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Filme "Encontros com Homens Notáveis"

“A Busca”, Jean Sulzberger (org.), trad. Octavio Mendes Cajado. Pensamento, 1989.

Depois de completar sua vasta alegoria cosmológica, All and Everything (RBN), George Ivanovitch Gurdjieff passou a trabalhar no seu autobiográfico Meetings with Remarkable Men (EHN) com a energia — tanto como homem quanto como mestre — dos heróis do mito ou das figuras históricas como Marpa, o Tradutor. A “Segunda Série”, como essa história pessoal veio a ser chamada pelo autor, destina-se claramente a projetar luz sobre os conceitos universais do primeiro livro e a dar-lhes, por assim dizer, uma habitação local e um nome compreensível. Mas aqui também há elementos básicos de alegoria e fábula, níveis múltiplos de significado e temas continuamente repetidos, como os que se encontram em Rumi, Attar e outros fabulosos escritores orientais. Gurdjieff era, de fato, um natural contador de histórias na tradição imponente, florida, multifacetada do Oriente; e, desde o princípio, instala o leitor numa parte do mundo onde Sinbad,— o Marujo, lança tradicionalmente a sua âncora e a história de Moisés, contada em bazares, ainda faz o ouvinte prender a respiração.

Algum elemento talvez lhe tivesse vindo do pai, que, no seu tempo, foi um celebrado bardo — ou ashokh — na Armênia. Uma criança alimentada com folclore patriarcal e adormecida aos embalos da história de Gilgamesh carregará sempre consigo os traços dele, uma rica herança. Mas o impulso do contador de histórias vem essencialmente do desejo de comunicar-se — não se trata, por força, de transmitir — e a verdadeira marca do contador de histórias é o prazer que encontra no contar. Este era próprio de Gurdjieff, e em Encontros com homens notáveis, dirige suas luzes sobre um mundo tão distante de nós que parece, apesar de todos os pormenores fatuais, tão mítico quanto a Atlântida. A pequena companhia de homens notáveis, que se intitulam “Os Buscadores da Verdade” e perseguem sua meta esquiva através das partes mais remotas da Ásia, têm nomes, datas de nascimento, cartões de identidade; em qualquer biografia comum passariam pelo que, de fato, foram — homens comuns, que exerciam as profissões de médico, cientista, engenheiro. Não é apenas a afeição que o autor lhes consagra — a ternura pelos amigos é um elemento forte do livro — que lhes atribui as proporções de heróis. O que os transforma em Argonautas é a natureza da sua busca; isso, e a consciência do contador de histórias de que falar do que não se pode expressar só é possível por implicação e alusão, dando à coisa, de fato, um ar de parábola. Dessa maneira se torna claro que, na essência, cada personagem, e não menos o próprio autor, é irmão de Gilgamesh.

Não surpreenderá ninguém que um livro dessa natureza, com suas figuras heroicas, suas turbulentas aventuras interiores e exteriores, seu humor e seus sobre tons místicos, tenha sido convertido em filme. Escrito e dirigido por Peter Brook, de parceria com a aluna mais íntima de Gurdjieff, Madame Jeanne de Salzmann, o roteiro, apesar de toda a sua qualidade mítica, possui, visto que acompanha muito de perto o texto, um ar de autenticidade. Essa extraordinária caravana, arrastada na esteira da própria sede gurdjieffiana inextinguível da verdade, se compõe de seres humanos reais, ainda que muito variados. A maneira com que ele os reuniu, ou por que mistério de coincidência foi dar com eles, é uma parte essencial da história. Ele foi o instrumento, o catalisador, por cujo intermédio a própria busca os juntou a todos.

No filme, como no livro, vemo-lo pela primeira vez criança, companheiro muito próximo do pai, o bardo patriarcal, e do tutor, decano da Catedral de Kars. Esses dois amigos, os quais, nas palavras de Gurdjieff, “tomaram a si a obrigação de preparar-me para a vida responsável”, tinham o hábito, encontradiço nas culturas orientais, de se comunicarem um com o outro por meio de perguntas e respostas espontâneas.

Por exemplo, uma noite em que eu estava na oficina, meu futuro tutor entrou inesperadamente e perguntou a meu pai:

— Onde está Deus neste exato momento? Meu pai respondeu, muito sério:

— Neste exato momento Deus está em Sarikamis.

