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Assim Falou Belzebu
Henri Tracol, Conferência.
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Uma catástrofe cósmica marca a origem da vida humana na Terra, quando o cometa Kondoor colidiu com o planeta e dele arrancou dois grandes fragmentos que passaram a orbitar como satélites.
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O acidente resultou de cálculos errados de membros da Alta Comissão de Arco-Engenheiros Arcanjos especialistas na obra de Criação e Manutenção do Mundo.
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Os dois fragmentos desprendidos foram a Lua e o há muito esquecido Anoulios.
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Os seres humanos surgiram na Terra com a função de produzir, pela própria existência, as vibrações necessárias à manutenção dos dois fragmentos desprendidos do planeta.
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A designação atribuída aos humanos nesse contexto é a de Tetartocosmoses bípedes.
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A Alta Comissão temeu que, ao tomar consciência dessa escravidão a circunstâncias completamente alheias a eles, esses seres desejassem simplesmente se destruir.
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Para evitar o suicídio coletivo dos humanos, a Alta Comissão implantou neles um órgão especial chamado Kundabuffer, cuja função era fazer com que percebessem a realidade de cabeça para baixo.
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Essa medida foi tomada provisoriamente, mas suas consequências se revelaram imprevisíveis de cima.
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O que começou como solução tornou-se uma chaga maligna não apenas para o planeta e seus habitantes, mas para o Universo inteiro.
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Embora o órgão Kundabuffer tenha sido posteriormente removido dos corpos humanos, suas consequências permaneceram cristalizadas na psique e foram transmitidas de geração em geração.
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Entre as tendências indesejáveis herdadas, Beelzebub enumera: arrogância, necessidade de provocar admiração nos outros, jactância, astúcia, vício da gula, egoísmo, inveja, ódio, imaginação, ciúme, mentira, agressividade, parcialidade, orgulho, sandoor (desejo da morte ou fraqueza alheias), presunção, amor-próprio, bazófia e vaidade.
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Tais consequências, embora desagradáveis individualmente, ainda permitiriam alguma esperança de convivência pessoal com elas.
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O pior não está nas tendências individuais, mas em sua combinação e desdobramento progressivo, que culmina no impulso periódico e devastador de destruir a existência de outros seres semelhantes.
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Essas consequências se cruzaram e se fundiram, gerando novas consequências numa espiral crescente comparada a uma trombeta de Jericó em crescendo.
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O resultado é a guerra em escala cada vez maior, capaz de colocar em risco toda a espécie humana.
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A visão de Gurdjieff, expressa pela voz de Beelzebub nas primeiras séries de seus escritos, é apocalíptica: o destino humano é marcado por ilusões profundas, perda crescente de controle e propensão delirante ao autoextermínio.
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Essa perspectiva constitui uma negação frontal de toda crença no progresso humano ilimitado e na antecipação de um mundo melhor.
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Diante dessa visão, o leitor é posto diante de uma escolha: recusar-se a avançar e tentar esquecer o que leu, ou perseverar com consciência dos riscos que isso implica.
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Profetas que revelam a verdade da situação humana costumam advertir seus ouvintes: Cuidado! Isto não é bebida suave! Se não estiver morrendo de sede, é melhor abster-se.
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Quem persevera é advertido também contra a credulidade: não tome nada como garantido; espere até ver por si mesmo, e isso pode levar tempo, muito tempo, talvez uma vida inteira.
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Beelzebub, conforme apresentado por Gurdjieff, não tem nenhuma relação com o princípio do Caos nem com as figuras demoníacas tradicionais, sendo ao contrário um defensor ardente da Ordem.
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Em sua juventude, graças à sua extraordinária inteligência, Beelzebub foi tomado a serviço no Sol Absoluto como assistente de Sua Infinitude.
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Ao perceber algo que lhe pareceu ilógico no governo do Mundo e ao agir com impetuosidade em assunto que não era de sua alçada, ele quase levou o reino central do Megalocosmos a uma revolução e foi banido com seus seguidores ao distante sistema Ors.
