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Revoluções dentro e fora

WEBB, James. The harmonious circle: the lives and work of G.I. Gurdjieff, P.D. Ouspensky, and their followers. Boston: Shambhala, 1987.

  • Após a Páscoa de 1915, Ouspensky viajou a Moscou para palestrar, onde foi procurado por Pohl e Merkouroff, que lhe falaram de um misterioso grego caucasiano que dirigia um grupo “oculto”, embora Ouspensky, em sua nova atitude crítica, não tenha se impressionado com os milagres que lhe contaram.
    • Merkouroff fez esforços persistentes para que Ouspensky concordasse em conhecer Gurdjieff, indicando que este tinha a intenção de atraí-lo.
    • Gurdjieff era vigilante em relação a pessoas que pudessem lhe ser úteis, e pode ter notado Ouspensky já em 1912, chegando a dar a seus pupilos a tarefa de ler os livros do jornalista para determinar sua natureza e o que ele encontraria na Índia.
  • As dúvidas iniciais de Ouspensky se dissiparam no primeiro encontro com Gurdjieff, que lhe respondeu perguntas com precisão, mas a impressão foi de estranheza, pois o oriental de bigode preto e olhos penetrantes parecia um homem mal disfarçado, completamente fora do lugar no pequeno café.
    • Gurdjieff falava russo incorretamente, com sotaque caucasiano, e usava um sobretudo preto com gola de veludo e um chapéu-coco, contrastando com a imagem de um rajá indiano ou sheik árabe que Ouspensky projetava nele.
    • Em uma reunião subsequente com os pupilos de Gurdjieff, Ouspensky ficou fascinado, apesar de não entender a leitura, das pessoas não responderem suas perguntas e de sentir uma estranha influência de G., que lhe provocou um desejo inesperado de rir, gritar e cantar.
  • Na semana seguinte, Ouspensky continuou a encontrar Gurdjieff no mesmo café e percebeu que ele criava deliberadamente condições desfavoráveis para as conversas e disfarçava ideias profundamente verdadeiras com uma aparência de falsidade.
    • Gurdjieff cobrava mil rublos por um ano de trabalho, justificando que pessoas que não podiam pagar tal quantia eram provavelmente fracas na vida e, portanto, poderiam ser fracas no trabalho, e que o conhecimento só era valorizado quando pago.
    • Ouspensky sentiu que Gurdjieff estava representando um papel exagerado, especialmente ao tentar convencê-lo sobre a questão do dinheiro quando ele já não precisava de convencimento.
  • Após uma semana, Ouspensky retornou a São Petersburgo para preparar livros para publicação, e no outono de 1915 recebeu um telefonema de Gurdjieff, que fazia visitas periódicas, dando início à formação do “grupo de São Petersburgo”.
    • Foi Ouspensky quem mais contribuiu para criar o seguimento de Gurdjieff em São Petersburgo, atuando como seu braço direito e principal divulgador, usando seu prestígio como autor e palestrante para atrair pessoas cansadas da guerra.
    • Anna Butkovsky, que se tornara companheira próxima de Ouspensky antes de sua viagem à Índia, foi rapidamente apresentada a Gurdjieff e, junto com outros como Anthony Charkovsky, Andrei Z- e Dr. Leonid Stoerneval, formou o círculo íntimo que se reunia no Café Phillipoff.
  • Entre os pupilos desse período, figuras como Sophia Grigorievna, que se tornou “Mme. Ouspensky”, e a Sra. Ostrowsky, conhecida como a “esposa” de Gurdjieff, permanecem envoltas em mistério.
    • Sophia Grigorievna, nascida em 1874, era duas vezes divorciada e tinha uma filha, e é provável que ela e Ouspensky nunca tenham sido legalmente casados, talvez por conselho de Gurdjieff.
    • Mme. Ostrowsky, uma polonesa, mantinha seu próprio nome e gozava de uma posição privilegiada no Trabalho, levantando especulações sobre a possibilidade de Gurdjieff ainda ter uma esposa viva na Ásia Central.
  • Os métodos de Gurdjieff em São Petersburgo inicialmente causaram confusão, pois ele gostava de convocar reuniões de última hora, mudava de planos sem aviso e agia de forma teatral, como representar o papel de um simples vendedor de tapetes ou presidir grandes jantares dos quais ele próprio pouco comia.
    • Suas táticas podiam parecer perversamente contrárias, como quando, em uma palestra para a Sociedade Geográfica de Moscou, após falar com autoridade sobre o Deserto de Gobi, ele descreveu uma história de diamantes e abutres das Mil e Uma Noites, lançando dúvidas sobre toda a substância de sua fala.
