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Mistério do Renascer
Este ensaio foi traduzido e adaptado por D. M. Dooling a partir de “Homme, del, terre”, publicado originalmente na revista L'Age Nouveau, n.º 112. Segue-se ao artigo uma entrevista com Henri Tracol.
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O Zohar descreve a criação do corpo humano como fusão dos quatro elementos do mundo inferior com os quatro pontos cardeais do mundo superior, tornando o corpo imagem simultânea de dois mundos.
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O Santo, bendito seja Ele, criou um corpo à imagem daquele de cima, misturando fogo, água, terra e ar.
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Entre o Céu e a Terra existe uma escada de mundos intermediários, presente em múltiplas tradições como imagem do caminho de ascensão do ser rumo ao divino.
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Nos mistérios de Mitra, cada degrau corresponde a uma das sete esferas planetárias percorridas pelo iniciado.
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É a escada de Sete, cujos postes eram sustentados pelos quatro filhos de Hórus para que o faraó morto entrasse no Céu.
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É a escada de luz que conduziria Maomé das ruínas do templo de Jerusalém ao trono divino.
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A comparação entre tradições exige ressonância interior com a vibração da analogia verdadeira, não correspondência forçada entre superfícies, pois mesmo dentro de uma única tradição os números e termos divergem.
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O pensamento bramânico divide o Tribhuvana em Céu, Atmosfera e Terra; as Upanishads descrevem o deva-yana passando pelo reino do Fogo governado por Agni, pelos domínios dos Governantes do dia, da quinzena clara do mês lunar, dos meses de ascensão do Sol e do ano.
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Israel e o Islã distinguem sete terras sob sete firmamentos, habitadas por descendentes degenerados de Adão e Caim.
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Os chineses contam nove céus e representam o Eixo do Mundo no Kien-Mou, madeira ereta análoga à estaca sacrificial bramânica e à bétula do xamã, pela qual os Soberanos sobem e descem.
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Na ascensão espiritual, o viajante vai despindo progressivamente suas vestes até revestir a túnica de luz, reflexo de seu próprio ser transformado.
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As vestes são os diferentes corpos, suportes temporários de um processo interior de devir.
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A multiplicidade de sistemas sobre os corpos do ser humano torna inútil qualquer tentativa de correspondência exata entre eles; o que importa é compreender o movimento geral e o sentido das relações internas de cada doutrina.
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Os quatro corpos do Cristianismo (carnal, natural, espiritual e divino) não se deixam corresponder com precisão aos cinco envoltórios (koshas) da Vedanta em relação aos três shariras (forma causal, forma sutil, forma grosseira).
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A ideia da queda da alma em formas cada vez mais materiais, contraposta à ascensão, não deve conduzir ao maniqueísmo, pois o verdadeiro destino do homem na terra está ligado ao esforço de fundir as tendências opostas em si mesmo.
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O mistério da encarnação existe também para o ser humano, e aproximar-se dele exige não apenas o despertar para uma presença mais interior, mas uma troca que envolva o ser inteiro, do intelecto ao corpo.
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É preciso familiarizar o corpo e seus membros com o que a cabeça e o coração acolheram.
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É nesse ponto que a escada de Jacó se ergue no interior do homem, com anjos portadores de mensagens subindo e descendo entre seu Céu e sua Terra.
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A dúvida de Tomé não foi dúvida de Cristo nem dos outros apóstolos, mas dúvida de si mesmo: sua alma não havia deixado de crer, mas havia deixado o corpo nas sombras.
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Tomé esteve presente à ressurreição da filha de Jairo, ao filho da viúva de Naim e à ressurreição de Lázaro; não precisava de convicção quanto à divindade de Jesus.
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O que estava em questão para ele era sua própria crença; enquanto sua carne hesitava e seus sentidos recusavam, ele se sentia impotente para testemunhar em plenitude.
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Os gnósticos chamavam Tomé de Dídimo, gêmeo de Jesus; para realizar essa presença plenamente, ele precisava experimentar em si mesmo o retorno de Jesus de Nazaré ao corpo.
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“Exceto se eu ver nas suas mãos a marca dos pregos, e puser o meu dedo na marca dos pregos, e meter a minha mão no seu lado, não crerei.”
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As aparições do ressuscitado revelam um corpo glorioso que é ele e não é ele, irreconhecível aos sentidos habituais e capaz de comer e partir o pão, transcendendo a experiência humana comum.
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Jesus disse a Maria Madalena: “Não me toques.” Ela “não sabia que era Jesus.”
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Os discípulos de Emaús caminharam e conversaram com ele, mas “seus olhos estavam impedidos de o reconhecer.”
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Aparecendo no meio dos discípulos, foi tomado por um espírito; ele disse: “Vede minhas mãos e meus pés; apalpai-me e vede, porque um espírito não tem carne e ossos como vós me vedes ter.”
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Na beira do Mar de Tiberíades, novamente não o reconheceram; foi necessária uma pesca milagrosa para convencê-los.
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Karl von Eckharthausen descreve o renascimento como transformação tripartida necessária para que a deificação e a transmutação da terra em Céu se realizem.
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O primeiro renascimento é o da razão; o segundo, o do coração ou da vontade; o terceiro, o do ser inteiro, que é o renascimento corporal.
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Os dois primeiros são renascimentos espirituais; o terceiro é corporal. Muitos homens sérios renasceram em inteligência e vontade, mas poucos conheceram esse renascimento do corpo.
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