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Gurdjieff e a palavra prostituída

WALDBERG, Michel. Gurdjieff. Paris: Seghers, 1973.

  • Gurdjieff explica seu projeto literário no primeiro capítulo dos Relatos de Belzebu e na introdução a Encontros com Homens Notáveis, deixando claro que escrever não é para ele um ato de busca de glória, mas uma atividade antes de tudo religiosa.
    • Os textos foram por muito tempo acessíveis apenas aos membros dos grupos que dirigia.
    • O primeiro parágrafo dos Relatos abre com uma invocação: a convicção de que todos os homens, em qualquer grau de desenvolvimento, sentem a necessidade imperiosa de pronunciar, ao empreender algo novo, palavras como “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, Amém”.
    • Ao iniciar a aventura de escrever livros, Gurdjieff profere essa invocação em voz alta, com o que os antigos Toulusitas chamavam de “entonação plenamente manifestada”.
  • A escrita de Gurdjieff visa atingir o leitor no mais fundo de seu ser, nas regiões mental, afetiva e corporal, distinguindo-se radicalmente dos trabalhos de Ouspensky, cuja abordagem excessivamente intelectual reduz o alcance de sua obra.
  • A obra de Gurdjieff é pouco lida e ainda menos apreciada, pois não se enquadra em nenhum gênero preciso e não admite comparação com nenhuma outra obra do século, o que leva os críticos a ignorá-la ou a desprezá-la.
    • A obra é ao mesmo tempo ficção, poema épico, sátira, autobiografia e uma Suma que os profissionais do pensamento desconhecem.
    • Assim como se diz que Balzac escrevia mal e que Victor Hugo era estúpido, diz-se que Gurdjieff era perigoso e desonesto.
  • Desde 1956, escritores como Manuel Rainoird reconheceram a maestria literária de Gurdjieff, declarando que os gêneros aos quais recorre deixam muito para trás as elegantes tentativas contemporâneas.
    • Rainoird descreveu a leitura dos Relatos de Belzebu como uma provação infinitamente exaustiva, feita de matéria assimilável e não assimilável por qualquer organismo.
    • Para Rainoird, nenhum livro filosófico, científico, legendário ou histórico pode ser aproximado dos Relatos quanto ao “grande” e ao “novo”, ainda que se trate da história universal e ao mesmo tempo íntima de cada um.
  • A grandeza do projeto e a total novidade do tom distinguem os Relatos como obra maior, num registro que os “escritores ordinários patenteados”, na expressão de Gurdjieff, jamais souberam produzir nem reconhecer.
  • Os Relatos afirmam desde o início a recusa da “língua literária de bom tom”, numa profissão de fé repetida para que o leitor a guarde não como memória habitual, mas como lembrança duradoura.
  • O “bom tom” é o alvo predileto da ironia de Gurdjieff, que via na educação tal como praticada a coisa mais prejudicial do mundo e na literatura reduzida ao que chamava de “propagação da palavra prostituída” uma degradação das mais altas disciplinas humanas.
  • O jornalismo, cujos malefícios Balzac já havia denunciado genialmente em Ilusões Perdidas, apodrece a língua e o pensamento, corrompendo a alma de modo irremediável.
    • Gurdjieff afirma que os que buscam se desenvolver pelos meios oferecidos pela civilização contemporânea adquirem no máximo uma faculdade de pensar equivalente à primeira invenção de Edison.
    • Na expressão de Mullah Nassr Eddin citada por Gurdjieff, o que tais pessoas desenvolvem em termos de sensibilidade é “a sutileza de sentimento de uma vaca”.
  • Diante da degradação da linguagem, Gurdjieff recorre a procedimentos antigos para agir não apenas sobre a inteligência, mas sobre o ser inteiro do leitor, conforme Charles Duits havia identificado em alguns desses recursos.
  • O problema central do escritor comprometido com a verdade, o de como pronunciar as palavras sublimes sem ser mal compreendido, é resolvido por Gurdjieff de maneira exemplar.
    • Palavras como amor, esperança e liberdade foram maculadas por fanáticos e tiranos, perdendo sua virtude original.
    • Gurdjieff ou as traduz para a língua de Karataz, ou precisa o sentido por fórmulas fixas: escreve “amor” entre aspas para a noção confusa e “impulso sagrado esseral do verdadeiro amor” para a noção gloriosa.
  • O uso sistemático das aspas nos Relatos é uma chave de leitura essencial: elas ora denunciam noções corrompidas como “moral religiosa”, “tesouros”, “linguagem literária de bom tom”, ora exaltam expressões justas como “pensar esseral ativo” ou “corpos estreitais superiores”.
  • Os Relatos constituem um livro iniciático de múltiplas facetas, e Manuel Rainoird, em artigo citado ao longo deste capítulo, soube descrever com rara justeza o efeito dessa obra sobre o leitor.
    • O livro não pode ser lido como os demais: atrai e repele num mesmo impulso, num sopro que passa manifestamente acima das cabeças dos leitores, convidando-os a querer o que se quer sem eles.
    • Belzebu narra de uma altura muito grande, como habitante de mundos análogos e distantes, e esse recuo, longe de apagar os detalhes, revela os mecanismos ocultos da criatura feita à imagem de Deus.
    • Belzebu, privado de seus chifres, não esteve isento do processo de expiação: seu exílio no sistema Ors, ao qual pertence a Terra, foi consequência de faltas cometidas na juventude, semelhantes aos pecados do conhecimento humano.
    • A questão central, “quem somos nós, para onde vamos”, é tratada com acompanhamento de címbalos, instrumentos percutentes, gelo glacial e pó de mico, numa receita desconhecida.
    • O romance não é rio por acaso: a longo prazo, arrasta o leitor; o trabalho de demolição das ideias recebidas não visa impor um saber externo, mas despertar correspondências entre as obscuridades do livro e zonas ignoradas do próprio leitor, como faz o Cântico dos Cânticos ou o Evangelho segundo São João.
  • A escrita só tem sentido quando descreve uma experiência autêntica ou transmite um Ensinamento digno desse nome, e o excesso verbal, conforme Borges havia assinalado, é sinal de pobreza tanto quanto o silêncio.
    • Borges identificou como erro preferido da literatura contemporânea a ênfase: palavras como “único, jamais, sempre, tudo, perfeição, acabado” são moeda corrente entre escritores que não percebem que dizer demais é tão falho quanto não dizer nada.
    • Para Borges, as generalizações e intensificações decorrentes da negligência são sinais de pobreza sentidos pelo leitor, e suas imprudências causam uma depreciação da língua.
  • Contra essa depreciação, Gurdjieff se armou com procedimentos surpreendentes mas singularmente eficazes, e é nessa realização que se mede seu gênio, cuja palavra tem o poder de romper os muros espessos da inconsciência e da indiferença num tempo em que os dias são, em sua essência, dias de mentira e de erro.
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