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Monsieur Gurdjieff

Louis Pauwels — Monsieur Gurdjieff. Ed. du Seuil, Paris, 1954

Prefácio (Louis Pauwels 1970)

  • A obra é simultaneamente um ensaio, uma investigação, uma coletânea de testemunhos, uma meditação, uma antologia comentada e um romance — forma de expressão global inédita à época, concebida para esboçar a psicologia e a sociologia de uma família de espíritos reunida em torno de um poderoso personagem socrático, preservando espaço para a subjetividade e expondo o analista-eu à observação do leitor.
  • O aparecimento de Monsieur Gurdjieff, em 1954, suscitou a indignação dos devotos e uma curiosidade geral, porém ambígua, voltada sobretudo para o pitoresco do personagem e de sua sociedade de discípulos — tendência que o próprio autor reconhece ter alimentado ao dirigir a atenção para o estranho e o anedótico.
    • Max Jacob sintetizou o risco dessa atração: “O viajante caiu morto, fulminado pelo pitoresco.”
    • O desejo expresso é que o leitor despreze os vícios jornalísticos do texto e busque nas páginas o que reflete uma inquietação fundamental do espírito moderno e o que pode ser útil para iluminar e conduzir a própria vida interior.
  • Diante da quantidade de cartas recebidas com perguntas sobre seguir ou não uma disciplina desse tipo e sobre a posição pessoal do autor, a nova edição é ocasião para responder com mais clareza do que fora feito até então.
  • A permanência no Ensinamento — nos grupos em que se praticava aquela espécie de ioga mental tradicional e sincrético desenvolvido por Gurdjieff — constituiu e continua sendo a experiência capital da vida do autor, cuja natureza se torna mais nítida com o distanciamento temporal.
    • As peripécias pessoais no trabalho exigido pela escola pouco importam, sendo matéria de romance e assunto particular, reflexo de disposições íntimas, angústias, esperanças, impaciências e carências próprias.
    • O julgamento sobre Gurdjieff enquanto homem, sobre suas teorias, sua linguagem e seus métodos é considerado sem interesse; o que se tornou claro e suficiente é que, de alguma maneira e por tal intermediário, recebeu-se a iniciação.
  • A iniciação, para além das glosas que a sobrecarregaram, encobre uma realidade simples: a descoberta — ou antes, a tomada em consideração — da faculdade de tomar distância, ignorada ou negligenciada pelo mundo com a cumplicidade da preguiça humana.
    • No caso de Gurdjieff, essa iniciação era desprovida de qualquer aparato ritualístico ou material simbólico, reduzida a uma pura ginástica mental.
    • Como observou Gide, “a arte começa na dificuldade” — e o mesmo vale para essa faculdade, cujo exercício se torna progressivamente mais difícil à medida que se aprofunda.
    • O mistério da iniciação consiste em que toda a vida, em todos os seus aspectos e até seu término, passa a ser concebida como o próprio instrumento da iniciação.
  • A sociedade moderna não se caracteriza apenas pela ignorância ou negligência da faculdade de tomar distância, mas por uma verdadeira hostilidade a ela — o comunismo a recusa como pecado capital, e o mundo liberal a tritura em sua máquina de acelerar os apetites materiais.
    • Todo homem que pressente a existência e o valor infinito dessa faculdade torna-se, nessa civilização, um Estrangeiro sem estatuto, condenado à expulsão ou ao vagabundear.
    • A iniciação é o estatuto do Estrangeiro: por ela, este descobre sua filiação, reencontra uma pátria antes abandonada do que perdida, reconhece seu lugar e papel no mundo e toma consciência da perenidade de sua função de homem diferente — testemunhar por uma liberdade interior irredutível, pela certeza de que algo no homem transcende os compromissos do cotidiano, a sociedade e a história, e por uma Verdade no coração do ser, além de todas as verdades.
  • O livro descreve uma das vias da iniciação — seca e brutal, para homens nus em tempos bárbaros —, reconhecendo que existem outras vias, mais cautelosas, menos violentamente decapantes, envolvidas por sentimentos estéticos e efusão fraterna, ligadas ao passado pelo símbolo e pelo ritual, mais lentas, mais calorosas e certamente mais humanas, às quais o autor dá hoje preferência.
    • A própria vida, fora das escolas, reserva vias que transformam a existência cega em destino — uma busca esclarecida, através de provas e sinais, de uma relação mais justa consigo mesmo, com os outros e com o mundo.
    • Nessa busca, a vida ensinou, com mais gravidade e serenidade ativa do que qualquer escola, duas leis essenciais no caminho: quem para se engana; e se nada for sacrificado, nada poderá ser obtido.
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