autores-obras:webb:instituto

Instituto para o Desenvolvimento Harmônico do Homem

WEBB, James. The harmonious circle: the lives and work of G.I. Gurdjieff, P.D. Ouspensky, and their followers. Boston: Shambhala, 1987.

  • O Instituto para o Desenvolvimento Harmônico do Homem foi estabelecido por Gurdjieff no Prieuré des Basses Loges, em Fontainebleau, uma propriedade adquirida em outubro de 1922 que se tornou o centro de suas operações na Europa.
    • O château, com seus jardins supostamente desenhados por Le Nôtre e uma extensão de terras, abrigava uma colônia onde os pupilos viviam em condições espartanas, com a maioria dormindo em sótãos no “Corredor dos Monges”, enquanto Gurdjieff e sua comitiva ocupavam os aposentos luxuosos.
    • Os primeiros pupilos ingleses encontraram Gurdjieff inicialmente em Paris, onde foram submetidos a um trabalho febril de até quatorze horas diárias em vários ofícios manuais, com a palavra de ordem sendo superar dificuldades e fazer esforço.
    • O contingente do Instituto, que segundo o prospecto exagerava ter cinco mil membros, contava na realidade com cerca de sessenta a setenta residentes, sendo metade do Leste Europeu e a outra metade composta por ingleses, incluindo médicos como Nicoll e Young, literatos como Orage e Katherine Mansfield, e alguns funcionários públicos e diplomatas.
  • O prospecto do Instituto anunciava um programa ambicioso dividido em seções teórica, prática e médica, com uma longa lista de disciplinas que iam desde ciência do desenvolvimento harmonioso e psicologia até astrofísica, alquimia e estudo comparado de religiões.
    • A seção prática incluía “ritmo harmônico”, exercícios especiais para memória e vontade, danças orientais (sacras), e ofícios e artes aplicadas, enquanto a seção médica listava uma série extraordinária de terapias, como hidroterapia, fototerapia, eletroterapia e “dulioterapia”, além de gabinetes físico-métricos e químico-analíticos que, na prática, tinham pouca ou nenhuma existência concreta.
    • O elaborado “Registro Historométrico Individual”, um formulário para pacientes seguirem um programa individual de nove meses, provavelmente nunca foi usado, e Gurdjieff recorreu a métodos coletivos, vendo o Instituto como um local de incubação onde ele fornecia o calor e os pupilos tinham que tentar quebrar a casca.
  • O método coletivo envolvia uma aplicação intensa a tarefas manuais exaustivas, como jardinagem, construção e serviços domésticos, com horários que frequentemente reduziam o sono a apenas algumas horas por noite, em um esforço deliberado para impedir que os pupilos caíssem na rotina.
    • A principal construção foi a Study House, erguida a partir de um antigo hangar de aeronaves, que se tornou o centro das atividades mais vistosas do ensino de Gurdjieff, com seu interior ricamente decorado com tapeçarias, um sistema de fontes perfumadas e uma série de textos em uma escrita peculiar.
    • A Study House servia como local para as demonstrações dos “movimentos” e danças sagradas, que se dividiam em tradições coletadas por Gurdjieff no Oriente, interpretações dramáticas como a “Iniciação da Sacerdotisa” e exercícios baseados no princípio de manter os vários centros trabalhando em plena capacidade.
  • Os exercícios incluíam movimentos fisicamente exaustivos que exigiam a coordenação de até quatro ritmos distintos, combinados com complexos exercícios mentais, como aritmética com leis distorcidas ou memorização de códigos, forçando os pupilos a exercitar os centros intelectual e físico simultaneamente.
    • O valor desses exercícios não estava no resultado em si, mas no esforço despendido, e para alguns participantes, os movimentos e a música composta por Thomas de Hartmann a partir de indicações de Gurdjieff alinhavam o pupilo com as harmonias do universo, provocando reações emocionais precisas.
    • Para Katherine Mansfield, uma dança de cerca de sete minutos continha toda a vida da mulher, ensinando-lhe mais do que qualquer livro ou poema.
  • A atmosfera no Prieuré era de um isolamento deliberado do mundo exterior, onde Gurdjieff criava condições para que os pupilos se desenvolvessem, utilizando todas as situações, desde o trabalho mais humilde até os conflitos interpessoais, como material para “trabalhar sobre si mesmo”.
    • Gurdjieff empregava o que chamava de “sofrimento intencional”, expondo os pupilos a aspectos de si mesmos que preferiam ignorar, com atividades como proibir um leitor ávido de ler ou dar a tarefa de abater animais a alguém que não suportava ver sangue.
