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George Ivanovitch Gurdjieff: O Despertar do Homem e a Prática de Lembrar-se de Si Mesmo

Henri Tracol, Conferência no Musée de l'Homme.

  • O autor afirma ter conhecido pessoalmente Gurdjieff, frequentando seu apartamento em Paris durante a ocupação alemã da França.
    • O apartamento ficava próximo à avenue des Ternes.
    • Outros já descreveram os suntuosos “banquetes de amigos” aos quais os convidados eram chamados várias vezes por semana.
    • Tais encontros eram, no mínimo, incongruentes nos tempos difíceis da ocupação.
  • Gurdjieff dedicava-se pessoalmente à preparação de refeições com ingredientes raros e exóticos, o que revelava a importância que atribuía ao costume patriarcal de receber convidados.
    • Cozinhava em um velho fogão a carvão.
    • As refeições eram harmoniosamente ousadas em termos de combinações de sabores.
    • A hospitalidade era a maneira de Gurdjieff fazer sentir o caráter excepcional daquelas horas, tão distantes da vida ordinária.
    • O sabor sutil dos pratos e da vodca dos famosos “brindes aos idiotas” se fundia, em outra escala, com o alimento especial que só ele podia oferecer.
  • Havia em sua generosidade um elemento de provocação, chamado por alguns de “Potlatch”, e o desafio implícito nessa largueza permanecia como questão a ser compreendida.
    • O termo “Potlatch” era usado por alguns dos presentes, não sem razão.
    • O desafio implícito na largueza, o apelo disfarçado e o que havia a compreender ficavam em aberto.
    • Os convidados voltavam repetidamente ao seu lado como filhos pródigos a um pai até então desconhecido, tomando as coisas como garantidas, mas inquietos por não compreenderem por quê.
    • A questão que pairava era o que Gurdjieff esperaria deles em troca, caso os aceitasse como filhos.
  • Como única exigência inicial, Gurdjieff parecia esperar que seus próximos abrissem os olhos e o reconhecessem como pai.
    • A presença massiva e a serena força, ao mesmo tempo formidável e tranquilizadora, emanavam de todo o ser de Gurdjieff.
    • Sua voz ressoa no autor como ecos sempre frescos e novos.
    • O olhar exigente e benevolente de Gurdjieff parecia adivinhar o melhor e o pior em cada um, e ele sorria com ironia e compaixão, mas sem indulgência.
    • Gurdjieff não hesitaria em mostrar-se impiedoso para com os que, sem o saber, se autoatormentavam, e isso é o que pode ser chamado de amar.
  • Gurdjieff ouvia e convidava à abertura, mas era desprovido de sentimentalismo e benevolência piegas, com uma linguagem rude, tom por vezes violento e comentários brutais.
    • A sentimentalidade e a beneficência lacrimosa não faziam parte de sua natureza.
    • Sua linguagem era rude, o tom às vezes violento, os comentários podiam ser brutais, a mímica e os gestos eloquentes demais.
    • A retomada súbita da afabilidade podia ser ainda mais cortante.
    • Em suma, ele não os poupava.
  • Conhecer verdadeiramente um homem é questão que excede a mera convivência, pois o conhecimento do outro começa pelo conhecimento de si mesmo.
    • O conhecimento de si é condição para reencontrar a marca da influência de Gurdjieff.
    • A imagem do mesmo homem é inevitavelmente diferente para cada um que entra em contato com ele.
    • A imagem é criada pelo observador e está sujeita a variações segundo as idiossincrasias de cada um.
    • Seria inútil tentar reconstruir, a partir de reminiscências pessoais subjetivas e fragmentárias, um retrato-robô de um fantasma.
  • O encontro com Gurdjieff foi o evento central na vida de muitos contemporâneos, mesmo daqueles que mais tarde se afastaram, e o que se buscava nele não era o homem, mas o Mestre.
    • Mesmo os que se afastaram permaneceram secretamente intrigados, questionando se o que viveram realmente aconteceu.
    • Era comum a todos o sentimento de ter perdido quase tudo o que ele poderia oferecer.
    • O que se buscava em Gurdjieff era o homem em sua qualidade de Mestre.
  • Uma experiência compartilhada ilustra a ambiguidade entre o homem e o Mestre: num almoço raro a sós com Gurdjieff, na rue des Colonels Renard, as perguntas ardentes que o autor trazia nunca encontraram abertura.
