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"Eu" e sensação de si
DEFOUW, Richard. The Enneagram in the Writings of Gurdjieff. Indianaplis: Dog Ear, 2011
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O pilar central do argumento do livro é uma alegoria em Os Relatos de Belzebu, cuja distribuição pelos três livros da Primeira Série constitui a base da representação do eneagrama, confirmando a teoria do símbolo desenvolvida ao longo da obra.
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A alegoria conecta o eneagrama em Os Relatos de Belzebu ao eneagrama em Encontros com Homens Notáveis.
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O Conceito de “Eu”
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No último capítulo de Os Relatos de Belzebu, Gurdjieff apresenta o ser humano como uma carruagem puxada por cavalos: a carruagem corresponde ao corpo, o cavalo aos sentimentos e o cocheiro à mentação, cada parte governada por um centro ou cérebro.
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Cada pessoa possui três centros — motor, sentimental e pensante — sendo por isso chamada de ser tricerebral.
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O núcleo da crítica de Gurdjieff recai sobre o passageiro que comanda o cocheiro: no caso do homem real, é o dono da carruagem; no caso do homem entre aspas, é um passante qualquer que muda continuamente.
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O senso de “Eu” que cada pessoa possui é uma ilusão: nenhuma fonte única origina as manifestações, e sim uma coleção de pequenas personalidades que se alternam conforme as circunstâncias.
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O desenvolvimento de um “Eu” real, correspondente ao dono da carruagem, é o objetivo supremo do ensinamento de Gurdjieff.
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A Sensação do Todo de Si Mesmo
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Para adquirir um “Eu” real, Gurdjieff afirma ser necessário desenvolver sete fatores ou impulsos psíquicos, dos quais apenas três são descritos, sendo o mais importante definido como a sensação inteira do todo de si mesmo.
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O início da Terceira Série invoca essa mesma capacidade: Eu sou… ? Mas o que foi feito daquela sensação plena do todo de mim mesmo, antes sempre presente em tais casos de autoindagação durante o processo de auto-lembrar-se? — (Gurdjieff, VRS, p. 1).
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Em Encontros com Homens Notáveis, Gurdjieff descreve o surgimento dessa sensação pela primeira vez durante um bombardeio de artilharia em que sua morte parecia inevitável, acompanhado de intensidade de sentimento e de pensamento incomuns.
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Consciência e Subconsciência
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Gurdjieff distingue duas consciências: a consciência vigil, falsa e fictícia, e a subconsciência, a consciência genuína que deveria predominar.
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A subconsciência, ao contrário, mistura-se ao funcionamento total do corpo planetário e, suspensa a ação hipnótica da consciência falsa, permite a cura de desarmonias corporais — (Belzebu, Os Relatos de Belzebu, p. 568).
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O episódio do campo de artilharia preenche essas condições, identificando o funcionamento intensivo da subconsciência com a sensação plena do todo de si mesmo.
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Diante da Morte
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A iminência da morte é um elemento central do episódio do campo de artilharia, pois aparece na mesma frase em que Gurdjieff relata a sensação do todo de si mesmo.
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A consciência da inevitabilidade da morte despoja essas experiências de seu poder hipnótico, abrindo caminho para a realidade: Gurdjieff, ao crer inevitável sua morte no bombardeio, foi arrancado de suas associações habituais e a realidade irrompeu na forma da sensação do todo de si mesmo.
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Os Acordes Conclusivos da Primeira e da Segunda Série
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O acorde conclusivo de Belzebu afirma que o único meio de salvar os seres do planeta Terra seria que cada um deles, durante o processo de existência, sentisse e reconhecesse constantemente a inevitabilidade de sua própria morte e a de todo aquele em quem seus olhos ou atenção repousassem — (RBN, B1183).
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O episódio do campo de artilharia também alude a esse acorde pelo desfecho: ao encontrar o rival inconsciente presumidamente morto, todo o ódio anterior de Gurdjieff se transforma em compaixão, ilustrando a destruição do ódio pela consciência da morte inevitável do outro.
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O acorde conclusivo do professor Skridlov declara que, antes, todo o seu ser era possuído pelo egoísmo e que a reunião com o Padre Giovanni matou isso, fazendo surgir gradualmente a convicção inabalável de que existe algo além das vaidades da vida, que deve ser o objetivo e o ideal de todo homem mais ou menos pensante e a única fonte de felicidade real — (EHN, p. 246).
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Os dois acordes compartilham o tema da predominância do egoísmo e da vaidade como impedimento para ver e sentir a realidade, e a felicidade e a autoconsciência que deveriam estar num homem real dependem, na maioria dos casos, exclusivamente da ausência em nós do sentimento de vaidade — (Arauto, p. 66).
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A consciência da inevitabilidade da morte destrói o egoísmo/vaidade, tornando possível a autoconsciência, que inclui a sensação do todo de si mesmo.
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Estados Superiores de Consciência
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O ensinamento de Gurdjieff distingue três estados: a consciência vigil ordinária, a autoconsciência ou autolembramento, e a consciência objetiva.
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Na consciência vigil ordinária, o ser é passivamente arrastado pelo fluxo de associações, sem sensação real de si mesmo e sem “Eu” estável.
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A consciência objetiva, estado mais elevado, equivale ao que outras tradições chamam de iluminação, envolve mudança qualitativa tanto na consciência de si quanto na consciência do mundo exterior, e pressupõe a prévia conquista da autoconsciência.
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As gradações de Razão descritas por Belzebu referem-se a gradações na totalidade da autoconsciência, indicando que cada estado superior aprofunda a sensação de si mesmo.
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O episódio do campo de artilharia corresponde ao estado de autoconsciência, não à consciência objetiva: Gurdjieff recorda a experiência com nitidez, e as realidades circundantes pareceram desaparecer — algo incompatível com a consciência objetiva, que inclui necessariamente uma consciência especial do mundo externo.
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No experimento conduzido por Gornahoor Harharkh no planeta Saturno, Belzebu progride de um estado inicial de constatação associativa para um estado em que a essência torna-se a iniciadora única de tudo que se passa nele, e depois para um estado em que o centro pensante transformado torna-se o iniciador autônomo da constatação de tudo que se passa em toda a sua presença e fora dela — (RBN, B164).
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Trabalho sobre Si Mesmo
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Um ingrediente sempre necessário é o esforço de estar organicamente consciente de si mesmo, não de modo superficial.
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