    • A presença onipresente do mestre, com suas mudanças mercuriais de caráter e sua capacidade de inspirar tanto admiração quanto dependência supersticiosa, criava um ambiente onde as reações dos pupilos eram constantemente provocadas e examinadas.
  • A natureza contraditória do Instituto era evidente para os visitantes, que podiam testemunhar tanto a aparente crueldade de Gurdjieff durante os exercícios quanto sua gentileza inesperada no dia seguinte, uma dualidade que levava alguns pupilos a questionar se estavam diante de dois seres diferentes ou de aspectos de um mesmo homem.
    • Maurice Nicoll questionou se as dificuldades que Gurdjieff sabia que criava tinham o mesmo valor para o trabalho que aquelas que ele não sabia que criava, enquanto outros pupilos, como James Young, permaneceram imunes à infecção da devoção cega, chegando a se decepcionar com o que consideravam “charlatanice” em torno da figura do mestre.
    • A resposta de Gurdjieff a essas questões veio em uma palestra onde afirmou que o Instituto existia para criar condições que expusessem os piores lados das pessoas, e que os pupilos deveriam usar tudo o que acontecia como um meio para trabalhar sobre si mesmos, sem se importar com a opinião dos outros ou com a dele próprio.
  • O caso de Katherine Mansfield ilustra o papel do Instituto como um lugar de transformação pessoal para indivíduos com problemas específicos, onde ela chegou em outubro de 1922 em estado terminal, buscando uma integração entre corpo e espírito que a medicina convencional não oferecia.
    • Inicialmente em período de observação devido à sua condição física, ela foi instruída por Gurdjieff a observar os outros pupilos, envolvendo-se gradualmente em atividades como estudo de fabricação de tapetes, aprendizado de russo e exercícios de contagem.
    • Sua correspondência com o marido, Middleton Murry, revela a intensidade de sua experiência e a dificuldade de expressar o conteúdo interior da vida no Prieuré, onde ela sentia ter iniciado sua educação aos 34 anos.
    • Apesar das privações e do desconforto físico, ela descreveu uma sensação de estar em uma “nova vida”, com um senso de propósito e uma crença emergente que culminaram em uma revelação sobre uma nova abordagem para a literatura, onde os detalhes antigos formavam um novo padrão.
  • A morte de Katherine Mansfield em 9 de janeiro de 1923, após uma hemorragia logo após a chegada de Murry, gerou controvérsia, mas para Murry, ela havia feito do Instituto um instrumento para o processo de auto-aniquilação necessário ao renascimento espiritual, alcançando seu propósito.
    • O caso foi usado pela imprensa britânica para aumentar a curiosidade sobre Gurdjieff, com artigos no Daily Mirror e Daily News que descreviam o Instituto e geraram debates nos jornais, incluindo cartas de J. D. Beresford e J. W. N. Sullivan se dissociando do trabalho.
    • Clifford Sharp, editor do New Statesman, defendeu o Instituto em artigos, comparando-o à comunidade de Pitágoras e afirmando que Gurdjieff possuía conhecimento muito à frente da ciência europeia, embora críticos como Edwyn Bevan tenham alertado para os perigos da tradição esotérica secreta e do tipo de seguidores que ela atraía.
  • O caso de A. R. Orage mostra a trajetória de um intelectual que, após um período inicial de dúvidas e sofrimento físico extremo com o trabalho manual e a privação do tabaco, alcançou um ponto de virada e estabeleceu uma relação de camaradagem com Gurdjieff, tornando-se seu principal propagandista.
    • Orage foi escolhido por Gurdjieff para acompanhar Dr. Stoerneval aos Estados Unidos no outono de 1923, uma missão que fazia parte dos planos do mestre para angariar fundos e expandir seu trabalho, diante das crescentes despesas do Instituto e da necessidade de descanso.
    • Como um ensaio para a aventura americana, Gurdjieff organizou uma série de demonstrações em Paris no Natal de 1923 no Théâtre des Champs-Élysées, apresentando movimentos, música e “fenômenos religiosos” que incluíam truques de ilusionismo, meio-truques e fenômenos reais.
    • As demonstrações geraram interesse ambíguo na imprensa, mas consolidaram a imagem de Gurdjieff como um empresário enigmático, enquanto Ouspensky, que havia se separado definitivamente de Gurdjieff em janeiro de 1924, observava a transformação com sentimentos mistos, afirmando a seus pupilos em Londres que a associação havia terminado.
autores-obras/webb/instituto.txt · Last modified: by 127.0.0.1

Except where otherwise noted, content on this wiki is licensed under the following license: Public Domain
Public Domain Donate Powered by PHP Valid HTML5 Valid CSS Driven by DokuWiki