    • Gurdjieff havia percebido a impaciência do convidado e passou a jogar com ela como um gato com um rato.
    • Era desarmantemente gentil e benigno, mas desviava a conversa com comentários maliciosos, anedotas espirituosas ou desafios para identificar sabores e especiarias.
    • As perguntas perderam todo o peso diante das manobras de Gurdjieff.
    • Ao sair, a sensação era a de Parsifal no deserto depois que o castelo do Rei Pescador havia desaparecido.
  • O “complexo de Parsifal” marcou aqueles anos ricamente vividos, em que tanto era dado e tão pouco realmente recebido.
    • Nada de novo havia nisso, mas era um assunto sério.
    • Tanto mais sério quando a voz que não se soube escutar está para sempre silenciada.
  • Após a morte de um Mestre, o destino de seus discípulos e do ensinamento transmitido depende do tipo de Mestre e do tipo de discípulo envolvidos.
    • Se os discípulos inaugurarem um culto, tornarem-se sectários ou fanáticos e congelarem o pensamento do Mestre, codificando cada palavra, tal situação não se relaciona a um Mestre verdadeiro.
    • Quando o Mestre que partiu se preocupou em vida em alertar seus seguidores contra qualquer forma de cristalização e a necessidade perene de colocar tudo em questão, mesmo ao risco de deixá-los em dilema contínuo, trata-se de algo bem diferente.
  • Segundo um antigo “gurdjieffiano”, o fracasso de Gurdjieff teria sido não ter formado nenhum discípulo capaz de compreender o que dele se esperava.
    • Margaret Anderson, que cita essa reflexão sombria, apressou-se em pô-la em dúvida, afirmando conhecer pelo menos três pessoas plenamente formadas para transmitir a essência do ensinamento de Gurdjieff, uma das quais havia trabalhado com ele por mais de trinta anos e fora por ele encarregada de prosseguir a tarefa após sua morte.
  • A árvore é conhecida por seus frutos, mas apenas um verdadeiro jardineiro compreende árvores e frutos, e poucos podem pretender ser especialistas nesse domínio.
    • Não faltarão candidatos para esse papel, promissores ou não.
    • O conhecimento da maioria será de segunda mão.
    • O primeiro cuidado do verdadeiro jardineiro é certificar-se de que a árvore ainda está viva e capaz de dar frutos.
    • Ele não se desconcerta quando um galho falha e outro amadurece, pois sabe que não está diante de um diagrama ou mapa botânico, mas da vida mesma.
    • O jardineiro de Deus sabe que não criou nada: apenas cavou o solo, plantou a árvore, capinou, regou e podou, levando em conta a natureza do solo, as condições atmosféricas, o clima e o vento dominante.
    • Se formou assistentes, estes saberão, quando ele partir, como cuidar da árvore que ficou sob sua guarda.
  • Entre “ver o que se espera de nós” e ser capaz em alguma medida de praticá-lo há inevitavelmente longos anos de luta, o que explica muitas deserções.
    • Gurdjieff teria fracassado em sua tarefa mais essencial se tivesse, de fato, “formado um discípulo” capaz de compreender de uma vez por todas o que a própria vida e seu mais profundo ser exigiriam incessantemente até o fim.
    • Essas questões mostram o quão distantes se está hoje da compreensão do conceito de Mestre.
  • Falar em termos vagos da “mensagem” ou da “missão” do Mestre é menos preciso do que reconhecer que ele está ali para cumprir uma tarefa exigente, o que abre caminho para uma abordagem inteiramente diferente.
    • Um passo além, e o Mestre aparece não apenas como tendo um papel preciso a desempenhar num contexto particular, mas como encarnação do próprio papel.
    • O Mestre é uno com sua função, podendo-se dizer que ele é a função, a função feita homem.
  • A função essencial e multifacetada do Mestre, que sempre escapa à compreensão, é a de Bodhidharma: despertar o adormecido, sendo o Mestre o Despertador.
    • O Mestre encarna o despertar.
    • A questão que se impõe é: quem deve ser despertado, de quê e para quê?
  • O Mestre desperta aqueles que desejam despertar, tirando-os do sono e despertando-os para o Ser, para a Realidade, para a Vida.
