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Corpo
Parabola V10N3 The Body.
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O corpo não é algo separado ou desprezível, mas parte essencial do despertar para a realidade.
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A tendência de olhar o corpo com desdém causa perturbação e ignora o papel fundamental que ele desempenha.
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Desprezar o corpo não tem relevância quando se trata de reconciliação entre forças opostas.
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O renascimento corporal tem relação com a recorrência: acordar é nascer de novo, e é sempre no corpo que esse renascimento ocorre.
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Além da atração do tempo em sucessão, a ideia de que voltamos repetidamente, nascendo uma e outra vez, aponta para um tempo recorrente perceptível até na respiração, na alternância do dia e da noite e no ciclo das estações.
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A ausência de horas seguida pelo despertar súbito é uma forma cotidiana desse renascimento.
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Von Eckarthausen nomeia essa possibilidade de “renascimento corporal”.
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Quando um despertar para uma realidade mais profunda é concedido, o corpo participa dele de forma natural, com uma ressonância que não é inventada nem imposta.
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Não é o corpo a fonte da resistência, mas sim a mente.
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A distinção entre mente, corpo e sentimento torna-se sem sentido quando o ser humano está aberto ao que lhe é oferecido como meio de despertar.
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A oposição entre sim e não não tem sua origem na mente nem no corpo em si, mas a mente tende a se sentir independente do corpo, que permanece passivo diante disso.
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A pretensão da mente à superioridade é principalmente uma ilusão.
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É possível não recusar essa contradição, mas usá-la para ir além e reconciliar o sim e o não.
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A relação entre as forças opostas é um mistério que precisa ser respeitado e diante do qual é preciso inclinar-se.
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Prender-se à oposição entre sim e não, ou entre corpo e mente, é ignorar esse mistério.
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Contemplar a natureza, o céu ou uma árvore com assombro e gratidão abre a possibilidade de olhar o próprio corpo com a mesma atitude.
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Essa abertura é um chamado que se ouve.
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A arte objetiva trata o corpo como intermediário que testemunha aquilo que está além das percepções comuns, como nas estátuas do Buda, onde há um sentido de unidade entre corpo e mente.
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Isso é o que von Eckarthausen chama de terceira possibilidade: acolher o renascimento do ser inteiro.
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Há uma tentação recorrente de sonhar com a desencarnação, de ser livre de tudo isso, mas surge também a possibilidade de reencarnação como reconhecimento da realidade oferecida pela percepção do próprio corpo.
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Às vezes se chega mais perto do reconhecimento do processo de criação: há uma sensação de ser trabalhado e permeado pela impressão de nascer de novo.
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Não se é o mestre nem o diretor desse processo, mas ele exige participação ativa; caso contrário, passa sem deixar praticamente nenhum rastro.
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A encarnação de Cristo, que aceitou voltar ao corpo mesmo após a morte, evoca por analogia momentos em que pensamentos e sentimentos sutis parecem não ter nada a ver com o corpo, até que ele se abre ao desejo de participar dessa experiência.
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Na medida em que se consegue despertar e manter-se desperto para esse chamado como uma exigência genuinamente objetiva, é possível sentir-se um pouco mais próximo da situação de Cristo ao retornar.
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A relação entre o corpo ordinário e o corpo sutil não pode ser compreendida de fora; só a experiência direta a revela.
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É como perguntar a um artesão como ele faz algo: ele não consegue explicar, apenas diz “tente e verá por si mesmo”.
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A memória emerge nos momentos de retorno a si mesmo, aqui e agora, e revela um propósito e uma intenção que não são próprios do indivíduo, mas que operam através dele.
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É como olhar uma paisagem com alguém que aponta algo que já estava sendo visto sem que se percebesse: de repente aparece.
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Há algo que lembra de si mesmo mesmo quando se foi varrido pela distração; essa memória testemunha um propósito que ultrapassa o indivíduo.
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