    • A lição parecia ser direcionada aos acadêmicos ou a Ouspensky, que era intelectual e zeloso de sua posição perante seus pares.
  • Sob essa tutela perturbadora, o grupo de São Petersburgo começou a se familiarizar com o que chamavam de “o Sistema”, um corpo de ideias coerente que abrangia cosmologia, psicologia, evolução e estrutura da matéria, conduzindo a um ponto onde o próprio pensamento era anulado.
    • A natureza peculiar de Em Busca do Milagroso, o livro de Ouspensky sobre esse período, é definida por sua extraordinária honestidade e simultânea sutileza enganosa, sendo ao mesmo tempo um relato preciso dos ensinamentos de Gurdjieff na Rússia e um reflexo da própria busca de Ouspensky.
    • O título do livro, idêntico ao de seus esboços sobre viagens orientais, coloca o registro dos ensinamentos de Gurdjieff na sequência histórica da busca pessoal de Ouspensky, que continuava procurando o milagroso.
  • O conteúdo do que Gurdjieff ensinou a Ouspensky entre 1916 e 1917 começava com a premissa de que o homem está dormindo, é uma máquina, e tudo acontece; ninguém pode fazer nada, pois as forças do universo operam através dele.
    • A situação do homem foi comparada a uma prisão, da qual só se pode escapar com a ajuda de alguém que já escapou antes, formando um grupo que obedece a certas regras e trabalha em si mesmo sob a direção de um Homem Que Sabe.
    • O trabalho sobre si mesmo incluía exercícios básicos como a auto-observação, a tentativa de “lembrar-se de si mesmo” e o trabalho sobre o “considerar”, que se dividia em considerar interno (a ser evitado) e considerar externo (a ser cultivado).
  • O homem foi descrito como um “ser tricerebral” com centros que governam sua atividade: o centro intelectual, o centro emocional e o centro motor, aos quais posteriormente se juntaram outros, como os centros superior intelectual e superior emocional, que existem mas não são usados.
    • Foram definidos sete números de homem: os números um, dois e três são os homens conhecidos, com centros de gravidade no centro motor, emocional e intelectual, respectivamente, consistindo em uma centena de pequenos “eus” conflitantes.
    • O homem número quatro é resultado do trabalho em grupos, tendo começado a equilibrar seus centros e um centro de gravidade permanente ligado ao trabalho de autodesenvolvimento.
    • Os homens números cinco, seis e sete representam estágios progressivos de unidade, consciência, vontade e individualidade permanentes, culminando no homem número sete, que possui tudo o que um homem pode possuir.
  • Duas leis cósmicas fundamentais regem o funcionamento do universo e da máquina humana: a Lei de Três e a Lei de Sete.
    • A Lei de Três afirma que todo fenômeno é o resultado da combinação de três forças diferentes e opostas: ativa, passiva e neutralizante, conhecidas como Santa Afirmativa, Santa Negativa e Santa Reconciliadora.
    • A Lei de Sete, ou Lei da Oitava, governa o desenvolvimento dos processos ao longo do Raio da Criação, que compreende sete mundos, desde o Absoluto até a Lua, sendo a Terra um lugar de matéria muito pesada, sujeita a um grande número de leis mecânicas.
    • A vida orgânica na Terra, da qual o homem faz parte, tem a função cósmica de preencher o intervalo na oitava descendente do Raio da Criação, transmitindo e transformando energias.
  • O homem se alimenta de três tipos de alimento: o que come, o ar que respira e suas impressões; através do trabalho sobre si mesmo, ele pode transformar essas matérias grosseiras em matérias mais finas, um processo alquímico de transmutação que permite adquirir corpos superiores.
    • Os quatro corpos possíveis para o homem são o corpo carnal, o corpo natural das emoções e desejos, o corpo espiritual das funções mentais e o corpo divino da consciência e da vontade, comparados a uma carruagem, o cavalo, o cocheiro e o senhor.
    • A substância mais fina fabricada pelo organismo é aquela com a qual o sexo trabalha, e o uso indevido do sexo impossibilita o início da transmutação.
  • Algo deu errado no funcionamento do organismo humano, fazendo com que a “linha do conhecimento” ultrapassasse a “linha do ser”, e a falsa personalidade, alimentada pelo sono e por “amortecedores” (buffers), obscurece a essência, que é o que o homem realmente é.
    • O trabalho sobre si mesmo visa libertar o homem da falsa personalidade, lutando para não se identificar com preocupações momentâneas e aprendendo a “representar um papel”, até que possa descobrir sua “Característica Principal”.