    • Tudo começa com um encontro, que não pode ser inteiramente fruto do acaso.
    • O mínimo que o encontro exige é que ambos os lados estejam prontos para ele.
    • Sem isso, mesmo que o encontro ocorra, o contato necessário não pode ser estabelecido.
  • Não se pode falar de Mestre sem discípulos, nem de discípulos sem Mestre, pois o que faz um Mestre não é apenas seu poder de transmitir a verdade, mas também a expectativa de alguns.
    • René Daumal, Luc Dietrich e seus companheiros buscadores eram devidamente qualificados para ser verdadeiros discípulos, pois tinham fome e sede.
    • Sua busca pela verdade baseava-se numa insatisfação essencial, num mal-estar profundo e num sofrimento particular por não serem verdadeiramente o que eram, nem o que sentiam ser chamados a ser.
    • Os adormecidos se agitavam em suas camas, tateando em busca da luz.
  • Só desperta aquele que realmente deseja despertar, pois não há adormecido mais profundo do que o homem que não quer acordar.
    • O desejo de despertar surge de algo que ainda lampeja sob as cinzas, de algumas brasas ainda acesas.
    • O despertar já arde sob as cinzas dos sonhos daquele que busca despertar.
    • Esse é o mistério primordial, o enigma fundamental: como se o despertar já estivesse ali, aguardando o momento propício para sacudir seu adormecido.
    • São poucos os que sabem reconhecer a natureza desse sonho acordado que substitui a vida.
  • O velho Mestre taoísta Chuang Tzu compreendeu bem essa questão ao indagar se a vida não seria um sonho.
    • “A vida não é um sonho? Alguns, ao despertar de um sonho feliz, ficam desolados. Outros, libertos de um sonho triste, se alegram. Em ambos os casos, enquanto o sonho durava, acreditavam em sua realidade. Assim é com o grande despertar, a morte, após o qual dizemos da vida que não foi senão um longo sonho. Mas entre os vivos são poucos os que compreendem isso. Quase todos se creem despertos. Alguns estão convictos de ser reis, outros de ser mendigos. Tu e eu, todos nós sonhamos. Eu, que te digo que sonhas, também sonho meu sonho.”
    • A referência a Chuang Tzu é breve para evitar que algum taoísta em exílio reivindique a paternidade do ensinamento de Gurdjieff, como ocorreu recentemente, quando um teólogo da Igreja Cristã Oriental e um “Sufi” a mando de uma irmandade secreta do Oriente Médio fizeram a mesma afirmação quase simultaneamente.
  • O sono de que Gurdjieff fala como condição permanente do homem que se crê desperto é uma espécie de transe hipnótico em que ele está aprisionado pelo poder da imaginação, impedindo-o de despertar e ver-se tal como é.
    • Quanto ao objetivo final do Despertar e para onde conduz, qualquer buscador sério já o sabe de alguma forma.
    • Sob muitos aspectos diversos, há apenas um objetivo, assim como uma montanha tem apenas um cume.
  • Ao referir-se a Ser, Realidade e Vida, não se cede ao poder das palavras, cuja ressonância interior varia para cada um.
    • O conceito que merece atenção é o de retorno: o Despertar não é a conquista de um estado de consciência superior, mas um movimento repetidamente tentado e repetidamente negado, um retorno à consciência do que é.
    • Mesmo o mais fugaz vislumbre de consciência carrega a promessa de participação em Tudo o que Existe, “do qual, por divisão e diferenciação,” como diz Gurdjieff, “brota a diversidade de todos os fenômenos observáveis.”
  • O ensinamento de Gurdjieff, visto em sua verdadeira perspectiva espiritual, é essencialmente prático, e o Mestre se preocupa em reunir ou criar as melhores condições possíveis para o despertar.
    • O Mestre é parte dessas condições, é integral a elas, e deliberadamente se coloca sob sua influência.
    • Ele é a condição central em torno da qual as demais gravitam.
  • Gurdjieff manejava com liberdade essas condições, valendo-se de todos os meios disponíveis, sendo o mais simples e evidente a sua própria presença, a influência silenciosa que exercia sobre todos os que vinham até ele, assumindo às vezes a forma de uma espécie de osmose.
    • Havia muitos outros meios à sua disposição, indiretos e de aparência negativa.
