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Mito do órgão kundabuffer
WALDBERG, Michel. Gurdjieff. Paris: Seghers, 1973.
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Há algo de irrisório na sucessão de causas que Gurdjieff atribui à singularidade trágica do destino humano: o universo, na mitologia gurdjeffiana, é governado por uma administração redundante, bastante semelhante, guardadas as proporções, à que Gurdjieff pôde conhecer na Rússia de sua juventude.
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Anjos e arcanjos partilham o “governo cósmico” e formam comissões diversas encarregadas de resolver problemas de “gestão”.
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Os títulos que carregam são de uma solenidade excessiva e por vezes cômica: “Arqui-Engenheiro Arcanjo Alguémathant”, chamado por Belzebu de “Sua Grandeza Pentadimensional”; “Principal Arqui-Químico-Físico-Universal, o Anjo Louisos”; “Nossa Sustentação-de-Todos-os-Quadrantes, o Grande Arqui-Querubim Helkguématius”.
A origem de tudo está na gênese acidental da Lua: no momento em que o sistema solar mal se havia constituído e ainda não participava plenamente da “harmonia de sustentação recíproca de todas as concentrações cósmicas”, um cometa chamado “cometa Kondour” deveria atravessar sem dano os espaços por onde já girava a Terra.-
Por causa dos cálculos errôneos de certo Individuum sagrado, perito em leis de criação e conservação do mundo, os momentos em que as duas concentrações deveriam passar pelo ponto de interseção de suas trajetórias coincidiram.
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Do choque entre a Terra e o cometa Kondour, dois grandes fragmentos se desprenderam do planeta e foram voar pelo espaço.
Após essa catástrofe cósmica geral, uma importante comissão de anjos e arcanjos, especialistas em criação e manutenção do mundo, foi enviada ao sistema solar sob a direção do Grande Arcanjo Sakaki.-
Para evitar que escapassem um dia dessa influência, a Altíssima Comissão resolveu tomar certas medidas preventivas.
A Terra precisava emitir vibrações chamadas “askokinn” para manter seus dois satélites em estreita dependência, e apenas a vida orgânica poderia produzi-las: foi assim que a Vida apareceu no planeta.-
Todo ser vivo é, segundo Gurdjieff, uma “analogia do Todo”.
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O ser humano é uma analogia eminente e dispunha, originalmente, para aperfeiçoar as funções que servem à aquisição da Razão estreital, das mesmas possibilidades que todos os “tetartocosmos” do Universo inteiro.
Até esse ponto, as consequências do “erro” original não eram dramáticas, mas mais tarde, no período em que os seres humanos começavam a se espiritualizar graças ao seu “instinto esseral”, um mal-entendido não previsto de Cima e dos mais deploráveis se produziu para sua desgraça.Anuncia-se assim o mito do “órgão Kundabuffer”, uma das grandes e terríveis criações do implacável despertador, que é apresentado como pouco lisonjeiro tanto para os seres humanos quanto para os “administradores do megalocosmos”.-
A Altíssima Comissão, temendo que os seres humanos compreendessem prematuramente a causa real de sua presença no mundo — que é a de manter, por meio de sua existência, os fragmentos destacados de seu planeta — e que se revoltassem contra seu destino recusando-se a continuar a viver, decidiu implantar provisoriamente na presença geral dos seres tricerebrais de lá um certo órgão com propriedades tais que passariam a perceber a realidade “ao avesso”.
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Auxiliada pelo principal Arqui-Químico-Físico-Universal, o Anjo Louisos, a comissão fez crescer nos seres tricerebrais, na base de sua cauda — pois eles tinham uma naquele tempo, e essa parte de sua presença geral ainda conservava seu aspecto normal, expressando “a plenitude de sua significação esseral” — uma “certa coisa” que favorecia o aparecimento das referidas propriedades, chamada pela primeira vez de “órgão Kundabuffer”.
Quando o perigo foi afastado, o “órgão Kundabuffer” foi suprimido, mas a Santa Comissão não havia previsto que, se as propriedades desse órgão desapareceram com ele, suas consequências já haviam, por muitas razões, começado a cristalizar-se na presença dos seres.-
O “isso” que pensa, sente e age em lugar do “Eu”, senhor autocrata único, esse “isso” movediço e maleável, incapaz de propor a si mesmo outros fins que não imediatos e vãos, esquecido da morte e ignorante das verdades supremas, cujo pensamento obedece à lei “camaleônica” — instável, enfermiço e proteiforme, como dizia Daumal — prolifera anormalmente.
As consequências das propriedades do funesto “órgão Kundabuffer” que se cristalizaram no psiquismo humano são numerosas, sendo as mais manifestas: incapacidade de pensar por si mesmo; identificação nefasta com as próprias “paixões”; inaptitude para representar “o processo de sua própria morte”; ausência de uma vontade que se ordene livremente a um fim; desconhecimento das leis cósmicas e dos meios de inflectir o destino do homem ordinário.A isso se acrescenta uma propriedade “temível” chamada “sugestionabilidade”: o traço singular do psiquismo humano que consiste em ater-se unicamente ao que diz o Sr. Fulano ou o Sr. Beltrano, sem esforço algum para saber mais.-
Gurdjieff ressalva que esse traço não pode ser imputado ao “órgão Kundabuffer” infligido aos ancestrais nem às suas consequências cristalizadas por culpa de certos Individuums sagrados e transmitidas hereditariamente.
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Os próprios seres humanos se tornaram culpados disso ao estabelecer progressivamente condições anormais de existência esseral exterior, que formaram em sua presença geral o que hoje é seu “deus interior maléfico”, chamado “autotranquilizador”.
Esse “deus” instala seu trono no lugar mesmo do coração, deixando ao ser humano apenas o corpo tirânico e o pensamento indigente.-
Gurdjieff definia o homem médio ordinário como “um escravo inconsciente, inteiramente a serviço de desígnios de ordem universal, que nada têm a ver com sua individualidade”.
Como escapar a esse destino monstruoso é o que Gurdjieff dedicou sua vida a ensinar.autores-obras/waldberg/kundabuffer.txt · Last modified: by 127.0.0.1
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