— O que é que Deus está fazendo lá?

— Está fazendo escadas duplas, em cujo topo amarra a felicidade, para que as pessoas e as nações inteiras possam subir e descer por elas.

O menino atento absorve tudo isso e, desde o início, o filme deixa claro que, com preceptores desse naipe, a sua não será uma infância comum; que os dois lhe fomentarão o destino e suscitarão nele perguntas que precisam ser respondidas.

Com efeito, nós mesmos, junto com a criança, mergulhamos na pergunta da cena de abertura. Que haveremos de pensar do estranho vale da montanha caucasiana que tem a propriedade de devolver, por suas vertentes rochosas, sons musicais — nem todos os sons, força é que se diga, apenas os produzidos por um músico que, na formação ulterior de Gurdjieff, chega ao estalo de “Consciência de si mesmo”. Um bardo depois do outro executa uma melodia e somente a um deles as rochas respondem. Nada se explica com palavras. Nós, como a criança, quedamos abismados e, ao mesmo tempo, cônscios de que se atingiu a tônica da história. Estamos em presença do mistério, ao mesmo tempo macrocósmico e microcósmico.

Acontece — conquanto isso não se encontre no livro — que temos uma pista para essa parte do roteiro num relato particular de um dos encontros de grupo de Gurdjieff, realizado em Paris em 1944. Ao lê-lo, precisamos ter em mente que o método de ensino de Gurdjieff era essencialmente em forma de parábolas. Ele seguia um caminho sinuoso para defender as suas teses, nunca deixando de manter-se fiel à própria injunção — “Comece sempre de longe”; contando uma história inconsequente, cuja importância só se torna aparente a um par de ouvidos; murmurando “Mais pimenta vermelha!” a alguém que, longe de estar envolvido em atividade culinária, se achava sentado preguiçosamente numa cadeira. Já o ouvi dizer uma palavra a um discípulo que outro saberia destinada apenas a si; provocar o riso na extremidade da mesa em que se encontrava, enquanto alguém, na outra ponta, percebendo-lhe a intenção por detrás da brincadeira, viraria para um lado e se poria a chorar. “Não se esqueçam”, costumava dizer, “tudo tem sete aspectos”. Deveríamos tomar esse lembrete em consideração ao ver-nos diante do seguinte relato de um dos seus grupos. Ouçamo-lo.

Paris, 11 de janeiro de 1944

O Sr. G. deu um exercício a um grupo de alunos.

Mais tarde, ele os desafiou, mostrando uma estampa que representa sete dançarinos orientais ostentando toucados gigantescos encimados de antenas. Alguns tocam pandeiros, outros sopram em canos como flautas, enquanto executam, juntos, vários movimentos sob a direção do líder, que segura na mão um curioso instrumento parecido com um galhardete.

O Sr. G. pede a cada aluno que dê sua opinião sobre o que a estampa representa. Todos estão mistificados. Alguns sugerem que se trata de uma dança tibetana.

Sr. G.: É isso! A cena é no Tibete. Eu mesmo estive lá e ouvi a música que esses dançarinos fazem. A gente chega a um vale nos contrafortes e, de repente, ouve música — não apenas de tamborins e flautas, mas algo infinitamente mais, música como nunca existiu, realmente celestial. Mas eu queria saber de onde provinha. Ao redor de mim nada havia senão montanhas, não se via uma casa, nem um ser humano. Qual era a origem dessa harmonia divina? Havia música e, ao mesmo tempo, não havia. Vocês podem imaginar a impressão que me causou. Depois eu decifraria o segredo e seria iniciado na cerimônia que veem na estampa. Mas no primeiro encontro — bem, vocês compreenderão meu espanto, eu já tinha visto tantas maravilhas, porém nada desse gênero. Por dois ou três dias não pude dormir, fazendo perguntas a mim mesmo sobre esse mistério. Eu ouvira música onde não existia nem homem nem casa, nada senão neve e montanhas. Estava confuso, eletrizado. Só dois anos mais tarde, depois de meditar longamente sobre o fenômeno, compreendi o que ele significava.

