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Revoluções dentro e fora
WEBB, James. The harmonious circle: the lives and work of G.I. Gurdjieff, P.D. Ouspensky, and their followers. Boston: Shambhala, 1987.
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Após a Páscoa de 1915, Ouspensky viajou a Moscou para palestrar, onde foi procurado por Pohl e Merkouroff, que lhe falaram de um misterioso grego caucasiano que dirigia um grupo “oculto”, embora Ouspensky, em sua nova atitude crítica, não tenha se impressionado com os milagres que lhe contaram.As dúvidas iniciais de Ouspensky se dissiparam no primeiro encontro com Gurdjieff, que lhe respondeu perguntas com precisão, mas a impressão foi de estranheza, pois o oriental de bigode preto e olhos penetrantes parecia um homem mal disfarçado, completamente fora do lugar no pequeno café.Na semana seguinte, Ouspensky continuou a encontrar Gurdjieff no mesmo café e percebeu que ele criava deliberadamente condições desfavoráveis para as conversas e disfarçava ideias profundamente verdadeiras com uma aparência de falsidade.
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Gurdjieff cobrava mil rublos por um ano de trabalho, justificando que pessoas que não podiam pagar tal quantia eram provavelmente fracas na vida e, portanto, poderiam ser fracas no trabalho, e que o conhecimento só era valorizado quando pago.
Após uma semana, Ouspensky retornou a São Petersburgo para preparar livros para publicação, e no outono de 1915 recebeu um telefonema de Gurdjieff, que fazia visitas periódicas, dando início à formação do “grupo de São Petersburgo”.Entre os pupilos desse período, figuras como Sophia Grigorievna, que se tornou “Mme. Ouspensky”, e a Sra. Ostrowsky, conhecida como a “esposa” de Gurdjieff, permanecem envoltas em mistério.-
Mme. Ostrowsky, uma polonesa, mantinha seu próprio nome e gozava de uma posição privilegiada no Trabalho, levantando especulações sobre a possibilidade de Gurdjieff ainda ter uma esposa viva na Ásia Central.
Os métodos de Gurdjieff em São Petersburgo inicialmente causaram confusão, pois ele gostava de convocar reuniões de última hora, mudava de planos sem aviso e agia de forma teatral, como representar o papel de um simples vendedor de tapetes ou presidir grandes jantares dos quais ele próprio pouco comia.-
Suas táticas podiam parecer perversamente contrárias, como quando, em uma palestra para a Sociedade Geográfica de Moscou, após falar com autoridade sobre o Deserto de Gobi, ele descreveu uma história de diamantes e abutres das Mil e Uma Noites, lançando dúvidas sobre toda a substância de sua fala.
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A lição parecia ser direcionada aos acadêmicos ou a Ouspensky, que era intelectual e zeloso de sua posição perante seus pares.
Sob essa tutela perturbadora, o grupo de São Petersburgo começou a se familiarizar com o que chamavam de “o Sistema”, um corpo de ideias coerente que abrangia cosmologia, psicologia, evolução e estrutura da matéria, conduzindo a um ponto onde o próprio pensamento era anulado.O conteúdo do que Gurdjieff ensinou a Ouspensky entre 1916 e 1917 começava com a premissa de que o homem está dormindo, é uma máquina, e tudo acontece; ninguém pode fazer nada, pois as forças do universo operam através dele.-
A situação do homem foi comparada a uma prisão, da qual só se pode escapar com a ajuda de alguém que já escapou antes, formando um grupo que obedece a certas regras e trabalha em si mesmo sob a direção de um Homem Que Sabe.
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O trabalho sobre si mesmo incluía exercícios básicos como a auto-observação, a tentativa de “lembrar-se de si mesmo” e o trabalho sobre o “considerar”, que se dividia em considerar interno (a ser evitado) e considerar externo (a ser cultivado).
O homem foi descrito como um “ser tricerebral” com centros que governam sua atividade: o centro intelectual, o centro emocional e o centro motor, aos quais posteriormente se juntaram outros, como os centros superior intelectual e superior emocional, que existem mas não são usados.-
Foram definidos sete números de homem: os números um, dois e três são os homens conhecidos, com centros de gravidade no centro motor, emocional e intelectual, respectivamente, consistindo em uma centena de pequenos “eus” conflitantes.