    • Não hesitava em suscitar dúvidas sobre si mesmo pela linguagem que usava, pelas contradições calculadas e pelo comportamento, a ponto de obrigar os que tendiam a adorá-lo cegamente a finalmente abrir os olhos para o caos de suas próprias reações.
  • O Despertar implica uma ruptura no fio da continuidade, uma mudança de níveis, um intervalo entre dois estados completamente diferentes, e um choque é necessário para assegurar a passagem de um estado ao outro.
    • Esse choque podia ser provocado de diversas formas: por uma mudança abrupta de atitude, por provocação direta ou sorriso inesperado, por um redobramento de exigências ou um gesto repentinamente suavizador.
    • Todos esses métodos pressupõem a existência de uma ciência, de uma mão talentosa e de uma arte consumada por parte do manipulador.
    • Deve-se desconfiar dos Aprendizes de Feiticeiro que imaginam poder imitar seus mestres: mais cedo ou mais tarde precisam desistir ou aprender a se adaptar.
    • Tais capacidades não podem ser transmitidas, mesmo para quem esteja qualificado para recebê-las: precisam ser encontradas por cada um, ajustadas às próprias capacidades e adaptadas às circunstâncias em constante mudança.
  • O ensinamento de Gurdjieff estava o mais longe possível de qualquer formalismo didático: nele, doutrina e método formavam uma união íntima e indissolúvel.
    • A recusa de Gurdjieff em corresponder à expectativa de um “ensinamento” em termos ordenados e seguindo uma sequência “racional” era em si uma lição.
    • Ele tinha a arte de esquivar-se das perguntas para oferecer uma resposta magistral quando já não se tinha mais esperança de receber nenhuma.
    • Falava de seu “sistema” e, ao mesmo tempo, se opunha a toda sistematização.
  • O papel do Mestre não é assumir o esforço de compreensão do discípulo: este, e somente este, deve realizá-lo por si mesmo.
    • Os choques, sugestões e situações calculados para provocar o despertar do discípulo existem unicamente para prepará-lo e treiná-lo a dispensar o Mestre, a seguir por conta própria assim que se mostrar capaz disso.
    • Por sua própria natureza, a busca interior é inevitavelmente uma questão individual.
    • A sugestão é feita, o apelo é lançado: o resto cabe a cada um.
  • De um lado o sono, a ausência e o esquecimento; do outro o despertar, a presença e o lembrar-se de si mesmo: esses são os elementos básicos do problema, e cabe a cada um entrar no jogo.
    • A prática de lembrar-se de si mesmo é a chave-mestra do ensinamento de Gurdjieff.
    • É o Alfa e o Ômega, o limiar que deve ser transposto no início e cruzado e recruzado repetidas vezes.
    • É também o ponto de órgão da realização plena, pois qualquer homem capaz de alcançá-lo conheceria em sua totalidade as relações interiores e exteriores que o constituem.
    • Ele seria completamente si mesmo e finalmente capaz de ocupar seu verdadeiro lugar no Universo.
  • O lembrar-se de si mesmo admite um número infinito de abordagens, pode ser visto sob ângulos muitos e variados, tem graus e etapas definidos, e sempre há mais nele do que se pode apreender.
    • Sob todas as suas formas múltiplas, é possível saborear repetidamente o gosto único dessa experiência fundamental.
    • Nada mais importa, e é por não se perceber suficientemente esse fato que tantas notas discordantes são ouvidas.
    • Há um tempo para tudo: para a meditação com portas e pálpebras fechadas, bem como para mergulhar de olhos abertos no vórtice da vida.
    • Cristalização, divisão arbitrária, dissociação, ritmo errado são todos erros, assim como excesso de atividade quando a calma é necessária e recolhimento ao silêncio quando é hora de falar.
  • Embora a capacidade de lembrar-se de si mesmo seja um direito de nascença, ela precisa primeiro ser descoberta e depois cultivada, pois, sem um trabalho especial, murchará.
    • É necessário, portanto, sem se esgotar em esforços infrutíferos, mas também sem nunca desistir, tentar silenciosamente desenvolver essa capacidade pela frequência, duração e intensidade das tentativas e pelo aumento de sua amplitude e profundidade.
  • Depois de mais de um quarto de século trabalhando nessa prática, admite-se ser tão incapaz quanto no início de descrevê-la de forma plenamente satisfatória, e até mais incapaz do que no começo.
