Gurdjieff (Vida é real...) – Introdução
- Durante o processo de mentação subconsciente e no fluxo automático dos pensamentos que acompanharam o árduo esforço final sobre a terceira parte da segunda série de escritos, o centro de gravidade do interesse concentrou-se intrinsecamente na questão de como iniciar a A vida é real só quando eu sou de livros, predeterminada e destinada a tornar-se, em curto espaço de tempo, edificante e instrutiva para todas as criaturas do Pai Comum; tal determinação surge da convicção de que, ao escolher a profissão de escritor como a mais adequada ao estado físico inesperadamente surgido, e compreendendo o benefício que as explicações escritas trariam à contemporaneidade e às gerações futuras, estabeleceu-se o propósito consciente de quitar a dívida para com a Grande Natureza pelo surgimento e existência, não uma existência ordinária e automática que apenas cumpre propósitos gerais da natureza, mas uma existência determinada, consciente, capaz de autoavaliação imparcial e dotada da capacidade de aperfeiçoamento integral e unidade independente.
- A resultante destas reflexões, combinada aos pensamentos conscientes ao término do livro anteriormente mencionado, conduziu à decisão categórica de iniciar esta série edificante com a descrição dos eventos conectados às duas últimas visitas a certas cidades da América do Norte, citando de forma concisa as palestras proferidas a um grupo específico de seguidores das ideias, o qual havia sido organizado dez anos antes, durante a primeira visita a Nova York; esta escolha fundamenta-se no fato de que, sobre estas palestras, conforme planejadas no pensamento, pode-se construir uma base correspondente para tudo aquilo que se decidiu introduzir na vida consciente das pessoas por meio desta terceira e última série de escritos, além de que a publicação destas leituras, combinada à descrição das causas e eventos que as provocaram, criará em sua totalidade um fator de ação automática para a possível salvação da ruína total de milhares de pessoas de ambos os sexos em diversos países da Europa, Ásia e América.
- Neste livro introdutório da A vida é real só quando eu sou, expõe-se a quintessência de cinco palestras, sendo quatro proferidas entre o final de 1930 e o início de 1931, e uma outra entre o final de 1931 e o início de 1932; para os leitores destas exposições, independentemente do grau de consciência em que se classifiquem, não seria supérfluo conhecer a origem da concepção instintiva que derivou a frase “quitar-me conscientemente com a Grande Natureza”, a qual irrompeu quase involuntariamente, derivada da totalidade da convicção instintiva e consciente de que, pelo ato de tornar conhecida esta última série de escritos, poder-se-ia cumprir o dever mais importante de um homem que atingiu a idade responsável, que consiste em preparar sem falhas, para o benefício da posteridade e de acordo com a própria individualidade, certas instruções proveitosas, justificando assim, ainda que subjetivamente, o sentido de todos os trabalhos intencionais passados e das renúncias conscientes a benefícios geralmente cristalizados na vida das pessoas contemporâneas, esperando-se experimentar, no momento do último suspiro, sem dúvida mental, sensitiva ou instintiva, o impulso sagrado para um homem, denominado pelos antigos Essênios como autossatisfação imparcial.
- Para que possa surgir na mentação dos leitores, visando uma melhor orientação e um confronto lógico facilitado com o que se seguirá, algo análogo ao que existia na Terra antes da civilização babilônica em um ramo da ciência nomeado *Theomathos* e que era chamado de fator vivificante para a assunção objetiva, faz-se necessário descrever verbalmente diversas informações cuja totalidade auxilie a representar em perspectiva verdadeira duas situações ocorridas no processo da vida ordinária durante a atividade de escrita; a primeira situação surgiu logo no início desta atividade, após o grande infortúnio do acidente automobilístico, quando se liquidou tudo o que estava conectado às formas anteriores de atividade consciente pelo bem-estar alheio e se iniciou a escrita, momento a partir do qual se passou a evitar todo tipo de reuniões e conversas com pessoas que, tendo tomado conhecimento das ideias, desejavam falar para se familiarizarem melhor com elas, medida esta tomada para não receber, ou receber em menor grau, os choques nas associações mentais provocados por questões abstratas rarefeitas, as quais, em anos recentes, obrigavam a uma adaptação aos diferentes graus de compreensão dos interlocutores, adquirindo-se quase uma resposta automática, e para evitar impressões da vida ordinária desnecessárias que poderiam interferir no tempo estabelecido da mentação para a tarefa voluntariamente imposta.
