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Busca do Milagroso

WEBB, James. The harmonious circle: the lives and work of G.I. Gurdjieff, P.D. Ouspensky, and their followers. Boston: Shambhala, 1987.

  • O episódio narrado por Boris Mouravieff sobre o encontro na casa da Baronesa Olga Rausch de Traubenberg na década de 1920, envolvendo Ouspensky e o filho dela, ilustra de forma condensada o mundo de ideias e a divergência de perspectivas que Tertium Organum representava.
    • Mouravieff escreveu no álbum do menino de doze anos a frase sobre nunca perder de vista que duas vezes dois são quatro.
    • Ouspensky, em seguida, escreveu abaixo que duas vezes dois nunca são quatro, acompanhado de um sorriso malicioso.
    • A baronesa, conhecendo bem Ouspensky, comentou que os dois lemas refletiam perfeitamente a personalidade de cada um.
  • Tertium Organum é descrito como uma obra de revelação, escrita em 1911 durante os experimentos de Ouspensky com a mudança de consciência, e nela foi incorporada sua apreensão direta do mundo além.
    • O autor foi criticado pela escolha do título, que parecia colocá-lo acima do Organon de Aristóteles e do Novum Organum de Francis Bacon.
    • Ouspensky esclareceu em uma carta que sua intenção era afirmar que uma lógica mais profunda e abrangente existia muito antes dos quadros estreitos de Aristóteles e Bacon.
    • A palavra russa traduzida como “cânon” significa “arma” ou “instrumento”, e o livro visava mostrar como os padrões habituais de pensamento, especialmente os do materialismo científico, aprisionaram o pensamento.
    • A visão de Ouspensky era a de que a consciência humana limitou voluntariamente seu território de exercício, quando na verdade existia um vasto campo além e a perspectiva do mundo noumenal.
  • O ponto de partida de Ouspensky era a proposição kantiana sobre a percepção humana, de que as coisas intuídas não são o mesmo que nossa representação delas na intuição, e ele defendia a necessidade de um novo sistema de lógica onde a ciência deveria chegar ao misticismo.
    • A incerteza implícita na ideia de que nossa percepção do mundo não corresponde às coisas como elas são abria um escopo infinito para discutir as possibilidades de como as coisas realmente são.
  • Ouspensky se apoiou nas teorias de C. H. Hinton sobre a quarta dimensão, que argumentava que o espaço é o instrumento da mente e que a estrutura da mente humana impedia a percepção da quarta dimensão, algo que poderia ser educado.
    • Os exercícios com os cubos de Hinton se tornaram populares nos círculos teosóficos.
    • O próprio Ouspensky, em seus experimentos, teve a visão do Corpo Longo do homem e usou essa percepção para argumentar que a quarta dimensão é o Tempo, sendo o homem em movimento através de sua vida um ser de quatro dimensões.
    • Ele pensava que seus experimentos haviam induzido a experiência do espaço superior, que não deveria ser pensado como dimensões geométricas, mas como diferentes modos de consciência e métodos de receptividade de um mesmo mundo único.
    • A iluminação de Ouspensky ganhou significado pleno com a necessidade de pensar em outras categorias e aprender a imaginar as coisas nelas para depois desenvolver a faculdade de apreender o espaço superior.
  • O problema central permanecia o desenvolvimento de formas superiores de consciência, e Ouspensky, procedendo por analogia com o livro Flatland, considerava como mundos de dimensões superiores apareceriam para seres de uma e duas dimensões.
    • Ele aplicou essa analogia às diferenças entre a consciência animal e a humana, concluindo que se poderia demonstrar a existência de sentidos espaciais inferiores ao humano, então uma consciência superior também seria possível.
    • Ouspensky buscou apoio para seu argumento tanto na matemática (Einstein e Minkovski) quanto no ocultismo (H. P. Blavatsky e outros teósofos).
  • A partir dessa fundação, Ouspensky erigiu uma visão do mundo como um hieróglifo gigante que precisava ser decodificado, uma concepção simbolista, mas com interpretação baseada em seus próprios experimentos místicos.
    • Ele repetiu o mito platônico da caverna e manteve que na arte, e especialmente no sexo, havia indícios do mundo iluminado além da caverna.
    • Analisou os hábitos de pensamento e linguagem que aprisionavam o homem no universo tridimensional e discutiu a possibilidade da consciência superior descrita na literatura hindu.
    • Sua experiência e leitura o convenceram de que a natureza do mundo real era conhecida pelos místicos, e a obtenção da consciência superior poderia ser descrita como unidade com o Todo.
    • Ele fez grandes uso de antologias ortodoxas e teosóficas do misticismo, das obras de William James e de R. M. Bucke, destacando que as experiências místicas são super-lógicas e que o Tertium Organum é a chave para elas.