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A história de Beelzebub evoca no leitor uma identificação silenciosa, uma impressão de cumplicidade tácita e até de respeito por sua atitude.
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Há algo de reconhecível em sua indignação sincera, em seu desejo imaturo porém imperioso de servir ao que lhe parecia mais justo, e em sua honestidade ao admitir a culpa e aceitar expiá-la.
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Depois de longa penitência, o Todos-Misericordioso concedeu-lhe o perdão e o chamou de volta do exílio, em reconhecimento por seus serviços inestimáveis.
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Ao ouvir Beelzebub narrar, o leitor corre o risco de se deixar seduzir pelo tom natural e convincente do velho narrador e de baixar a guarda crítica.
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O narrador parece observar as reações do ouvinte e inserir de tempos em tempos exageros deliberados ou insinuações demasiado óbvias para serem ignoradas, como a referência à elevação excessiva dos picos tibetanos que faria a atmosfera da Terra enganchar nas atmosferas de outros planetas ou cometas, originando tremores ameaçadores.
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Esses sinais funcionam como alarmes discretos para manter o leitor desperto, pois a credulidade, segundo Beelzebub, é indigna do ser humano.
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Por trás das frases sinuosas, há vibrações mais sutis que convidam o leitor a descobrir um sentido mais profundo, sem o qual a mensagem essencial seria perdida.
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Apesar do conselho amigável do autor para ler as histórias como se lê livros e jornais contemporâneos, o que de resto é simplesmente inexequível, há evidências suficientes de que desde o início ele espera do leitor uma abordagem melhor.
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O objetivo final é que o leitor seja capaz de tentar penetrar o cerne da mensagem de Beelzebub.
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Em muitos mitos antigos, algo também falha ou está errado desde o início da criação, o que sugere que a catástrofe primordial narrada por Beelzebub ecoa um padrão arquetípico universal.
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O primogênito aparece como aleijado, anão, Ciclope ou monstro que precisa ser morto ou metamorfoseado.
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Parece haver uma maldição sobre a própria criação: a menor alteração na Unidade perfeita da Harmonia preexistente pode engendrar perturbações que exigem medidas compensatórias intermináveis.
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No contexto de Beelzebub, o estágio narrado é anterior à criação exterior, quando o Criador Uni-Sendo e Onipotente se viu confrontado com a ação lenta mas inegável do implacável Heropass, isto é, o fluxo do Tempo.
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Sua Infinitude se dedicou inteiramente a encontrar uma possibilidade de evitar um fim inevitável e, após longas deliberações divinas, decidiu criar o atual Megalocosmos.
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Para isso, foi obrigado a alterar o sistema de funcionamento das duas leis cósmicas fundamentais: a sagrada Heptaparaparshinokh (Lei do Sete) e a sagrada Triamazikamno (Lei do Três).
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Beelzebub transmite ao neto Hassein um conselho de enorme significado prático sobre a importância de compreender as duas leis cósmicas fundamentais.
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Os seres tricerebrais que adquirem consciência abrangente dessas leis tornam-se capazes, diante de todos os fatores cósmicos que não dependem deles, de ponderar sobre o sentido da existência.
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Esse processo lhes permite esclarecer e reconciliar em si mesmos o que Beelzebub chama de colisão individual, que surge da contradição entre os resultados concretos das leis cósmicas e os resultados que a lógica sã esperaria, chegando assim a avaliar corretamente o lugar genuíno que ocupam nas atualizações cósmicas comuns.
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Apesar de toda a catástrofe, os seres humanos contemporâneos ainda dispõem de possibilidades reais de aperfeiçoamento de corpos-esserais superiores em si mesmos.
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Os seres tricerebrais capazes de pensar, sentir e se mover ainda são dotados de todas as possibilidades de assimilar e transformar, a partir das substâncias cósmicas que absorvem, os elementos necessários para o revestimento e o aperfeiçoamento de corpos-esserais superiores.
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O destino humano não é, portanto, total nem definitivo em sua ruína.