    • No início, parecia haver compreensão clara do que se tratava, mas logo foi necessário abandonar essa ilusão.
    • As tentativas de lembrar-se de si mesmo varreram a suposição de compreensão e mergulharam repetidamente num abismo ainda mais profundo de incompreensão.
  • O abismo era densamente habitado, pois muitos estavam na mesma situação, à deriva e se apoiando mutuamente como podiam.
    • Gurdjieff, tomando um prazer malicioso em mantê-los ali e até em mergulhá-los mais fundo, nunca deixava de perguntar, no momento certo, com uma sabedoria pérfida, a pergunta mais inocente do mundo: “Quando você se lembra de si mesmo, o que exatamente é que você lembra?”
    • Trovão!
  • O que pode ser sabido com certeza nesse esforço é que não se lembra de nada, e que não há nada que, sem qualquer dúvida possível, se possa chamar de si mesmo.
    • A questão se coloca: se não há nada que possa ser chamado de si mesmo, seria então nada?
    • E, no entanto, há uma evidência que não pode ser negada: o poder de tornar-se consciente, em certos momentos, da própria presença: Eu, aqui, agora.
  • Essa experiência, quando vivida, é acompanhada de um sabor estranhamente familiar, uma sensação particular que poderia ser chamada de “genuinamente” subjetiva.
    • É, simplesmente, Eu: reconhece-se a si mesmo, lembra-se de si mesmo.
    • Inevitavelmente, essa presença interior desaparece, perde-se, esquece-se.
    • Depois se a reencontra, lembra-se dela ou, para ser mais preciso, ela se recorda a si mesma.
  • A expressão tão cara a Gurdjieff, “Despertar. Morrer. Nascer”, ecoa nesse dilema: de um lado o reconhecimento da própria impotência e do nada, do outro a certeza desse poder de ser sempre renovado.
    • Diante de tal obstáculo e enigma, a tentação de abandonar o jogo é grande, em vez de argumentar sem fim ou recorrer a compromissos.
    • Mas se se persevera deliberadamente, aceitando enfrentá-lo repetidas vezes, e se se aprofunda a compreensão dos paradoxos da situação interior, pode aguardar, ao fim desse longo túnel, uma perspectiva muito diferente: uma visão e uma nova questão, ou a velha questão transformada.
  • Lembrar-se de si mesmo levanta as questões: quem é esse “Eu”? Quem é esse “eu mesmo”? Quem?
    • A imagem de um cavaleiro sobre seu cavalo galopando pela encosta da montanha ilustra a questão: “Eu” é o cavaleiro, “eu mesmo” é o cavalo; “Eu”, essa essência individual, esse ser em potencial; “eu mesmo”, esse poder de manifestação funcional.
    • Mas a visão desvanece rapidamente.
  • O cavalo, por sua má educação e pela massa de influências a que foi submetido, tornou-se um monstro de egoísmo, mal domado, e eis que agora se equilibra sobre os ombros de seu cavaleiro, esmagando-o com seu peso.
    • Privado de sua montaria, o “Eu” não é mais um cavaleiro, nem mesmo um pedestre, pois sem o cavalo o “Eu” não pode se mover.
  • Uma vez mais se lembra de si mesmo, e a ordem se restabelece: a visão reaparece e o “Eu” não sonha mais, pois o cavaleiro está de volta à sela.
    • Com a mão firme nas rédeas, a montaria não terá chance de se desviar pelo caminho que leva ao precipício.
    • Bem desperto, o cavaleiro vigia o “eu mesmo”, o cavalo, e o conduz infalivelmente pelo cume.
    • Um vigiando, o outro carregando o vigilante, formam um todo completo.
    • Assim relacionados, irão longe.
  • A questão permanece: “Eu”, “Eu mesmo”, um único ser, mas “Quem” é esse ser? Quem sou eu?
    • Esse “Quem sou eu?” estava destinado a ser reencontrado, pois nunca cessou de ressoar nas profundezas secretas do ser.
    • Conhecer e experimentar o que se é, para poder sê-lo mais verdadeiramente.
  • Para lidar com a evidência é preciso ser muito simples: à pergunta “Quem?” só pode haver um eco, “Eu”.
    • Mas esse “Eu” é insondável, e é precisamente isso que é tão difícil de aceitar.
