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Caminho de volta
Parabola V9N3
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A história dos Upanishads sobre Indra e seu palácio narra como ele, embriagado de triunfo após derrotar os inimigos do Céu, contratou o arquiteto divino Vishnakarman para construir uma mansão de esplendor crescente tal que Vishnakarman desesperou de terminá-la e apelou aos deuses; imediatamente depois aparece diante do rei triunfante um menino radiante, Vishnu disfarçado, elogiando a arquitetura e assegurando que nenhum outro Indra jamais realizou tal proeza.
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O menino responde ao rei que os Indras são incontáveis, “como os universos que surgem e caem”, e aponta para uma coluna de formigas que naquele momento marcha em formação guerreira em direção ao trono, declarando que cada uma delas foi outrora um Indra; sobressaltado, o rei confronta o exército até que a verdade lhe desponta e a narrativa deixa um Indra arrependido, reabilitado, sábio e humilde.
Para a narradora, as formigas são o coração da história; no olho da mente vê a horda desfilando e pergunta a si mesma se há entre elas alguma que em seu coração solitário secreto tenha o discernimento de indagar “Quem sou eu?”; imagina essa formiga quebrando abruptamente a fila, movida por seu próprio enigma, precipitando-se em direção ao portal e à lâmina de grama mais próxima.-
Ali estaria ela, agachada e sombria, ponderando dentro de si mesma seu de onde, seu por quê e seu para onde; e como um peregrino a outro, a narradora se atreveria a falar com ela, aliviando o coração para o estranho como não se pode fazer com os mais próximos.
Desde o momento do nascimento todos estão numa viagem de exploração, não para novos pastos, como se pensa afetuosamente, mas para o quê, diz uma voz interior, é de fato a terra natal; pensa-se nela como o caminho adiante, mas na verdade é o caminho de volta, pois retorna-se de onde se veio; e se houver respostas, elas chegarão antes de nós.-
Algo de Indra poderia se agitar dentro da formiga ao ouvir o Hino da Pérola recitado junto a ela; havia uma vez um Príncipe do Oriente cujos pais o enviaram numa missão, provisionando-o adequadamente para a jornada mas tirando dele a robe de glória, dizendo-lhe que quando descesse ao Egito e capturasse a Única Pérola da Serpente do Mar não apenas recuperaria a robe mas seria, com seu irmão, herdeiro do reino.
O Príncipe chegou ao Egito e se instalou, oculto, perto da Serpente, esperando que ela adormecesse para tomar a Pérola; mas foi ele mesmo quem adormeceu, pois tornou-se um com os egípcios, vestindo suas roupas, bebendo fundo de suas poções curiosas e comendo o alimento da escravidão; esqueceu que era um Príncipe do Oriente, fez suas oferendas ao rei egípcio e não pensou mais na missão.-
Seus pais, ao saber de seu apuro, enviaram-lhe uma mensagem real: “Desperta! Lembra que és filho de um rei que agora se porta como escravo. Lembra a Pérola por cujo bem desceste ao Egito. Lembra tua robe de glória que podes voltar a vestir, e teu nome será lido no livro dos heróis, e tu com teu irmão sereis herdeiros do reino.”
A carta, selada com o selo real, ergueu-se e tomou a forma de uma águia, e voou até pousar ao lado do Príncipe e tornar-se, milagrosamente, fala; o som das palavras despertou o jovem; sua alma nascida livre saltou dentro dele e ele ansiou por estar com os seus; lembrou-se então da Pérola e começou lentamente a encantar a Serpente, fazendo um encantamento com os nomes de seus pais; a Serpente, embalada pelo feitiço, adormeceu pela primeira vez; o Príncipe apanhou a Pérola, jogou fora as roupas estrangeiras e, guiado pela voz da carta, fez seu caminho de volta ao Oriente.-
Sua robe de glória veio ao seu encontro, trazida por um mensageiro fiel, e ele correu a se adornar com ela como se fosse seu verdadeiro eu perdido; assim, carregando o tesouro, chegou aos portões do castelo de seu pai e foi recebido como herói.
