocional de memórias sagradas e artísticas, culminando na convicção absoluta de ter encontrado o objeto final de sua busca existencial.-
A música e os movimentos evocaram imagens de templos da Índia, do Egito e de catedrais europeias.
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A alegria e a seriedade fundiram-se na decifração de um significado oculto.
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A experiência resultou em uma certeza perene e isenta de dúvidas.
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