    • Com tanta prontidão se reduz ao conhecido o que estava prestes a abrir-se para a imensidão.
  • A questão do “Eu” ultrapassa o entendimento, e a mente, legitimamente, se vê incapaz de apreender esse fato imediatamente.
    • A mente quer continuar buscando, pois seu papel é lidar com ideias e elaborar a imagem que cada um tem de si mesmo.
    • Essa imagem precisa ser suficientemente estável e afirmativa para resistir à multidão de impressões que constantemente a assaltam.
  • A mente não é o inimigo, mas a vítima do uso que se faz dela, e uma inversão dessa situação, sempre possível, permitiria que ela se tornasse o auxiliar indispensável numa libertação geral da qual ela própria se beneficiaria.
    • Essa inversão da situação é o ponto de partida do processo chamado “lembrar-se de si mesmo”.
  • Tal experiência pode ser mais ou menos fugaz e superficial, mas nela se pode vislumbrar a evidência de uma transformação radical que, se se desenvolve, afetará não apenas o mundo do pensamento, mas todo o ser.
    • A atenção já não é a mesma: seu poder aumenta, sua sutileza e liberdade se ampliam e a vivificam.
    • Ela mobiliza no ser forças latentes até então inertes.
    • Essa atenção provoca uma mudança na capacidade e no ritmo de certas funções, liberando uma série de processos pelos quais a percepção global de si mesmo se intensifica, numa percepção muito além do nível ordinário de sensação, de sabor inconfundível.
  • Esse abalo geral coincide com o surgimento de um sentimento muito intenso de renovação, uma sensação de abertura em relação ao mundo exterior e ao mundo interior, como se, nesse ser, os dois fossem um só.
    • A certeza permeia o ser: o que foi experienciado rompe os estreitos limites do automatismo, levando a obedecer a uma categoria de leis que, no nível ordinário de existência, não conseguem se fazer sentir.
    • A partir daí, apoiado por essa experiência, cessa-se de afastar como suspeito o desejo de estudar seriamente os processos de transformação de energia que as grandes tradições apresentam como nada menos do que leis cósmicas.
  • Daí em diante, a motivação não é a mera curiosidade ociosa, mas a existência legítima de uma visão mais ampla e precisa das possibilidades abertas, e uma compreensão mais vasta dos princípios universais de relatividade e analogia nos quais repousa a esperança de crescimento interior e libertação.
    • Em cada nível de existência, os múltiplos componentes do ser estão submetidos a leis implacáveis.
    • Para o sonâmbulo que passa a vida como um “zumbi”, assim como para o sonhador impenitente que se entrega às miragens de uma imaginação errática, a ação dessas leis significa escravidão perpétua.
    • Mas aquele que desperta para si mesmo pode recuperar, por meio do estudo e da prática, o senso de uma ordem interior e descobrir o segredo da redistribuição e regulação de sua própria energia.
    • Daí em diante, pode esperar manifestar-se cada vez mais em conformidade com sua verdadeira natureza.
  • A questão “o que significa lembrar-se de si mesmo?” não admite resposta formulada, mas deve ser levada dentro de cada um e vivida.
    • Cabe a cada um ouvir a questão sem esperar resposta, carregá-la consigo e, sim, vivê-la.
  • Na sessão de perguntas, um membro da audiência manifestou perturbação com a afirmação de que o papel do Mestre não seria trazer alguém ao despertar pleno de uma vez por todas, mas que seria uma tentativa a ser feita repetidamente ao longo de toda a vida.
    • O questionador pensava que o Mestre, como no Zen Budismo, poderia despertar um discípulo totalmente num certo momento, mas Gurdjieff não parecia proceder dessa forma.
    • Henri Tracol respondeu que o papel do Mestre nas diferentes tradições inclui múltiplos aspectos, e que talvez não devesse ser excluída a perspectiva da libertação final.
    • A referência ao Zen Budismo deixava Tracol perplexo quanto a se o satori é sinônimo, mesmo excepcionalmente, de libertação total, permanente.
    • Na maioria dos casos, há um momento de iluminação que, como um lampejo fora do tempo, poderia ser interpretado como libertação total, mas, como a existência do homem está submetida a leis temporais, ele poderia facilmente se encontrar, como Parsifal, privado da presença do Mestre, privado do que o havia transformado por um momento, e por isso compelido a reencontrar por si mesmo essa possibilidade de contato com uma realidade superior.