    • Todo esse complexo de ideias foi resumido por Gurdjieff em um símbolo chamado eneagrama, que contém e simboliza o universo inteiro, mostrando como apenas “choques” administrados por um Homem Que Sabe podem ajudar o homem a cruzar os intervalos da oitava.
  • As ideias de Gurdjieff causaram um impacto extraordinário em seus pupilos, confrontando-os com um sistema aparentemente oculto que contradizia corpos de ideias ocultas conhecidos, como ao redefinir “Kundalini” como imaginação, o poder da fantasia que mantém o homem adormecido.
    • Gurdjieff chamou seu ensino de “Quarto Caminho” ou “Caminho do Homem Astuto”, que evita as armadilhas do desenvolvimento desequilibrado encontradas nos outros três caminhos: o caminho intelectual do iogue, o caminho emocional do monge e o caminho físico do faquir.
    • Para refugiados da ciência positivista, Gurdjieff expressava a transformação de energias em termos de forças nomeadas com elementos químicos, como “carbono”, “oxigênio” e “nitrogênio”, com cifras numéricas indicando sua posição na escala de densidade da matéria.
  • O registro de Ouspensky enfatizou tópicos de seu interesse pessoal, como a recorrência eterna, sobre a qual finalmente extraiu de Gurdjieff um endosso qualificado, e a arte “objetiva”, cujo ensino foi provocado por suas perguntas sobre arte.
    • Quando Gurdjieff elaborou sua doutrina sobre os diferentes mundos no Raio da Criação, ele pediu a Ouspensky que expandisse o material de seu próprio ponto de vista sobre a multidimensionalidade, o que o excitou muito.
    • O ponto de transição de Ouspensky de fascinado pelas ideias para um compromisso mais profundo com a atividade prática ocorreu quando Gurdjieff perguntou aos membros do grupo o que cada um realmente queria, e Ouspensky confessou que queria “saber o futuro”.
  • Gurdjieff respondeu que o futuro seria igual ao passado, e que antes de tentar algo tão ambicioso, um homem deve prestar atenção à sua própria máquina, começando pela auto-observação, cujo resultado mais importante é a percepção de que não se pode lembrar de si mesmo.
    • Com a prática, Ouspensky descobriu que conseguia atingir a condição de “autolembrança” por curtos períodos, uma experiência de atenção direcionada tanto a um objeto quanto a si mesmo, que Maurice Nicoll e Henri Tracol descreveram como um esforço para separar-se da falsa personalidade e sentir um estado superior de si mesmo.
    • Ouspensky passou a ver a prática da autolembrança como o ponto central do ensino de Gurdjieff, e sua atitude havia se alterado significativamente, concentrando-se agora em “despertar”, com a palavra de ordem dos pupilos sendo “trabalhar sobre si mesmo”, ou simplesmente “o Trabalho”.
  • Em agosto de 1916, durante uma estadia em uma dacha na Finlândia, Ouspensky passou por uma experiência que considerou um milagre, onde começou a ouvir os pensamentos de Gurdjieff, primeiro como perguntas dirigidas a ele e depois como uma voz dentro de seu próprio peito.
    • Em uma conversa que durou meia hora, Gurdjieff fez perguntas sobre certas condições que Ouspensky tinha de aceitar ou deixar o Trabalho, levando-o a sair correndo para a floresta em grande agitação.
    • O resultado do episódio foi a convicção de que todas as críticas de Gurdjieff estavam corretas e, mais importante, o enfraquecimento de seu individualismo extremo e a compreensão prática da inutilidade da violência como meio para atingir qualquer objetivo.
  • Após o episódio na Finlândia, no outono e inverno de 1916, Gurdjieff expandiu grandemente sua cosmologia e começou a deixar o grupo de São Petersburgo mais entregue a si mesmo, enquanto as circunstâncias externas da guerra e da agitação social se tornavam impossíveis de ignorar.
    • O sentimento de desastre iminente que envolvia os amigos de Ouspensky aumentou seu interesse pelas ideias de Gurdjieff, que ensinava que a guerra era o resultado do homem não produzir certas energias, e seus pupilos começaram a comparar o Sistema à Arca de Noé.
    • Um dos novos recrutas nesse período sombrio foi o compositor Thomas Alexandrovich de Hartmann, que, após uma busca espiritual que o levou a contato com círculos antroposóficos e teosóficos, foi apresentado a Gurdjieff por A. A. Zaharoff.
  • De Hartmann, que teve que se encontrar com Gurdjieff em um café frequentado por prostitutas para não ser visto por oficiais da guarda, ficou impressionado apesar da aparência desleixada e das observações ofensivas do mestre, que recusou seus mil rublos de entrada, dizendo que o tempo viria em que ele ficaria feliz em entregar todos os seus bens mundanos.