  • Ouspensky diferiu dos autores teosóficos ao rejeitar a visão de que a evolução para a consciência superior levaria milênios, impulsionado pela urgência de sua própria experiência e pela devoção a Nietzsche.
    • Ele afirmou que o futuro pertencia ao super-homem, que já havia nascido e vivia entre nós, e que uma raça superior estava emergindo da humanidade devido à sua compreensão notável do mundo e da vida.
  • Tertium Organum é considerado um livro extraordinário, escrito com ardor, que fez a reputação de Ouspensky por seu tema central sobre as limitações impostas pelas categorias aceitas à consciência humana, sendo uma obra libertadora.
    • A força do argumento não depende da validade estrita das analogias com as dimensões superiores do espaço.
    • Embora seu argumento em seções sobre matemática de magnitudes infinitas e sobre as diferenças entre consciência animal e humana seja frágil, isso só importa se cada palavra de Ouspensky for tomada como verdade absoluta.
    • Com a publicação de Um Novo Modelo do Universo em 1931, já havia tendências preocupantes nessa direção, encorajadas pelo próprio hábito de Ouspensky de considerar suas verdades pessoais como universalmente válidas.
    • Como apresentação da ideia de que o homem deve tentar expandir sua consciência, Tertium Organum permanece triunfantemente bem-sucedido.
  • Ouspensky não reivindicava grande originalidade, mas sim ter reformulado uma verdade conhecida desde tempos imemoriais por todos os homens de “consciência cósmica”.
    • A experiência do além atuou como um catalisador, unindo as vozes dos vários autores que ele estudava, e ele passou a ver conexões entre livros que considerava precursores de uma nova literatura que romperia as barreiras no pensamento.
    • Seu livro teria um efeito sobre os leitores semelhante ao que suas experiências privadas tiveram sobre ele, permitindo que percebessem as conexões que ele havia encontrado num lampejo de iluminação.
    • Ele eliminou de suas fontes as vaporizações ocultas mais loucas, decodificando e traduzindo as aspirações dos ocultistas para a linguagem comum.
  • O fator de clareza e reinterpretação distingue Tertium Organum de produções similares da intelligentsia mística russa, mas o livro permanece marcado como obra de um intelectual russo, com citações de Vladimir Soloviev e influência de Vasily Rozanov.
    • A edição original continha uma longa refutação das ideias sexuais de Wincenty Lutoslawski, que foi posteriormente removida.
    • Ouspensky concluiu o livro com uma citação do Apocalipse sobre não haver mais tempo, um trecho encontrado em um livro do poeta Alexander Dobrolyubov, figura heroica da intelligentsia mística russa.
    • Apesar de toda a sua inspiração, Tertium Organum fazia parte de uma tradição reconhecível e seus argumentos se tornam mais impressionantes quando se considera o contexto histórico.
  • Em 1913, após a publicação do livro em 1912, Ouspensky conseguiu financiamento de três jornais para uma viagem jornalística à Índia, motivado pela percepção de que os resultados de seus experimentos místicos não eram nem completos nem permanentes.
    • Ele sentia uma sensação de impotência diante do muro que podia vislumbrar por um momento, mas nunca por tempo suficiente para dar conta do que via.
    • Vacilava entre a ideia de fazer experimentos com jejum ou meditação e a de abandonar as práticas ocultas até saber o que estava fazendo.
    • Apesar do poder de revelação de Tertium Organum, ele foi forçado a terminar o livro com uma nota de interrogação, afirmando que o significado da vida está na busca eterna.
    • Sua própria busca voltou-se para a sabedoria oculta, e a questão da escola e do método adquiriu importância predominante, pois ele via claramente que, sozinho, nada podia fazer.
  • Ouspensky era aberto sobre as “fantasias” que o impulsionaram para o Oriente, onde acreditava que poderia encontrar homens que sabiam entre os iogues hindus ou os sufis do Islã, guiado pela ideia de que a arma do pensamento era de dois gumes.
    • Ele havia escrito que o mundo das causas é o mundo do maravilhoso e que o real nos aparece como o maravilhoso, o que abria caminho para um estado de espírito onde tudo era possível.
    • Ele partiu para a Índia com a esperança de penetrar no mundo real, a vida além da vida, em busca do milagroso.
    • A ideia de escolas o fascinava, imaginando a possibilidade de contato com escolas do passado distante, e ele considerava que os obstáculos do tempo e do espaço deveriam desaparecer nesse contato.
    • Apesar do desencorajamento de homens inteligentes em São Petersburgo, ele partiu em sua busca oculta, acreditando que o universo do milagroso estava a um triz de distância.