    • Gurdjieff insistia na necessidade de uma busca que nunca termina, e um dos aspectos de seu ensinamento é precisamente o despertar do homem para seu destino de buscador.
    • Gurdjieff queria que seus seguidores se tornassem “buscadores da verdade”, e se às vezes uma descoberta feliz ou um encontro afortunado aparecem, são imediatamente colocados em questão, e o homem avança novamente, pois não está destinado a tornar-se uma estátua de Buda, mas a estar vivo “dentro de sua vida”, pondo à prova incessantemente o lampejo de compreensão que possa ter recebido.
  • Diante da pergunta se a busca, nos termos de Gurdjieff, seria afim à ideia socrática de ser “parteira dos pensamentos dos homens”, ou seja, à maiêutica, Tracol respondeu que haveria boas razões para não abrir uma ruptura entre o ensinamento de Gurdjieff e o desse sábio da Grécia antiga.
    • Porém, não se sabe bem o que foi a escola de Sócrates.
    • O Ouspensky de Sócrates chamava-se Platão, mas este fez do ensinamento de Sócrates, em grande parte, uma filosofia.
    • Gurdjieff não era filósofo e chegou a dizer que a filosofia é uma forma de se desviar do caminho.
    • Gurdjieff temia que a busca real pudesse ser transformada em especulação vazia capaz de induzir à perda do gosto pelo questionamento de si mesmo mais essencial.
  • À pergunta se o Mestre está permanentemente desperto ou apenas temporariamente, e se chega ao despertar por si só ou como resultado de um ensinamento que recebeu, Tracol respondeu não acreditar que, mesmo no caso muito excepcional de um homem altamente espiritual como Ramana Maharshi, se pudesse interpretar o despertar como um fenômeno espontâneo.
    • Um Mestre não surge na Terra sem um passado, sem uma herança.
    • Tampouco surge em qualquer lugar do planeta: aparece num lugar que corresponde às condições de sua concepção.
    • Um Mestre pode ter recebido todas as condições que o predispuseram a estar permanentemente desperto e mesmo assim mostrar-se incapaz de alcançar aquele nível de realização em que a renovação incessante de seu esforço não fosse mais necessária.
    • O que importa a quem busca a verdade é encontrar um suporte prático para sua busca, e para isso não seria necessário um homem permanentemente desperto.
    • Pelo contrário, o homem que nunca parou de buscar e que continuará buscando até morrer é um suporte muito mais forte para os que o cercam do que se estivesse muito acima deles, sem poder comunicar sua experiência.
  • À observação de que Ramakrishna passava o tempo buscando e se alegrava em estar na terra para buscar, mesmo sendo permanentemente desperto, e de que deveria haver uma situação que reconciliasse esse despertar total com essa busca, Tracol concordou que haveria uma possível reconciliação, mas ressaltou que seria necessário saber quem poderia ser juiz disso.
    • Alguém que não está no nível de Ramakrishna pode saber o que se passava nas profundezas mais íntimas de sua busca?
    • Seja qual for o nível de realização que um homem alcance, não seria necessário, para um verdadeiro Mestre, compreender que essa realização não pode ser completada enquanto ele não tiver aceito “retornar à terra”, enquanto não tiver tentado, por sua vez, despertar, com os meios adequados, os que são, como ele, potencialmente capazes de encontrar a libertação?
  • À pergunta de como alguém condicionado pode ter acesso, por meio de sua busca, a algo que não é condicionado, Tracol respondeu que isso não seria possível por essa via, pois o homem é totalmente condicionado, até mesmo a privacidade de seus pensamentos e sentimentos é condicionada, e o homem não é livre.
    • Se, a partir de seu estado condicionado, tivesse de saltar sobre seus próprios joelhos para alcançar o limiar além do qual se encontra o que se chama de incondicionado, sem outros meios senão os que tem para a existência ordinária, não haveria nenhuma chance de fazê-lo.
    • Resta saber, porém, se esse chamado “incondicionado” pelo qual se anseia não teria algum tipo de eco correspondente nesse ser condicionado cuja existência nos é conhecida, e se for esse o caso, não se trata de saltar sobre os próprios joelhos, mas muito mais de tentar rastrear o que impede de ser mais verdadeiramente o que se é.