Olhem! Vocês verão que o líder na gravura tem na mão um aparelho, com propriedades semelhantes às daquilo que nós hoje em dia chamaríamos um rádio — isso, lembrem-se, aconteceu há trinta e cinco anos, muito antes de se haver generalizado o uso dos rádios. Com esse aparelho, como veem, ele dirige — não a música, pois não há música — ele dirige as vibrações emitidas pelos movimentos especiais dos corpos dos dançarinos; mais do que isso, da totalidade da sua experiência. Tais vibrações são reunidas nos globos que eles trazem na cabeça. E lá embaixo, no vale, um segundo instrumento, que corresponde aó seguro pelo líder, depois dé estabelecido o contacto entre os dois, coleta as vibrações produzidas pelos dançarinos e as transmite em forma de música. Mesmo assim, como eu disse, não há música, nem instrumento. Não é um milagre?

— Mas eles têm tamborins e flautas! — protesta alguém.

Sr. G.: Sim, isso ajuda. E parte de todo o fenômeno, mas não faz a música de que falo. Essa vem dos movimentos corporais e dos exercícios psicológicos interiores dos dançarinos. Sabe-se que qualquer experiência forte produz vibrações e que as experiências de uma intensidade interior específica — tais como as que os dançarinos da gravura estão realizando — produzem vibrações capazes de criar música, divina música. A gente mesmo pode chegar a tais resultados com algum esforço. Mas é preciso haver harmonia do todo, da totalidade do homem, de outro modo haverá discórdia. Faz-se mister uma atitude interior precisa a fim de produzir essa música celestial.

Vocês compreendem o que significa chegar a esse ponto? Os dançarinos devem ter estudado os movimentos especiais desde a infância e só agora, depois de velhos, são capazes de participar da cerimônia. Imaginem como tiveram de trabalhar! Comparados com

os esforços deles, os exercícios que vocês fizeram há pouco nada mais são que uma brincadeira de criança. Mas o que lhes mostrei os ajudará a compreender minhas instruções, tão amiúde repetidas, a respeito dos movimentos intencionais do corpo. Por exemplo, não façam um movimento com toda a perna quando apenas se requer um gesto com o pé. A perna pode ser necessária a algum propósito muito diferente. O mesmo acontece com todos os membros. Esses movimentos precisam de completa atenção. Tudo há de ser feito corretamente, desde o começo, com exatidão e respeito pelo detalhe. Talvez não façamos música. Não importa. Não é uma questão de música, mas uma experimentação real do EU SOU. Há sete exercícios para isso, um dos quais já lhes foi dado. Se com a mente apenas vocês devessem repetir “Eu sou” por mil anos, isso nada lhes daria de real. Mas este exercício, levado a cabo com fidelidade, pode ajudar na direção do verdadeiro EU SOU. Diligência e exatidão desde o princípio — eis o que é necessário. Só essa exatidão em nosso trabalho pode dar resultados exatos. Lembrem-se do que ouvi nas montanhas. Um movimento executado inexatamente pelos sete dançarinos e tudo teria ido por água abaixo. Uma nota discordante e o resultado seria cacofônico. Aquilo que se deve visar é a totalidade da atenção, a atenção a todas as partes. O Sr. G. dispensa o grupo.

E assim ficamos com um mistério. Há música e, no entanto, não há música. Parece que temos de lutar com o paradoxo, a menos talvez — será essa a resposta? — de nos tornarmos parabolistas e adaptarmos nossas mentes demasiado cristalizadas à “setuplicidade de aspectos” das coisas. “Não é uma questão de música”, diz Gurdjieff, “mas uma experimentação real do EU SOU.” Ao mesmo tempo, ele reúne montanha, vale, homem, música. Estar-nos-á dizendo que o que tão desembaraçadamente denominamos a música das esferas nada mais é do que um cósmico EU SOU, que precisa ressoar no homem para que ele faça parte, consciente, do cosmo? Era isso, com efeito, o Tosão de Ouro, que, por mais vagamente que fosse apreendido, levava os jovens buscadores para a frente? Não podemos deixar de presumir que assim se passavam as coisas nem duvidar de que, com tal meta, sobreviverá a um sem-número de vicissitudes. Os eventos da historia, sempre mais dilatados do que a vida, sempre abarrotados da substancia do mito, seguem por entre muitos Cilas e Caribdis. Precisam ser considerados, ao mesmo tempo, psicológicos e fatuais, pois todas1 as buscas conduzem claramente tanto para dentro quanto para fora. É possível que a sede da Fraternidade de Sarmoung, por exemplo, nomeada no filme como o objetivo da busca, seja, na verdade, um lugar geográfico. Por outro lado, poderia ser uma latitude da alma. As palavras leem-se em muitos níveis. 0 leitor tem o direito de encontrar nelas dimensões psicológicas e fatuais. Mas a substância do filme exige, por força, uma representação visual. Cumpre dar corpo às ideias, tornar palpável o pensamento. As paisagens, descritas no livro com tanta precisão, penetradas como o são por sua própria mitologia, são retratadas com a mesma precisão no filme.