  • Antes de chegar ao Oriente, Ouspensky viajou a Londres, onde conheceu A. R. Orage e possivelmente G. R. S. Mead, e em Paris refletiu sobre as escolas esotéricas dos maçons que acreditava terem construído Notre Dame.
    • Em Londres, Mme. A. L. Pogossky provavelmente fez uma tradução inglesa de O Simbolismo do Tarô, publicada em São Petersburgo em 1913.
    • De Genoa, onde havia um ramo ativo da Sociedade Teosófica, ele seguiu para o Cairo, onde visitou as Pirâmides, e depois para o Ceilão, onde sua busca propriamente dita começou.
  • Ouspensky chegou ao Oriente ainda mais exaltado, pois sua jornada parecia confirmar suas novas crenças, incluindo a ideia de que na Terra viviam duas espécies diferentes de homens e que a nova raça, consciente de si mesma, julgaria as raças antigas.
    • Viajando entre seus amigos teosóficos pela Europa, ele percebeu indícios de que sua profecia se cumpria, com a intelligentsia europeia, especialmente a de orientação teosófica, formando o núcleo de uma nova ordem.
    • Ele sentia que existia uma sociedade secreta sem nome ou forma, conectada pela comunidade de ideias e linguagem, e que se formava uma nova categoria de homens para quem existiam valores diferentes.
  • No Ceilão, hospedado perto de Colombo, visitou bhikkus e investigou o budismo, convencido de que por trás da teoria árida e materialista de libertação do sofrimento havia um budismo esotérico preocupado com métodos para atingir a iluminação.
    • O intelectualismo de seus conhecidos budistas o irritava, pois ele buscava o milagroso, que sentia estar presente em algum lugar, uma brecha na cortina por onde o milagre irrompia no mundo.
    • Em um pequeno templo perto de Colombo, diante de uma imagem de Buda com olhos de safira, ele teve a experiência de ser visto pela divindade, que lhe revelou o que estava escondido nos recessos de sua alma.
    • Ele sentiu que o olhar dos olhos de safira ordenava e acalmava a inquietação interior, conferindo iluminação e compreensão, tornando os bhikkus eruditos irrelevantes para sua busca.
  • Do Ceilão, Ouspensky foi para Madras e passou seis semanas em Adyar, sede da Sociedade Teosófica, um local de peregrinação tradicional para ocidentais em busca de iluminação, onde conviveu com figuras como Conde Keyserling e Boris Soloviev.
    • De acordo com o relato de J. G. Bennett, havia uma hierarquia em Adyar, e Ouspensky foi admitido no grupo esotérico do andar superior.
    • Sua estadia não parece tê-lo impressionado profundamente, embora ainda não estivesse totalmente desiludido com as ideias teosóficas, tendo encontrado alguns livros que incluíram em edições posteriores de Tertium Organum.
    • Ele preservou o respeito pela literatura teosófica inicial, mas seus comentários críticos sobre a teosofia posterior, especialmente sobre Leadbeater, têm o sabor de quem condena as ilusões da juventude.
    • Ele concluiu que a teosofia, que começou como uma busca revolucionária pelo maravilhoso, logo se afastou disso e parou em algumas verdades encontradas, convertendo-as em dogmas indiscutíveis.
  • Sua busca por homens em posse de conhecimento esotérico continuou, mas ele ficou insatisfeito tanto com as escolas devocionais quanto com as baseadas em exercícios de ioga, que despertavam sua desconfiança por dependerem da criação de estados de transe.
    • Ele conheceu pessoas simpáticas ligadas a escolas como os Vedantistas de Ramakrishna, mas sentiu que elas não possuíam conhecimento real.
    • Havia rumores de escolas com conhecimento real, mas que exigiam muito do pupilo, e submeter-se a elas exigiria uma ruptura completa com sua vida anterior, o que ele não queria fazer.
  • O milagroso irrompeu novamente diante do Taj Mahal, onde, em um lampejo de percepção, ele resolveu o enigma do mausoléu, experimentando a alegria maravilhosa da libertação.
    • Para Ouspensky, o Taj Mahal representava o segredo da morte, com a pequena luz sobre o túmulo simbolizando a vida terrena e o edifício gracioso que a envolvia representando a vida eterna, ou a alma.
    • Foi-lhe revelado o significado oculto dos construtores sufis: a alma do imperador estava incorporada na criação, assim como o Taj Mahal, que continha seu corpo, parecia se fundir com o céu e os jardins circundantes.
    • Ele compreendeu que a alma do homem não está contida em seu corpo físico, mas que o corpo vive e se move na alma.
    • A visita noturna e a visita do dia seguinte ao jardim confirmaram sua impressão de que o Taj Mahal era uma alegoria sufi, demonstrando a unidade de todas as coisas, segundo o princípio “como acima, assim abaixo”.