  • À observação de que isso seria então a via negativa: não sou isso, não sou aquilo, como uma forma de se despir, Tracol respondeu que em qualquer tipo de ascese há sempre um elemento de apofatismo.
    • Esse apofatismo que se dirige a Deus se dirige igualmente ao homem.
    • Se há uma correspondência entre o homem e Deus, é natural que, por um tempo, um homem recuse considerar-se reduzido ou mesmo totalmente identificado com os aspectos de suas manifestações externas.
    • Deve estar preparado, além de todas as suas negações de si mesmo, para encontrar algo que, sem palavras, está além de qualquer definição, qualquer verbalização.
  • À pergunta se é verdade que Gurdjieff disse antes de morrer “estou os deixando num belo aperto” e como se deveria entender essa afirmação, Tracol respondeu que é verdade, mas que ele não disse isso.
  • À pergunta de como o próprio Tracol se deslocou desde o tempo em que encontrou Gurdjieff, teve contato com ele e seguiu seu ensinamento, Tracol admitiu ser incapaz de responder, especialmente em poucas palavras.
    • Os que conheceram Gurdjieff não podem deixar de sentir que uma vida inteira não é suficiente para digerir tudo o que receberam.
    • O processo está em andamento.
    • O que foi recebido como proposição viva naquele tempo não está menos vivo, mas muito mais vivo hoje do que antes.
    • Sempre que há uma conexão direta com as memórias de um evento particular na relação com Gurdjieff, há uma sensação de muito maior proximidade na compreensão dele agora do que havia naquele momento.
    • Sem dúvida, isso deve ser sinal de um crescimento secreto, não de deterioração, do que ele semeou neles.
  • Pierre Schaeffer, presente na audiência, declarou que não eram as respostas que o perturbavam, mas as perguntas que estavam sendo feitas, e propôs que, em vez de enfatizar Gurdjieff, sua pessoa e personalidade, os que receberam algo dele poderiam, na medida em que aprenderam a praticar tal diálogo, funcionar como pequenos mestres, assim como qualquer um.
    • Schaeffer observou que, em vez de apenas exemplo e conformidade a um modelo, Gurdjieff oferecia diálogo, e que os meios desse diálogo eram novos.
    • O diálogo em geral é ineficaz: as pessoas falam, respondem, não se escutam mutuamente e respondem sem realmente dizer nada.
    • Com Gurdjieff havia uma situação nova, constituída por um certo número de pré-condições bastante bizarras, destinadas a chocar, das quais surgia uma troca de perguntas.
    • Dessa forma, qualquer Mestre poderia ser substituído por qualquer um, na medida em que ensina os meios de um diálogo, e em certa medida qualquer um poderia tornar-se o mestre de qualquer outro.
    • Schaeffer afirmou querer destruir o clichê do Mestre com M maiúsculo.
  • Tracol respondeu que concordava com a insistência na necessidade do diálogo e em sua virtude, comparada a certos clichês ou imagens que se espera demais do Mestre.
    • Onde não concordava totalmente era com a palavra “qualquer um”, pois concordaria apenas no caso de um homem ou alguns homens com a qualidade necessária para se beneficiar desse “qualquer um”.
    • Se Lao Tzu ou Confúcio tivessem encontrado esse “qualquer um”, como de fato aconteceu, teriam aprendido com ele, assim como o próprio Sócrates, que era capaz de se beneficiar de qualquer um para aprofundar sua compreensão e conhecimento.
    • Mas isso não se aplica à maioria, e pelo menos por um tempo, e Tracol realmente quis dizer por um tempo, o Mestre preenche uma função indispensável.
  • Há uma constante na relação entre Mestre e discípulo, e essa relação pode ser encontrada em diferentes níveis, mesmo em níveis que poderiam ser considerados muito inferiores.
    • Porém, há um fator a levar em conta: a matéria do conhecimento não é uniforme, compreende diferenças de qualidade e entre esses diferentes níveis de qualidade há pontos de ruptura.
    • É muito provável que abaixo de certo nível, a relação Mestre-discípulo, em sua constante, apareça como irrisória e ineficaz.
    • No entanto, em tudo o que resta da influência de um Mestre sobre um homem, seu discípulo, há algo que não pode desaparecer inteiramente e que é capaz de voltar à vida.
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