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O homem número quatro é resultado do trabalho em grupos, tendo começado a equilibrar seus centros e um centro de gravidade permanente ligado ao trabalho de autodesenvolvimento.
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Os homens números cinco, seis e sete representam estágios progressivos de unidade, consciência, vontade e individualidade permanentes, culminando no homem número sete, que possui tudo o que um homem pode possuir.
Duas leis cósmicas fundamentais regem o funcionamento do universo e da máquina humana: a Lei de Três e a Lei de Sete.-
A Lei de Três afirma que todo fenômeno é o resultado da combinação de três forças diferentes e opostas: ativa, passiva e neutralizante, conhecidas como Santa Afirmativa, Santa Negativa e Santa Reconciliadora.
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A vida orgânica na Terra, da qual o homem faz parte, tem a função cósmica de preencher o intervalo na oitava descendente do Raio da Criação, transmitindo e transformando energias.
O homem se alimenta de três tipos de alimento: o que come, o ar que respira e suas impressões; através do trabalho sobre si mesmo, ele pode transformar essas matérias grosseiras em matérias mais finas, um processo alquímico de transmutação que permite adquirir corpos superiores.-
A substância mais fina fabricada pelo organismo é aquela com a qual o sexo trabalha, e o uso indevido do sexo impossibilita o início da transmutação.
Algo deu errado no funcionamento do organismo humano, fazendo com que a “linha do conhecimento” ultrapassasse a “linha do ser”, e a falsa personalidade, alimentada pelo sono e por “amortecedores” (buffers), obscurece a essência, que é o que o homem realmente é.-
O trabalho sobre si mesmo visa libertar o homem da falsa personalidade, lutando para não se identificar com preocupações momentâneas e aprendendo a “representar um papel”, até que possa descobrir sua “Característica Principal”.
As ideias de Gurdjieff causaram um impacto extraordinário em seus pupilos, confrontando-os com um sistema aparentemente oculto que contradizia corpos de ideias ocultas conhecidos, como ao redefinir “Kundalini” como imaginação, o poder da fantasia que mantém o homem adormecido.-
Gurdjieff chamou seu ensino de “Quarto Caminho” ou “Caminho do Homem Astuto”, que evita as armadilhas do desenvolvimento desequilibrado encontradas nos outros três caminhos: o caminho intelectual do iogue, o caminho emocional do monge e o caminho físico do faquir.
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Para refugiados da ciência positivista, Gurdjieff expressava a transformação de energias em termos de forças nomeadas com elementos químicos, como “carbono”, “oxigênio” e “nitrogênio”, com cifras numéricas indicando sua posição na escala de densidade da matéria.
O registro de Ouspensky enfatizou tópicos de seu interesse pessoal, como a recorrência eterna, sobre a qual finalmente extraiu de Gurdjieff um endosso qualificado, e a arte “objetiva”, cujo ensino foi provocado por suas perguntas sobre arte.Gurdjieff respondeu que o futuro seria igual ao passado, e que antes de tentar algo tão ambicioso, um homem deve prestar atenção à sua própria máquina, começando pela auto-observação, cujo resultado mais importante é a percepção de que não se pode lembrar de si mesmo.-
Com a prática, Ouspensky descobriu que conseguia atingir a condição de “autolembrança” por curtos períodos, uma experiência de atenção direcionada tanto a um objeto quanto a si mesmo, que Maurice Nicoll e Henri Tracol descreveram como um esforço para separar-se da falsa personalidade e sentir um estado superior de si mesmo.
Em agosto de 1916, durante uma estadia em uma dacha na Finlândia, Ouspensky passou por uma experiência que considerou um milagre, onde começou a ouvir os pensamentos de Gurdjieff, primeiro como perguntas dirigidas a ele e depois como uma voz dentro de seu próprio peito.-
O resultado do episódio foi a convicção de que todas as críticas de Gurdjieff estavam corretas e, mais importante, o enfraquecimento de seu individualismo extremo e a compreensão prática da inutilidade da violência como meio para atingir qualquer objetivo.