    • Em fevereiro de 1917, Gurdjieff fez sua última visita a São Petersburgo antes de partir para Moscou, e quando um jornalista o confundiu com um especulador de guerra, Gurdjieff respondeu, com um sorriso calmo, que lucravam com tudo, “energia solar”.
    • Após a abdicação do czar em março de 1917 e a crescente agitação, Ouspensky propôs a emigração ao grupo, mas a maioria discordou, e um cartão postal de Gurdjieff, escrito antes da Revolução, anunciava sua ida para Alexandropol, no Cáucaso, pedindo que Ouspensky continuasse o trabalho.
  • Em junho de 1917, Ouspensky recebeu um telegrama de Gurdjieff convidando-o para Alexandropol, e ao chegar, encontrou-o montando um dínamo para seu irmão, em um ambiente que lhe agradava pelas associações românticas com o Cáucaso.
    • Gurdjieff recusou a sugestão de emigrar, alegando que circunstâncias aparentemente desfavoráveis acabariam por trabalhar a seu favor, e alugou uma casa em Essentuki, uma região de spas no Cáucaso central.
    • Por seis semanas, Gurdjieff trabalhou com seus pupilos na pequena casa alugada, introduzindo o conceito de “superesforços” para conectar um centro a uma fonte quase ilimitada de energia, e exercícios como o “Pare”, onde os pupilos congelavam em posições desconfortáveis.
  • Exercícios físicos de um novo padrão foram introduzidos, envolvendo a coordenação de movimentos com contagens e respiração, considerados por Gurdjieff apenas como preparatórios, enquanto mais pessoas chegavam, incluindo Thomas e Olga de Hartmann, que trouxeram sua criada, sem apreciar plenamente o tipo de vida que experimentariam.
    • Gurdjieff alternava seus humores erraticamente, falando em abandonar todo o trabalho e ir para a Pérsia, quebrando pedras nas estradas para ganhar dinheiro, e submetendo os recém-chegados a provações como caminhadas exaustivas pela costa do Mar Negro.
    • Quando Thomas de Hartmann adoeceu com tifo, Gurdjieff cuidou dele e, segundo o relato, fez algo que afrouxou o controle da doença, enquanto a situação política se complicava com o avanço dos bolcheviques e a agitação de separatistas caucasianos e tropas turcas.
  • Em março de 1918, após um período de trabalho intenso em Essentuki, cerca de quarenta pessoas se reuniram na colônia, onde a vida era espartana e Gurdjieff nunca cessava de criar dificuldades, como vender fios de seda para obter fundos, impor jejuns e exercícios de comunicação por código alfabético de posições corporais.
    • Gurdjieff manipulava a vida de seus pupilos como um artista em um instrumento, pedindo joias e depois devolvendo-as, e criando situações que tinham significado no contexto do Trabalho invisível que estava em andamento.
    • Os “movimentos” e “danças sagradas” introduzidos tinham propósitos que iam além do desenvolvimento da coordenação, sendo apresentados como problemas a serem resolvidos, e a intensidade das experiências dos pupilos não pode ser totalmente compreendida apenas pelo fascínio exercido por Gurdjieff.
  • Durante o verão de 1918, a situação política na área de Essentuki se deteriorou, e a chegada inesperada de quase trinta parentes de Gurdjieff, fugidos de Alexandropol, aumentou suas responsabilidades materiais, enquanto seu pai não escapou e foi morto pelo exército invasor.
    • Nesse contexto, Ouspensky começou a sentir que havia muitas coisas que não conseguia entender e que precisava se separar de Gurdjieff, embora não tivesse dúvidas sobre as ideias em si.
    • Ouspensky concluiu que os métodos de Gurdjieff não lhe serviam, pois o estavam levando em uma direção diferente da que havia sido indicada inicialmente, comparando sua situação a ser conduzido ao caminho do monge, que não era o seu caminho.
  • Após uma grande luta interna, Ouspensky decidiu deixar Gurdjieff e começar a trabalhar de forma independente, retornando ao material que vinha organizando desde 1911, que seria publicado como Um Novo Modelo do Universo.
    • Ele permaneceu em Essentuki até que o próprio Gurdjieff partiu, em agosto de 1918, com um grupo que incluía os de Hartmann, usando o pretexto de uma expedição arqueológica para fugir da zona de combate, enquanto Ouspensky, que hesitou, ficou preso com os bolcheviques quando os cossacos cortaram a linha férrea.
    • A revolução externa começou a determinar o eixo de sua vida interior, e a separação física de Gurdjieff marcou o fim de um ciclo, com Ouspensky se sentindo “muito bobo” por não ter ido para o exterior quando era possível.
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