- A caracterização do isolamento interior intencional das impressões externas que obstaculizavam a atividade de escrita pode ser exemplificada pelo fato de que, durante este período, não se leu jornais e quase não se manuseou cartas ou telegramas, lendo-se apenas um número ínfimo em comparação às centenas recebidas diariamente; tal atitude livre em relação à correspondência, que soa como uma confissão de segredos, alinha-se ao princípio fundamental aplicado na vida ordinária de que se alguém está em uma farra, não deve parar por ninharias, levando ao estabelecimento de um sistema onde, excetuando-se representantes do governo francês, as portas da casa foram fechadas para todos, conhecidos ou curiosos, e as cartas eram abertas por terceiros e destruídas sem deixar sequer um cheiro astral se não contivessem anexos monetários, sendo que, se houvesse anexos, o destino da carta e do dinheiro dependia do número de zeros que adornavam a quantia: um zero destinava o anexo às crianças da casa para brinquedos e destruía a carta; dois zeros enviavam a carta ao secretário e o anexo à administração da cozinha; e apenas aquelas adornadas com três ou mais zeros eram entregues pessoalmente, um arranjo que se propõe alterar no futuro próximo para que apenas anexos com quatro zeros cheguem às mãos do autor, destinando-se os de um zero às crianças pobres das cidades de Fontainebleau e Avon.
- A confissão pública de tal atitude descerimoniosa não apenas em relação à correspondência, mas também em relação às pessoas, algumas consideradas poderosas e ilustres em países europeus, justifica-se pelo fato de que a consciência permitiu à natureza particular manifestar tal audácia e expressá-la em forma escrita, acessível à percepção de qualquer criatura bípede que respira, independentemente de sua compreensão geométrica ser um cubo, quadrado ou ziguezague, porque já se obteve sucesso em cumprir a maior parte da tarefa autoimposta, a despeito de fatores obstrutivos surgidos de acordo com a lei e daqueles engendrados por tipos que infelizmente também levam o nome de homem; conforme explicado em uma lenda muito antiga, estes homens são formados pela Natureza de tal modo que as substâncias cósmicas transformadas através deles durante sua vegetação — e não vida, como acreditam — servem primeiramente como elementos catódicos para a manutenção do Bem objetivo na vida de toda a humanidade e, secundariamente, após perecerem, seus elementos compõem um suplemento aos produtos gastos para os requisitos do Inferno.
- A segunda situação mencionada refere-se ao fato de que, enquanto a agudeza da memória conectada às questões da escrita se afiou a um grau extraordinário durante as atividades literárias, permitindo lembrar em qual dos milhares de cadernos e em que conexão um pensamento específico foi expresso e onde deveria ser repetido em forma diferente, ou até mesmo em qual sentença letras foram escritas incorretamente, simultaneamente, durante este período, ao encontrar novas pessoas, quase nenhuma reunião ou conversa deixava qualquer impressão na memória, sendo impossível, mesmo com desejo e tensão, recordar no dia seguinte qualquer detalhe dos encontros ocorridos na véspera; contudo, quando a intensidade da preocupação interior com a escrita diminuiu devido à proximidade da conclusão das exposições, adquiriu-se na natureza, formada de maneira particular, a possibilidade de se interessar por questões da vida além da tarefa estabelecida, sem experimentar remorso de consciência, retomando o trabalho de finalização da segunda série enquanto se viajava por países europeus e se frequentava lugares públicos como restaurantes e cafés.
- Ao renovar o relacionamento com diversos tipos de pessoas e observá-las novamente com a atenção semiliberada e uma capacidade intencionalmente desenvolvida na juventude de não se identificar com as manifestações externas dos outros, constatou-se e confirmou-se repetidamente que, na psique de todos aqueles, homens e mulheres, que tinham algum conhecimento e interesse nas ideias, especialmente naqueles que tentavam experimentos práticos supostamente correspondentes a elas, procedia algo definitivamente errado, tão errado que era perceptível a qualquer pessoa mediana com algum conhecimento de observação; estas constatações alarmantes despertaram a sede de conhecimento para compreender as causas desse fato, levando à observação particular e a questionamentos indiretos para elucidar a origem dessa estranha e dolorosa realidade, o que aumentou o interesse ao ponto de se tornar quase uma *idée fixe*, obstaculizando a luta interior habitual e a concentração necessária para a continuação do trabalho.
- A chegada a Nova York no final de 1930 e o encontro imediato com um grande número de americanos seguidores das ideias, onde se observou o mesmo fenômeno de funcionamento psíquico errado, produziu uma impressão profunda e uma reação forte, provocando um calafrio similar à malária amarela de *Kushka*, forçando o uso de piadas para ocultar o estado interior das pessoas ao redor; após acalmar-se e meditar, decidiu-se que, para cumprir o objetivo da viagem, que envolvia questões financeiras, seria possível prescindir deste grupo, mas decidiu-se também elucidar todas as causas dessa peculiaridade psíquica e fazer o possível para desenraizar, se não de todos, ao menos da maioria, este mal ocasionado pelo mal-entendido das ideias, sentindo-se uma obrigação moral em relação a eles devido à atitude positiva que mantiveram durante os anos difíceis após o infortúnio pessoal.