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Foi para estimular esse renascimento interior e oferecer apoio concreto às possibilidades dadas que Gurdjieff fundou em 1922 o Instituto para o Desenvolvimento Harmonioso do Ser Humano no Prieuré d'Avon, perto de Fontainebleau.
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Gurdjieff fazia questão de impedir que os que chegavam a ele, já saídos da adolescência, caíssem no pessimismo usual prevalente na vida contemporânea anormal.
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Ele os assegurava de que mesmo para vós ainda não é tarde demais.
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Não é tarde demais para tentar restaurar a ordem esquecida à qual os antepassados remotos pertenciam, antes que as consequências das propriedades do maldito órgão Kundabuffer se cristalizassem completamente no sistema associativo tirânico.
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Gurdjieff sustenta que em tudo o que está sob os cuidados da Mãe Natureza está prevista a possibilidade de os seres adquirirem o núcleo de sua essência, isto é, seu próprio Eu.
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Ainda não é tarde, certamente, mas tampouco é fácil.
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O leitmotiv de Beelzebub é um chamado constante a esforços conscientes e sofrimentos intencionais, e o programa proposto por Gurdjieff no capítulo conclusivo da Primeira Série é ao mesmo tempo austero e exigente.
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O ser humano, que em seu nome carrega o ápice da Criação, deve trabalhar com persistência infatigável e impulso inextinguível de desejo, emanado simultaneamente do pensamento, do sentimento e do instinto orgânico, para o conhecimento global de si mesmo, enquanto luta crescentemente contra suas fraquezas subjetivas.
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Depois disso, deve esforçar-se pela erradicação de seus defeitos sem misericórdia para consigo mesmo, apoiando-se nos resultados obtidos pela consciência.
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A segunda parte do programa, a erradicação dos defeitos, não é um fim em si mesma, mas apenas um instrumento a serviço do objetivo real: conhecer-se a si mesmo tal como se é.
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Todas as manifestações ordinárias do ser humano estão sob o domínio de sugestões que fazem perceber a realidade de cabeça para baixo, sustentando e perpetuando a autocomplacência.
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Trabalhar para o conhecimento global de si mesmo significa inicialmente familiarizar-se plenamente com a mecanicidade que governa toda a rede de funcionamentos pessoais.
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O conhecimento global de si mesmo só é possível como resultado de uma auto-observação corretamente conduzida, que exige a mobilização consciente e a cooperação ativa de todos os centros de percepção e manifestação.
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Para um estudo e uma experiência reais de si mesmo, o ser humano deve decidir, de uma vez por todas, ser sincero consigo mesmo incondicionalmente, não fechar os olhos para nada, não fugir de nenhum resultado para onde quer que ele o leve, não temer nenhuma conclusão e não se limitar por nenhum limite autoimposto anteriormente.
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Para aceitar as conclusões de tal auto-observação sem se perder, é necessária grande coragem, pois elas podem abalar todas as convicções e crenças anteriores e privar o ser humano, talvez para sempre, de todos os valores agradáveis que até então faziam sua vida calma e serena.
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É essa perturbação radical que explica por que tantos que inicialmente parecem entusiasmados com o árido caminho do conhece-te a ti mesmo tão rapidamente o abandonam.
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O ser humano comum é um escravo inconsciente inteiramente a serviço de propósitos universais alheios à sua individualidade pessoal.
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A Grande Natureza, porém, deu-lhe a possibilidade de não ser apenas um instrumento cego a serviço desses propósitos universais objetivos, mas de trabalhar ao mesmo tempo também para si mesmo, para sua própria individualidade, o que se deu justamente porque para o equilíbrio das leis objetivas tais pessoas relativamente libertas são necessárias.
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Para quem trabalha no conhecimento global de si mesmo e está disposto a não fugir de nenhum resultado, chega o momento da verdade em que, ao despertar e ver sua situação tal como ela é, em vez de desistir da luta, o ser aceita o desafio de olhos abertos.
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O ser humano é um ser que pode agir, e agir significa atuar conscientemente e por iniciativa própria.