Há muitas histórias, e uma delas revela-se em imagens, como a águia que se tornou a carta: a do Boi-Guardador que perdeu seu Boi; aprende-se, paradoxalmente, que o Boi jamais se perdeu; é o próprio Guardador que está em confusão, seduzido por sonhos de ganho e perda, certo e errado e todas as coisas que se opõem; ele deve reunir o que tem de sabedoria e sair em busca de sua besta.-
Na imagem chamada Vendo os Rastros, o Guardador encontra no pó uma pegada de casco; isso acontece, diz-se, porque o que ele pensa ser o mundo objetivo é apenas um reflexo de seu Si; ainda confuso, incapaz de distinguir verdade de falsidade, mas com os sentidos agora mais harmoniosamente relacionados, ele chega ao ponto de Ver o Boi, que na verdade não tem onde se esconder; Apanhar o Boi é outra questão, pois a criatura voltou ao estado selvagem e é agitada e indócil; Pastorear o Boi não é tarefa fácil, e o Guardador deve segurar firme o argão enquanto solta em si mesmo o que é selvagem e não se deixa prender.
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Por fim, após longa luta, a harmonia se estabelece e o Guardador volta para casa nas costas do Boi, tocando alegremente sua flauta; O Boi Esquecido, Deixando o Homem Só mostra os dois agora em paz um com o outro, o Homem sentado em sua varanda, o Boi pastando docilmente; e a oitava imagem, O Boi e o Homem Ambos Fora de Vista, não é nada mais que um grande círculo, dizendo-se que “toda confusão é posta de lado e a serenidade prevalece; o Vazio é plenitude.”
Em todos os contos que narram uma missão algo tem de ser trazido de volta para casa; esse é o significado do “Felizes Para Sempre”, onde todas as coisas que estavam separadas são tornadas um todo e a plenitude transborda para o mundo geral; depois de Retornar à Fonte, o Guardador aparece novamente rico em todo o seu vazio e Entrando na Cidade com Mãos que Bestowam a Bem-aventurança, trazendo de fato o Si mesmo.-
Ainda há outra história: um certo homem rico tinha dois filhos, e o mais jovem pediu sua parte da herança para sair a aventurar-se pelo mundo; o pai dividiu seus bens e o filho partiu para um país distante, onde desperdiçou sua fortuna em vida dissoluta; quando uma fome caiu sobre a terra, ficou na penúria e foi obrigado a servir a um dos cidadãos, que o mandou alimentar os porcos; não sendo amigo de ninguém, tinha fome e desejava comer as cascas que os porcos comiam; foi então que chegou a si mesmo.
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O filho mais velho, ao ouvir o som de música e dança e saber o que se passava, ficou irritado e não quis participar da festa; disse: “Esses muitos anos eu te servi e não transgredi teus mandamentos; contudo, a mim jamais deste um cabrito para que eu me alegrasse com meus amigos. Mas aquele teu filho que devorou tua vida com meretrizes, para esse tu mataste o bezerro cevado!”; o pai respondeu: “Filho, tu estás sempre comigo e tudo o que tenho é teu, mas este meu filho estava morto e voltou à vida, estava perdido e foi achado.”
Para a narradora, o filho mais velho, sobre quem ninguém se importa e mesmo as crianças clamam contra ele, é o coração da questão; como ela vê a parábola, ele é a parte do filho mais jovem que jamais deixou o pai, a parte que o chama para voltar a si mesmo, para se levantar e voltar para casa e ser co-herdeiro do reino.-
A narradora pergunta à formiga se algo de Indra ainda se agita nela, se há algo nela que a faz se mover tão propositalmente de uma lâmina de grama para a próxima, não tentando fazer uma fuga apressada, mas como alguém que parte; propõe viajarem juntos, ambos peregrinos, valentes diante de todo desastre.
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O caminho é percorrido de mãos vazias, sem sequer um mapa para guiar, sem sonhar que se carrega um tesouro, nem esperando que alguém venha ao encontro; o peso da esperança é demasiado pesado; o próprio caminho sabe para onde vai; o próprio caminho elevará para a frente; o próprio caminho é tudo.
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