Após o episódio na Finlândia, no outono e inverno de 1916, Gurdjieff expandiu grandemente sua cosmologia e começou a deixar o grupo de São Petersburgo mais entregue a si mesmo, enquanto as circunstâncias externas da guerra e da agitação social se tornavam impossíveis de ignorar.-
Um dos novos recrutas nesse período sombrio foi o compositor Thomas Alexandrovich de Hartmann, que, após uma busca espiritual que o levou a contato com círculos antroposóficos e teosóficos, foi apresentado a Gurdjieff por A. A. Zaharoff.
De Hartmann, que teve que se encontrar com Gurdjieff em um café frequentado por prostitutas para não ser visto por oficiais da guarda, ficou impressionado apesar da aparência desleixada e das observações ofensivas do mestre, que recusou seus mil rublos de entrada, dizendo que o tempo viria em que ele ficaria feliz em entregar todos os seus bens mundanos.Em junho de 1917, Ouspensky recebeu um telegrama de Gurdjieff convidando-o para Alexandropol, e ao chegar, encontrou-o montando um dínamo para seu irmão, em um ambiente que lhe agradava pelas associações românticas com o Cáucaso.-
Gurdjieff recusou a sugestão de emigrar, alegando que circunstâncias aparentemente desfavoráveis acabariam por trabalhar a seu favor, e alugou uma casa em Essentuki, uma região de spas no Cáucaso central.
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Por seis semanas, Gurdjieff trabalhou com seus pupilos na pequena casa alugada, introduzindo o conceito de “superesforços” para conectar um centro a uma fonte quase ilimitada de energia, e exercícios como o “Pare”, onde os pupilos congelavam em posições desconfortáveis.
Exercícios físicos de um novo padrão foram introduzidos, envolvendo a coordenação de movimentos com contagens e respiração, considerados por Gurdjieff apenas como preparatórios, enquanto mais pessoas chegavam, incluindo Thomas e Olga de Hartmann, que trouxeram sua criada, sem apreciar plenamente o tipo de vida que experimentariam.-
Gurdjieff alternava seus humores erraticamente, falando em abandonar todo o trabalho e ir para a Pérsia, quebrando pedras nas estradas para ganhar dinheiro, e submetendo os recém-chegados a provações como caminhadas exaustivas pela costa do Mar Negro.
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Quando Thomas de Hartmann adoeceu com tifo, Gurdjieff cuidou dele e, segundo o relato, fez algo que afrouxou o controle da doença, enquanto a situação política se complicava com o avanço dos bolcheviques e a agitação de separatistas caucasianos e tropas turcas.
Em março de 1918, após um período de trabalho intenso em Essentuki, cerca de quarenta pessoas se reuniram na colônia, onde a vida era espartana e Gurdjieff nunca cessava de criar dificuldades, como vender fios de seda para obter fundos, impor jejuns e exercícios de comunicação por código alfabético de posições corporais.-
Gurdjieff manipulava a vida de seus pupilos como um artista em um instrumento, pedindo joias e depois devolvendo-as, e criando situações que tinham significado no contexto do Trabalho invisível que estava em andamento.
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Os “movimentos” e “danças sagradas” introduzidos tinham propósitos que iam além do desenvolvimento da coordenação, sendo apresentados como problemas a serem resolvidos, e a intensidade das experiências dos pupilos não pode ser totalmente compreendida apenas pelo fascínio exercido por Gurdjieff.
Durante o verão de 1918, a situação política na área de Essentuki se deteriorou, e a chegada inesperada de quase trinta parentes de Gurdjieff, fugidos de Alexandropol, aumentou suas responsabilidades materiais, enquanto seu pai não escapou e foi morto pelo exército invasor.Após uma grande luta interna, Ouspensky decidiu deixar Gurdjieff e começar a trabalhar de forma independente, retornando ao material que vinha organizando desde 1911, que seria publicado como Um Novo Modelo do Universo.-
Ele permaneceu em Essentuki até que o próprio Gurdjieff partiu, em agosto de 1918, com um grupo que incluía os de Hartmann, usando o pretexto de uma expedição arqueológica para fugir da zona de combate, enquanto Ouspensky, que hesitou, ficou preso com os bolcheviques quando os cossacos cortaram a linha férrea.
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