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Ainda que não possa sonhar em mover-se, pensar e decidir qualquer coisa por si mesmo, ele tenta assim mesmo, e ao tentar percebe que em última instância algo ainda depende dele e somente dele.
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Restaurar a ordem significa libertar-se do encanto do que parece e retornar ao que é, o que exige vencer a tendência para mentir e sonhar, a imaginação passiva, o vício do que não existe e o medo do que existe.
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O que geralmente se entende por ordem é necessariamente limitado, respondendo apenas ao anseio humano por limites, e cumpre na vida cotidiana o papel de resistir à ameaça constante de uma desordem sem sentido.
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Contra o Caos em si, contra o Desconhecido, não há salvaguarda, e mais cedo ou mais tarde será preciso abandonar a esperança de sentir-se seguro e assumir o próprio risco.
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A harmonia universal, segundo Beelzebub, depende da influência mútua e manutenção recíproca de tudo o que existe, e implica, de acordo com o princípio da Lei do Três, uma reconciliação dos opostos.
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A Ordem subjacente deve, nesse sentido, absorver, incluir e eventualmente assimilar todas as ordens e desordens particulares.
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É o retorno do ser humano a essa Ordem que constitui a viva realidade da qual ele é portador, ainda que na maioria das vezes ela tenha sido ignorada, negada ou traída.
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A renúncia a todos os hábitos adquiridos automática e escravamente, essa morte a si mesmo, é a única chave para uma nova forma de vida.
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A parábola evangélica: Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, ficará só; mas se morrer, produzirá muito fruto.
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Essa morte interior de que falam todas as religiões não é a morte do corpo, mas a morte daquilo que em vida escraviza o ser humano.
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É definida pelo dito que chegou até nós da remota antiguidade: sem morte não há ressurreição, isto é, se não morrerdes não sereis ressuscitados.
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Jesus Cristo e todos os outros profetas enviados do Alto falaram dessa morte que pode ocorrer ainda em vida, a morte do Tirano de quem procede nossa escravidão nesta vida e cuja destruição pode assegurar a primeira e principal libertação do ser humano.
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Curiosamente, o esforço em direção a essa morte interior é impedido pela incapacidade básica, ou relutância, de contemplar por qualquer tempo a perspectiva inevitável da própria morte física.
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Segundo Gurdjieff, essa incapacidade corresponde a uma medida objetiva de proteção: nas condições atuais de existência, o ser humano comum não pode e não deve encarar sua própria morte, pois sem esse véu a questão se imporia com clareza cortante: por que viver, trabalhar e sofrer? E ele simplesmente desejaria se enforcar.
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A Grande Natureza foi constrangida a adaptar-se a essa anormalidade e a tomar todas as medidas apropriadas.
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Para o buscador que anseia sinceramente pela Verdade, desperta sem medo para sua situação e reconhece sua impotência e insignificância enquanto reduzido a uma independência quimérica, abre-se a possibilidade de uma visão imparcial de seu destino como ser humano.
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Esse destino é o de ser um reflexo legalmente consciente da ordem universal.
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Tal abertura, porém, exige que se mantenha ao mesmo tempo o sentido objetivo das proporções e o senso de humor que Beelzebub nunca abandona, nem em suas apreciações mais amargas da imprevisão catastrófica dos Altíssimos Indivíduos Cósmicos especialistas na obra de Criação e Manutenção do Mundo.
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Beelzebub oferece ao neto Hassein, como último voto a Sua Infinitude, uma solução radical para a situação dos seres do planeta Terra.
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Tu, o Todo e a Totalidade de minha Integralidade! O único meio agora para a salvação dos seres do planeta Terra seria implantar novamente em suas presenças um novo órgão, um órgão como o Kundabuffer, mas desta vez com tais propriedades que cada um desses desafortunados, durante o processo de existência, sentisse e reconhecesse constantemente a inevitabilidade de sua própria morte assim como a morte de todos aqueles em quem seus olhos ou atenção pousassem.
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