  • Retornando ao Ceilão no final de 1914, Ouspensky esperava encontrar um conhecido que o introduziria a certos iogues, mas foi recebido pela notícia do início da Primeira Guerra Mundial, o que perturbou todos os seus planos.
    • A guerra significou que ele não pôde continuar sua busca no Oriente e teve de adiar outras viagens planejadas para a Ásia Central e o Oriente Médio.
    • De volta à Europa, ele se viu inicialmente infectado pela febre da guerra, que jogou em confusão tudo o que ele pensava sobre os resultados de sua busca.
    • Ao retornar a São Petersburgo, suas velhas associações reviveram e ele voltou a sentir que sua busca era mais importante que a histeria dos políticos, com a guerra assumindo um significado particular na lógica da quarta dimensão.
    • A guerra explicava sua sensação de urgência na busca e, ao mesmo tempo, fornecia um lembrete sombrio da necessidade de pressa no futuro e da impossibilidade de acreditar numa vida que não levava a lugar nenhum.
  • Ouspensky explorou um significado mais sinistro da guerra na história “O Diabo Benévolo”, ambientada em suas viagens pela Índia, onde o diabo descreve os artifícios usados para impedir a humanidade de obter conhecimento do mundo real.
    • Na história, o diabo afirma que o reino da matéria é eterno e que ideias transcendentais ou religiosas constituem o principal perigo para o domínio diabólico.
    • O diabo usa como exemplo um jovem inglês no Ceilão, cujo demônio pessoal o distrai de seus interesses transcendentais com atividades mundanas, como navegar ou comer uma grande refeição indiana.
    • A existência de muitos buscadores como esse inglês força o diabo a usar métodos especiais, revelados no final quando o jovem é visto marchando à frente de um regimento escocês em Londres.
    • A história expressa a amarga decepção de Ouspensky de que o grupo seleto capaz de consciência cósmica fosse disperso e tivesse suas possibilidades destruídas pela natureza bruta da guerra.
  • O diabo nas obras de Ouspensky não é uma criação fundamentalista, mas algo criado pelo próprio homem, como ele deixa claro ao descrever a carta do Tarô, na qual o diabo se apresenta como a mentira inventada pelos homens como desculpa para o mal que fazem.
    • Na história, “escapar da realidade significa escapar do diabo”, e Leslie White desaparece da visão de seu atormentador quando está imerso em coisas superiores ou absorvido em leitura.
    • A busca de Ouspensky por uma vida além da vida o levou a negar a existência da matéria, adotando uma visão gnóstica de que o homem deve se libertar da Grande Matéria, que no Tertium Organum é equiparada ao mundo irreal da consciência tridimensional.
    • Para ele, sentir o infinito exigia entender a irrealidade de tudo o que é material e factual, e a realidade da fantasia e do mundo da imaginação, pois o mundo material não existe.
  • A Grande Guerra representou a vitória do diabo no homem e a imersão da civilização europeia na Grande Matéria, com os imperativos de sobrevivência impedindo o nascimento da nova raça que Ouspensky havia previsto.
    • A guerra foi um golpe que ele levou quase pessoalmente, pois não quis acreditar nela e demorou a reconhecer sua realidade.
    • O ano na Índia o livrou de muitas ilusões, como as fantasias de contato com escolas esotéricas em outro plano, e ele percebeu que sua busca deveria ser direcionada para escolas cujos mestres fossem de carne e osso.
    • Ele também não descobriu fatos concretos do milagroso que dessem substância às lendas milagrosas do Hindustão, encontrando apenas ilusionistas sem interesse e um faquir com expressão entediada.
  • No entanto, a busca pelo milagroso permaneceu sua paixão motriz, agora com premissas ligeiramente diferentes, e os fatos que ele já havia descoberto, como suas experiências místicas, a interpelação do Buda de olhos de safira e a revelação do Taj Mahal, eram possessões inalienáveis mais importantes que as loucuras dos políticos.
    • Se a guerra havia rompido os elos da nova raça, também havia dado um impulso poderoso às aspirações tradicionais da Santa Rússia, tornando sua busca relevante para muitos que viam a guerra como um gigantesco memento mori.
    • Ele teve confirmação disso ao retornar a São Petersburgo, onde em fevereiro e março de 1915 proferiu palestras sobre suas viagens no salão da Duma Municipal, intituladas “Em Busca do Milagroso” e “Os Problemas da Morte”, com um público de mais de mil pessoas em cada uma.
    • Ele sentiu que, com base na busca pelo milagroso, seria possível unir um grande número de pessoas que não conseguiam mais engolir as formas costumeiras de mentir e viver na mentira.
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