- A descrição dos eventos que se seguem a esta decisão visa elucidar as causas do surgimento deste fato maléfico no sentido objetivo e penoso pessoalmente, esperando que aqueles que assimilaram erroneamente a essência das ideias e continuam a aplicá-las para sua suposta ruína possam cessar tal autodestruição, referindo-se àqueles em quem os dados para a reflexão do senso comum ainda não estão completamente atrofiados; a familiarização com o conteúdo das cinco palestras proferidas a este grupo, que constituem medidas para a retificação destes resultados perniciosos, pode servir como o primeiro lampejo da verdade para qualquer leitor, razão pela qual se considera apropriado tomar a descrição destes eventos como base para o tema deste primeiro livro da série edificante.
- Na primeira noite da chegada a Nova York, em 13 de novembro de 1930, organizou-se por iniciativa de certos membros do grupo — presumivelmente americanos de sangue puro, dada a habilidade de economizar tempo — uma reunião geral em um estúdio do famoso Carnegie Hall para saudações pessoais, a convite do Sr. S., substituto oficial do Sr. Orage, que era o principal representante das ideias na América e guia do grupo, mas estava ausente na Inglaterra; a maioria dos presentes era conhecida de viagens anteriores ou de visitas ao *Château du Prieuré*, e durante os cumprimentos e a manipulação chamada aperto de mão, notou-se em seus rostos e olhares o mesmo “algo” observado em seguidores da Alemanha, Inglaterra e Turquia, despertando os dados que levaram à decisão categórica de tomar medidas para o bem-estar deles, caso não fosse tarde demais.
- Ao término dos cumprimentos e da troca de palavras vacuidade chamadas amabilidades, solicitou-se ao secretário que lesse em voz alta o capítulo final da primeira série de escritos, com o propósito de criar condições para a observação desimpedida dos presentes; sentado em um canto, observou-se atentamente cada um e traçou-se um plano de ação, interrompendo a leitura no meio devido ao adiantado da hora e propondo uma nova leitura nos dias seguintes, além de solicitar a escolha de três ou quatro pessoas para, juntamente com o Sr. S., decidir coletivamente as questões da estadia, um convite premeditado para sondar indiretamente detalhes sobre as suspeitas que surgiram durante a leitura, suspeitas estas relacionadas exclusivamente a estes “tristes seguidores” americanos das ideias.
- Para um homem com o hábito de pensar e buscar o sentido contido em exposições alegóricas, fatos externos aparentemente sem sentido podem estar cheios de significado interior se houver um esforço para não ser uma marionete da reflexão automática; como material de demonstração perfeito para buscar esse sentido interno, serve o que foi dito ao final daquela noite, ao sair do estúdio: dirigindo-se ao grupo em tom meio jocoso e meio sério, afirmou-se que, apesar de ter gerado energia suficiente na esfera beatífica de suas radiações enlatadas para realizar o objetivo da viagem, despertou-se infelizmente o impulso de piedade, que nunca agira durante a atividade de escrita, por certas pessoas que atingiram a maioridade e cujos pais vaidosos, aproveitando a ausência de sabedoria própria nestes futuros desamparados, persuadiram-nos a se tornarem médicos-psiquiatras para pessoas de idade adulta vegetando em manicômios organizados à escala americana; confessou-se francamente que, ao observar as expressões faciais durante a leitura, parecia claro que na testa de um e de outro sobressaía a inscrição “candidato ao hospício”, atribuindo-se tal percepção talvez ao tédio causado pelo conteúdo do capítulo ou, conforme o tom de humildade confusa adotado em seguida, ao estado “suspeito” provocado pelo balanço do oceano e pela introdução frequente de nobre *armagnac* francês e *hors d'oeuvres* alemães.
- Três dias após a significativa reunião americana, dias que os habitantes locais caracterizariam ou como passados sem monotonia, se possuidores de dólares, ou como o encurtamento da aproximação do último suspiro, se desprovidos deles, os cinco americanos mencionados, liderados pelo Sr. S., compareceram para conversar; elucidando os detalhes necessários sobre as suspeitas surgidas e descrevendo em relevo as constatações sobre a peculiaridade estranha na psique dos seguidores e as perspectivas decorrentes, propôs-se, devido à impossibilidade de dedicar muito tempo a eles, a formação de um comitê para organizar reuniões gerais duas vezes por semana, nas quais se tentaria estar presente, garantindo que nos outros dias ninguém perturbasse com visitas, cartas ou telefone; decidiu-se realizar as reuniões no apartamento pessoal para economizar tempo, limitando a cinquenta pessoas, enquanto os demais ouviriam leituras taquigrafadas em outros locais, concluindo com o pedido de sigilo sobre o que fora dito e o aviso de que, devido às deduções feitas após observações, seria compulsório tomar medidas para que muitos dos camaradas se desapontassem completamente com as ideias ou para que desaparecesse a fé cristalizada em sua individualidade em relação ao Sr. Orage e sua autoridade.