Por conseguinte, a história não nos transporta a um quadro de panoramas pintados, senão através de regiões repletas de história e todas encontráveis no mapa. Entretanto, à medida que prossegue, cada uma das grandes e clássicas regiões volta um rosto vazio para os buscadores. “Aqui não, aqui não!” protesta a Esfinge. “Aqui não!” diz o Deserto de Gobi. As pistas, até agora, falharam. Um a um, os homens notáveis se afastaram do líder, não tanto para abandoná-lo senão porque tendem a prosseguir por caminhos particulares. Conduzido pelo destino — ou pelo instinto — Gurdjieff vai sozinho a Bucara. E ali, na antiga cosmópole, onde as caravanas do mundo se encontram e barganham suas mercadorias — sedas, espécies, lendas, dogmas — ouve pronunciada a palavra “Sarmoung” e sente-a reverberar dentro dele. “No momento certo”, dizem-lhe — quantas vezes já ouvimos a frase em mitos e contos de fadas! — “haverá alguém para guiá-lo”. Assim — como era inevitável — o momento e o guia chegam juntos e conduzem-no, de olhos vendados, numa formidável jornada, a um misterioso e desconhecido mosteiro. Ou talvez devêssemos dizer ao fim do mundo — pois é isso o que parece. Terá ele afinal descoberto Sarmoung? Não sabemos. Não nos contaram. A postura pode falar mais alto que as palavras — o corpo tem sua própria história para contar — e a atitude do jovem Gurdjieff, vendo a caravana dos últimos e mais queridos colegas de busca desaparecer nas montanhas, longe de ser o gesto de um homem derrotado, é a de um homem cheio de confiança e expectativas. E com essa afirmação sem palavras, o roteiro chega ao fim.

Não é este, todavia, o fim da história, a qual, se começa como fábula exemplar — muitos pensarão nela como tal — termina nos livros de história e no mundo material do fato.

Sarmoung talvez não exista, mas existem dados autênticos bastantes para assegurar-nos que Gurdjieff, de um modo ou de outro, em algum lugar, guiado por não se sabe quais presenças, procurou e encontrou o sistema do ensino tradicional e, como o herói mítico que precisa voltar para casa com o tesouro, trouxe-o de volta para o mundo. Ouspensky, seu discípulo mais famoso, assevera, em In Search of the Miraculous, que Gurdjieff estava transmitindo esse ensinamento em Moscou antes da Primeira Guerra Mundial. Outro seguidor seu, Thomas de Hartmann, compositor russo, conta que Gurdjieff, com um bando de discípulos, escapou, afrontando terríveis provações, para Constantinopla e dali para o Ocidente. Vários alunos escreveram livros acerca do “Instituto do Desenvolvimento Harmonioso do Homem”, que ele fundou na Floresta de Fontainebleau. Outros descreveram vividamente os seus derradeiros e fecundos anos em Paris. O jovem que saiu em busca da verdade tornou-se o velho que a encontrou — um velho maciço e sereno, tão feroz às vezes quanto um mestre Zen mas, às vezes, cheio de compaixão pelos seus semelhantes; um professor que usava todos os momentos como momentos de instrução; um mestre que dispensava, liberal, benesses do seu abundante depósito interior; um corifeu que iniciava discípulos especiais nas danças sagradas, aprendidas por ele mesmo em Sarmoung.

“Cada professor”, escreveu Farid al-Din Attar, no século doze, “revela suas ideias à sua maneira especial e depois desaparece.”

Gurdjieff revelou seus antigos temas, a que chamou o Grande Conhecimento, à sua maneira altamente idiossincrática. E em 1940 desapareceu — exceto da lembrança dos pupilos. Para estes e para muitos que jamais o conheceram, o seu chamado ainda reverbera. O filme de Peter Brook, que lhe retrata o início da vida e do mito, pode ser considerado parte integrante desse chamado.

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